quinta-feira, 20 de julho de 2023

Sempre andando ...

Termina hoje o ciclo aniversariante anual dos netos, que recomeçará em Fevereiro de 2024.

Faz anos o Vasco - uma dúzia, para que conste -, segundo na hierarquia das idades dos descendentes segundos. Candidato a músico, nadador elegante e aplicado mas, sobretudo, inteligente, sensato, cortês, discreto, um mimo de pessoa.

E assim marcha a lei da vida, com o futuro a abrir horizontes para todos, incluindo os menos jovens que o vão vendo, sentindo e usufruindo.

Parabéns, neto Vasco!

terça-feira, 18 de julho de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Sonho: emigração. Projeto: aprender alemão. Das Kind, der Junge, der Mann. Criança, menino, homem, em alemão ainda não sei quem sou. Digo der Mann e é um erro, a resposta certa é menino, sonho ser um menino alemão a trabalhar numa empresa alemã. Engenharia alemã. Aprender alemão enquanto faço sexo,. Primeiro conhecer a mulher certa, não tem de ser alemã. Se aprender alemão é complicado? Não é, as pessoas complicam, porque não sabem. Por exemplo, eu não sei nada sobre sexo.

O alemão foi a língua dos invasores e depois a língua das vítimas. Já fomos de tudo, estamos a adaptar-nos, foi tão rápido que esquecemos detalhes da língua. Wunderbar, para mim, é um bar aberto cheio de maravilhas. Nunca vi um na vida. A humanidade não faz outra coisa senão humanismo. Devia fazer mais coisas.

Isaac conduz o último autocarro da noite. Gosta de chorar e olhar as lágrimas no espelho retrovisor. É isso ou dizer poesia. As pessoas preferem que chore, há quem baixe a cabeça, quem aplauda com a ponta dos dedos. A Alemanha está a muitas horas de autocarro, a Alemanha já esteve aqui, a Alemanha já veio ter connosco. É fácil emigrar para a Alemanha sem atravessar o Rio Grande nem o Mar Mediterrâneo. Uma das vantagens de ser europeu é emigrar a pé. É só metermo-nos ao caminho, pé ante pé. (...)"

A mãe e o crocodilo
José Gardeazabal

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Sonhos

Desce a rua, como sempre a cantarolar e com o sorriso aberto, escancarando os dentes branquíssimos, bonitos, certinhos, de fazer inveja a muita gente. O cabelo, entrançado, cai-lhe pelas costas.

- Bom dia. Posso lhe pedir uma coisa?

O sotaque denuncia a origem africana, mas faz sempre um esforço para falar o português de cá. 

- Claro! Se eu puder ...

Terá catorze, quinze anos. É a terceira de quatro irmãos e a única rapariga. Deve sonhar ser cantora. Exercita os seus dotes sempre que não está ninguém por perto, cantando forte e deliciando-se com a sua habilidade vocal. Se surge alguém, o volume baixa de imediato.

- Vou fazer um trabalho na escola, sobre a casa dos meus sonhos. Quero lhe pedir se me deixa tirar fotografia à sua.

- Claro que sim.

- Obrigada. Não iria tirar sem me dar autorização.

Sendo o horizonte diminuto, os sonhos tornam-se minúsculos.

domingo, 16 de julho de 2023

Urgência

A música popular portuguesa tem, tal como a sopa de beldroegas e o queijinho fresco, grandes tradições e, quase sempre, uma beleza de sons e palavras e sabor inexcedível, que nos devem orgulhar enquanto povo.

Isto não significa que nos deixemos encher de música dada por papalvos que nem conhecem as sete notas e nos satisfaçamos com o folclore que nos vão impingindo sem rebuço nem vergonha.

Nos últimos anos, a justiça tem feito os impossíveis para nos dar música e, muitos dos seus, feito um esforço grande para que o folclore seja o protagonista onde deveria mandar a descrição, o empenho e a eficiência.

A generalização nunca deve acontecer porque, em todas as áreas, há gente boa que rema todos os dias mesmo contra a maré, pessoas assim-assim a quem tanto faz que a maré corra para baixo ou para cima e indivíduos que não prestam nem para deitar fora quanto mais para merecerem adjectivos. Por isso, custa a acreditar que há processos a eternizarem-se por anos e anos nas "catacumbas" das pastas intermináveis e sem ninguém se ralar com essa demora, aparecendo, de quando em vez, a desculpa da falta de recursos humanos e materiais. E abre-se a boca de espanto quando se vê uma reportagem sobre investigação em que as câmaras chegam ao local do "crime" antes das largas dezenas de agentes nela envolvidos. Alguém "bufou" sem se preocupar com o rigor e a honestidade que lhe deveriam estar "na massa do sangue".

