domingo, 31 de julho de 2022

Que fazer?

Nunca se pode ter a pretensão de saber tudo, de estar actualizado, de conhecer todas as notícias em primeira mão, embora se tente fazer um esforço para que isso aconteça. Presunção e água benta, cada um toma a que quer mas isto ter-me-ia passado ao lado se o meu amigo ADS não tivesse tido a preocupação de me alertar. 

Actualidade, gravidade, alerta, grito, apelo. Poder-se-ão utilizar todos os adjectivos mas nenhum deles é suficiente para que alguém deixe de sentir o peso do que estamos fazendo da humanidade e ouvir bem os avisos do dinossauro que, claro, sabe bem daquilo que fala.

sábado, 30 de julho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Os sítios onde os sem-abrigo tentam organizar-se e fazer os seus "cantinhos" pessoais estão sempre sujeitos a vandalismo e a que alguém roube tudo o que lá está. Roubar ... o termo não será bem este. Já diz o célebre chavão que achado não é roubado. As coisas simplesmente desaparecem. Por muito bem escondidas que estejam, em sítios cuidadosamente escolhidos, aquilo que nos pertence está na via pública.

Estes nossos "cantinhos" podem até ser removidos ou limpos. Podem ser considerados lixeiras pelas autoridades na matéria. E vamos queixar-nos de quê e a quem?

Depois, há a questão da privacidade. Ou da falta dela. Estamos permanentemente expostos aos olhos de toda a gente: quando dormimos, quando comemos, quando nos lavamos. Para os outros, talvez sejamos "poluição visual", expressão que ouvi da boca de alguém que me deu uma moeda. Bem, o que sei é que somos, de facto, diferentes. Na vida e na sociedade. Mas é precisamente nessa diferença que estamos presos. Porque somos pessoas sem casa.

Poluição visual! De facto, o sítio onde eu dormia era uma lixeira! Comecei a pensar que teria de descobrir um melhor. Não conseguia arranjar um colchão e conhecia muitos sem-abrigo que encontravam e escolhiam locais melhor para dormir. Já falara nisso ao Zé, mas ele gostava de estar ali. Dizia que não havia confusão. E não havia. Era uma espécie de abrigo só nosso. Podem não acreditar, mas não é fácil vivermos uns com os outros.

O mundo onde passei oito meses era uma autêntica selva. Era quase cada um por si. Por isso, normalmente, um sem-abrigo só tem um outro sem-abrigo por companhia regular. É uma questão de confiança. É um parceiro. Como disse um dia o Zé: "Para viver aqui, um não chega, três são demais."(...)

Crónicas publicadas inicialmente no jornal online Mensagem de Lisboa e agora reunidas em livro.

Diário de um sem-abrigo
Jorge Costa
Oficina do Livro (2022)

sexta-feira, 29 de julho de 2022

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Sonhos

Foi publicada hoje no Diário da República uma Lei, aprovada por unanimidade e aclamação na Assembleia da República, que determina o encerramento integral do país no mês de Agosto de cada ano. Todos os deputados que intervieram na discussão manifestaram de forma eloquente a sua concordância e o seu apoio incondicional, facto que deverá ser inédito na história da democracia. As conferências de imprensa que se seguiram à votação mostraram, à saciedade e à sociedade, que toda a gente ansiava por uma Lei desta natureza e que não houve um único deputado que não desse a sua colaboração para que o texto final reflectisse não só o rigor e o acerto da medida, como também evitasse que algum erro gramatical, gralha ou vírgula  pudesse vir a alterar o sentido patriótico desta histórica decisão.

Finalmente chegou a hora, de forma absolutamente legal, de o país fechar todas as portas na próxima segunda-feira, sejam elas de esquadras, hospitais, repartições, ministérios, supermercados, restaurantes, bancos, lojas, bombas de gasolina e, resumindo, tudo o que trabalhe em ambiente fechado ou que se possa fechar. Não haverá greves dos comboios, dos aviões ou dos autocarros pela simples razão de que nada disto funcionará. Garantir-se-á, desta forma, que todos os portugueses gozam as merecidas e garantidas férias no mês de Agosto, acabando, de vez, com as injustiças e com a trabalheira anual de elaborar um mapa que garanta o funcionamento sem impedir o direito inalienável ao descanso.

No preâmbulo, a Lei alerta para os perigos resultantes de nas praias não haver nadadores-salvadores equipados, apelando para a compreensão de todos e para a solidariedade que deve sempre existir. Também se alerta para o cuidado a ter com a alimentação, embora se saiba que a comida caseira apresenta sempre menos riscos do que a que se come fora. Está bem explícito que os restaurantes não funcionarão, não haverá espectáculos nem noitadas de bares ou casinos, discotecas e similares, e apenas se beberá café da máquina que existir lá em casa.

Acordei! Isto não lembra ao diabo! Que disparate de sonho. Deve ser da idade ...

