segunda-feira, 6 de março de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

O meu amigo ADS "obrigou-me" a reler o livro meu homónimo, escrito por Virginia Woolf em 1928 e trazido até nós em variadíssimas edições, a última das quais é a que hoje terminei. Tanto quanto me lembro e como é referido no prefácio, esta edição traz algumas diferenças em relação às anteriores mas, no fundo, a mesma essência.

O romance pretende ser uma biografia de Orlando, um ser humano cheio de "eus", os mais diversos, de tal modo que nasce masculino, cresce rapaz, e, já bem adulto, torna-se uma mulher, com uma imaginação imensa, que a leva a percorrer o mundo, no tempo e no espaço, sem sair do conforto do seu nobre casarão.

Actual, sem qualquer dúvida.

"(...)     - Mas, então, o quê? Quem? - perguntou. - Trinta e seis anos; num carro; mulher. Certo, mas também um milhão de outras coisas. Serei uma snobe? As condecorações, o brasão, os meus antepassados; se me orgulho deles? Sim! Ambiciosa, voluptuosa, depravada; será que sou?

(Aqui entrou outro eu.)

 - Quero lá saber se sou ou não. E serei de confiança? Acho que sim. Generosa? Ah, mas isso não conta.

(Já era outro eu.) 

- Passar a manhã na cama, nos meus lençóis da melhor qualidade, a ouvir os pombos; faqueiros de prata; vinho; criadas; criados. Serei mimada? Talvez. Demasiado a troco de nada. Daí os meus livros.

(E saíram-lhe cinquenta títulos de recorte clássico, que julgamos serem aquelas suas primeiras obras românticas, que rasgou.)

- Oco, fala-barato, romântico. Mas - (e entrou outro eu) - uma nulidade, um desajeitado. Mais desastrado seria impossível. E ... e ... 

(Aqui, hesitou, em busca da palavra certa, e, se sugerirmos <<amor>>, é possível que nos estejamos a enganar, mas o certo é que ela riu e corou e depois exclamou:)

- Um sapo incrustado de esmeraldas! Henrique, o arquiduque! O tecto cheio de varejeiras!

(E entrou outro eu.) (...)"

Orlando
Virginia Woolf 
Cavalo de Ferro (2021)

domingo, 5 de março de 2023

Palavras bonitas

    disseram: mande um poema para a revista onde colaboram
                                                                                        todos
    e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque
    nada se reparte: ou se devora tudo
    ou não se toca em nada,
    morre-se mil vezes de uma só morte ou
    uma só vez das mortes todas juntas:
    só colaboro na minha morte:
    e eles entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore
                                                                                        nunca,

    que o demónio o leve, e foram-se,
    e eu fiquei contente de nada e de ninguém,
    e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e
                                       vazio poema de sentido e de endereço e
                                       de razão deveras,
    só porque sim, isto é: só porque não agora

Herberto Helder
Servidões
Assírio & Alvim (2013)

sábado, 4 de março de 2023

Arte na rua

Finalmente, a Rota Bordaliana chegou ao bairro dos ceramistas. 

Foram hoje inauguradas duas excelentes peças de cerâmica contemporânea, da autoria de dois ceramistas caldenses, ainda novos, mas já com largo currículo. Mário Reis e Carlos Enxuto trouxeram a arte para o Bairro onde estão imortalizados quase todos os ceramistas e onde, durante largos anos, viveram muitos dos operários das fábricas da cidade.

As obras foram instaladas na confluência de três ruas de ceramistas célebres - Manuel Mafra, Eduardo Mafra Elias e Francisco Gomes de Avelar - e bem perto de Costa Mota e do Estragado.

O Bairro da Ponte ficou, hoje, muito mais rico.


sexta-feira, 3 de março de 2023

A ver passar os comboios

Miguel Sousa Tavares é, para mim, de leitura obrigatória, quer como colunista quer como escritor. Na sua crónica, no Expresso de hoje, traz nota do que era notícia há 30 anos, transcrevendo um seu editorial da altura, ao qual eu acrescento, da minha lavra e com conhecimento de causa, que há 50 anos, a automotora que circulava na linha do Oeste a uma velocidade "estonteante", proporcionava uma viagem de quase três horas da capital às Caldas, o mesmo que hoje demora, com uma vantagem: havia mais horários.

