sexta-feira, 12 de maio de 2023

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Alcatruzes

No balcão da clínica onde me havia deslocado para uma consulta de rotina, surgiu a confrontação com o 25 de Abril, quando a menina do atendimento, simpática, quis confirmar que o cliente postado na sua frente era mesmo este e não outro.

- Qual a data do seu nascimento?

- 25 de Abril de 1952.

- 25 de Abril?! Engraçado ...

- Sem dúvida. Foi no dia em que fiz 22 anos e nunca mais me esquecerei.

- Eu ainda não tinha nascido, nem jeito ...

Deveria ter 28, 30 anos, não mais. Mas sabia que o 25 de Abril tinha acontecido e era qualquer coisa importante, o que, nos dias de hoje, começa a ser cada vez mais raro.

- Olhe que isto está muito mal ... não sei se valeu a pena.

- Tem essa opinião porque não viveu no tempo "da outra senhora" e não faz a mínima ideia de como era. E ainda bem!

Mais duas ou três frases de circunstância, feito o registo que se pretendia e dada a informação necessária, a despedida. Era necessário atender outro cliente, dos vários que aguardavam.

O tempo, que passa a correr, limpa a memória dos mais velhos e cria o "quero lá saber disso" nos mais novos. Nada disto é privilégio destes tempos, embora pareça acentuar-se. Lembro-me bem de, na década de sessenta do século passado, dar por mim a questionar a razão pela qual um grupo de "velhos" organizava um almoço comemorativo do 5 de Outubro de 1910, uma evidente inutilidade para uma data tão longínqua.

A nora da vida não cessa o seu trabalho constante.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Recordar é viver

No passado sábado realizou-se o habitual almoço de confraternização dos antigos alunos da Escola Rafael Bordalo Pinheiro. Como sempre, aconteceu um excelente convívio e um desfilar de recordações que nunca mais tem fim, mesmo que as estórias já tenham barbas e todos saibam o seu final.

- Lembras-te disto?

E, com maior ou menor esforço, mais pormenor ou apenas pela rama, o acontecimento surge tão nítido quanto o nevoeiro da memória ainda permite. E lembram-se os que já partiram, os que não aparecem, os mais ousados, os tímidos, os habilidosos do desporto, os "chefes" que não permitiam que os "putos" pusessem pé em ramo verde.

- Já não vejo F. há tanto tempo ...

- Está muito em baixo. Acho que já pouco sai de casa.

Uns coxeiam, outros já aparecem amparados, os bailarinos, ainda que sempre animados, são cada vez menos e muitos acabam a dança sem a música terminar. O número dos que nunca mais estarão presentes vai subindo e tem colegas de turma, dos jogos, das brincadeiras. A vida!

A festa dura até ao final do dia. São já poucos os que se mantêm até ao apito do árbitro. A comida sobra, a bebida também, a conversa esgota-se.

- Vou andando. Estou cansado e quero ir ver o Benfica ...

- Tenho um compromisso. Para o ano há mais ...

E haverá. Infelizmente, já não irá ser para todos, mas continuará a valer a pena estar presente, mesmo que seja apenas para um caldinho ...

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Centenária

 A minha mãe faz(ia) hoje 100 anos. Para ela, uma Strelitzia Reginae, vulgarmente conhecida como Ave do Paraíso, de produção própria, e a música que enche sempre o coração.


domingo, 7 de maio de 2023

Primeira vez

- Estamos na Foz do Arelho. Nem calculas, isto é fantástico. Está um bocadinho de vento, mas é tudo lindo. Que maravilha!

A conversa, telefónica, pretendia retratar a alguém a satisfação e o espanto que estava a sentir, enquanto caminhava à beira da Lagoa. Era notório ser a primeira visita, bem pincelada com a descrição do que estava a ver e com a dificuldade de expressar o que estava a sentir. As sensações pareciam enormes e, a avaliar pelo tom de voz, o seu interlocutor devia ter o telemóvel afastado do ouvido, para não correr o risco de ver o tímpano perfurado. 

- O céu está lindo, o mar um espelho. E tudo azul, tão bonito. 

Apesar de haver nuvens no céu, duas ou três bem negras, a admiração era francamente entusiástica. O espelho de água era descrito como uma coisa nunca vista, sem nada comparável.

- O vento nem sequer é frio ... uma maravilha. Nunca tinha posto os olhos em alguma coisa semelhante!

