quinta-feira, 30 de abril de 2020

Palavras bonitas

PERFILADOS DE MEDO

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido ...

Alexandre O'Neill
Poemas com endereço (1962)



quarta-feira, 29 de abril de 2020

Cabelo grande

A quarentena não impede o cabelo de crescer, parece, até, que o crescimento ainda acontece mais depressa. Ou talvez não e seja apenas impressão.
Há seguramente dois meses que não vou ao barbeiro, a minha trunfa está enorme e, estranho, cada vez mais branca. Juro que a não lavo com Omo, Tide, Extra ou qualquer outro detergente. Todavia, aquele companheiro das manhãs, que habita o espelho enquanto me barbeio, lá me vai dizendo que já não são só as rugas, as manchas brancas da barba e as cãs, que me dão o estatuto de velho, agora designado de idoso, para ficar mais bonito. (Na tropa, quando por lá andei, dizia-se que os novos eram "maçaricos" e que os velhos, felizardos, tinham a "peluda" à porta.)
O comprimento do cabelo, ainda por cima com o aspecto de quem apanhou um nevão na Suíça,  reforça o estatuto e dá o charme gostoso, como dizem os brasileiros.
Mal seja dada luz verde para isso, ligarei para o meu barbeiro (não me habituo a cabeleireiro, mas reconheço que é muito mais chique) e marcarei a visita tão ansiada. Não haverá conversas com outros clientes, que não poderão estar, e, tenho quase a certeza, o barbeiro falará da situação, dos problemas que ela (lhe) trouxe e trará, da falta que sente do Benfica, apesar de ter visto vários jogos antigos - Não é a mesma coisa! - da política e de - Onde é que isto vai parar? - , tudo isto atrás de uma máscara, peça essencial no vestuário moderno.
Esta noite sonhei com a barbearia. Era eu jovem e ela um local de encontro para gente de todas as idades. O barbeiro esforçava-se por ter sempre gente na sala ou na pequena escadaria que lhe dava acesso. Havia dois jornais do dia - O Século e A Bola - e alguns dos dias anteriores. Por vezes e por estranho que possa parecer, até se podia ler (quem sabia, claro) a Plateia, a Crónica Feminina e o Século Ilustrado. 
A cavaqueira era um regalo, com comentários internos e externos de encher o olho a quem dava os primeiros passos nas "interpretações maldosas". 
- Álcool ou sublimado?
- Álcool, claro. Ainda hoje não matei o bicho.
E o barbeiro lá desinfectava a cara do freguês, enquanto ele saboreava o pouco que escorria para junto dos lábios.
Naquele dia não havia ninguém sentado na cadeira e a bata branca do barbeiro sobressaía dos quatro ou cinco que se sentavam na escadaria a apanhar um sol envergonhado.
A mulher conduzia o burro, carregado de batatas e repolhos, que iriam ser vendidos no mercado. O burro, apesar do esforço a que ia sujeito, levava pendurado um enorme membro preto, que quase roçava o chão e se tornou logo motivo para a chacota do costume.
- Ó senhora, olhe que o burro leva a cilha desapertada, gritou o barbeiro com o seu jeito gozão, à procura da gargalhada dos convivas.
A resposta não se fez esperar.
- Eu bem disse ao meu homem para trazer antes a burra. S....a do bicho, assim que vê p........s, fica assim ...
Silêncio absoluto e o sol, agora sem vergonha, tornou ainda mais belo o belo dia!

terça-feira, 28 de abril de 2020

Teimosia

Era uma vez um lápis rombo, que não se deixava afiar. Por isso, escrevia grosso tal como se fosse um carvão enorme, daqueles usados pelos grandes pintores nos seus retratos.
Por mais que lhe dissessem não ser essa a forma correcta de estar, que a sociedade tinha regras, que a aparência contava (e muito), o lápis mantinha-se no seu cantinho, obedecendo a qualquer um que o quisesse utilizar mas, afiadeira, jamais.
O tempo foi passando. A pouco e pouco, o lápis teimoso foi sendo preterido, usado apenas para pequenos apontamentos urgentes, ficando o trabalho mais importante para os outros que se deixavam afiar e se mantinham bonitos, com o bico bem arranjado e a cobertura bem redondinha.
E mais tempo passou. A inutilidade do lápis teimoso acentuou-se e até para as pequenas garatujas deixou de ser usado.
A gaveta da secretária era agora o seu poiso natural, sem que alguém o incomodasse ou utilizasse.
Os seus companheiros, adquiridos na mesma altura, estavam agora reduzidos a pequenos pauzinhos e já só eram utilizados por mãos pequenas. Pouco a pouco, foram sendo substituídos por novos lápis, de cores variadas e de dimensões normais, que iniciavam a sua vida de trabalho e iam sendo afiados ( e diminuídos) à medida das necessidades.
O teimoso permanecia, quase novo, no recanto da gaveta, sem qualquer utilidade, mas sempre mantendo a irredutível teimosia.
Um dia, alguém mais observador, reparou que na gaveta todos os lápis estavam bem afiados e reduzidos no tamanho, excepto um - o teimoso. Indagou o que se passava e recebeu a informação, já descrita, de que se tratava de teimosia do lápis, que não admitia ser afiado. O informador acrescentou que, apenas por mero acaso, o lápis não tinha sido mandado para o lixo.
- Pois, pensou o lápis, antes o lixo que a lixa!

