sexta-feira, 25 de julho de 2014

Memórias

“podia ser só uma Avó... mas ela era (é) o cheiro do sabão azul e branco, a água que escorria dos tanques públicos para a calha, os carreiros de formigas, os lagartos saídos da seringa de madeira para a mesa, o cheiro das couves cozidas misturadas com as sêmeas, as flores violeta rebentadas se lhes tapássemos os topos, o andar em bicos de pés para chegar aos ovos, o som do motor do poço, as molas encaixadas como comboios no terraço, a cafeteira deformada usada como regador, os pegamassos, o açafate com uma bola de madeira e mil botões, o pente molhado no lavatório antes de alisar o cabelo, os bifes fritos em lume lento, as mãos calejadas, o cheiro das cascas das sementes dos pássaros sopradas para fora dos comedouros, as urtigas arrancadas à mão... podia ser só uma Avó e já era muito, mas foi (é) grande parte das memórias impregnadas na matriz quase por estrear que era o meu cérebro infantil e, por isso, mais marcantes e intensas... e a prova de que não é o dinheiro, nem a instrução, nem a quantidade de brinquedos, que garantem uma infância feliz. os afectos (ou a falta deles) é que condicionam tudo o resto daí para a frente...”

A minha filha vai perdoar-me a apropriação e divulgação do texto que escreveu e publicou no seu blogue, partindo do filme que André Raposo realizou, tendo por base uma crónica de José Saramago.
O retrato é perfeito, as palavras certas, a descrição genial.
Nos arquivos da minha memória está cada vez mais presente, com mais pormenor, a personalidade, a calma, o carinho, os ensinamentos que cada vez valorizo mais.
O tempo é outro e mais urgente. 
Os meus netos nunca dirão de mim nada parecido com o que a minha filha hoje me ofereceu sobre a minha mãe.
E as lágrimas não param ...

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia - Poesia e Sabedoria

No dia em que passam dez anos da sua partida, os restos mortais da ENORME poeta Sophia de Mello Breyner Andresen foram trasladados para o Panteão Nacional.
Os seus versos serão eternos, permanecerão connosco para sempre e, espera-se e deseja-se, estarão cada vez mais em todas as nossas escolas, como muito bem pediram os seus filhos.

MAR SONORO

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

AS ROSAS

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

*************************************
É por ti que se enfeita e se consome,
Desgrenhada e florida, a Primavera.
É por ti que a noite chama e espera.

És tu quem anuncia o poente das estradas.
E o vento torcendo as árvores desfolhadas
Canta e grita que tu vais chegar.
*************************************

LUA

Entre a terra e os astros, flor intensa,
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.

PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não. 

POEMA

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Palavras bonitas

Regresso inúmeras vezes a Torga, cuja escrita me fascina e transmite estados, ideias, vertigens, retratos, um sem número de sensações que não consigo explicar.

O Público tem vindo a facultar, semanalmente, reproduções de livros proibidos por quem nos quis (e conseguiu) manter inaptos, incultos, subjugados, atentos, veneradores e servis. Esta semana chegou o Diário VIII, publicado em Janeiro de 1960 e que os algozes decidiram proibir, apesar dos inúmeros protestos quer por cá quer no estrangeiro.

Após a retirada do plástico de protecção e antes de o arrumar junto ao seu companheiro original mas bem mais novo ( tenho a 3ª. edição, de 1976), folheei e reli na diagonal:

TATUAGEM

Um verso apenas, mas que fique impresso
Na morena epiderme
Do teu corpo maciço;
Um verso agradecido
à universal beleza
Do teu rosto redondo,
Infatigavelmente variado;
Um verso branco e puro
De rendido louvor
À serena ironia
Com que deixas brincar no teu regaço
A inquietação,
E devolves o eco
De cada grito
À boca enfurecida,
- Terra, pátria da vida!
Eva que o sol fecunda do infinito!

