No Expresso de ontem, a costumada eloquência de António.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 23 de setembro de 2023
sexta-feira, 22 de setembro de 2023
Metáforas
Vinha sozinho, no seu voar balanceado e pontuado pelo chilreio característico e tão bonito quanto o amarelo das suas asas e o vermelho forte da sua pequena cabecita. Voava à beira de água, sem pressas, deliciado com a brisa vinda do mar, meiga e facilitadora do seu voo. O esforço era pouco, contrastando com outros dias em que a força das asas quase não conseguia movimento.
O canavial, denso, despertou-lhe a curiosidade e nele se embrenhou à procura do desconhecido ou apenas porque sim. A cana, nova e fina, despertou-lhe os sentidos e foi nela que pousou, deixando-se balançar de poente para nascente, sem grandes oscilações, enjoos ou perigos.
Apreciando a paisagem, o pintassilgo foi meditando na sua vida, aproveitando-se de estar sem companhia e nem sequer um companheiro para lhe toldar o cérebro. O sol ainda ia alto e o mar, sereno, espelhava tudo, desde uma ou outra nuvem que passasse, devagar, às árvores que circundavam a margem, ou às gaivotas e aos patos que se deliciavam nos voos de aproveitamento do bom tempo.
Que bom não ser humano, pensou o pintassilgo. Faço o que quero e sobra-me tempo. Já não corro o risco de alguém me fisgar ou dar um tiro, os pesticidas diminuíram o suficiente para me alimentar sem grandes riscos, embora deva ter sempre presente algum cuidado. Ninguém me proíbe nada, não cumpro códigos de conduta nem de circulação, voo e paro onde me apetece, não tenho casa nem beira e durmo sem cabeceira.
No meu "principado" existem muitas aves diferentes e, embora o meu chilreio seja, de longe, o mais melodioso, seria estultícia pensar que toda a passarada se identificava com a sua harmonia. Muito embora adore alpista, tenho de admitir, e admito, que há muitas outras aves que a detestam. Enfim, gostos não se discutem e muito menos se impõem.
Não me preocupo com o tamanho dos decotes das pintassilgas, não adjectivo nem recrimino as gorduras supérfluas, o aumento dos juros não é coisa que me aflija e o preço do azeite esbarra na couraça da minha indiferença. Vantagens de ser avezinha alheia à sociedade de consumo ...
Só a guerra me preocupa! Os tiros perturbam a minha cabeça e retiram-me o sossego que eu tanto prezo. Mesmo ainda lá longe, impedem-me de voar alto e levam-me a pensar o que será de mim se a alpista acabar ...
sábado, 16 de setembro de 2023
Passeio
Podia ser um moinho holandês e um "turista" a sonhar com a juventude.
Não é!
O "jovem" é oestino e o moinho fica aqui bem perto, nas Boisias, localidade que, para quem não sabe, pertence à freguesia de Alvorninha, neste concelho que tem muito para ver.
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
Natália Correia
Aos cinquenta e tal escreveu este soneto, para celebrar o seu aniversário.
Se ainda por cá estivesse, o que sairia da sua mão livre e irreverente, no dia em que completaria um século?
NO MEU ANIVERSÁRIO
Já por cinquenta e tal esta jangadaDo corpo em águas negras abreviaDe Aqueronte a outra margem; e coradaDe moça fica a alma à rebeliaDa ruga pelo tempo concertada.Pede bengala a reuma? Assim a PítiaPede o tripé que só nele sentadaInala os fumos da Sabedoria.Amigos que ao fortuito aniversário,Por édito do torto calendário,Cinquenta e tal hortênsias me trazeis!Pelos anos letais descendo as pernas,Sobe a alma por louros às lanternasDo canto que me furta a humanas leis.O Sol nas Noites e o Luar nos Dias IINatália CorreiaCírculo de Leitores ( 1993)
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
11 de Setembro
Para recordar e ter sempre presente!
Há 50 anos, em Santiago do Chile,
e há 22, em Nova Iorque,
sábado, 9 de setembro de 2023
Vizinhanças
O cais palafítico está quase, quase construído, ou melhor, reconstruído.
E vai ficar bonito, convidando à olhadela imprescindível sobre a beleza da Lagoa e ao passeio pela "estrada" assente nas estacas, com o cuidado e o respeito que se impõem.