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Tarefas

As férias ocupam uma grande parte do tempo e fazem com que algumas tarefas importantes possam ficar para trás, não esquecidas mas adiadas para uma melhor oportunidade. Ela sempre surge ainda que, por vezes, aconteça com algum atraso para as necessidades que têm o seu tempo determinado.

A rolinha branca, apanhada há já alguns anos junto à campa dos meus pais, mantém-se fresca e sempre atenta ao que se passa à sua volta, cantando a seu belo prazer e manifestando claro agrado sempre que chego por perto.

Na manhã de hoje pareceu-me que o canto estava mais apelativo e que clamava pela presença de quem, há alguns dias, se limitava a passar sem lhe dar a atenção devida. Tinha toda a razão em reclamar: a ração já tinha sido devorada e era necessário repor a "mesa". Lá lhe expliquei, na linguagem que só os dois entendemos, que esta coisa da praia nos faz esquecer algumas obrigações. Apesar desse lapso da maldita memória, fui a tempo de lhe encher os "pratos" com acepipes novos e frescos antes de a ruptura ser total.

A alegria foi manifestada com a intervenção "bical", procurando o que lhe parecia melhor e mais gostava, e colocando na borda do "prato", perdão, fora do "prato" que não tem borda, o que não lhe agradava a olho nu. Exagerei no abastecimento, para compensar o atraso.

O chão não adorou o rejeitado e clamou, incessantemente, pela intervenção da vassoura ...

terça-feira, 26 de julho de 2022

À boca pequena

Não havia vento, o sol estava com aquele azul celeste que enche o olho e a temperatura amena, condizente com a época que atravessamos. O mar, como de costume, enganava-se e dava mil e uma voltas até se espraiar na areia, depois do perigoso "quebra-coco". Nunca há bela sem senão ...

A conversa está animada enquanto o corpo enxuga, sem precisar de toalha. Comenta-se como será amanhã, confirma-se que hoje está bem melhor do que ontem, presta-se atenção a alguns visitantes que arriscam a entrada sem as cautelas devidas a quem não conhece quão traiçoeiro é o "bicho". Acabam aos trambolhões, à procura das mãos e dos pés que, afinal, estão misturados com a espuma e lá ajudam o dono a levantar-se. E a conversa continua fluindo. Descamba para esse vício que de social passou a anti, por força do mal que causa a quem o pratica e aos que o suportam por osmose. Dos convivas, não havia um único que não tivesse alguma vez experimentado um cigarrito, ao contrário de mim que os devorei durante longos anos. Conheciam as marcas antigas, do Kart (dava quilómetros de prazer, segundo a publicidade da época)  ao Sagres, dos vários SG's ao Português Suave, do Definitivos ao Provisórios. 

Ao ser referida aquela última marca, a memória que já me vai traindo nas coisas mais comezinhas, trouxe à tona o que sobre ela se dizia, naquela época triste em que tudo tinha de ser dito à boca pequena.

- Provisórios não é uma marca de cigarros. Contém uma mensagem vinda de muito longe!

 - ???

- Portugueses republicanos, os vossos irmãos soviéticos ordenam retirada imediata oliveira salazar. 

Só os velhos conseguem compreender que uma "gracinha" destas tinha de ser dita à boca pequena. 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Partiu-se

A sua voz nunca se ouvia directamente. Mal o grupo se instalava no largo para a peladinha do dia, as momices distinguiam-se perfeitamente pelos esgares e pelos sons, cavernosos, que se faziam ouvir apesar do chilreio da rapaziada. Nada era entendível. A sua fala, mesmo em conversas normais, era quase estranha, com a língua entaramelada e um som gutural que mais ninguém tinha.

Todos sabiam que detestava miúdos e mais ainda o jogo da bola, que a exasperava deveras.

- Jogo do coice ..., percebia-se com alguma frequência por entre os dentes ausentes. 

Controlava, por detrás das cortinas, tudo o que acontecia no largo. Quando não lhe agradava o barulho ou ouvia alguma exclamação mais apimentada, saía intempestivamente a porta de madeira, atravessando o "relvado", interrompendo o desafio e tentando, trôpega, "chegar a roupa ao pêlo" de algum. Nessa altura, todo o cuidado era pouco porque uma desatenção daria, pela certa, lugar a uma estalada bem assente na cara ou uma queixinha a um dos pais, com a recomendação explícita da necessidade de uma educação mais forte a dar ao rebento, que já era espigadote e merecia-o.

- Serve para aprender. Não dá juízo mas conserva o que tem.

Naquela tarde a bola era nova e de cauchu, coisa rara e nunca vista. O jogo estava delirante e até o dono dela, com a habilidade sempre ausente, corria que se fartava. Havia golos de ambas as equipas, marcados naquelas balizas sinalizadas pelas duas pedras a fazer de postes e com a trave a ser calculada de forma imaginária, em função da altura de cada um dos guarda-redes. A discussão era acesa, sempre que o golo era marcado por alto.