S. Martinho de Anta, 29 de Outubro de 1955 - O solar da família, térreo, de telha vã, encimado pelo seu brasão de armas esquartelado, com enxadões em todos os campos ... Foi desta realidade que parti, e é a esta realidade que regresso sempre, por mais voltas que dê nos caminhos da vida. É uma certeza de marco com testemunhas, que nunca me deixa desorientado quando quero avivar as estrelas da alma. Basta escavar um pouco a crosta da aparência, e aí estou eu na matriz, confrontado.
Há tempos, em Lovios, no Gerês espanhol, depois de conversar com vários habitantes da povoação, interessei-me por um tumor a despontar no pescoço de uma velhota.
- É doutor ... - informou o meu companheiro.
- Que doutor! Ele é como nós! ...
E sou. Tudo, menos trânsfuga da minha classe. Nasci povo, povo continuo, e povo quero morrer. (...)

Diário VIII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Refugiados

A Gazeta das Caldas publica hoje a notícia da existência, no Museu Nacional do Holocausto nos Estados Unidos, de um pequeno filme das Caldas, que se presume ter sido feito por refugiados judeus, que passaram pela cidade (alguns ficaram por cá) em fuga do regime nazi.
Coincidência ou não, passam hoje 70 anos do desembarque da Normandia, que abriu as portas à vitória dos Aliados na Segunda Grande Guerra e à derrota do terror nazi, esperemos que para sempre.
Sem qualidade cinematográfica mas de uma enorme qualidade histórica e de  memória, vale a pena ver aqui:

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Quotidiano

Ainda não são oito da manhã. O comboio está parado na estação e aguarda que se esgotem os cerca de dois minutos assinalados no painel luminoso como tempo em falta para a partida.
É início de linha, as portas estão abertas e as pessoas vão chegando sem a correria que acontece nas estações intermédias.
Leio um livro, como quase sempre. Duas ou três páginas libertam e tranquilizam. Ao lado, o ruído de uma conversa entre duas senhoras, uma quase a roçar a minha geração, a outra ainda jovem e bem jovial. São colegas de trabalho, percebo, e falam de uma terceira, temporária, que foi dispensada e teve de regressar a casa dos pais, acompanhada do marido e do filho. Nestes tempos, o tema é um não assunto, tão vulgar se tornou.
Pelo canto do olho, apercebo-me que o homem tropeça ao entrar no Metro. A pasta mantém-se segura numa das mãos, mas o telemóvel "voou". A mensagem não chegou ao fim e o aparelho despenhou-se naquele desfiladeiro que fica entre o cais e o comboio. Grande pontaria!
A atrapalhação era evidente e as faces ruboresceram. Que fazer?
De súbito, ouve-se a voz, colocada, da mulher mais velha:
- Vá lá acima e diga ao meu colega o que lhe aconteceu.
- ???
- Vá depressa, para ele ter tempo de, enquanto não chegar o próximo comboio, desligar a corrente, descer à linha e apanhar o telemóvel. Não tenha medo: o comboio não lhe toca. Despache-se!
Nem agradeceu. Correu para as escadas e, com a velocidade de quem faz os 100 metros da sua vida, partiu em busca do auxílio. A velocidade que imprimiu deve ter feito o coração quase saltar do peito.
A funcionária do Metro esclareceu os passageiros:
- O telemóvel está lá em baixo, mas o comboio não o pisa.
Os dois minutos tinham passado e o Metro partiu.
E o telemóvel, teria ficado inteiro, como a senhora assegurou?

