sábado, 2 de março de 2013

Quotidiano

Há vida para além da folha de Excel ...
A esta hora, em várias cidades do país, milhares de portugueses manifestam a sua indignação, cantando como o Zeca.

Palavras bonitas

UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse 
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.

Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida é tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa 
a uma qualquer pessoa!

E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?

Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sôfregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quotidiano

Os estudantes do ISCTE expulsaram hoje Miguel Relvas das instalações, quando o ministro se preparava para proferir uma conferência integrada nas comemorações da TVI.
Fizeram mal!
O ministro queria assistir às aulas ou, pelo menos, conhecer os corredores, para poder pedir a equivalência com conhecimento da casa.
Não é justa esta decisão dos estudantes. Vai persegui-los a vida toda. Impediram o acesso ao conhecimento a quem o busca de forma tão ávida.
Meninos, portem-se bem e deixem estes adultos que cumpriram antecipadamente a divisa da vossa Escola - Chegar ao Topo -  estudarem e aprenderem. 
Eles "há-dem" ir longe, sem "quaisqueres" dúvidas.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Palavras bonitas

As novas tecnologias ajudam muito aqueles a quem o tempo falta. 

Ver televisão, durante a semana, é um "luxo" cada vez mais difícil de conseguir. Vou deixando a gravar alguns programas que não quero perder e, quando surge a oportunidade, "play" com ele.

O "5 para a meia noite" das terças-feiras é sempre gravado e, assim que é possível, lá coloco o Zé Pedro Vasconcelos em diferido, para me deliciar com o seu humor e com a inteligência com que aborda os assuntos e convidados.

Hoje vi o programa do passado dia 12, no qual estiveram presentes dois jornalistas: Pedro Coelho, da SIC, que falou da sua grande reportagem sobre o BPN, e Rita Marrafa de Carvalho, da RTP, que dissertou sobre jornalismo de investigação e mostrou os dotes da sua voz, bem bonita, a cantar, "à capela".

O nível estava elevado e subiu quando, na rubrica que surgiu nesta segunda série, Vítor de Sousa, com a sua extraordinária voz, disse um poema de Manuel da Fonseca, apropriado para o programa e para os dias em que vivemos.

Tinha uma vaga ideia das palavras e fui buscar o velho livrinho (1978) dos Poemas Completos. Lá estava a 

DONA ABASTANÇA

"A caridade é amor"
proclama Dona Abastança
esposa do Comendador
senhor da alta finança.

Família necessitada
a boa senhora acode
pouco a uns a outros nada
"Dar a todos não se pode".

Já se deixa ver
que não pode ser
quem
o que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
e sai caro fazer o bem
ela dá ele subtrai
fazem como lhes convém
ela aos pobres dá uns cobres
ele incansável lá vai
com o que tira a quem não tem
fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
que não pode ser
dar
sem ter
e ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
sempre ao bem fazer foi dado
pouco custa a quem roubou
dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
de tão estranha caridade
feita com dinheiro do povo
ao povo desta cidade.
Poemas Completos
Manuel da Fonseca
Forja (1978)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ignorância

Não costumo ser redutor e penso sempre que os outros podem ignorar temas que eu domino perfeitamente, mas seguramente sabem muitas que eu ignoro. 
Tenho dos jovens de hoje a melhor das impressões e não me canso de dizer que os bons são muitos e bem melhores do que os do meu tempo. Contudo, ver tanta ignorância inconsciente, mete dó!
Como é que esta gente acedeu à universidade? Não seria melhor voltarem à primária e experimentarem as réguas do meu tempo, por cada asneira deste calibre?
- É uma boa pergunta !!!!!
- Não faço a mínima ...
- A capital da Itália é Nápoles.
- Eça de Queiroz morreu há pouco tempo.
- John Lennon cantava as músicas dos desenhos animados da Disney.
- Califórnia é a capital dos Estados Unidos.
- A fórmula química da água é PH0.
- O fundador da Microsoft é o Gill Bates, que morreu há pouco tempo.
- O Evangelho segundo Jesus Cristo foi escrito pelos Apóstolos.