- Foi fora ... passou por cima ... não valeu.

Ela deve ter-se fartado da gritaria e foi para dentro. Não viu nada. Um remate desastrado, a bola bateu, com estrondo, e o vidro ... estilhaçou-se. A voz saiu-lhe clara:

- Quem foi o malandro, que lhe desfaço a tromba.

Ninguém respondeu. A pouco e pouco, pela esquerda baixa, cada um saiu do campo e rumou a casa. As momices habituais foram substituídas por altos berros, mas nenhum se chibou.

- Foste tu?

- Eu?! Eu até estava à baliza ...

domingo, 24 de julho de 2022

Praia famosa

Mais uma manhã em que o mar não abriu as portas e, para haver banho foi necessário o recurso à "aberta", que está sempre disponível para o substituir, oferecendo uma piscina de água limpa e com a temperatura a condizer com o local. Uma brisa nortenha, para não variar e algumas nuvenzitas a acinzentarem o azul de vez em quando, completaram o quadro domingueiro.

A expectativa sobre o que se iria passar à tarde era alta e foi o motivo principal de conversa. A SIC iria transmitir, em directo, um daqueles programas de "encher chouriços", onde os playback são reis e as entrevistas com os espectadores bastante eloquentes e esclarecedoras, inovando sempre ... sem qualquer alteração.

Há pouco dei uma espreitadela - também não resisti - e confirmei que a Foz ainda é mais bonita vista de cima, à custa de um drone que a sobrevoava e lhe destacava as maravilhas. Deve ter deliciado os espectadores que viram pela primeira vez a Lagoa, o Gronho, o mar revolto cheio de "omo super", as rochas e as prainhas. Sem som, as imagens eram bem elucidativas da beleza que ali temos.

Amanhã voltaremos ao mesmo, sem GNR a comandar o trânsito e com espaço para circular e estacionar, a não ser que o programa tenha despertado a curiosidade e o interesse e surja uma enchente. 

À cautela, convém lembrar aos interessados que a água é fria e o mar muito bruto.

sábado, 23 de julho de 2022

Actualização

Numa época em que o vocabulário é cada vez mais escasso e repetitivo, fica-se espantado quando se lê, algures, que Camões utilizou mais de nove mil palavras diferentes n'Os Lusíadas. Talvez Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, José Saramago ou António Lobo Antunes tenham batido aquele número no conjunto da obra de cada um mas, num livro apenas, tenho dúvidas. Quando tiver tempo livre ou sem tarefa  distribuída, vou contar ...

Acresce que, na época, os pronomes utilizados para designar plural não revelavam as preocupações que hoje abundam e a necessidade imperiosa de referir claramente que elas e eles foram à festa num carro que não era seu e sim do seu pai e da sua mãe, que o haviam cedido à filha e ao filho para esta e este se deslocarem, com as amigas e os amigos, ao festival de verão onde iriam actuar as artistas e os artistas mais em voga nesta altura. Ela e ele tinham adquirido os bilhetes e as amigas e os amigos haviam comprado a tenda onde todas e todos dormiriam após uma noite em que elas e eles se divertiriam o suficiente para que esta saída ficasse bem marcada na memória de todas e de todos.

Se Camões vivesse hoje, Os Lusíadas teriam, estou convicto, mais palavras diferenciadas e versos bem mais adequados ao rigor que a ditadura da língua passou a determinar, com ou sem o malfadado Acordo. Corrigiria o verso "... e aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando ...", para o correspondente ao que hoje é considerado correcto, o que daria: e aquelas e aqueles que por obras valerosas ... se vão espantando com as novas necessidades do dia a dia.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Teatro

O Teatro da Rainha continua o seu trabalho, árduo, em prol do teatro, procurando manter o interesse da população para esta parte essencial da cultura de todos e de cada um, sempre com a qualidade a que nos habituou.

Na passada semana brindou-nos com (mais) uma produção própria, ao ar livre, em quatro noites que, ao contrário do costume, se apresentaram amenas em temperatura e sem vento. No Largo do Hospital Termal, os privilegiados que esgotaram todas as sessões, à borla, viram um excelente espectáculo - Mandrágora, de Maquiavel - com a encenação e o desempenho de todos a um nível altíssimo, como é, de resto, habitual, enriquecendo a qualidade e a actualidade de um texto escrito no século XVI.

Ontem, já na sua sala estúdio, foi a vez de se apreciarem cinco actores moçambicanos a interpretarem um texto de Mia Couto e José Eduardo Agualusa - Chovem amores na Rua do Matador. Uma grande noite a ver e ouvir a história de Baltazar Fortuna e das suas três mulheres, que só usufruíram do "azar" do nome, escapando-lhes a "fortuna" que o apelido poderia indiciar.

O que é bom é intemporal e o teatro confirma-o sempre.