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Salazar

Na minha juventude, ouvi inúmeras anedotas sobre Salazar, Tomás, Caetano, Tenreiro, Cerejeira e outras figuras gradas do regime que nos ridicularizava, as quais, muito à socapa, alguns iam fazendo correr de boca em boca, como a "vingança" possível.
Dos fatos sem bolsos do Salazar, que não precisaria deles por passar a vida a meter as mãos no bolso de todos, ao Tomás a mandar procurar envelopes redondos para enviar as circulares, havia para todos os gostos.
Porém, nunca tinha ouvido a que J. Rentes de Carvalho transcreve no seu livro A Flor e a Foice, cuja leitura está quase concluída. 
Não resisto a deixá-la por aqui, com a devida vénia à inteligência, sagacidade e malícia do anónimo autor.
"Uma noite jantava Salazar em casa do general Carmona, então presidente da República, e à mesa reinava um silêncio profundo. 
Um dos netos do general, ainda criança, voltando-se para Salazar quis saber:
- Senhor presidente, o que é o Governo?
Não tendo recebido resposta, na sua inocência, fez mais uma pergunta:
- E o que é a ditadura?
Salazar retorquiu irritado:
- O menino faça como o avozinho, coma e cale-se."

domingo, 11 de maio de 2014

Memoráveis

UM DIA

Um dia, os rapazes serão louvados.
Hão-de passar entre multidões floridas.
Levarão riso na boca e os braços levantados.

Um dia, os rapazes hão-de ser punidos.
Pelos males que hão-de vir dos quatro pontos cardeais.
Terão latrinas derramadas nos portais.

Um dia esses heróis serão esquecidos.
Os seus nomes alinhados entre conchas e espinhas.
Hão-de constar de uns livros nunca lidos.

Mas um dia, este dia, será o dia do idílio.
Os rapazes ainda não desistiram de soltar os braços dos escravos.
E os escravos ainda não renegaram a cor dos cravos.
Ainda estamos no princípio desse dia.

Francisco Pontais - Poeta

Lídia Jorge
Os Memoráveis

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Palavras bonitas ... para a minha mãe

LUGAR DO SOL

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

Eugénio de Andrade
Ofício de Paciência

A minha mãe faria hoje 91 anos, mas "a luz abdicou do seu ofício".

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Natureza

"Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma."
Lavoisier (1743-1794)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril

As minhas amigas Liberdade e Democracia festejam o seu aniversário no mesmo dia que eu, com vinte e dois anos de diferença, tempo que me desfavorece em termos matemáticos.

Hoje procurei-as para um balanço destes 40 anos que partilhamos, tentando, nessa visita, perceber se os três mantínhamos a mesma vitalidade para transformar, alterar, progredir, inovar, melhorar, consolidar e, supremo, tentar sempre que todos possam viver melhor amanhã do que viveram hoje. Não as senti animadas.

A Liberdade sente-se atropelada, vilipendiada, enxovalhada e faz um esforço grande para subsistir. Diz que não a deixam dar igualdade de oportunidades a todos e que, sem isso, a sua função não existe. A preocupação quanto ao futuro mina-lhe a saúde, cria-lhe ansiedade, tira-lhe o sono. Tem receio de ser de novo engavetada no quarto do obscurantismo que tão bem conhece e do qual não tem quaisquer saudades. Sente-se triste por ser só de alguns e que esses alguns procurem, a todo o custo, que ela ignore os muitos que lhe deram vida há quarenta anos.

A Democracia lastima-se também.

- Ainda só tenho 40 anos e já me querem colocar na redoma, controlar-me, deixar-me aparecer de quando em vez, apenas para legitimar quem fica a mandar e, depois, não se preocuparem mais comigo. Confesso que, há 40 anos, estava longe de imaginar que iria ser assim.

Não alimentei mais conversa. Seria contribuir para que as minhas amigas se deprimissem ainda mais porque, também eu, estou farto de ouvir falar de mercados, juros, dívida, défice, sacrifícios, imposições, troika, austeridade, cortes, reduções e outros palavrões.

"Eu sou parvo ou quê?", como dizia Zé Mário Branco.