Como não há bela sem senão, mantém-se a estranheza perante a ausência de quaisquer sinais de ligação à margem esquerda, que facilitaria o acesso a todo o conjunto para procurar as diferenças entre um lado e o outro, nalguns casos bem significativas e com a beleza sempre presente.
Ficaria, até, como símbolo do entendimento entre dois concelhos vizinhos, que têm uma lagoa em comum e, por vezes, mais parece que nem se conhecem.
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
Pedagogia
O senhor professor quer que os alunos sejam e se mantenham atentos, sorridentes e com capacidade de o ouvir, entender e idolatrar.
O senhor professor fala muito, mesmo muito, e não deixa margem para que os aprendizes se exprimam, dêem opiniões, usem o silêncio, que é quase sempre bom conselheiro.
No início do curso, o senhor professor explicitou, com a clareza e a verborreia que todos lhe reconhecem, a metodologia e as regras que presidiriam às aulas, realçando que a sua (muita) qualidade de pedagogo lhe dava a obrigação de gerir a matéria a seu gosto e sempre de acordo com as suas determinações.
As regras genéricas e há muito estabelecidas deveriam ser cumpridas com rigor, e os comentários deveriam ser permitidos e incentivados, na procura das melhores soluções para os problemas de todos, mas deveriam ficar circunscritos à sala de aula. Devia ser e foi sempre assim, a bem do prestígio das instituições.
A gente coscuvilheira adora este diz que disse e há quem, apesar das obrigações, ame contribuir para isso.
Descobrir quem, é trabalho de Hércules, sendo certo que "quem muito fala, pouco acerta".
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
Limpinho
Decorrido já mais de um mês sobre o final das Jornadas Mundiais da Juventude, o alto do Parque Eduardo VII exibe esta selecta maravilha, para turista apreciar e fotografar como "recuerdo".
- O que é que quer?! Faltam recursos humanos ...
domingo, 3 de setembro de 2023
Livros (lidos ou em vias disso)
"(...) Verónica percorre as áleas da clínica, exibindo a segurança da superintendente de um goulag e arvorando por regra a doce satisfação do dever cumprido.
A especialista de saúde mental ocupa-se dos recém-admitidos com ostensivo empenhamento em os ajudar, e nesta primeira fase prescinde da neutralidade do código, chegando a tratar quem dela precisa por <<minha querida>>, ou por <<meu bom amigo>>. <<Minha querida>>, toma ela assim as rédeas do roteiro terapêutico da bibliotecária, <<eu mesmo tenho experienciado o pânico, nenhum de nós está a coberto disso, e ainda que se declare ele uma única vez na vida.>> Preparada em tais moldes a receptividade da doente, Verónica expande-se neste discurso imparável, dobrando o busto sobre o tampo da secretária do gabinete onde a atende agora, molemente aluída na poltrona de couro. <<Vou confiar-lhe um segredo>>, participa ela, e investe, <<um segredo que nem aos mais próximos me atrevo a confessar, há uns anos, submetida a uma intervenção cirúrgica, de correcção do septo nasal, verifico posteriormente nunca mais me recompor, enjoos e vertigens, sinais precursores de um inferno que não tarda a abrir-se-me, manifestado por alterações de marcha, por uma espécie de repentina paralisia geral, e como se alguém me amarrasse com cordas invisíveis, além da decorrente impossibilidade de descerrar os lábios para comer, ou para falar, em suma, a conturbação dos mecanismos vitais, dominados por uma vontade muito superior à minha.>> Verónica afasta o busto do tampo da secretária, assume a posição erecta, introduz ao computador umas quantas mudanças medicamentosas na ficha da internada, levanta-se com solenidade, acaricia os cabelos descuidados da que dela depende, e dá por terminada a consulta.(...)"
sexta-feira, 1 de setembro de 2023
Distância
Tudo tão próximo e tudo tão longe ...
A aparente contradição confirma-se, apesar de os meios tecnológicos permitirem mitigá-la, trazendo perto quem está longe e levando ao fim do mundo a imagem de quem preferia, mil vezes, dar apenas um afago e sussurrar, ao ouvido, qualquer coisa mesmo que efémera e sem nexo.
O meu "menino" nasceu há quarenta e dois anos e, nessa altura, não passava pela minha capacidade imaginativa vê-lo tão adulto e tão longe. A Polónia é já ali, no centro da Europa a que pertencemos, tão distante do mar da Foz do Arelho e tão próxima dos trovões da guerra ... cujo fim não se vislumbra.





