segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Eleições

"Vitória, vitória, acabou-se a história!"

Quem apostou que iria haver um novo governo a meio da legislatura, perdeu. E perdeu bem! 

Numa altura em que todo o país (e o mundo) ainda anda a braços com o malfadado vírus, que tem atazanado a vida a todos e criado problemas que trarão repercussões enormes no futuro, prevaleceu a ideia de que derrubar o governo era criar mais uma pandemia a juntar à outra. E por isso ...

Os portugueses que votaram, bem mais do que nas eleições anteriores, deram uma trepa naqueles que não tiveram calma e correram sem nexo. Não há bela sem senão e, na nova assembleia, sentar-se-ão doze "caramelos" que  lá não pertencem, mas que se há-de fazer ... são os custos do sistema. Não sendo perfeito, é o melhor que se pode arranjar e, confirmou-se uma vez mais, permite punir e premiar, desde que as pessoas se interessem e se dêem ao trabalho de colocar a cruz no sítio certo.

Desta vez, a legislatura deverá durar os quatro anos previstos na lei e depois ... se verá!

domingo, 30 de janeiro de 2022

Actualidade

Esta manhã passei os olhos pelo número 320 da Exame Informática, correspondente ao mês de Fevereiro deste ano, que vai começar na próxima terça-feira. Confesso que a minha dificuldade em ler já é muita, não por a revista ser editada em alguma língua que não domine mas antes pela minha estranheza, dificuldade e ignorância de uma grande parte dos temas nela tratados.

Os tempos mudaram. E muito. Não sendo um info-excluído, dominando razoavelmente Excel, Word, Power Point e outros programas, sempre na óptica do utilizador, reconheço, todavia, que muitas das utilidades que hoje aparecem ligadas à informática me deixam perplexo e extasiado com os caminhos que se abrem todos os dias, alguns (poucos) dos quais ainda vou conseguindo trilhar sem dificuldades de maior, dada a sua "leveza".

Voltando à Exame Informática referida, surgiu-me um título que despertou a curiosidade, a qual, mesmo algo mitigada, ainda por mim vai escorrendo: "ESCOVAS DE DENTES INTELIGENTES". E, logo abaixo, a explicação: "a tecnologia ajuda-nos em tantas actividades ... porque não usá-la também na higiene oral? Além de eléctricas, são inteligentes!". De seguida, surgem cinco exemplos de escovas eléctricas, cujo preço vai de 39,99 € a 279,99 € e que apresentam um manancial de soluções e de informação que eu acho (sim, sou "achista") que devia ser obrigatório usar uma delas e não aquela coisa anacrónica que escova os dentes tal qual como no século passado.

1. "Executa 31 mil movimentos por minuto (...) e permite, através da app, analisar a escovagem."

2. "Tem um sensor de pressão que ajusta sozinho o número de movimentos para proteger as gengivas."

3. "A fusão entre os sensores e um algoritmo de IA alerta o utilizador caso se esqueça de escovar uma área específica."

4. "É como um assistente (...) até regista o nosso progresso de limpeza ao longo das semanas."

5. "É o Ferrari (...) tem elegância, desempenho e a capacidade de mapear em 3D os dentes."

Fiquei esclarecido e ainda estou a reflectir a decisão a tomar. 

Já não vale a pena alertar os partidos que hoje concorreram às eleições para o efeito que teria no resultado, se, no programa, incluíssem a possibilidade de oferecer uma destas escovas a cada português. Mas fica a indicação. Quem sabe se nas próximas (que não deverão tardar muito, digo eu, que sou "achista") não resultaria em pleno.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Reflectindo

A reflexão está a acontecer e não deixa margem para outra coisa que não seja reflectir porque hoje é o dia da reflexão e no dia da reflexão não se pode fazer outra coisa que não seja reflectir e por isso se exige a todos e a cada um que reflictam sobre como agir amanhã, perante a decisão que haverão de tomar frente ao boletim de voto que exige uma decisão reflectida, tomada como o resultado de uma reflexão de vinte e quatro horas, que há-de reflectir a escolha de cada um e lá para o final da noite, veremos, ouviremos e leremos sem podermos ignorar, como reflectia Sophia, o resultado de uma profunda reflexão reflectida por todos os que foram votar, com toda a segurança proporcionada pela reflectida reflexão de quem sobre o assunto muito reflectiu e votou, e também por aqueles cuja reflexão lhes determinou a reflectida decisão de não comparecerem por acharem que estas eleições resultam de uma não reflectida decisão tomada em plenário por deputados que não reflectiram o suficiente, apesar do aviso reflectido do Presidente da República que a todos disse, depois de reflectir por uns momentos, que a reflexão sobre o chumbo devia ser muito bem reflectida, mesmo que para isso fossem necessários vários dias de reflexão e não apenas o curto dia que nos é proporcionado para reflexão tão importante, escasso para que a reflectida decisão se torne clara e aponte o local da cruz que seja o resultado da reflexão tida e que não deixe qualquer dúvida por reflectir, proporcionando o resultado reflectido pela reflexão de todos os portugueses.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Gaivotas ...