Falam de cátedra, pregam sermões, dizem como foi, como é e como vai ser, e eu ... sou limitado, mentecapto, inútil, estúpido, ignorante, débil, incapaz de fazer o que quer que seja sem a sua (deles) sapiência, que determina, manda, ordena, sem apelo nem agravo.

Fiz 22 anos em 25/04/1974 e até chegar esse dia já tinha comido muito pão que "o diabo amassou".

Sobra-me, ainda, vontade para mudar, mas falta-me paciência para os aturar!

EU SOU PORTUGUÊS AQUI
Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português 
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem 
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do caso
campeão do improviso,
trago as mãos sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português 
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito

José Fanha

terça-feira, 22 de abril de 2014

Emprego

Foi realizado em 2008, mas só recentemente mão amiga mo fez chegar.
Ainda assim, vale a pena utilizar cerca de 6 minutos do tempo que é precioso para todos e apreciar a mensagem para o futuro.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

Desapareceu ontem, aos 87 anos, um grande vulto da literatura mundial.
Gabriel García Márquez ou Gabo, como era tratado pelos íntimos, escritor colombiano galardoado com o Nobel da Literatura em 1982, deixa-nos uma obra genial, que continuará a despertar em muitos o gosto pela leitura e noutros o prazer de a ela sempre voltar.
"(...) 
- Dormi muito - bocejou o senhor Herbert.
- Séculos - disse o velho Jacob.
- Estou morto de fome.
- Toda a gente está assim - disse o velho Jacob. - Não tem outro remédio senão ir à praia desenterrar caranguejos.
Tobías encontrou-o a escavar na areia, com a boca cheia de espuma, e espantou-se de que os ricos com fome se parecessem tanto com os pobres. O senhor Herbert não encontrou caranguejos suficientes. Ao entardecer, convidou Tobías a procurar algo de comer no fundo do mar.
- Oiça - preveniu-o Tobías. - Só os mortos sabem o que há lá dentro.
- Também os cientistas o sabem - disse o senhor Herbert. - Mais abaixo do mar dos naufrágios há tartarugas de carne requintada. Dispa-se e vamos.
Foram. Nadaram primeiro em linha recta e depois para baixo, muito fundo, até onde se acabou a luz do Sol, e depois a do mar, e as coisas eram só visíveis pela sua própria luz. (...)"

Gabriel García Márquez
O mar do tempo perdido

terça-feira, 8 de abril de 2014

A gravata

Permitam-me que me apresente: sou jovem,bonita, vaidosa, convencida, tenho cerca de um metro de comprimento, mais larga na base do que no início, e ando na rua, como muita boa gente, sempre com um nó.
Vivo numa "assoalhada", um espaço preenchido com dezenas como eu mas, indiscutivelmente, sou a mais bonita de todas. Sou vermelha, não o vermelho benfica nem o vermelhão da moda, mas um vermelho belo, salpicado de pintinhas cor de cinza, na parte mais larga de mim. Sem falsas modéstias, tenho muito orgulho na minha beleza e sei bem o que isso contribui para o meu sucesso e o de quem me usa.
Ontem ouvi uma conversa cá em casa - não que eu seja coscuvilheira, mas calhou, e não rejeitei a oportunidade - e convenci-me logo que, no dia seguinte, iria haver passeio, andar na rua, ver pessoas, ouvir vozes, sentir o calor do sol este ano ainda tão arredio ou apanhar chuva (ouvi a conversa mas não escutei as previsões metereológicas), em suma, sair e contribuir com os meus préstimos para mais um dia de progresso do país de onde sou natural, onde cresci e onde vivo. Imaginei logo que iria entregar-me a uma camisa de um esplendoroso branco e que o fato seria o antracite das grandes ocasiões.
Desilusão!
De manhã, o meu dono não me pegou para fazer o nó e percebi que, afinal, ele iria com uma camisita vulgar, de colarinho aberto, sem qualquer nível no atavio.
No regresso, o semblante vinha carregado e a voz não trazia a doçura do costume. 
-  Esperei uma eternidade, ouvi coisas incríveis, respostas que não lembram ao diabo, gente tratada "à pedrada", fui mal atendido mas, quase por favor, lá me resolveram o problema, recebendo o que eu queria pagar.
Bem feito, disse para comigo. Se me tivesses levado, eras tratado com todo o requinte, porque eu assim o determino e, no fim, terias direito a uma vénia, um grande agradecimento e um "foi um prazer", porque o "hábito faz o monge" e a indumentária deve ser a padronizada para se ser tratado como gente.
Com gravata, naturalmente...  

