sábado, 8 de março de 2014

Palavras bonitas

DE TARDE

N'aquelle "pic-nic" de burguezas,
Houve um cousa simplesmente bella,
E que, sem ter historia nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde
O livro de Cesário Verde
Fac-simile da 1ª. edição (1887), editada pelo jornal Público

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Quotidiano

A chuva e o vento não davam tréguas, o estômago recomendava aconchego, a cautela determinava viagem curta, apesar do guarda-chuva e da gabardina.
A casa tem um serviço ligeiro, acessível e rápido. Vou lá quando não me apetece comer "de faca e garfo" e o tempo não é muito. Fica ao fundo da rua e isso facilita, principalmente em dias de temporal.

Não havia ninguém no estabelecimento. Sou atendido, como sempre, de forma simpática e afável.  Surge o comentário sobre o tempo e a crise, causas que determinam a ausência de clientes. A falta de trabalho e o não haver mais ninguém por perto dá a oportunidade do desabafo e, no mais eloquente vernáculo, os governantes, antigos e actuais, são trucidados com a atribuição, inteira, da responsabilidade do que está a acontecer aos pequenos comércios.

Enquanto aguardava pela canja de ga_______ e pelo SLB (sumo de laranja e banana) - grafados exactamente assim no anúncio respectivo - tomo nota, num guardanapo, dos escritos que figuram nas ardósias fixadas à parede, a giz e com letras bem desenhadas:

"Coma hoje, para sobreviver. Amanhã pode não poder!"

" A receita ancestral dos produtos da Nova Pombalina é o culminar de uma alquimia de sabores e de saberes transmitidos ao longo de vários anos."

"Os nossos sumos são uma sinfonia de sabores orquestrados por quem sabe."

"O profundo conhecimento das matérias primas e educação no sentido do gosto traduzem-se numa experiência de sabores."

Proeza, nos dias de hoje: nenhuma das mensagens tem erros ortográficos e não há "inglesismos".

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Quotidiano

A "velha dos pombos" continua por lá, ora sentada num dos bancos da Rua da Vitória ora na soleira da porta de um prédio da Rua Augusta (a tal que, a par do Cais da Ribeira, no Porto, deve ser visitada pelo menos uma vez na vida), indiferente à chuva e ao frio, sempre rodeada pelos pombos, a fazer anotações no bloco que retira da saia, juntamente com o lápis, grosso, com que escreve. Ralha consigo, com os pombos, com os transeuntes que caminham indiferentes, com o tempo, com a vida. Ser-lhe-á indiferente, a vida, como a sua presença é aos caminhantes apressados? Que irá naquela cabeça quando, de manhã, arrasta as malas e se desloca do "alojamento" nocturno para o(s) sítio(s) onde irá passar o dia? Deve preocupar-se pouco e manter-se alheia a todas as polémicas que, tal qual o temporal, têm assolado o país nestes últimos tempos.
Dos quadros de Miró, que o homem do BPN comprou, decerto com grande sacrifício, para figurarem no balanço do Banco dando-lhe o toque chique que é sempre útil, às declarações sem nexo do Primeiro-Ministro e do seu "ajudante" para a Cultura, Barreto de sua graça, às trapalhadas com os investigadores (aqui não sou "tocador" de ouvido) agora culminadas com os vistos "gold" oferecidos a  quem vier para este cantinho solarengo tomar o lugar dos que foram forçados a abandoná-lo, passando pelos discursos inócuos e vazios de sentido de toda a classe política, oposição incluída, dos números do desemprego que provam ser a estatística a única ciência exacta, das praxes e do Meco, da chuva e do vento, dos alertas e suas cores, do mar e das marés, tudo surge em catadupa, "mastigado" e "deglutido", para ser consumido de forma rápida e usando apenas os olhos e os ouvidos, desprezando o potencial que a cabeça guarda no seu interior (às vezes tenho dúvidas se isso não será só para alguns).
Não é fácil ser "padre nesta freguesia", mas faz-se um esforço … lê-se a última crónica de António Lobo Antunes na Visão e fica-se fascinado com a forma, sublime, como se descreve a amizade por um irmão que partiu; no cinema, vê-se Steve McQueen recordar que a escravatura existiu até há bem pouco tempo (não existirá ainda?) em "12 anos escravo", Brian Percival relembrar os horrores da guerra, os crimes do nazismo e a importância de aprender a pensar, na adaptação do romance de Markus Zusak "A rapariga que roubava livros" e, para quem ainda tivesse dúvidas, Martin Scorsese ilustrar, com base numa história verídica, ao que leva a ambição desmedida e a falta de valores, em "O Lobo de Wall Street".
Mantendo sempre as rotinas, está quase no fim o romance de Mário Ventura, "Évora e os dias da guerra", passado após a restauração da independência, na tomada da cidade alentejana pelos castelhanos comandados pelo filho de Filipe IV, que culmina na batalha do Ameixial, já no reinado de D. Afonso VI  e, do Expresso desta semana, reter a crónica de Miguel Sousa Tavares e o inconformismo de Nicolau Santos, demonstrando que ainda vai havendo teimosos, tal qual o meu pai que tem quase 92 anos e o meu neto, do meio, que ainda não fez 3.
E por aqui me quedo!

