quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Lembranças

O barco chegou, trazido pela mão amiga do L., fazendo jus à lembrança da água que cimenta uma amizade antiga, enriquecida anualmente nas areias da Foz do Arelho e nas águas daquele mar único, com ou sem nevoeiro.

O barquinho, de plástico, não trazia o almoço dentro nem isso seria expectável, tal como não o era a sua aparição como prenda. Lembranças do L.... Era pequeno demais para nele caber a comida que se seguiu e figuradamente enorme para se correr o risco de uma utilização ousada lhe provocar deterioração.

A refeição foi óptima e animada com o humor surgido da boca de cada um, carregado com as diferenças e subtilezas que evidenciam personalidades bem distintas. 

A chuva fez parte do "conclave" e carregou sem dó, sempre que lhe foi dada oportunidade. Talvez estivesse zangada e invejosa por não ter entrada nem participação no convívio. Não pôde saborear umas "peças" que, cheias de queixas do tratamento na cozinha, rapidamente se voltaram para o passado e se tornaram queixadas apetitosas, acompanhadas de batatas fritas na hora e de um arroz bem saboroso.

Para tudo acabar em grande, o M. tinha, lá por casa, uma medronheira cheia de frio, que ajudou a digestão e aqueceu a alma, sem proporcionar a S. Pedro a continuação do massacre a que tinha sujeitado todos durante o trajecto exterior.

A aventura ficou completa com umas taliscas de toucinho à moda antiga, que o palato adora e o estômago fará um esforço por ignorar.

Novembro está no fim e aqui chega da melhor maneira. Daqui a pouco estamos no Natal ...

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Sonhos

E se, de repente, a guerra acabasse, a inflação desaparecesse, houvesse casas para todos viverem em condições aceitáveis, as relações fossem pautadas pelo respeito da individualidade de cada um, que homens e mulheres fossem tratados de igual forma, aqui, no Qatar, na China ou no Irão, que o mundo fosse o sítio da convivência por excelência e não o "saco de gatos" que sempre foi, talvez houvesse alguns que não gostassem mas a grande maioria daria saltos de contentamento e acharia que, finalmente, se havia encontrado um modelo de sociedade justa, onde todos pudessem caminhar pelas ruas e não existissem avenidas vedadas ou caminhos de terra para pés rapados.

(...)
Ouve-se o piar dos mochos,
Vêem-se morcegos coxos
E marrecos a dançar.
Tinha o coração em chama,
Acordei ... estava na cama.
Vi então qu'era a sonhar!
Popular (bem antigo)

Pois! Mas não é assim nem nunca será. Por mais que apregoemos, acabamos sempre por também contribuir para que tudo continue na mesma, assacando sempre culpas aos outros, nos tais que não olham a meios para atingir os fins, sinistros, na maioria das vezes. E que são a escória da sociedade, ao contrário de nós, únicos perfeitos e sem defeitos!

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

domingo, 27 de novembro de 2022

Mulheres

A música foi gravada em 1979, no álbum "Fura, fura". A revolta a que se refere aconteceu em 1846. Hoje, infelizmente, o conteúdo mantém-se actual e o alerta necessário.

sábado, 26 de novembro de 2022

Viagens

Marcelo Rebelo de Sousa foi ao Qatar, devidamente autorizado pela Assembleia da República onde, nos últimos tempos, imperam os gritos de histeria de um deputado que por lá se senta e faz lembrar aquele velho ditado segundo o qual vozes de burro não chegam ao céu, por mais que se clame pela intervenção divina. 

Pelo que se ouviu, a diferença horária causou alguns problemas no sono do nosso Presidente, coisa que não é muito vulgar na sua pessoa, conhecida que é a sua capacidade de dormir pouco e estar sempre bem desperto.

Foi dar uma aula sobre educação e direitos humanos, o que justificou, por si só, a deslocação e as mais de dezasseis horas consumidas nas viagens. A actividade lectiva que incide sobre a educação e sobre os direitos fundamentais é importantíssima e é cada vez mais difícil encontrar docentes que a ministrem. Aproveitou para estar presente no jogo da selecção, apoiando os seus jogadores e satisfazendo a sua necessidade de algum lazer, fazendo uma pausa e retemperando forças para chegar ao fim do seu mandato com a capacidade e a dignidade em alta, como até aqui.

No ínterim, a Judiciária desencadeou uma operação contra os proxenetas da mão de obra, dando indicação de que, finalmente, se irão tomar medidas para acabar com este "putedo". É mais do que tempo de parar com o aluguer de gente como máquinas que se armazenam em barracões por todo o país, alguns até nesta cidade oestina.