sexta-feira, 28 de março de 2014

Palavras bonitas

Uma consulta ao Youtube por força de um mail enviado e eis que surge Bethânia a dizer o Cântico Negro, de José Régio, sublime como sempre, na divulgação da poesia e dos poetas de língua portuguesa.


E já agora, o mesmo poema (aqui completo) com a força da voz de João Villaret.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia

Dia do Mar
A minha esperança mora
no vento e nas sereias -
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias

Sophia de Mello Breyner Andresen

Trova
Beira da serra da Estrela
Onde o sol finge de lua ...
Soturna e magra courela
Que lã de ovelhas debrua ...

Miguel Torga

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.


Natália Correia

domingo, 16 de março de 2014

16 de Março

Faz hoje 40 anos, era sábado, estava um dia de sol lindo e o céu indiciava que em breve chegaria a luz da liberdade e da esperança. O Regimento de Infantaria 5, sob o comando do meu antigo comandante de companhia Virgílio Varela, esteve cercado por tropas do exército e por militares da GNR, armados de espingardas Mauser, que já ninguém utilizava. Os GNR montaram um segundo cordão de segurança, lá bem no cimo do Moinho Saloio, procurando, com todo o cuidado, arranjar o sítio para se deitarem com o quartel na mira. 
Porque "reina a ordem em todo o país" e hoje houve comemorações nas Caldas, não digo mais nada...

Multibanco

O almoço tinha sido animado pela cavaqueira habitual, pela "escrita em dia", pelas novidades nos cortes nas pensões de todas eles (só eu ainda trabalho), pelos netos, pelos achaques, a conversa habitual de quando nos juntamos para isto, sobre o pretexto de almoçarmos.
Desta vez ficamos pela cidade e, porque era sábado, havia cozido à portuguesa, que a todos apeteceu e deliciou. O Sr. Júlio, sempre delicado, preocupado em saber se estava tudo bem, se chegava, se queríamos mais hortaliça, ou carne, ou enchidos, inexcedível, como é seu costume. Conheço-o há bem trinta anos, e sempre foi assim.
No final, recolhi as notas dos dois outros amigos, nas "contas à moda do Porto" e fiquei em último, para pagar. A brincar, disse:
- Sr. Júlio, cuidado com esses dois ... são capazes de sair sem pagar!
- Convosco estou descansado, mas olhe que há cerca de 15 dias ... fiquei sem mais de 60 euros.
- ???
- Não tinha o multibanco a funcionar e pai, mãe e dois filhos foram levantar o dinheiro à máquina. Até hoje ... esqueceram-se de voltar cá! Fico aborrecido, zangado mesmo, por não ter recebido o que é meu, mas revolta-me muito mais a explicação que aqueles pais deram aos miúdos e os valores que lhes transmitem!

sábado, 15 de março de 2014

A dívida, a Pátria e o futuro

Apetecia-me transcrever, na íntegra, a crónica que Miguel Sousa Tavares publica no Expresso de hoje, mas vou ficar pela transcrição parcial, por uma questão de espaço e de respeito pelo autor.
Já por diversas vezes reproduzi aqui opiniões de Miguel Sousa Tavares, pessoa que apenas conheço por ser figura pública, como escritor e como filho de uma grande poetisa (Sophia de Mello Breyner Andersen, de quem gosto muito, como é fácil perceber) e de um advogado de "antes quebrar que torcer" (Francisco Sousa Tavares). 
Tenho a convicção firme de que MST não beneficia nada como as minhas citações, mas hoje a crónica é, mais uma vez, certeira, actual e mortífera. Vale a pena lê-la toda e aqui fica o aguçar do apetite para que isso aconteça e a esperança de que os meus netos um dia a leiam e fiquem com a certeza de que "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não" (Manuel Alegre) e que "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar" (Sophia).