sábado, 25 de janeiro de 2014

E a noite roda

Confesso que a expectativa não era muito grande, embora a contracapa despertasse curiosidade e a distinção com o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores fosse garantia de obra que valia a pena ler.
Duas pessoas conhecem-se em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat e … a partir daí, desenrola-se uma história de amor em tempo de guerra, em viagem constante, sítios perigosos, com SMS, mails, notícias, telemóveis, miséria, guerra, amor, contradições, ansiedades, pressas, angústias.
Uma grande história, onde é difícil distinguir a realidade da ficção, um excelente livro, este primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho.

domingo, 5 de janeiro de 2014

EUSÉBIO

Faleceu hoje um dos ídolos da minha juventude, que tinha cerca de dez anos mais do que eu.

Lembro-me, como se fosse hoje, dos grandes jogos do Benfica e da Selecção Nacional, quer pelos relatos que, nessa época, eram a fonte quase única da informação ao momento, quer pela televisão, que dava os primeiros passos nas transmissões directas, quer pelas presenças, poucas, no velho Estádio da Luz.

O Portugal-Coreia do Norte, disputado no Campeonato do Mundo de 1966, apanhou-me com 14 anos feitos há muito pouco tempo e em situação complicada da vida. Por tudo isso, é um marco, um hino ao futebol e uma recordação inesquecível.

Obrigado, Eusébio.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Balanço ou estatística

No final de cada ano é uso e costume fazerem-se os mais variados balanços, com gente de todas as especialidades a elencar o que de mais importante se passou no que está a terminar, dando lugar a um novo, no exacto momento em que, cumprindo a tradição, se comem as passas e se formulam os desejos.
As novas tecnologias permitem registos e análises, as mais diversas, proporcionando-nos evidências que, sem elas, dificilmente nos conseguiríamos lembrar. Contribuem para que os balanços sejam fiáveis e possíveis para qualquer tema ou acontecimento.
Tenho (quase) todos os meus livros numa base de dados (congeminada pelo meu filho, diga-se em abono da justiça), que me permite registar, para além do autor, do título, da imagem da capa, da edição, da colecção, o sítio onde está colocado, a data da compra e a data da leitura. 
Utilizando esse arquivo, posso fazer as mais variadas consultas e, por isso, ontem resolvi verificar quantos livros tinha lido em 2013. O "boneco" respondeu: 38
São muitos, são poucos, foram … milhões de palavras que passaram pelo crivo do meu cérebro, exprimindo ideias, relatando factos, contando histórias, evidenciando sentimentos. Ficarão guardadas nas gavetas da memória, à espreita de uma oportunidade de se exibirem e ganharem vida ou, o que é mais provável, a adormecerem num sono justo sem darem mais sinais de vida.
Um livro deixa sempre uma marca, maior ou menor, não importa. No conjunto deste ano, há vários que têm lugar mais destacado nas tais "gavetas" e não as deixam fechar. Um deles está ainda bem em cima do "móvel": As luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, mais de 1.000 páginas que acabei de ler em Maio e às quais voltarei um dia destes, para saborear.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Natal

NATAL CHIQUE


Percorro o dia, que esmorece
nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo
dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
e o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
a quem dão coroas no meio disto,
um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As voltas do mar




A "aberta" fechou!

No final da tarde de Domingo, foi possível chegar ao Gronho sem quase molhar as sapatilhas.

E agora?

Respondam os técnicos …

sábado, 14 de dezembro de 2013

Palavras bonitas

À BELEZA
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
o que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
o sorriso das pedras,
e a candura do instinto.
És aquele alimento
de quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
ou em arte,
ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
ou a moça do espelho, que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
uma linha sem traço …
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
tudo repousa em paz no teu regaço!