Infelizmente, Marcelo não pôde comentar esta operação, não por falta de vontade mas apenas por, como toda a gente sabe, ele não fazer comentários sobre a situação interna quando se encontra no estrangeiro ...

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)11 de Agosto

Não há nessa carta nada que não pudesse ser dito na volta, uma vez que ele desce daqui a três dias. Creio que ele cedeu ao desejo de ser lido por mim e de me ler também. Questão de simpatia, questão de arrastamento. Vou responder-lhe com duas linhas ...

... Lá vai a carta; respondi-lhe com trinta e tantas linhas, dizendo-lhe cousas que busquei fazer alegres, e com certeza saíram quase amigas. Concordei que Nova Friburgo era delicioso, e concluí por estas palavras: <<Quando descer venha almoçar comigo; falaremos de lá e de cá.>>

17 de Agosto

Fidélia chegou, Tristão e a madrinha chegaram, tudo chegou: eu mesmo cheguei a mim mesmo - por outras palavras, estou reconciliado com as minhas cãs. Os olhos que pus na viúva Noronha foram de admiração pura, sem a mínima intenção de outra espécie, como nos primeiros dias deste ano. Verdade é que já então citava eu o verso de Sheley, mas uma cousa é citar versos, outra é crer neles. Eu li há pouco um soneto verdadeiramente pio de um rapaz sem religião, mas necessitado de agradar a um tio religioso e abastado. Pois ainda que eu não desse então toda a fé ao poeta inglês, dou-lhe agora, e aqui a dou de novo para mim. A admiração basta.

19 de Agosto

Tristão veio almoçar comigo. A primeira parte do almoço foi a glosa da carta que ele me escreveu. Contou-me que já em criança tinha ido com a madrinha a Nova Friburgo algumas vezes, parece-lhe que três: reconheceu a cidade agora e gostou muito dela. De D. Carmo fala entusiasmado; diz que a afeição, o carinho, a bondade, tudo faz dela uma criatura particular e rara, por ser tudo uma espécie também rara e particular. Referiu-me anedotas antigas, dedicações grandes. Depois confessou que as impressões da nossa terra fazem reviver os seus primeiros tempos, a infância e a adolescência. O fim do almoço foi com o naturalizado e o político. A política parece ser grande necessidade para este moço. Estendeu-se bastante sobre a marcha das cousas públicas em Portugal e na Espanha; confiou-me as suas idéias e ambições de homem de Estado. Não disse formalmente estas três palavras últimas, mas todas as que empregou vinham a dar nelas. Enfim, ainda que pareça algo excessivo, não perde o interesse e fala com graça. (...)

Memorial de Aires
Machado de Assis

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Mundial 2022

Da esquerda para a direita, aqueles sobre quem recai a responsabilidade de trazer para Portugal o melhor resultado possível.

Em cima: José Sá, André Silva, Ruben Dias, William Carvalho, Cristiano Ronaldo, Rui Patrício, Pepe, Danilo Pereira, António Silva, Rafael Leão e Diogo Costa;

Ao centro: Diogo Dalot, Matheus Nunes, Bruno Pereira, Jorge Rosário, Ilídio Vale, Fernando Santos, João Costa, Ricardo Santos, Gonçalo Ramos e João Palhinha;

Em baixo: Vitinha, Ricardo Horta, João Felix, João Cancelo, Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Raphael Guerreiro, João Mário, Ruben Neves, Otávio e Nuno Mendes.



PORTUGAL - 3 / Gana - 2

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Futebol

O comboio não ia cheio, longe disso. Porém,  a julgar pelo barulho que se ouvia de dentro da carruagem, os poucos passageiros eram suficientemente ruidosos para se julgar que até haveria gente a mais. 

Naquela carruagem não estariam mais de uma vintena de pessoas, distribuída pelos vários bancos, sempre no singular, salvo as que pertenciam à mesma família ou à tentativa de a vir a constituir. Lá ao fundo, no átrio de acesso ou de saída, um grupo, pequeno, discutia, bem animado, os últimos resultados do futebol, a justiça dos mesmos, o falhanço do penalty, o erro do árbitro no off-side. Afinal, o barulho imenso que se ouvia era apenas daquela meia dúzia, todos bem dotados de garganta e de velocidade de argumentação, sempre sobreposta na do parceiro, tornando a conversa uma gritaria que mais ninguém conseguia compreender. A preocupação era gritar mais alto, sempre mais alto, cada vez mais forte. Pouco importavam os argumentos, as expressões, as frases. Os gestos, os esgares, os pontapés no ar e, por vezes, na carruagem, eram a expressão dos afectos pela discussão enriquecedora e interpretativa, num espectáculo para outrem usufruir, obviamente sem qualquer prazer.

