quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dia Mundial do Livro

Não sou muito dado às comemorações do Dia Mundial "disto e daquilo", muito embora reconheça quão importante é existir uma data que seja apelativa, obrigue a notícia e, sobretudo, seja um alerta para que determinado problema ou acontecimento não seja esquecido.
Hoje é o Dia Mundial do Livro, promovido pela Unesco.
Celebra-se numa altura em que as editoras passam por dificuldades enormes e as livrarias não lhes ficam atrás, ou vice-versa, para o caso pouco importa.
A crise levou ao adiamento da publicação do novo livro de Mário de Carvalho - Epítome de pecados e tentações -, e a Margarida espantada, de Rodrigo Guedes de Carvalho teve o mesmo destino. Este último já está disponível nos formatos E-book e Audio-livro, mas não é a mesma coisa.
O malfadado Coronavírus trouxe problemas a todos os sectores, se bem que nenhum seja comparável à saúde. Contudo, talvez este isolamento tenha trazido mais gente para a leitura e levado alguns a ler os livros que permaneciam "encostados" há muito tempo, a aguardar "tempo". E pode ser que fiquem leitores fidelizados. Por mim, embora por vezes com alguma incapacidade de concentração, cá vou mantendo a rotina diária de ler, muito ou pouco, mas sempre.

Liberdade e Poesia

Daqui, desta Lisboa

Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

daqui deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus ...

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o mundo fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a sua dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim)! porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua autora?

De santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia:
Oh! Venha ... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo:

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso numen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

Manuel Maria Barbosa Du Bocage

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

No final desta semana comemoram-se os 46 anos da revolução do 25 de Abril, que trouxe a todos, entre muitas outras coisas, a liberdade de expressão sem censuras e sem peias, mesmo para dizer asneiras e aldrabices. 
E porque, como dizia Sophia, "a poesia está na rua", esta semana será por aqui dedicada a uma colectânea de sonetos organizada por José Fanha e José Jorge Letria, e publicada pela já desaparecida editora Terramar, em 2002.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam mágoas na lembrança,
e do bem - se algum houve - as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia, 
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

sábado, 18 de abril de 2020

Quotidiano

A quarentena tem sido um manancial de aquisição de conhecimentos e espero que assim continue. No final disto tudo, tenho de decidir a quem devo submeter a tese de "doutoramento virtual" abrangente.
No Facebook sabe-se e discute-se tudo; o Instagram segue o mesmo caminho e os vídeos, textos, discursos, enviados pelo Messenger, são carregados de sapiência e de certezas.
Discute-se e opina-se sobre tudo (sim, separado, se não era casacão) desde a queda do PIB aos "coronabonds", a permanência de Centeno e as moratórias, a burocracia do crédito e as garantias, o dinheiro que não chega, as comemorações, o "pico" e o "planalto", os ventiladores e as máscaras, a vacina que há-de chegar e o medicamento que já aí está, sempre com eloquência e certezas que não  se vislumbram quando se ouvem as pessoas que estudam o problema. Enfim ...
Hoje o tema ainda é mais arrasador: vamos ou não à praia no Verão? Podemos marcar as férias? As praias terão senha a determinar a vez de ir ao banho? E quantos poderão estar na água? E no chapéu? Haverá filas e distância profilática para o areal? Não seria conveniente haver legislação que determinasse o tamanho da toalha?
Rendo-me e vou "dar a coxa à Caparica".

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Quotidiano

Na (minha) instrução primária faziam-se ditados. 
A professora ou, na primeira classe, algum colega da quarta, ditava textos com palavras cada vez mais complicadas, à medida que a aprendizagem ia evoluindo e as classes também. 
A professora corrigia e, no próprio dia ou no dia seguinte, obrigava a repetir as palavras erradas, dez, vinte, cinquenta vezes, conforme achava que o erro era recorrente ou resultava de distracção pura.
Não fui muito penalizado com estes castigos - presunção e água benta, cada um toma a que quer ou, de outro modo, gaba-te cesto que amanhã vais à vindima - mas lembrei-me disto hoje, quando assistia à conferência habitual da Direcção Geral de Saúde.
Coitada da pobre senhora: todos os dias tem de repetir frases inteiras já ditas e reditas anteriormente.
É mesmo castigo "à antiga".

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Quotidiano

Hoje, o dia fica marcado pela notícia da morte de dois grandes da literatura. 
Rubem Fonseca, um excelente escritor brasileiro, foi vítima de um enfarte do miocárdio, que o levou poucos dias antes de completar a bonita idade de 95 anos.
Luís Sepúlveda foi, aos 70 anos, mais uma vítima do coronavírus. O escritor chileno, que residia em Espanha há muito - a ditadura de Pinochet obrigou-o a abandonar o país -, era grande amigo de Portugal e esteve no Correntes d'Escritas em Fevereiro deste ano, onde participou numa mesa intitulada, curiosamente ou talvez não, "Era uma vez a liberdade".
Fica por aqui o registo do desaparecimento de dois grandes escritores, cujos livros nos continuarão a fazer companhia.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quotidiano

Ainda não foi hoje que fui à Foz!
As recomendações das autoridades para os grupos de risco, as chamadas de atenção familiares para a minha normal rebeldia, obrigam-me a ser cordato, obediente e educado ou, como se dizia em tempos longínquos de má memória, atento, venerando e obrigado.
Cumpro, respeitosamente, as ordens da senhora Directora Geral de Saúde (não consigo escrever DGS), por entender que é o melhor para todos, incluindo para mim, que pertenço ao grupo de risco, e por entender que a senhora merece ter esta  modesta compensação, pelo enorme esforço que tem feito.
Este mês deve ter sido o mais comprido de toda a sua vida e isso está bem expresso na sua cara, quando, diariamente, nos entra pela casa. É visível o cansaço, que deixa marcas, mas também a paciência de JO que evidencia perante algumas perguntas (im)pertinentes.
Não quero ser ave de mau agoiro, mas estou convencido que, no final, será ela o "guarda-redes". Se não houver golos, não fez mais do que a sua obrigação; se correr mal, via-se logo que ia haver "frango".
Continue a mandar, Doutora Graça Freitas, que quem decide será sempre criticado.
"Os cães ladram e a caravana passa", diz o velho adágio.