... em terra, temporal no mar.

A rotunda tem uma fonte enorme, redonda, com azulejos a cobrir a parede da zona que armazena a água e de onde a mesma parte para criar efeitos incolores durante o dia e luminosos mal o sol se põe. Divide, ou une, dois bairros característicos da cidade - Ponte e Arneiros - e por ela muito trânsito flui, às vezes com bastante dificuldade, pelos diversos e estratégicos itinerários que proporciona.

Até há pouco tempo, os únicos visitantes alados eram alguns melros mais afoitos e um ou outro pardal que aproveitava a água para se dessedentar e a relva para penicar. Agora, porém, tem muitos habitantes fixos, emigrados da Foz do Arelho, que olvidaram ou não querem fazer o caminho de regresso. Dela fazem o seu mar e por ali se quedam, dormindo nos postes de iluminação. As inúmeras gaivotas exercitam a sua capacidade física por toda a cidade, acima dos telhados, e depois descansam na relva e na água da fonte.

Estão de tal forma habituadas ao novo poiso que terão perdido o sabor salgado da água do mar, a sensação da areia debaixo das patas e o prazer gastronómico dos peixes que os seus bicos surripiavam à lagoa e ao mar. Agora, de acordo com os novos tempos, vão-se abastecendo no takeaway dos benfeitores dos gatinhos, que deixam as bolinhas de ração em sítios estratégicos, sendo que grande parte delas, bolinhas, nunca chegam a descer pela goela dos bichanos a quem eram destinadas. As gaivotas, em voo picado, encarregam-se de, rapidamente, fazerem desaparecer o pitéu que mãos e corações preocupados queriam que alimentasse os gatos sem abrigo.

"Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma - Lavoisier"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) A ideia de uma peregrinação a Roma, empreendida por uma viúva alemã em era de turbulência religiosa, poderá desafiar um narrador de histórias de qualquer época e local. E se se aduzir que nos achávamos no fim da Primavera de mil quinhentos e trinta e quatro, e que Martinho Lutero afixara as suas negregadas teses dezassete anos antes no portal da Igreja do Castelo de Wittenberg, núcleo donde eu, a referida senhora, iria partir, obteremos um quadro em que se revelará tarefa simultaneamente árdua e fascinante introduzir alguma acção.

Eis que o Reformador continuava entretanto, e tal e qual como hoje, a exprimir a sua arrogância, quer contra o Papado inamovível, quer contra os fanáticos anabaptistas.

Seriam várias as semanas de preparativos aturados, visando a bem dizer uma quase mudança de residência para um país diferente, na qual eu acabaria por investir aquilo que me assistia ainda de meios de fortuna, e de energias do corpo. E naquela loucura senil, ou naquele ímpeto redentor, sentia-me por vezes à beira da assinatura de uma sentença de morte. Recrutei quanto consegui de batedores, criados e guardas, reuni os animais de tiro e carga indispensáveis, e acumulei arcazes sobre arcazes, de mantimentos e roupas, de armas de ataque e defesa, de peças de mobiliário, e de artigos de botica. E convidei a querida Susanna, amiga de sempre, para me acompanhar na expedição em que figuraríamos como as únicas mulheres. Quanto às relíquias que me cumpriria negociar, tendo obtido para o efeito a promessa de mediação do cardeal Cajetan, distribuí-as pelos falsos engenhosamente praticados nos múltiplos caixões de transporte da bagagem.(...)"

Tríptico da Salvação
Mário Cláudio
D. Quixote (2019)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Século passado

Um salto a Torres Vedras para "tratar de assuntos do seu interesse", como rezaria qualquer convocatória do antigamente. Pelo caminho, como sempre, o rádio do carro sintonizado ora na Antena 1 ora na Antena 2. Calhou a sorte à Antena 1 ou, melhor, a mim.

- Passam hoje 40 anos do lançamento de um EP de Amália Rodrigues, onde figurava "O Senhor Extraterrestre", de Carlos Paião.

Lembrava-me bem da música. Fui ouvindo a emissão especial e sonhando ... Há quarenta anos, ainda eu não tinha chegado aos trinta e dava os primeiros passos como quadro bancário, em Peniche. E a música era, como sempre foi, a companhia no caminho feito diariamente, sem auto-estradas nem IP's, com paralelo escorregadio na Serra D'El Rei e na Coimbrã, e um pobre homem, cujo nome já não recordo, a dar orientações ao trânsito no centro da Atouguia da Baleia, onde a rua, enforcada, não dava espaço para dois carros cruzarem.

E, nesse tempo, havia mais de cinquenta traineiras dedicadas à pesca da sardinha, com as companhas pagas à quinzena, a dinheiro, na maioria das vezes às mulheres dos pescadores que delas faziam parte,  mais uns quantos barcos que se aventuravam longe, ao peixe mais grosso, e davam os primeiros passos as sociedades mistas com a Mauritânia, tal como os plafonds de crédito que abririam as portas à intervenção do FMI.

Desse tempo ficaram muitas e boas recordações e "O senhor extraterrestre" faz parte delas ...