Odes
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1977)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Nelson Mandela

"Luto contra a dominação, branca ou negra. Bato-me por uma sociedade livre e democrática e estou disposto a morrer por esse ideal."

" Não há poder na Terra que possa impedir um povo determinado de conquistar a liberdade."

"Não se trata do que se pode fazer pela África mas sim do que se pode fazer com ela."

"Este Nobel da Paz (1993) é um tributo aos que lutaram contra o apharteid. Aceito-o em nome deles!.

Já foi tudo dito sobre a morte de Nelson Mandela, ocorrida na passada quinta-feira, dia 5, após 95 anos de uma vida dura e cheia.
Nasceu a 18 de Julho de 1918, esteve preso pelo regime abominável do apartheid da África do Sul desde 1963 a 1990, depois de ter sido condenado a prisão perpétua.
O Expresso desta semana dedica-lhe um caderno especial e exclusivo, que vale a pena ler e conservar, e onde várias pessoas escrevem sobre a maneira de ser, de pensar e sobre a sua vida, dedicada, toda a ela a um ideal de igualdade, de humanidade e de paz.

"(…) Infelizmente, Mandela não deixa seguidores. Nem em África nem noutros pontos do mundo. E é por isso que só uma coisa não se lhe perdoa: o facto de, através do seu exemplo, nos demonstrar todos os dias quão pouco inspiradores são a esmagadora maioria dos líderes que actualmente governam o mundo e como a mediocridade vai campeando um pouco por todo o lado nas elites dirigentes. E como seria diferente o mundo e infinitamente melhor se houvesse um Mandela em cada um dos cinco continentes.(…)"
Nicolau Santos (jornalista do Expresso)

"…) Sem Mandela, e sem a sua bondade, o seu sacrifício e a sua insubmissão, a África do Sul teria sido um território de extermínio depois do apharteid, depois de ter sido o da crueldade durante o apharteid. Sem a sua grandeza moral, intelectual, política, metafísica, não haveria África do Sul, nem esta nem outra. Seria mais um Estado falhado, com uma guerra civil que se arrastaria até à exaustão dos guerreiros, muitos anos e muitos cadáveres mais tarde.(…)"
Clara Ferreira Alves (jornalista do Expresso)

"Conheci Nelson Mandela no dia 7 de Maio de 1973. Na famosa prisão de Robben Island estavam 368 presos políticos - 33 dos quais cumpriam pena de prisão perpétua, a começar pelo próprio Mandela. Foi uma visita de quatro dias, a primeira que fiz à Africa do Sul na qualidade de delegado-geral da CVI para África.
(…) dirigi-me à secção B, a das celas individuais, onde estavam Mandela e outros 27 líderes do ANC.  Eram todas idênticas, com uma área de 2,5x2,2 metros e uma janela para o exterior, de vidro e grades. Não tinham cama mas uma simples esteira de sisal e outra de feltro e, no inverno, cinco cobertores por prisioneiro. Todos se queixavam de que a esteira não os isolava suficientemente do chão de betão.(…)
Jacques Moreillon (Delegado da Cruz Vermelha Internacional para África)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Badini disse que as coisas mortas vão com a água, naturalmente, seguem a corrente do rio, é isso que fazem os paus, as pedras, as folhas, os cadáveres, todos são empurrados para a foz, todos eles, enquanto os sábios e os salmões procuram a nascente, as causas das coisas, e, assim, tudo o que contraria a corrente está vivo, e a educação também é isso, é ir contra tantas coisas, não nos deixarmos arrastar para não nos tornarmos um pau seco a boiar nas águas. (...)"

Afonso Cruz
Para onde vão os guarda-chuvas
Alfaguara (2013)

domingo, 24 de novembro de 2013

Estranho


A descrição matricial acima reproduzida é de um terreno situado no distrito de Santarém, inscrito no Serviço de Finanças em 1970 como "terra de pousio com 2 oliveiras e dois carvalhos estranhos".
Não há nada de estranho no facto de uma terra de pousio ter 2 oliveiras e 2 carvalhos, mas já é muito estranho que os carvalhos sejam estranhos e ainda mais a razão pela qual assim terão sido classificados.
Não sendo provável que exista ume espécie biológica de carvalhos estranhos, estranho é o facto de assim terem sido classificados, para a posteridade e para a fiscalidade, dois seres que habitam o distrito de Santarém, talvez contra a própria vontade ou a vontade dos seus vizinhos.
- Serão estranhos por terem vindo de outras paragens sem ninguém saber de onde e sem serem convidados? 
- Terão algum defeito visível que cause estranheza a quem olha? 
- Algum "maduro" por ali os plantou sem cuidar de falar com as autoridades competentes?
- Terão comportamentos esquisitos?
- Usarão roupagens diferentes?
- Darão bolotas quadradas?
Poder-se-ão admitir e conjecturar milhentas hipóteses, mas que é estranho existirem 2 carvalhos estranhos numa terra de pousio com 2 oliveiras normais, não há qualquer dúvida.
Não é estranho, é estranhíssimo ...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Língua portuguesa