Actualização: O meu amigo ADS fez o favor de me enviar várias fotos de lápis, entre as quais esta que, em meu entender, ilustra muito bem o que é um lápis, teimoso ou cordato.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Quotidiano


A gaivota ainda deverá estar por lá, a mirar terra que do mar está ela farta. Ao contrário, eu já não o vejo há 47 dias! Pelo andar da carruagem, talvez em Maio. Deste ano, espero eu!

domingo, 26 de abril de 2020

Aniversários

Ontem foi um dia de emoções fortes.
Para além das emoções e recordações que o 25 de Abril sempre (me) traz, o aniversário de ontem foi bem diferente e especial.
Há 46 anos as pessoas foram para a rua, sem temor dos tanques ou das G-3 e deram largas à sua alegria, cantando efusivamente a queda de um regime caduco e opressivo. A satisfação de não ter sido utilizada a força que, a acontecer, poria portugueses contra portugueses, fez com que os cravos da vendedeira do Rossio ficassem para sempre ligados ao dia inesquecível "inicial inteiro e limpo", como o descreveu Sophia.
Ontem comemorou-se mais um aniversário da revolução e também o meu. 
Em ambos, a comemoração foi muito diferente do habitual: o da revolução não teve gente nas ruas, foi discreto, sem exuberância, com os sentimentos a exprimirem-se nas varandas, nas janelas e nas redes sociais. Na Assembleia da República, a imagem mais parecia uma sala de espectáculos tristemente sem público, com actores a sério e alguns, poucos, a não perceberem ou a não quererem entender o sentido da "peça"; ao meu valeram as novas tecnologias, permitindo ouvir e ver os parabéns cantados pelos meus, à distância, mas com o entusiasmo do costume. 
A mesa do almoço era enorme e estava tão vazia ...
"Arquivei" algumas recordações que já juntei ao "livro da memória". O poema da minha irmã e as placas dos meus netos mais velhos estão já resguardados do caruncho e da humidade, no cantinho mais importante que, espero, o meu cérebro mantenha sempre bem cuidado.
Agora, fazendo as contas, verifico que o 25 de Abril ainda é muito novo: eu, já fiz 68 anos, e ele, ainda só tem 46. Está na "flor da idade". Porém, e embora na linguagem oficial ainda não esteja no grupo de risco, parece andar por aí também um vírus à solta que o pode atacar e, se não o levar à morte, trazer-lhe alguns dissabores.

sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

E alegre se fez triste

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se 
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
                                                                          
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

Manuel Alegre

"(...) cerrou os punhos: Ah, liberdade, és uma conquista permanente, uma perpétua vigilância! e não um leito de rosas ...(...)
José Rodrigues Miguéis - Uma aventura inquietante

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

Por entre o crepitar dos automóveis

Por entre o crepitar dos automóveis
o bulício inquebrável da cidade
o relincho das nuvens quando imóveis
me oferecem na garupa a liberdade,

por entre o que hoje sei e nunca sei
deste abrupto silêncio que me invade
sem que uma nesga azul do que inventei
deixe de ser mentira ou ser verdade,

pudera um dia alguém ter leve imagem
de mim que fico e parto sem vontade
ao sabor de um destino de viagem,

pudera eu querer parar em minha idade,
aperceber-me enfim da percentagem
que sobrando me está de eternidade.

Maria Alberta Menéres

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dia Mundial do Livro

Não sou muito dado às comemorações do Dia Mundial "disto e daquilo", muito embora reconheça quão importante é existir uma data que seja apelativa, obrigue a notícia e, sobretudo, seja um alerta para que determinado problema ou acontecimento não seja esquecido.
Hoje é o Dia Mundial do Livro, promovido pela Unesco.
Celebra-se numa altura em que as editoras passam por dificuldades enormes e as livrarias não lhes ficam atrás, ou vice-versa, para o caso pouco importa.
A crise levou ao adiamento da publicação do novo livro de Mário de Carvalho - Epítome de pecados e tentações -, e a Margarida espantada, de Rodrigo Guedes de Carvalho teve o mesmo destino. Este último já está disponível nos formatos E-book e Audio-livro, mas não é a mesma coisa.
O malfadado Coronavírus trouxe problemas a todos os sectores, se bem que nenhum seja comparável à saúde. Contudo, talvez este isolamento tenha trazido mais gente para a leitura e levado alguns a ler os livros que permaneciam "encostados" há muito tempo, a aguardar "tempo". E pode ser que fiquem leitores fidelizados. Por mim, embora por vezes com alguma incapacidade de concentração, cá vou mantendo a rotina diária de ler, muito ou pouco, mas sempre.

Liberdade e Poesia

Daqui, desta Lisboa

Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

daqui deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus ...

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o mundo fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a sua dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira