quarta-feira, 1 de março de 2023

Capicua

Confusão? Nem por sonhos. Capicua é um desafio e uma descoberta: ler da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda e ter sempre o mesmo resultado, é fascinante. Não apenas com dois números, sejam eles dois uns, dois dois, dois três ou dois quatro, ou muitos outros, bem longos, que se apresentem tal qual o espelho nos mostra a cara, ainda que, agora, cada vez mais deformada pela matemática do tempo.

Nos números não acontecem equimoses temporais. Uma capicua surge com a mesma beleza em dois algarismos como em 34743, número que nada encerra e muito menos encarna. Podia reflectir uma quantidade de euros que alguns ganham mensalmente e muitos invejam, sempre esperançados que, um dia, talvez a capicua de cinco números lhe surja pela frente no recibo do vencimento, dando-lhe, então, plena satisfação a sua leitura, quer comece da esquerda ou inicie pela direita, como parece estar agora na moda. Se a capicua for de sete números, por exemplo 6458546, tanto melhor, mas em euros e na folha do vencimento será ambição desmedida.

Ainda que adore fazer capicuas - no meu caso, a 25 de Abril, e já lá vão seis -, gostava de conseguir ler pelo menos a sétima, sempre com a esperança de que a leitura seja mais clara pela esquerda. Foi sempre assim que li, para quê alterar?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Vivências

Apesar de o céu estar azul e não haver sinais de chuva, o frio amargura a sociedade, obriga a abafos e cuidados e parece agoirar o futuro, embora este tenha dono vitalício.

Os mortos da Turquia já são só nota de rodapé e a destruição causada pelo sismo há-de voltar à ribalta quando a economia for chamada à reconstrução e os interesses de alguns falarem mais alto do que as necessidades dos que ficaram sem nada.

A guerra na Ucrânia parece encaminhar-se para um túnel sem luz e sem fundo, com as partes envolvidas a tentarem justificar o que o (bom) senso sabe que não tem nexo nem razão, quanto mais justificação. A sobrevivência é o objectivo dos que conseguiram fugir e daqueles infelizes que por lá se arrastam, na esperança de que a descida às caves não seja, ainda, o caminho dos infernos para pagar os pecados de outrem.

Por cá, as greves nos comboios e a luta dos professores, mais a gafe do ministro Cravinho a convidar Lula para uma casa que não lhe pertence e os comentários, sempre oportunos (?) de Marcelo, determinam a ordem do dia e as aberturas noticiosas. A cada situação se confirma quão difícil é descrever o que quer que seja, valendo mais apontar o microfone ao primeiro disponível e pedir-lhe para clarificar o que acha ele sobre o tema. 

O preço do altar-palco ou do palco-altar já se evaporou, como irão desaparecer, milagrosamente, os abusos clericais.

Isto é o que acho, sim, porque também sou "achista" empedernido e já não tenho cura. Tenho, sim, algumas dúvidas sobre se este texto não incluirá algumas das palavras agora interditas. Já está, já está e não é por isto que o futuro vai ser negro, ou preto, ou afrodescendente ou de uma qualquer outra cor que seja bem dita e bendita.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Sentença

No início, apenas estavam presentes, na escura sala de audiências, cinco pessoas, cada uma na sua função específica: o queixoso e a sua advogada, a representante do réu e o causídico acompanhante, o escrivão e o respectivo computador, cujo teclado se sentia ser demasiado grande para a velocidade dos dois dedos utilizados. Talvez tivesse sido digitada a data quando, vinda do lado de lá da porta fechada, surgiu a figura imponente da juíza que iria dirimir a questão em julgamento.

Apenas duas pessoas usavam um fato dito normal, enquanto os insignes representantes da lei e da ordem exibiam as suas longas togas pretas, intimidantes e exemplares exibidoras de mau gosto. A audiência começa com a dissertação da juíza sobre o que estava em causa e com as advertências para o comportamento na sala, condição necessária para que ali se pudesse permanecer, e suficiente para que ficassem reunidas as condições para uma sentença justa. 

Começa, formalmente, a audiência. A juíza questiona a representante do réu, colocando-lhe perguntas directas sobre o assunto em julgamento. A senhora, visivelmente nervosa, começa a debitar um chorrilho de asneiras, encomendadas e destinadas a defender o indefensável, que ela própria tinha consciência de não corresponderem à verdade e nas quais nem sequer deveria acreditar. O queixoso, perante tais aleivosias, abana a cabeça, exibindo a sua discordância.

- O queixoso não se pode manifestar, clamou a juíza num tom de voz autoritário, do alto do seu pedestal e cumprindo as regras ditadas no início.

O sacrifício foi grande mas, até ao fim, nem um dedo sequer se mexeu, nem para coçar a orelha.

A audiência foi encerrada e a decisão marcada para algumas semanas depois. A sentença contemplou a razão e nela não constava qualquer alusão à manifestação corporal do queixoso. 

domingo, 26 de fevereiro de 2023

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Tesourinho

A casa guardava muitos papéis antigos e, como é costume, a grande maioria só podia ter como destino o lixo no ecoponto azul. Facturas antigas, documentos de impostos, garantias de equipamentos, etc., etc..

Por princípio e sempre que esta tarefa me está destinada em qualquer sítio, nada se deita fora sem ser olhado com alguma atenção e rasgado em, pelo menos, quatro partes, se a "peça" não tem qualquer interesse, ou em bocadinhos, se se trata de algo com importância, ainda que mínima.