As centenas de pessoas que, todos os dias, se deslocam para trabalhar e estudar em Lisboa, continuam a ter de utilizar os autocarros altamente fomentados na cavacada e mantidos pelos que se lhe seguiram, não perdoarão a inépcia com que foi tratado o seu futuro, quando toda a Europa há muito apontava o caminho certo.

"(...) Em Março de 1993, há exactamente 30 anos, a revista "Grande Reportagem", de que eu era director, saiu com uma capa cujo título era "Os comboios também se abatem". Lá dentro vinha um extenso trabalho documentando o que estava a ser a paulatina destruição de uma empresa e de todo um sector fundamental para o país, cuja estrutura demorara gerações a pôr de pé e que estava a ser liquidado pela aposta saloia no betão, nos combustíveis fósseis e na desertificação do interior. Fui ler agora o que então escrevi no editorial desse número da "Grande Reportagem" - repito, há 30 anos:

" Em nome da rentabilidade económica, esforça-se para fazer compreender às populações do interior que uma camioneta da Rodoviária em vez de um comboio é o progresso. Enquanto em toda a Europa e nos Estados Unidos o transporte ferroviário está a ser recuperado como opção prioritária, entre nós todos os anos se encerram linhas, se abandonam populações, se deixam cobrir de mato e de nostalgia aquelas belíssimas estações do interior que custaram o esforço e o dinheiro de gerações para construir. E, apesar disso, os prejuízos da CP continuam a acumular-se ... A rentabilidade económica não é fechar linhas, abandonar património, contribuir para o isolamento das populações e para a desertificação do país ... É, por exemplo, a modernização das principais linhas (Lisboa-Porto e Lisboa-Algarve), exigir que não se continue a demorar três horas e meia a ir de Lisboa ao Porto ... No fundo, o que está em causa é, como sempre, uma questão de cultura: o que leva a CP a fechar linhas do interior é o mesmo que leva o ministro da Agricultura a propor que, em vez de fazer agricultura, se plantem eucaliptos; é o mesmo que leva as Câmaras Municipais a achar que o progresso consiste em urbanizar tudo o que ainda não foi estragado ... Nunca houve em Portugal um poder tão arrogantemente inculto, tão incapaz de pensar o país para além de uma simples lógica de merceeiro suburbano."

Lidas hoje à distância de 30 anos, estas palavras doem-me duplamente: não sei se fui eu que envelheci em vão ou se foi Portugal que envelheceu sem sair do mesmo sítio. Mas é incrível como os comboios continuaram parados no mesmo lugar e essa empresa pública que é a CP hoje é sinónimo de Crime Público continuado, tendo apenas acrescentado às nossas contas mais uns largos milhões de prejuízos sem nenhum fim nem finalidade à vista.(...)"

Julgava eu, há 50 anos, que seria possível transformar, inovar, acrescentar, melhorar, no interesse e em benefício de todos. A CP, infelizmente, não é caso único! 

quinta-feira, 2 de março de 2023

Mãe

E, num instante, passaram 19 anos.

A minha mãe foi, é e continuará a ser a mais bonita. Era-o, na realidade, na beleza exterior, no seu íntimo e por ser a minha.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Capicua

Confusão? Nem por sonhos. Capicua é um desafio e uma descoberta: ler da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda e ter sempre o mesmo resultado, é fascinante. Não apenas com dois números, sejam eles dois uns, dois dois, dois três ou dois quatro, ou muitos outros, bem longos, que se apresentem tal qual o espelho nos mostra a cara, ainda que, agora, cada vez mais deformada pela matemática do tempo.

Nos números não acontecem equimoses temporais. Uma capicua surge com a mesma beleza em dois algarismos como em 34743, número que nada encerra e muito menos encarna. Podia reflectir uma quantidade de euros que alguns ganham mensalmente e muitos invejam, sempre esperançados que, um dia, talvez a capicua de cinco números lhe surja pela frente no recibo do vencimento, dando-lhe, então, plena satisfação a sua leitura, quer comece da esquerda ou inicie pela direita, como parece estar agora na moda. Se a capicua for de sete números, por exemplo 6458546, tanto melhor, mas em euros e na folha do vencimento será ambição desmedida.

Ainda que adore fazer capicuas - no meu caso, a 25 de Abril, e já lá vão seis -, gostava de conseguir ler pelo menos a sétima, sempre com a esperança de que a leitura seja mais clara pela esquerda. Foi sempre assim que li, para quê alterar?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Vivências

Apesar de o céu estar azul e não haver sinais de chuva, o frio amargura a sociedade, obriga a abafos e cuidados e parece agoirar o futuro, embora este tenha dono vitalício.