Se, quem está de boa fé e acredita na capacidade regeneradora da sociedade pela via do diálogo e do rigor, não fizer nada, caminharemos, inexoravelmente, para a chegada da ordem nova pedida por alguns arautos, que ainda usavam cueiros em 1974 (ou nem sequer tinham visto a luz do dia), como sendo a solução para todos os males, restaurando um passado de má memória para quem o viveu e dele não tem quaisquer saudades, muito pelo contrário.

É urgente acabar de vez com a justiça espectáculo, com o folclore dos responsáveis a debitarem números para justificarem a sua eficiência (?), com os julgamentos na praça e nos estúdios das televisões, e com os palavrosos discursos à laia do "pai Tomás" de triste memória sobre quem se dizia que, "para cúmulo da chatice, tanto falou ... e nada disse".  

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Memória

Os ventos que continuam a soprar com intensidade por este Oeste revoltado com a localização do novo hospital, a penar pela reabertura das termas e a aguardar que as obras dos pavilhões do Parque D. Carlos I se iniciem, não eliminam nem limpam o que aconteceu há exactamente sete anos, na França chauvinista e antecipadamente convencida de que eram "favas contadas".

Não foram! Éder marcou e as páginas da história desportiva do nosso País registaram que a Selecção Nacional de Futebol foi, pela primeira e, até agora, única vez, Campeã Europeia. Os obreiros dessa vitória tiveram, têm e terão o seu nome ligado a esse enorme feito, com que conseguiram levar ao êxtase (quase) todos os portugueses.

sábado, 8 de julho de 2023

Ubiquidade

Parece que, finalmente e com algumas costumeiras interrupções, o Verão chegou ao Oeste. Trouxe sol, algum calor, o mar calmo (apenas ontem, para o povo não se habituar mal) e água bastante agradável para quem está acostumado à "geleira". Hoje deve ter atingido os dezoito graus (ou não).

E assim, pode dar-se uma voltinha à noite, sempre com um casaquinho "porque vai arrefecer". A concorrer com o Cistermúsica, que está a decorrer em mais um ano de excelente programação, temos as Bandas no Parque, em todos os sábados de Julho, como irá acontecer hoje. Não é comparável ao que se passa na cidade do Pedro e da Inês, mas também acontecem excelentes serões musicais.

Não se consegue (ainda?) estar em dois sítios ao mesmo tempo e, ao contrário do que se faz nas televisões, nisto não se consegue andar para trás. Por isso, há que fazer opções, para aproveitar um pouco de tudo.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

O tempo voa

O meu neto GRANDE fica hoje ainda maior. 

Para o ano passará a ser um adulto, com responsabilidades próprias, ele que já é responsável há tanto tempo.

Quando lhe dei o grande abraço a que tem sempre direito, ele respondeu, no seu tom de voz calmo e sereno e curvando-se para chegar à minha altura

- Obrigado, avô!

E eu, babado, quase me saltam as "caganitas" por o ver tão grande e o saber tão digno. 

terça-feira, 4 de julho de 2023

Feitiços

É natural da Guiné e por aqui vai vivendo (ou vegetando) há mais de 10 anos, num esforço enorme para subsistir, em conjunto com a mulher, e ir criando três filhos em idade escolar. O quarto, já adulto, emigrou para a Alemanha e por lá se mantém.

- De vez em quando manda 200, 300 Euros e ajuda muito.

Mantém uma pequena agricultura num quintal emprestado, enquanto o dono não inicia a construção. Planta tudo o que pode, das alfaces ao feijão, das batatas ao jindungo, cebolas e tomates. De manhã, antes de ir para a fábrica, é obrigatória a passagem pela lavoura. No regresso, a "teimosia" mantém-se e lá ajeita a terra, tira as ervas daninhas, dá uma regadela. A janta e a dormida podem esperar.

- Precisava de uma arca para guardar o jindungo. Tenho muita gente que compra e podia vender mais, se conseguisse mantê-lo no frio. A arca custa 500 Euros lá na casa que me falou. É muito!

Um homem passa, cumprimenta e pede-lhe para conversar. Afastam-se os dois e sussurram, com cara de caso, que parece grave.

- Conhece?

- Sim, de o ver por aí.

- Muito boa pessoa. A mulher fugiu-lhe e está a criar a filha sozinho. Foi mau-olhado ...

 - ???

- De certeza. Lá na Guiné, quando alguém quer enfeitiçar outro, lava umas pedras que lá existem e dá a água a beber à pessoa que quer enfeitiçar.

- Não acredito em nada disso ...

- Chi ... é verdade, sim senhor! 

Século XXI, sem dúvida. 

domingo, 2 de julho de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

A inscrição, desde o seu início, no Clube Tinta da China, tem-me proporcionado a leitura de muitos e bons livros antes de chegarem ao mercado normal. Surgem perto do final de cada mês, sem qualquer divulgação prévia, e o abrir da caixa, o desembrulhar - o livro vem cuidadosamente embrulhado -, a descoberta do segredo, proporcionam um misto de entusiasmo e curiosidade sempre intensos, que o guia de leitura ainda mais aguça. Depois, é acabar rapidamente o que se está lendo ou, até, suspender, para se iniciar a descoberta.