Aparecem sempre surpresas, como a que aqui se reproduz e que não passava pela cabeça encontrar a cerca de cem quilómetros desta cidade oestina. O questionário tem quase 30 anos e há nele respostas, passe a imodéstia, ainda com actualidade.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Aniversário da guerra

A Rússia invadiu a Ucrânia no dia 24 de Fevereiro de 2022, faz hoje exactamente um ano.

Nem os grandes especialistas têm noção, escura ou clara, de como este "problemão" vai evoluir. Os que perderam tudo e tiveram de fugir, os que ficaram sem nada e tiveram de ficar, os que ainda mantêm alguma coisa de material mas convivem com o horror diário, os que continuam a guerrear, mesmo sem vontade, os que perderam a vida debaixo de fogo, são peças de um intrincado xadrez que, arrisco, vai terminar num empate, sem que os peões se apercebam e sem que seja possível determinar, sequer vaticinar, quando acontecerá o final do confronto.

As paradas de um lado e do outro, acontecidas nos dois últimos dias, mostram grandes solenidades, fardas de gala, peitos medalhados, meninos quase sem barba em marcha cadenciada, executando a continência submissa, que a pátria está no pedestal e a tudo obriga, herói ou mártir, morto ou vivo, voluntário ou compelido, tudo questão de pormenor pouco importante.

Os engravatados vão reunindo, sancionando, determinando, vendendo, emprestando, dando, abrindo portas e fechando janelas, ameaçando velada ou claramente, mas sempre com um cuidado diplomático extremo porque, mesmo em conflito aberto, há sempre alguma reserva a manter, não vá o diabo tecê-las e o resultado ser o contrário do que se perspectiva.

Para muitos, infelizmente, já não há futuro no mundo dos vivos; para outros, os próximos tempos vão acontecendo em lugares de acolhimento que, por muito boa vontade que haja, nunca serão como os que tinham sonhado; outros continuarão a fazer um esforço gigantesco para sobreviver aos tiros, à fome e ao frio, à imbecilidade de uns quantos que detêm o poder, sabe-se lá por quê e para quê.

Sei das minhas limitações. Talvez por isso, os meus recursos mentais não entendem nada, por mais esforço que façam.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Pele e osso

Já passaram 36 anos sobre a partida de José Afonso, que deixou um legado importantíssimo para os vindouros e inesquecível para os que tiveram o privilégio de o ver e ouvir.

A sua obra ainda mantém, infelizmente, uma grande actualidade social.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Voos

Estava poisado num ramo bem alto, camuflado entre a folhagem, densa, do castanheiro. De vez em quando ouvia-se aquele choro lancinante, característico da sua espécie quando em sofrimento. Transmitia dor e desencadeava pena.

Os olhos, experimentados, conduzidos pelo grito bem audível, conseguiram vislumbrar o azul das suas penas, lá bem no cimo da árvore. Era quase impossível que o gaio não tivesse já dado pela chegada do intruso. O normal teria sido que as asas batessem e o fizessem voar para longe, bem antes de a visita chegar à árvore. Não aconteceu, e ele permanecia quieto, lá no alto. Era claro que havia qualquer coisa de errado no seu comportamento, que indiciava impossibilidade de se pôr ao fresco. 

Não era possível subir ao seu local de refúgio com o mínimo de segurança. Mesmo assim, a curiosidade aguçou o engenho e, com alguma dificuldade, subiram-se dois ou três troncos mais grossos, na sua direcção. Não se mexeu. Parecia convencido de que a sua hora havia chegado.

A meio da árvore, o encurtamento da distância permitia distinguir perfeitamente o que o mantinha ali, quietinho, chorando. A asa esquerda estava caída, talvez só segura pelas penas. Os olhos eram tristes, quase de súplica para lhe terminar o sofrimento.

Desci da árvore. A "nove mm" tinha ficado encostada à árvore, com o cartuxo no cano. Bastava apontar e puxar o gatilho. Nunca tinha atirado a um gaio, ensinado que fora a respeitar a sua beleza e o seu pouco préstimo para comer. Aquele não ia ser o primeiro, apesar de parecer que implorava isso.

Alguns dias depois, o regresso ao local: na árvore já não estava e, no chão, não havia qualquer vestígio de por ali ter caído. Talvez tenha conseguido sobreviver e voar de novo, quem sabe?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Palhaços

Por esta época, vestia-se da cabeça aos pés com o rigor de um palhaço profissional. Roupa larga e colorida, nariz vermelho, rosto pintado de branco, sapatos enormes, um adereço na mão que tanto podia ser uma gaiola sem pássaro como um cujo dito sem ela. Todos os anos diferente no tema, nos pormenores, na forma, mas sempre palhaço. Era a sua catarse. Depois de um ano de trabalho, dois dias de folia, bem completos.

Este ano, embora já tivesse tudo preparado há muito, não o fez. A mãe partiu há pouco tempo e entendeu que lhe devia esse respeito, embora ela talvez tivesse opinião diferente. Decidiu assim, fez como lhe pareceu melhor, sem mágoas nem arrependimentos.

Ontem esteve a ver o desfile e encontramo-nos. Muita conversa, muitas recordações, muitas apreciações, muitas críticas. Já vimos tanta coisa que não é fácil a surpresa e difícil a concordância. No final, sério, desabafou:

- Já reparaste que não há um único palhaço no desfile?!

E era verdade. Nem um. Toda a gente mascarada, de tudo e mais alguma coisa e nem sequer um palhaço vestido a rigor.

Dos outros, havia muitos ...