Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
domingo, 30 de dezembro de 2012
2012 / 2013
sábado, 15 de dezembro de 2012
A URBANA FOME
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem
(Manuel Bandeira - Rio - 25-2-1947)
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Açores
sábado, 1 de dezembro de 2012
Palavras bonitas
PERENIDADE
Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
uma doçura que ninguém provou.
Mas a vida deseja
em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
pelas ruas floridas do jardim.
Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
o luxo eterno que ela te concede.
Libertação
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Sopa de cardos
Baixava-se e, com rapidez, cortava uma folha, que escondia no regaço, por debaixo do avental. Percebia-se que não estava à vontade. Não podia ser receio do dono da terra, uma vez que o terreno era baldio, pertença de todos e de ninguém, e não tinha qualquer aproveitamento.
Não havia dúvidas: o que a constrangia era o acto em si, o medo de ser vista. No íntimo, fazia algo que não estava certo, fugia ao padrão, era passível de crítica, tinha vergonha.
Fingindo a distracção própria dos garotos, que todos percebem ser artificial, fui-me aproximando. As felosas saltitavam nas figueiras e os pintassilgos, em coro com os rouxinóis, chilreavam nos salgueiros do riacho. O fingimento obrigava-me a olhar a passarada, tentando que a curiosidade fosse satisfeita sem que parecesse ser esse o único interesse da ronda.
Apanhava cardos. Escolhia as folhas maiores, tirava-lhes a nervura central e escondia-as de imediato.
Não resisti.
- Para que quer os cardos?
- Para a sopa, mas não digas a ninguém.
Sabia que se fazia sopa de feijão, de hortaliça. de grão, de nabos, até de abóbora, mas de cardos?!
- Tirando os picos, fica quase como couve. De manhã apanhei caracóis, grandes, vou assá-los. Com a sopa, ficaremos todos bem ceados.
Já haverá por aí quem tenha voltado à sopa de cardos?
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Visitas
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Reflexão
A convalescença do corte também tem algumas vantagens e esta é uma delas: tem-me permitido ler (muito) quando quero e como quero.
Agora estou na fase das novidades: depois de Lobo Antunes (Não é meia noite quem quer), já vai avançado o Cafuné de Mário Zambujal, mais leve que o anterior, onde, com prosa deliciosa, se contam as aventuras, desventuras, sonhos e realidades de um Rodrigo Favinhas Mendes, que viveu em Lisboa por alturas das invasões francesas. Seguir-se-á Mario de Carvalho (O Varandim), Rui Cardoso Martins (Se fosse fácil era para os outros) e Bruno Margo (Sandokan & Bakunine). Gosto variado, prosas diferentes, leitura diversa.
Nos intervalos, as caminhadas, a crise, o orçamento, o Gaspar, o Portas e o Coelho, que não devem ter tempo para ler, tão afadigados que estão em obedecer àqueles funcionários de segunda, que ditam as regras impostas por aquela senhora alemã, cujo nome não me ocorre, mas que usa casaquitos parecidos com os meus, porém bem mais feios ...
domingo, 21 de outubro de 2012
Não há bem que sempre dure ...
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Crise
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Palavras bonitas ... adequadas ao momento
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Geografia - Procelária (1967)
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Crise
Casaram-se há pouco mais de um ano, após um noivado sufragado pela maioria e com o apoio de muita gente que entendia ter o casal todas as condições para gerir a habitação.
Os noivos, por seu lado, apregoaram aos sete ventos que há muito vinham estudando as matérias da vida em comum, e que se encontravam preparadíssimos para dar os passos necessários à abertura das portas, conhecendo todos os cantos da casa e todos os segredos da boa governação da mesma.
Com portas bem abertas e passos na direcção certa, haveria coelho para todos, sem necessidade de pedir mais ingredientes aos comensais.