No final de Junho, a surpresa foi um novo livro de A.M.Pires Cabral, cuja leitura já vai a meio e que retrata a vida num quartel mais ou menos imaginado. A data da edição indicada é Agosto de 2023.

"(...) O Leitor deve ter reparado que na parte da história já contada veio a propósito falar mais que uma vez de alcunhas. Como ainda há muitas alcunhas por referir, talvez faça sentido introduzir aqui um parêntesis que, ao mesmo tempo que discorre sobre alcunhas, constitui um momento de descompressão que é bem-vindo, numa altura em que a história começa a ganhar intensidade, dramatismo e suspense.

<<Um regimento sem alcunhas é como um gato sem unhas>>, diz muitas vezes o Comandante do RA-7, quando vem a propósito. Aparentemente, quer ele dizer que as alcunhas são uma arma de defesa e ataque dum regimento, tal como as unhas o são dos gatos. Mas não se chega a perceber qual o fundamento da comparação e ele escusa-se a explicar. Talvez o Comandante quisesse antes significar que é tão natural haver alcunhas nos aquartelamentos militares como unhas nos gatos. Mas, cá para nós, o mais provável é que o aforismo encontrasse na rima a sua única razão de ser e que, além de rimarem, não há qualquer outro ponto de contacto entre unhas e alcunhas.

De qualquer maneira, o Comandante usa frequentemente o anexim. O Comandante, nos seus ócios, que não são muitos, gosta de reflectir sonolentamente sobre assuntos como este das alcunhas. Diz ele que pensar pequeno é um bom tirocínio para quando é preciso pensar grande.(...)"

O quartel ou as bochechas do general
A.M.Pires Cabral

P.S. - Ontem almocei com um grupo de amigos que, há mais de meio século, se apresentaram comigo, nuzinhos em pêlo, perante um conjunto de três oficiais do exército que a todos mandaram subir para a balança, anotaram os pesos, ordenaram o perfilar na craveira e registaram as alturas, questionaram sobre a existência de carta de condução e carimbaram um papel com a palavra "APTO". Já faltam "peças" no grupo, mas lembrei-me do livro porque, como nele, também todos tinham (e têm) alcunhas. 

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Exemplos

O futebol jovem tem momentos altos nos últimos dias desta semana, com a realização, nesta cidade ventosa e alheia ao calor que se faz sentir no resto do país, de mais um torneio Footmania

O torneio envolve centenas de jovens atletas, integrados em equipas de todo o país e algumas do estrangeiro. A alegria dos miúdos é patente e a vontade de jogar, manifesta. Há convívio, competição, disputa, jogo e, no final, quem ganhe e quem perca, como sempre. A organização divulga valores importantes que presidem à realização, como promover o fair-play, defender a alimentação equilibrada e saudável, educar para a responsabilidade ecológica, proporcionar a partilha intelectual. E, percebe-se, tenta pôr isto em prática.

São quase nove e meia da manhã. O jogo vai começar daqui a pouco tempo. Os atletas fizeram o aquecimento, recolheram aos balneários para os últimos ajustamentos, os árbitros já aguardam no centro do campo e ei-los que surgem, cheios de genica e vontade de mostrarem as qualidades treinadas durante a semana, às vezes em condições bem adversas.

Um grupo de adultos, ruidoso, acampa na bancada. Vêm munidos de tambor, bandeiras, buzinas, camisolas do clube, para que não fiquem dúvidas sobre quem apoiam. Transportam duas geleiras que os mais incautos julgarão tratar-se de alimentação equilibrada para as refeições do dia.

O jogo começa ou, na leitura daquela gente, vai iniciar-se o combate. Os paizinhos e mãezinhas dos Ronaldos em potência começam o seu ruidoso apoio de claque mal educada, mas cheia de sabedoria dos segredos técnicos do jogo. Se os miúdos cumprirem as orientações dos infalíveis treinadores de bancada, a vitória não lhes escapa. E gritam muito, muito, com o vernáculo que, deverão pensar, não é conhecido nesta cidade de bonecos. 

Gritar, toda a gente sabe, dá cabo da garganta. À falta de chá de perpétuas roxas, nada melhor que uma cervejita fresquinha, saída da geleira que bem cumpriu a sua função. Pelo meio, uma cigarrada com a beata bem pisada na bancada, reiterando a responsabilidade ecológica. E mais uma bejeca e outro cigarro, que ainda falta muito para o intervalo. E outra ainda!

Não se correm riscos de falta de mercadoria: a geleira vem bem aprovisionada e o maço também ainda deve ter muitos cigarros. Com estes exemplos dos papás, os jovens atletas irão longe ...