Os mortos da Turquia já são só nota de rodapé e a destruição causada pelo sismo há-de voltar à ribalta quando a economia for chamada à reconstrução e os interesses de alguns falarem mais alto do que as necessidades dos que ficaram sem nada.

A guerra na Ucrânia parece encaminhar-se para um túnel sem luz e sem fundo, com as partes envolvidas a tentarem justificar o que o (bom) senso sabe que não tem nexo nem razão, quanto mais justificação. A sobrevivência é o objectivo dos que conseguiram fugir e daqueles infelizes que por lá se arrastam, na esperança de que a descida às caves não seja, ainda, o caminho dos infernos para pagar os pecados de outrem.

Por cá, as greves nos comboios e a luta dos professores, mais a gafe do ministro Cravinho a convidar Lula para uma casa que não lhe pertence e os comentários, sempre oportunos (?) de Marcelo, determinam a ordem do dia e as aberturas noticiosas. A cada situação se confirma quão difícil é descrever o que quer que seja, valendo mais apontar o microfone ao primeiro disponível e pedir-lhe para clarificar o que acha ele sobre o tema. 

O preço do altar-palco ou do palco-altar já se evaporou, como irão desaparecer, milagrosamente, os abusos clericais.

Isto é o que acho, sim, porque também sou "achista" empedernido e já não tenho cura. Tenho, sim, algumas dúvidas sobre se este texto não incluirá algumas das palavras agora interditas. Já está, já está e não é por isto que o futuro vai ser negro, ou preto, ou afrodescendente ou de uma qualquer outra cor que seja bem dita e bendita.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Sentença

No início, apenas estavam presentes, na escura sala de audiências, cinco pessoas, cada uma na sua função específica: o queixoso e a sua advogada, a representante do réu e o causídico acompanhante, o escrivão e o respectivo computador, cujo teclado se sentia ser demasiado grande para a velocidade dos dois dedos utilizados. Talvez tivesse sido digitada a data quando, vinda do lado de lá da porta fechada, surgiu a figura imponente da juíza que iria dirimir a questão em julgamento.

Apenas duas pessoas usavam um fato dito normal, enquanto os insignes representantes da lei e da ordem exibiam as suas longas togas pretas, intimidantes e exemplares exibidoras de mau gosto. A audiência começa com a dissertação da juíza sobre o que estava em causa e com as advertências para o comportamento na sala, condição necessária para que ali se pudesse permanecer, e suficiente para que ficassem reunidas as condições para uma sentença justa. 

Começa, formalmente, a audiência. A juíza questiona a representante do réu, colocando-lhe perguntas directas sobre o assunto em julgamento. A senhora, visivelmente nervosa, começa a debitar um chorrilho de asneiras, encomendadas e destinadas a defender o indefensável, que ela própria tinha consciência de não corresponderem à verdade e nas quais nem sequer deveria acreditar. O queixoso, perante tais aleivosias, abana a cabeça, exibindo a sua discordância.

- O queixoso não se pode manifestar, clamou a juíza num tom de voz autoritário, do alto do seu pedestal e cumprindo as regras ditadas no início.

O sacrifício foi grande mas, até ao fim, nem um dedo sequer se mexeu, nem para coçar a orelha.

A audiência foi encerrada e a decisão marcada para algumas semanas depois. A sentença contemplou a razão e nela não constava qualquer alusão à manifestação corporal do queixoso. 

domingo, 26 de fevereiro de 2023

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Tesourinho

A casa guardava muitos papéis antigos e, como é costume, a grande maioria só podia ter como destino o lixo no ecoponto azul. Facturas antigas, documentos de impostos, garantias de equipamentos, etc., etc..

Por princípio e sempre que esta tarefa me está destinada em qualquer sítio, nada se deita fora sem ser olhado com alguma atenção e rasgado em, pelo menos, quatro partes, se a "peça" não tem qualquer interesse, ou em bocadinhos, se se trata de algo com importância, ainda que mínima.

Aparecem sempre surpresas, como a que aqui se reproduz e que não passava pela cabeça encontrar a cerca de cem quilómetros desta cidade oestina. O questionário tem quase 30 anos e há nele respostas, passe a imodéstia, ainda com actualidade.