O "pica" entrou na carruagem, munido do necessário alicate, irrepreensivelmente fardado e com o seu boné castanho, com emblema, na cabeça, exibindo autoridade  e mostrando à evidência que a CP lhe tinha confiado a manutenção da ordem pública dentro do comboio. Todos lhe teriam de mostrar o bilhetinho, pequenino, adquirido na estação onde haviam entrado e mencionando aquela onde saltariam para fora. Era esse minúsculo papel que lhes garantia o direito de viajar.

Mal o "pica" assomou ao corredor, o barulho lá do fundo cessou como que por milagre. O "jogo" tinha acabado e os participantes preocupavam-se em sair rapidamente do "campo". Não havia saída ...

- São vinte escudos a cada um, para não os entregar à Polícia na próxima estação.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Conversa fiada

A manhã ainda não ia a meio. Apesar da chuva inclemente e da ausência da luz do sol que é lenitivo para a disposição, já havia quatro pessoas no balneário masculino, a despachar-se após umas braçadas  madrugadoras e tonificantes.

Gente nova, com conversas fora da caixa, sem problemas nem constrangimentos com a presença de quem tem idade para ser pai (ou avô?) deles. Enquanto se ensaboam, fechando sempre a água, a conversa vai fluindo, rápida, tipo fixe.

- Não vais a Lisboa hoje?

- Vou, claro. Daqui a bocado, por volta do meio-dia.

Nadar um bocado tinha trazido a tranquilidade que a água do chuveiro, quentinha, ainda reforçava.

- Hoje vou experimentar um transporte novo.

- Não me digas que vais de carro?

- Estás tonto ... nem pensar. Mal sentas o cu no carro e já lá vão trinta euros. Vou num autocarro de uma empresa nova que faz a viagem até à estação do Oriente, sem paragens. Uma hora e cinco. Um instante. Já comprei o bilhete na aplicação. Dois euros e picos, imagina!

- Isso é muito bom. E qual é a empresa?

- Chama-se Flix Bus e são uns autocarros verdes, enormes. Vou experimentar hoje. Vamos ver como corre.

 - Depois dizes. Hoje fico por cá. 'tou em teletrabalho.

A água do chuveiro já tinha tirado o sabão, o meu e o dos jovens conversadores. A conversa continuou enquanto a toalha fez a sua parte e o corpo ia sendo coberto com a roupa necessária para enfrentar o "inimigo" que lá fora continuava a fazer das suas. Rapidamente mudou e o assunto passou a ser o futebol e a falta de tempo para ver os jogos.

- Estou a tentar ver na quinta-feira, mas ainda não tenho a certeza se posso.

O velho meteu o bedelho e foi integrado, sem quaisquer problemas, na conversa.

Apenas teve alguma dificuldade em explicar que tempo para ver a bola é coisa que lhe não falta. É a vida!

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

A tempo

Com o inverno instalado e o campeonato do mundo de futebol a começar, estão reunidas as condições para que as saídas sejam curtas e apenas quando estritamente necessárias.

A lareira já funciona, proporcionando uma temperatura que não é sequer comparável à que está lá fora, e, pelo menos por enquanto, a chuva não tem acesso ao interior. Tudo conjugado, há um convite ao borralho, ao sossego, à mandriice, à música, à leitura, tarefas extenuantes e exigentes, que deixam o pobre humano depauperado e contribuem para uma noite de sono sem sobressaltos.

Toda esta actividade faz com que se esfumem os ecos da guerra e da inflação. Não se perde tempo a ouvir a discussão do Orçamento nem se liga peva à capacidade literária do ex-governador do Banco de Portugal, que "pariu" um livro volumoso, com recurso a barriga de aluguer. Feitios ... vale mais tarde que nunca e, pelo interesse e destaque que a obra tem merecido nas parangonas, é "dinheiro em caixa", polémica para durar e entrada na história da literatura de cordel, com todo o respeito pelo género. Há sempre quem queira ficar na História pelo que diz que fez. Se não fez, a culpa não foi sua. Vontade tinha ...

Pensando bem, o livro chega a tempo de ainda assistir ao julgamento de Ricardo Salgado e, quem sabe, pode até servir para esclarecer as dúvidas que têm surgido e para fundamentar a sentença que, um dia, talvez seja proferida.

Tenho cá um palpite que o jornalista autor do livro poderia ter escrito o dobro das páginas, ou mais um volume, se tivesse pedido para consultar as actas da administração do Banco de Portugal da época. Lá deve estar tudo clarinho como água ... ou não.