"Segundo percebi, o senhor Presidente da República, autoprefaciando-se, explicou ao país, de calculadora em punho, que a dívida do Estado, depois de atingido o estratosférico número de 129% da riqueza produzida anualmente em Portugal, só era sustentável se aceitássemos viver na miséria durante uma geração inteira - e, mesmo assim, se durante 25 anos se repetisse um milagre económico que até hoje não aconteceu em nenhum dos 40 anos que levamos de democracia. Ou seja, naquela sua função de sirene de alarme que tanto cultiva, Cavaco Silva declarou a República oficialmente falida e a dívida pública impagável.
Devo dizer que concordo inteiramente com as contas e o diagnóstico do Presidente, pois que outra coisa não venho escrevendo aqui, de há anos a esta parte - e não sou professor de Finanças Públicas. Apenas duas coisas me surpreendem: que, após sete anos de mandato presidencial ( e dez como primeiro-ministro) só agora e desta forma "nonchalante", Sua Excelência nos faça esta revelação. E que, tendo meticulosamente feito as suas contas e não podendo ignorar a inevitável conclusão delas resultante, não lhe tenha ocorrido uma palavra, uma sugestão, um conselho amigo, um afago, para nos dizer como é que agora iremos viver durante a próxima geração. 
E isto, justamente no momento em que soavam trombetas de júbilo com o "milagre" da nossa retoma económica e o ambiente, ajudado pelo sol da Primavera, parecia enfim desanuviar-se um pouco. O "timing" de Cavaco Silva foi o pior possível. Foi uma desfeita.
(...)
Podemos, é claro, acabar com o SNS para pagar a dívida. Ou acabar com a escola pública. Ou com as Forças Armadas. Ou com qualquer pensão de reforma. Ou, como sugere o Presidente, passar uma geração inteira a trabalhar mais, receber menos e viver como há 50 anos, apenas para pagar aos credores.
Nenhum destes caminhos é a solução: nem a miséria garantida nem a bravata isolada. O caminho é procurar conjurados para uma revolta. Juntar tantas forças dos fracos que elas se transformem numa força face aos fortes. E exigir a mutualização da dívida, ao menos parcialmente. A União Bancária. A uniformização fiscal e o fim das "off-shores". A redução da taxa de juro da dívida institucional e dos empréstimos futuros concedidos aos Estados a 1% - o mesmo que os bancos pagam junto do BCE. O serviço da dívida limitado a um referente do crescimento económico - porque não se pode pagar sem criar riqueza sobejante e, se o custo da dívida é sufocante, não é possível criá-la.
Mas, para seguir este caminho, precisamos, à partida, de outra maioria no Parlamento Europeu, de outro governo e de outro primeiro-ministro em Portugal. De alguém que não tenha vergonha de nos representar no Conselho Europeu, que não ande de mão estendida a vender vistos de residência a chineses e quintas no Douro a angolanos. Que não venda a língua, através de um Acordo Ortográfico que, além de tudo o resto que nos envergonha, é um acto de prostituição diplomática. Que não venda, a troco de petróleo ou de esmolas para o Banif, um lugar na CPLP a um país de bandidos como a Guiné Equatorial. E que, consequentemente, não tenha o dr. Machete como ministro dos Estrangeiros.
Era disso que precisávamos agora: de um manifesto por um governo e um Presidente capazes de defenderem Portugal. (...)

Como eu gostava de ter sido o autor desta prosa...