O desenvolvimento frenético que o mundo regista obriga a que todos estejamos atentos ao que se passa à nossa volta, na procura da actualização constante das vertentes profissional e/ou pessoal, sendo certo que, por maior que seja o esforço, o saber há-de ser sempre infinito.

A actualização desse "saber" está na ordem do dia e há especialistas que se dedicam à causa de "alma e coração", debitando a sua sapiência salpicada de "inglesismos" e com a ajuda do inevitável "powerpoint".

Eis senão quando "no melhor pano cai a nódoa" … e aquilo que parecia uma aula bem estudada e alicerçada num saber motivador, transporta a "conjectura" do país como um facto bem interessante de seguir na conjuntura da formação, conjecturando quantas vezes a "conjectura" irá estar presente no lugar da conjuntura, que primou pela ausência.

Contei várias!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Recordando

Partiu hoje, após longo tempo de sofrimento, o meu amigo Zé Marques Paulo.
Companheiro de muitas lides, das noites de king aos rallys paper, das viagens pela Europa às experiências nas rádio "pirata", no futebol ou no vólei, nas histórias vividas e inventadas, ou nas recordações do Porto da sua meninice.
Amigo sempre preocupado com os outros, descuidando-se muitas vezes de si próprio, adorava os meus filhos e … "quem meus filhos beija, minha boca adoça".
De pensamento livre, a puxar para a anarquia, amante da Pátria, que venerava, dono de uma cultura invulgar, que não exibia.
Era … diferente!
Fico a dever-lhe muitos e bons momentos e guardá-lo-ei na memória como ele gostava: vivo, franco, amigo, alegre e … meio tonto!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quotidiano ou a falta de imaginação

Na passada quarta-feira, Paulo Portas debitou uma quantidade apreciável de palavras vazias de conteúdo, que deram a sensação de se estar perante uma "mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma" nas cem páginas (Marques Mendes apostou em 90 e falhou) que demoraram quase um ano a vir à luz e trouxeram a certeza de que, concluo eu, a reforma do Estado está tão perto de acontecer quanto a minha.
Ontem, como sempre, uma espreitadela apressada na Visão (a leitura vai ser no fim de semana) para ver/ler a crónica habitual de António Lobo Antunes - Um Dó Li Tá, uma delícia:

"(...) Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro
- Eh pá embora usar um pin?
que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey
- Embora pôr o Rato Mickey?
mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu
- Mete-se antes a bandeira como o Obama
e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente
- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, comem a sopa toda em lugar de verem os Simpsons.
No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin
- Ponha que é curtido, tio
para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.
Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. (...)

Vale a pena ler a crónica completa mas, para isso, comprem a Visão.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A sopa dos pobres

Hoje observei, uma vez mais, a distribuição de alimentos que equipas de voluntários fazem diariamente em vários pontos de Lisboa.

Desta vez foi junto a Santa Apolónia que presenciei umas dezenas de pessoas, de idades várias, andrajosas ou razoavelmente vestidas, em fila ordeira, aguardando a sua vez de receber a embalagem de plástico com alguma coisa de comer, talvez, para muitos, a primeira e única refeição do dia.

No ritual do costume e após ter jantado à mesa, abri o computador para ver o correio virtual que, todos os dias, sem "carteiro a tocar sempre duas vezes", chega à minha caixa. Uma dessas "cartas", que o meu amigo M.V, me endereçou, trazia estas duas fotografias, que dispensam legenda ou comentário, pela eloquência que evidenciam.


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Livros (lidos ou em vias disso)

Acabei de o ler há pouco, mas antes de o fazer ocupar o lugar que lhe cabe, por direito próprio, na "biblioteca" cá de casa, não resisti a transcrever o final:

"(...) Não soube nada acerca do que foram contar ao Einar nem de como o consolaram. Estaria ele agarrado à caçadeira, ganhando coragem, medindo o plano quando, subitamente, não havia o que decidir. Percebi absolutamente que o amava. E levava dúvida nenhuma de ser amada. Teria a vida inteira para lidar com esse sentimento. Sabia que me perdoaria. Pensei. Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas."