Com o espanto de muitos e a confirmação do pensamento de alguns, afinal o namoro não tinha proporcionado um suficiente conhecimento mútuo, a vivenda era demasiado grande e a experiência que ditava certezas não passava de balão cheio de nada, numa mão de coisa nenhuma.
O divórcio está em marcha!
Já não dormem na mesma cama, conversam apenas através dos representantes, sentam-se à mesma mesa mas cada um escolhe a sua própria ementa ...
O país já fala abertamente no caso e os amigos mais próximos já o dão como irreversível.
P.S. 1 - A semelhança entre o relato e as relações PSD/CDS não é pura coincidência.
domingo, 30 de setembro de 2012
Livros (lidos ou em vias disso)
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Dias ... de crise
Será a 10 de Outubro que irei aconchegar-me, não nos braços de Morfeu, mas juntinho ao Santo António que dá nome à clínica onde já tenho hospedaria reservada.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Crise
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Data
Um papel sem data não vale nada ...
No dia aprazado para o "solene" acto e de acordo com as indicações que tinha, deixei um recado, em papel grande e com letra de imprensa, na mesa que a isso estava destinada. Dizia mais ou menos o seguinte:
"Senhor F..., agradeço que esteja no cartório notarial às 12H00, para assinar a escritura da Lameira. Obrigado. O"
Fui à minha vida, verificar se estava tudo em condições e tratar de alguma imponderável de última hora que surgisse.
A pontualidade era uma norma da casa, cumprida escrupulosamente por toda a gente, do empregado mais humilde ao patrão, que detestava atrasos e ficava de "cabelos em pé" quando alguém se atrasava, incluindo ele próprio. Estranhou-se, por isso, que às 12H00, o outorgante mais importante não estivesse ainda presente.
Cinco, dez, quinze minutos e nada! O notário já desesperava e o ajudante do dito via a sua hora de almoço comprometida.
Embaraçado e sem saber o que fazer, pedi ao notário para, violando a regra, me deixar telefonar para a quinta.
O último dos cinco números mal tinha acabado de regressar à posição inicial do disco e a voz surgia do outro lado:
- Sim!?
- Senhor F..., estamos todos à sua espera ...
- De mim, para quê?
- Para a escritura da Lameira, respondi, percebendo que qualquer coisa não tinha corrido bem.
- Deixei um papel escrito, em cima da mesa da sala ...
- Vi e li. Não tinha data, não adivinhava que era para hoje. Vou já para aí!
sábado, 15 de setembro de 2012
Palavras bonitas
DE PORTA EM PORTA- Quem? O infinito?Diz-lhe que entre.Faz bem ao infinitoestar entre gente.- Uma esmola? Coxeia?Ao que ele chegou!Podes dar-lhe a bengalaque era do avô.- Dinheiro? Isso não!Já sei, pobrezinho,que em vez de pãoia comprar vinho ...- Teima? Que topete!Quem se julga elese um tigre acabounesta sala em tapete?- Para ir ver a mãe?Essa é muito forte!Ela não tem mãee não é do Norte ...- Vítima de quê?O dito está dito.Se não tinha estofoquem o mandou ser infinito?
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Crise
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Crise
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Privatizações e parcerias
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Cobras
Durante uma semana não houve recreio para os "capitães da areia".
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Palavras bonitas
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Poesia
Fund. Eugénio de Andrade (2005)
domingo, 8 de julho de 2012
Carta aberta ao Ministro Miguel Relvas
Excelência
De acordo com as notícias desta semana, verifiquei que V. Exª. contribuiu para que as estatísticas do nosso Portugal nos apresentassem condignamente junto dos países que nos fazem companhia na União Europeia.
domingo, 24 de junho de 2012
Netos
O Duarte chegou!
terça-feira, 19 de junho de 2012
Livros (lidos ou em vias disso)
terça-feira, 12 de junho de 2012
E o futuro é hoje ...