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Sondagens

De acordo com as sondagens que têm sido divulgadas, os resultados das eleições do próximo domingo darão a vitória ao PS ou ao PSD, sendo claro que, para chegar a estas conclusões, foram necessários estudos aprofundados e trabalhos de campo de enorme rigor, executados por quem sabe e bem domina os desígnios daqueles que já começaram a votar e dos que o irão fazer no dia 30.

Esses trabalhos são, por lei, publicitados referindo o número de pessoas contactadas, o meio utilizado e mais uns quantos itens que elucidam e credibilizam o resultado divulgado. Até hoje, nunca tive a sorte de ser inquirido, o que, julgo, apenas sucedeu por, tal como na lotaria, o prémio que me devia ser destinado calha sempre a outros.

As conclusões, tão brilhantes quão difíceis, dão primeiras páginas de jornais e aberturas de noticiários televisivos, benefício único, julga-se, usufruído por quem paga. Longe de mim a ideia, estapafúrdia, de que poderá haver outros interesses que não a análise, fria e científica, das intenções de voto.

Aqui, na sossegada rua oestina, sem estudos nem trabalhos de campo, desde a queda do governo que se vaticina, sem margem para dúvidas, que o vencedor das eleições será o PS ou o PSD.

Na próxima segunda-feira vamos poder anunciar aos sete ventos que a nossa previsão estava certa e que, tal como tínhamos previsto, a vitória sorriu ao PS ou ao PSD. E é tão certo como dois e dois não serem cinco!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

domingo, 23 de janeiro de 2022

Canhão

Não, não é de Navarone e, apesar do seu aspecto bélico, expele apenas muita da porcaria que, há anos, a lagoa vem acumulando no seu fundo, impedindo que o mar cumpra a sua função na plenitude, levando a água salgada mais longe, na maré alta, e trazendo-a de novo ao seu regaço, na vaza.

Cumpre a determinação divina e ao domingo não trabalha. Descanso merecido, para quem labuta de segunda a sábado, sem pausas. Poder-se-á dizer que viola regras antigas, não aproveitando o descanso dominical para ir à missa. Mas isso são contas de outro rosário ...

Não sai do lugar onde o instalaram, com os pedregulhos que o envolvem a garantirem que o mar não lhe torna a fazer estragos, como aconteceu logo no início da sua estadia.

A água está escura e notam-se perfeitamente os detritos a deslocarem-se para sul. Em princípio, não deverão chegar ao Algarve, mas o Baleal e Peniche vão tendo dificuldade em visualizar a transparência tão característica do oceano oestino.

Tudo indica que os trabalhos de desassoreamento da Lagoa de Óbidos deverão ficar concluídos em Abril. Nessa altura, o canhão e as pedras que o amparam deverão abandonar o local e ir pregar para outra freguesia ...

A Lagoa ficará mais limpa e as guelras dos peixes que lá têm a sua morada permanente ou esporádica ficarão mais limpas.

sábado, 22 de janeiro de 2022

Batota

A esclerose anquilosante fazia com que os óculos, fundo de garrafa, se aproximassem cada vez mais dos joelhos. A dificuldade em mover-se era enorme e, para se sentar à mesa do café onde passava a maior parte do dia, era necessário um apoio, de modo a que as pernas ficassem quase na vertical. Uma posição tão difícil de descrever quanto deveria ser de manter.

Tinha sido saudável, possante e brincalhão até aos vinte anos. A partir daí, das três características, apenas a brincalhona se mantinha e somente na conversa. A degradação era visível dia a dia mas não lhe retirava o sentido de humor, a língua verrinosa, a anedota pronta. Fazia crer aos outros que nada doía e aquilo que parecia a todos um doloroso infortúnio, para ele era como se não existisse.

Jogador de cartas exímio, trazia sempre consigo dois baralhos, que retirava do bolso com dificuldade. Da lerpa à sueca, da bisca lambida ao sete-e-meio, volta e meia o montinho, e era tão difícil ganhar-lhe como trepar ao cimo de um eucalipto.

- Só jogo com as minhas cartas!

E ganhava sempre. Na maior parte do dia não tinha parceiros, cada um ocupado com a sua vida, o que não acontecia com ele, a quem a vida já não oferecia qualquer ocupação. Quando era possível juntar mais dois, era a bisca lambida a rainha até que mais um chegasse e permitisse a suecada. Os jogos corriam (quase) com normalidade, sendo evidente que a sorte ficaria sempre do mesmo lado quando se iniciasse a lerpa, o sete-e-meio ou o montinho. À volta da mesa juntava-se muita gente, apesar de nem todos jogarem. Havia sempre um ou dois voluntários para controlarem a eventual chegada de alguém estranho, nomeadamente algum representante da autoridade ou ela própria, a dita.

A satisfação dele subia com o número de jogadores envolvidos e todos fechavam os olhos aos pequenos cortes nos cantos de algumas cartas ou ao pó de talco com que outras tinham sido bafejadas. Tudo isso fazia parte da encenação de uma peça que, para ele, acabou cedo, levando ao encerramento do "casino".

Que se saiba, há muitos anos que o A. não faz um joguito que seja ...