A senhora continuava extasiada e excitada. Os adjectivos já iam faltando para a descrição completa que permitisse o entendimento do outro lado. Percebia-se que tinha sido desencadeada a inveja na outra pessoa, por não poder usufruir da beleza tão entusiasticamente explicitada.

- Eu disse-te ... não quiseste. Foi quanto perdeste.

Nada como a primeira vez. Depois, a gente habitua-se ...

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Na escola ...

Os alunos têm andado deveras distraídos na sala de aula, coisa estranha e deveras preocupante, quando as condições eram mais do que suficientes para um excelente aproveitamento. Não prestam atenção à matéria, brincam quando deviam estar concentrados, adiam a concretização dos trabalhos, metem os "pés pelas mãos", têm a resposta na ponta da língua ou na mensagem do telemóvel, usam linguagem bué da fixe, mas inconsequente.

O director, atento, há já algum tempo que vinha avisando que lhe apetecia fechar a escola e tinha esse direito, tal como o de criar condições para que pudesse ser recrutado um novo professor, mais apto a dar as aulas como ele gosta. O seu mandato vai chegar ao fim e não há recondução possível. Por isso, é importante conseguir os objectivos, para que a história registe a sua passagem com letras garrafais. 

Como acontece quase sempre, a vontade, por si só, não resolve nenhum problema. A procura incessante de alguém disponível e capacitado tem sido muito difícil e os vários candidatos que já apareceram não parecem reunir as condições necessárias. Vai daí, o director resolveu manter a escola aberta e, duma cajadada, matou dois coelhos: o primeiro, dando umas palmadas bem fortes em alguns alunos brincalhões e distraídos, colocando o professor em sentido, advertindo-o que, ou entra na linha e executa o programa, ou marcha a toque de caixa da escola, só parando em Bruxelas; o segundo, dando tempo que os candidatos ao lugar cheguem a acordo entre si, por forma a que só um se sente na cadeira, ainda que apoiado por outros, sem grande barulho nem malcriadices.

O director falou grosso, o professor ouviu, no caminho para casa, através do rádio do automóvel. Os alunos tremeram de medo, foram espreitar Braga por um canudo e juraram portar-se melhor. Os comentadores da ocasião demoraram a perceber que, afinal, não tinham adivinhado nada e que o director não tirara as ilações que eram óbvias.

A dúvida, agora, é se as aulas chegam ao fim do período e há exame na data marcada ou se, pelo contrário, o director tem um acesso de mau humor, faz um teste inopinado e aproveita um qualquer candidato que se perfile e tenha boas sondagens.

O dilema persistirá ainda uns tempos, na expectativa de que os cursos de verão façam surgir, como por milagre, alguém com perfil para dar a matéria como convém.

Até lá, tento na língua, que hoje é o dia dela: Dia Mundial da Língua Portuguesa!

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Estrelas

Sentada num banco de madeira, bem perto do cão de flores que guarda o Guggenheim de Bilbao, acompanhava dois irmãos (?) uns anitos mais novos e bem mais discretos. O rapaz bocejava, vá-se lá saber se de sono ou de tédio, entrelaçando os dedos no moderno frasco de água que segurava e lhe deveria matar a sede, quando a tivesse. A irmã deliciava-se com o chupa-chupa, mirando o infinito, talvez à procura de algum apoio de ombro ou de uma paisagem deslumbrante e nova, adequada à sua juventude.

Quem passava não ficava indiferente. A sua presença, a pose, o ar, davam nas vistas. Cigarro na mão, comprido e fino, como são agora quase todos os cigarros; cabelos loiros com raiz castanha, que fica sempre bem e mais bonito; mala bem encostada ao corpo, não vão aparecer algumas mãos afoitas e a serem tentadas; vários anéis a decorarem os dedos; casaco de napa preta, com vários fechos nas mangas e de lado; um vestido, vermelho, encolhido pela lavagem ou por economia de tecido. O copo, vazio, ostentava uma legenda que mandava andar para outro lado (to go), para evitar ajuntamentos de eventuais apreciadores da paisagem.

Usava sapatilhas All Star, como convém a qualquer estrela em ascensão!

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Futuro

António Gedeão escreveu na sua "Pedra Filosofal" que o sonho comanda a vida e sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança. 

Abril abriu as portas ao sonho, criou expectativas para um futuro melhor, um homem novo, uma vida digna, uma abertura ao mundo, o derrubar de muros, o acesso ao saber, a visão crítica, a opinião sem rodeios nem receios.