sábado, 2 de junho de 2012
Troika
As referências que por aqui tenho deixado sobre Miguel Sousa Tavares (que não conheço nem sequer de uma pequena festa de anos, como o outro) demonstram o meu apreço pelo escritor, pelo jornalista, pela forma como escreve, pelo desassombro com que assume as suas opiniões e pela intransigência que mantém na defesa da liberdade e da justiça.
domingo, 27 de maio de 2012
FCP Campeão Europeu 1987
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Livros (lidos ou em vias disso)
terça-feira, 15 de maio de 2012
Quotidiano ... em férias


sábado, 12 de maio de 2012
Bernardo Sassetti
Partiu um grande, um extraordinário músico.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Alma mater
sábado, 28 de abril de 2012
Palavras bonitas
HORA DE PONTA
Olhos rasos de mágoa
trazem perda nos sentidos
e um andar que não recua
sem nunca ir mais além.
Ao fim da tarde na rua
olham em frente perdidos
e passam sem ver ninguém
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Percurso
domingo, 15 de abril de 2012
Madredeus
domingo, 8 de abril de 2012
Cão de ... rocha
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Quotidiano
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Portugal ... pequenino
domingo, 1 de abril de 2012
A cabana do pescador

terça-feira, 27 de março de 2012
Dia Mundial do Teatro
Apesar de o teatro da vida nos reservar surpresas onde menos se esperam, regista-se a comemoração do dia salientando o excelente trabalho que o Teatro da Rainha, remando muito, vai realizando nesta terra.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Palavras bonitas
Passavam pelo ar aves repentinas,O cheiro da terra era fundo e amargo,E ao longe as cavalgadas do mar largoSacudiam na areia as suas crinasEra o céu azul, o campo verde, a terra escura,Era a carne das árvores elástica e dura,Eram as gotas de sangue da resinaE as folhas em que a luz se descombina.Eram os caminhos num ir lento,Eram as mãos profundas do ventoEra o livre e luminoso chamamentoDa asa dos espaços fugitiva.Eram os pinheirais onde o céu poisa,Era o peso e era a cor de cada coisa,A sua quietude, secretamente viva,E a sua exaltação afirmativa.Era a verdade e a força do mar largo,Cuja voz, quando se quebra, sobe,Era o regresso sem fim e a claridadeDas praias onde a direito o vento corre.
Murchou a flor aberta ao sol do tempo.Assim tinha de ser, neste renovoQuotidiano.Outro ano,Outra flor,Outro perfume.O gumeDo cansaçoVai ceifando,E o braçoDoutro sonhoSemeando.É essa a eternidade:A permanente rendição da vida.Outro ano,Outra flor,Outro perfume,E o lumeDe não sei que ilusão a arder no cumeDe não sei que expressão nunca atingida.
Que margens têm os riosPara além das suas margens?Que viagens são navios?Que navios são viagens?Que contrário é uma estrela?Que estrela é este contrárioDe imaginarmos por vê-laTudo à volta imaginário?Que paralelas partidasNos articulam os braçosEm formas interrompidasPara encarnar um espaço?Que rua vai dar ao tempo?Que tempo vai dar à ruaPor onde o FirmamentoE a Terra se unem na lua?Que palavra é o silêncio?Que silêncio é esta vozQue num soluço suspensoChora flores dentro de nós?Que sereia é o poente,Metade não sei de quêA pentear-se com o penteDo olhar finito que o vê?Que medida é o tamanhoDe estar sentado ou de pé?Que contraste torna estranhoUm corpo à alma que é?
É o mar do deserto, ondulaçãoSem fim das dunas,Onde dormir, onde estender o corpoSobre outro corpo, o peito vasto,As pernas finas, longas,As nádegas rijas, colinasSucessivas onde o ventoDemora os dedos, e as cabrasPassam, e o pastorSonha oásis perto,E o verde das palmeiras se levantaAté à nossa boca, até à nossa almaCom sede de outras dunas,Onde o corpo do amorSeja por fim um gole de água.