A desumanização
Valter Hugo Mãe
Porto Editora (2013)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

José Saramago

O Blog tem andado em estado vegetativo, em hibernação, em descanso, a ver onde chega a desfaçatez, a apreciar as voltas, reviravoltas e cambalhotas do mundo político, a deliciar-se com a nova dinâmica das autarquias, a apreciar os conselhos e as opiniões de Belém e a preparar-se para um novo ano, resignado, condenado à crise e aos ditames de quem, com muito sacrifício, vela por nós.
Hoje regressa apenas para assinalar que a atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago foi há 15 anos e deixar aqui expresso, uma vez mais, o apreço por toda a obra do grande escritor e vincada a falta que faz o seu comentário certeiro, arguto e sem peias.

domingo, 22 de setembro de 2013

Leituras de fim de semana

EXPRESSO
Um sol enganador - Miguel Sousa Tavares


Em lugar de agregar municípios ou freguesias dos grandes centros urbanos, o Governo extingue freguesias do interior que, em muitos casos representam o último resquício da função social e política do Estado. Assistindo, sem nada fazer, ao contínuo despovoamento do país interior, fecha mais linhas férreas, tribunais, centros de saúde e escolas, invocando razões orçamentais e demográficas tornadas então inevitáveis. E, a troco de 600 milhões de euros, avança para nos tornar o único país do mundo sem correios públicos, dando aos felizes vencedores da privatização dos CTT uma licença bancária de bónus, que eles irão acrescentar às poupanças geradas com o encerramento de inúmeras estações de correios, gerindo um serviço público essencial à unidade territorial do país com uma irrebatível lógica de mercearia. Aos CTT, irá, em próximas oportunidades, acrescentar a TAP, as Águas e a Caixa, a parte rentável da CP e os Estaleiros de Viana (deliberadamente inviabilizados pelo senhor Ministro da Defesa). E a juntar ainda ao que já privatizou por completo: aeroportos, produção e distribuição de energia eléctrica. Privatiza-se o que dá dinheiro, mantém-se público e financiado por swaps e PPP o que perde dinheiro.
E enquanto assim desmantela o que demorou décadas ou séculos a construir, enquanto dá ordem de expulsão ao interior e entrega as terras abandonadas às celuloses e aos incêndios, que depois piedosamente lamenta, o "Governo de Portugal" (como eles gostam de ostentar nos pins das lapelas) trata de liquidar também qualquer veleidade de futuro, enquanto nação independente.(...)

A escola pública - valter hugo mãe
(...) Torna-se cada vez mais insuportável a notícia diária da paulatina destruição da escola em Portugal. O nosso país de pobres a aumentar está a assistir à sua lenta estupidificação. Tudo se prepara para que as gerações seguintes se bastem a trabalhos braçais, regressem talvez à lavoura, depois de tanta Europa nos ter pago para acabar com a agricultura, e se deixem governar cordeiramente, sem capacidade de contraditório, sem sequer autoestima para se considerarem incluídos na grande equação da cidadania e da escassa felicidade.
Tudo se prepara para que os nossos alunos aprendam mais e mais inglês pasra que se fitem na abstracção do imenso estrangeiro e partam. Nunca, como agora, se procurou tão avidamente produzir receita com as divisas dos emigrantes. Importa que todos saiam do país, produzam riqueza fora daqui e enviem o que puderem, para que seja o extra gratificante para a política de desmantelamento que cá dentro se opera. É muito fácil, num Portugal sempre desvitalizado, em que o povo foi menorizado durante décadas a fio de ditadura, levantar de novo o desapego e até a repulsa. Os jovens licenciados que hoje emigram fazem-no revoltados, sem vontade de respeitar uma país que claramente os rejeita. E um país tem de servir exactamente para o contrário disto. A verdadeira escola serve exactamente para o contrário disto.
Há uma euforia bizarra na recondução da escola pública ao terceiro mundo. As turmas outra vez enormes, notoriamente imprestáveis para garantir qualidade a cada um dos seus elementos, tornando o professor mais uma espécie de ama de luxo do que alguém a quem dão e exigem a oportunidade da instrução. A seguir assim, a escola pública servirá apenas como gigante ATL nacional. Em muitos casos, ela já é um ATL gigante, sem meios para mais do que tomar conta dos miúdos durante o período de trabalho dos pais.(...)