O tempo vai esmorecendo a cor do céu, tornando o azul cada dia mais cinzento, trazendo à tona o se da dúvida, a incerteza da onda, a ambiguidade da água que cai sem cuidar da existência do chapéu de chuva. 

Por muito que os dias passados influenciem e determinem o pensamento, parece ser fácil e correcto concluir que vivemos tempos novos como, quase de certeza, sempre aconteceu e isso não impediu, antes facilitou, a evolução do mundo e a sua melhoria indiscutível.

Espreitando pela janela do pessimismo, vemos a guerra, a inteligência artificial, a miséria de uns e a opulência de outros, as alarvidades dos doutos sabedores do óbvio, as eternas cabeças que tentam controlar e impôr o correcto, o bom, o moral, o devido. E que ambicionam uma sociedade acrítica, onde eles apareçam como únicos sabedores e salvadores.

Fechando essa janela e abrindo a porta do futuro, deparamos com gente de elevado nível, contestária nas ideias e com pensamento próprio, sem medo de exibir as suas diferenças, desenvolvendo o seu saber e não se encolhendo nas suas opiniões. O mundo será deles, por muito que custe aos que sobem o escadote e partem os degraus para tentar evitar que outros cheguem. Por muito que barafustem e pateiem, falem e gritem, não conseguirão manter o equilíbrio instável que a sofreguidão lhes dá e lhes irá provocar uma queda estrondosa. 

O sonho comanda a vida!

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Retorno

O caminho do blogue já vai longo - começou no dia 15 de Maio de 2006 - e, com maior ou menor esforço, mais ou menos qualidade, tem mantido uma existência regular, com opiniões, estórias, críticas, evidências e muitas outras tentativas de ser claro, o que quase nunca acontece, por deficiência intrínseca do autor.

Nos primeiros anos, postava-se sem quaisquer obrigações de o fazer diariamente, antes escrevendo apenas quando apetecia e parecia haver qualquer coisa interessante para registar. A pandemia alterou tudo na nossa vida e também no blogue. Desde 16 de Março de 2020 e até hoje, todos os dias apareceu por aqui alguma coisa, melhor ou pior, com mais ou menos interesse, uma parte significativa até perfeitamente dispensável e sem qualquer conteúdo.

Curiosamente, reparei agora, as duas datas estão relacionadas com a cidade: o começo aconteceu no dia 15 de Maio, feriado das Caldas e Dia da Cidade e a escrita diária iniciou-se em 16 de Março, data na qual se comemora a tentativa de golpe que antecedeu o glorioso 25 de Abril.

A pandemia, felizmente, já nos deixou e chegou a altura de voltar aos primórdios. O blogue não vai encerrar mas o "castigo" de o ler diariamente acaba. O trabalho, o lazer, o turismo, a pressa de fazer o que ainda não foi feito, despertam vontades, acicatam ideias, trazem ocupações que tolhem compromissos, que a idade dispensa e a vontade não quer. Talvez vão surgindo coisas bem mais interessantes e menos maçadoras. Nunca se sabe!

Tem muito mais piada a surpresa!

terça-feira, 25 de abril de 2023

Liberdade

A minha amiga Liberdade e eu próprio festejamos o aniversário na mesma data. E é hoje! Eu levo uns bons anos a mais, tive o privilégio de a ver nascer e de participar nos seus primeiros passos, choros e sonhos, acalentando com ela a esperança de ver o sol nascer para todos e que o dia fosse o inicial, inteiro e limpo de um futuro risonho e próspero.

O tempo passou e em ambos parece estar a deixar marcas. Para mim, não será de estranhar que os 71 tenham trazido algumas maleitas, incómodos, com dor aqui, com dor ali, com cor acolá, o costume. Nela, bem mais nova, é que é preocupante. Ainda nem chegou aos cinquenta e todos os dias se notam os efeitos que algumas ervas daninhas lhe vão causando, parecendo até, em algumas situações, que há quem queira o regresso daquela agricultura de antanho, com as enxadas na mão, a fome e o medo do "vizinho" que pode bufar sem ninguém notar ou saber. 

Causa algum incómodo ouvir e ver gente que já nasceu nos dias claros a pretender dar lições e a clamar sem conhecimento e, pior, sem educação. Pensando bem, nem merecem ser escutados.

A minha amiga Liberdade há-de sobreviver a toda essa gentalha e eu espero continuar a acompanhá-la, para meu bem, dela e de todos os que por cá continuarem.