E riem-se ...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quotidiano

Hoje ofereceram-me um simulador para calcular o novo ordenado e clarificar qual a melhor opção para "os linces da Malcata", perdão, para os subsídios que iremos receber este ano.
O simulador está concebido em Excel e a folha deve ter dedo do Ministro Gaspar: os cálculos que dela resultam estão certos, sem qualquer dúvida ou incerteza!
O que nos vale é que o país (em letra pequena, pois claro, para poupar) está a melhorar a olhos vistos e os sacrifícios exigidos são a penitência para aqueles valdevinos que viveram acima das suas possibilidades e agora não querem expiar os pecados. 
É bem feito, não tivessem sido estroinas!!!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Palavras bonitas

TARDE

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira
Antologia pessoal de Eugénio de Andrade
Campo das Letras (2000)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Ventania

São de ontem, numa fugida do fotógrafo oficial, com vento forte de mais para o que estamos habituados.


Quotidiano

Uma manhã de temporal, sem luz, uma constipação que ameaça tornar-se gripe, o vento assobiando lá fora (não nas gruas, como o de Lídia Jorge, que a construção há muito está parada por estas bandas) com uma intensidade louca, sem música e sem deslocação à Foz, onde o mar deve estar "lindo", resta o ritual de sábado, hoje bem mais cedo do que é habitual. 
Ainda não completei o primeiro caderno, mas a entrevista de Jorge Sampaio ao Expresso de hoje já foi lida.
Dois pequenos apontamentos de quem pensa, sem peias, grades ou subserviências.
"(...) Por exemplo, esta ideia de que o objectivo é aparecermos como os bons alunos da Europa ... Francamente, não é por aí! Atribuir culpas só aos portugueses parece-me ser excessivo e demasiado violento. Exige-se da Europa que volte a ter uma resposta colectiva e se deixe de separações, de falta de solidariedade, de divisões. A Europa, em vez de reforçar a sua união, corre o perigo de se desagregar.(...)".
"(...) A credibilidade dos cidadãos no sistema político está em declínio vertiginoso. Temos a responsabilidade de parar isso, pela credibilização do diálogo e do trabalho político. Se só se grita, não vamos a lado nenhum.(...)".
Nota - Escrito ontem, quando pensava que o regresso da energia eléctrica traria a normalidade. Afinal a publicação só hoje foi possível, passado dia e meio sem Net e também sem televisão. Como é que se vivia dantes?

sábado, 5 de janeiro de 2013

Expresso

Comecei a ler bem novinho, já não recordo com que idade, mas bastante antes de ingressar na escola primária, o que, na época, acontecia no ano em que se completavam 7 anos. A responsável pela precocidade foi a minha irmã, três anos mais velha, que começou a exercitar com o pimpolho as tarefas que acabariam por lhe ocupar toda a sua vida profissional.
Também cedo comecei a consumir jornais, ou melhor, o Jornal de Notícias, em formato para mim gigante, que lia soletrando,  ajoelhado no jornal aberto no chão da cozinha. Meu pai comprava-o todos os dias e, quando chegava do trabalho, entregava-o para o lermos no dia seguinte. Depois de lido, servia para manter quente a panela da sopa. 
Na memória ainda estão as notícias sobre o terramoto de Agadir, a invasão de Goa, o início da guerra colonial, o assalto ao Santa Maria, as palavras cruzadas que fui aprendendo pouco a pouco e, pasmem, o boneco da última página (cartoon?), julgo que da autoria de Miranda.
Foram muitos os jornais que conheci, li, recordo e já desapareceram: Mundo Desportivo, Século, República, Diário de Lisboa, A Capital, Diário Popular, Gazeta dos Desportos, O Ponto, e podia continuar ...
Em Janeiro de 1973 tinha 20 anos! 
Já sabia a diferença entre o Diário da Manhã (de triste memória) e o República quando surgiu, pela primeira vez, o semanário Expresso. Comprei o primeiro exemplar e adquiri hoje, de manhã, a edição comemorativa dos 40 anos de publicação ininterrupta. Ao longo desta "eternidade", devo ter falhado a compra, talvez, uma dezena de vezes, se tanto. Em alturas de ausência, cheguei a ir buscá-lo vários dias depois, por se encontrar sempre guardado na Jornália.
A minha amiga Nisa ainda hoje me reserva religiosamente o exemplar, apesar de a procura actual já não justificar esse cuidado. Eu, para compensar o carinho, digo-lhe sempre com antecedência:
- No próximo sábado, vende o meu Expresso a outro, que não vou estar por cá.
É preciso ser teimoso! Nem sequer conheço Francisco Pinto Balsemão...
Longa vida ao Expresso e à liberdade de que sempre foi arauto.