quinta-feira, 25 de junho de 2020

Quotidiano

O Verão, que tinha chegado antes do tempo e trazido muito calor e céu azul, sem vento e com mar quase chão, resolveu esta semana torpedear todos os planos e obrigar à abdicação do caminho matinal para a Foz do Arelho.
E esta abdicação traz consequências, físicas e psíquicas: há sempre trabalho a fazer, em casa ou no jardim e, sobretudo, ouvem-se mais notícias, comentários e opiniões.
O que se vai ouvindo não é agradável nem o que se esperava, decorridos que estão mais de 100 dias desde o início desta calamidade que nos veio visitar sem ter qualquer convite. 
O optimismo e o cansaço tornam-se opositores, têm pouca capacidade de diálogo, opinião muito diferente, e trazem à tona o pessimismo e o medo dos dias que se irão seguir.
As saídas não são muitas mas não me agrada nada voltar ao confinamento do quintal ... e eu ainda tenho esse espaço!

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Netos

Hoje é um dia especial.
Não por ser dia de S. João, nem por ser feriado no Porto e em Braga, muito menos por, neste ano, não estarem autorizados os habituais festejos populares.

É um dia especialíssimo, porque o meu neto Duarte faz oito anos e, apesar de não ser possível fazer a festa que ele merece, continua a ser um dia memorável e especial porque, este, lhe ficará na memória para sempre.
Um dia, ele irá contar aos netos que, quando fez oito anos, não houve "parabéns a você" colectivo, mas que toda a gente cantou para ele.
Parabéns, meu querido DUDU.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A bomba

A porta já tinha sido fechada há algum tempo e o último cliente já se fora. 
Viviam-se os momentos, poucos, de descontracção diária, antes de se iniciarem as tarefas do fecho do dia. Estes momentos eram aproveitados para contar a última anedota,
          - Já sabem a última?
comentar o último jogo do Benfica,
          - Não jogaram nada ... dizia um,
          - É o costume, concluía outro.
contar, em grupo mais reservado e para que as colegas não ouvissem, a última separação conhecida,
          - Parece que foi ela que saiu. Estava farta dele.

De repente, alguém exclama, num grito que tinha tanto de exaltado como de medroso:
          - Olha ali, naquela escrivaninha?!
          - É um embrulho ...
          - Vê lá se é uma bomba!?

Do lado de fora do balcão, fixadas à parede, existiam três ou quatro prateleiras de madeira, pequenas, que eram utilizadas pelos clientes para preencherem os cheques, talões de depósitos e outros documentos. Nesse tempo tudo se fazia "à mão" e preencher o documento antes de o entregar era sinal de sapiência e de disposição para colaborar e ser atendido de forma mais rápida. Muitos havia a quem era necessário preencher tudo e, no local reservado à assinatura, escrever "A rogo de F., por não saber assinar", com a rubrica de dois empregados e a impressão digital do indicador direito do cliente, cuja recolha tinha a sua ciência e nem todos conseguiam com o rigor necessário que a inspecção, mais tarde, iria averiguar. Pré-história!

Voltemos ao embrulho: viviam-se tempos complicados, havia atentados bombistas, não muitos mas alguns foram notícia, a luta de classes estava ao rubro, os partidos clamavam as suas verdades com veemência, comentavam-se hipóteses de golpes de estado, confrontos entre militares, enfim, condições criadas para se especular sobre tudo e para uma vivência com alguma ansiedade.
         - Eu vou lá ver, gritou o V.E., destemido e ainda cheio de episódios da guerra colonial na Guiné, cuja dureza era de todos conhecida e dele, em particular, por ter lá permanecido mais de dois anos e sempre "em zona 100%", como não se cansava de repetir.
E, se bem o disse, depressa o fez.
Chegado à escrivaninha, estacou e murmurou, em tom rouco e reservado, mas perfeitamente audível dado o silêncio instalado.
          - Faz tique-taque.
Recuou.
          - Tome cuidado, V.E., ouviu-se do gabinete.
Funcionou como incentivo. Determinado, avançou para o embrulho, puxou do canivete que sempre o acompanhava, cortou o cordão, rasgou o papel, pardo, e abriu a caixa.
Exibiu o achado bem alto, para todos apreciarem.
Era um enorme despertador, novinho em folha, azul celeste, que deveria ter sido adquirido nesse dia numa das várias ourivesarias existentes na cidade. Guardou-o na casa forte e, como todos os outros, dedicou-se ao fecho do dia, que já eram bem horas.
A campainha da porta tocou.
          - O que quer este a esta hora? Já estamos fechados há que tempos.
          - Vai lá, mas não abras a porta. 
A porta, de ferro, tinha uma janela que era possível abrir, deixando as grades a garantirem a segurança.
Não se ouviu nada do diálogo, mas o "porteiro", contrariando as ordens, abriu a porta e deixou o cliente entrar.
            - Ó V.E., é o dono do relógio!
            - Agora tem de esperar, que a casa forte demora cinco minutos a abrir!

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Palavras bonitas ... e actuais

Porque será que nós temos                                            Nas quadras que a gente vê,
na frente, aos montes, aos molhos,                               quase sempre o mais bonito
tantas coisas que não vemos                                         está guardado pr'a quem lê
nem mesmo perto dos olhos?                                        o que lá não 'stá escrito.

O mundo só pode ser                                                     A esmola não cura a chaga
melhor do que até aqui,                                                 mas quem a dá não percebe
- quando consigas fazer                                                 que ela avilta, que ela esmaga
mais p'los outros que por ti!                                          o infeliz que a recebe.

Sem que o discurso eu pedisse,                                     Chegasses onde pudesses;
ele falou; e eu escutei.                                                   mas nunca devias rir
Gostei do que ele não disse;                                          nem fingir que não conheces
do que disse não gostei.                                                 quem te ajudou a subir!

Julgando um dever cumprir,                                         Veste bem, já reparaste?
sem descer no meu critério                                           mas ele próprio ignora
- digo verdades a rir                                                      que, por dentro, é um contraste
aos que me mentem a sério!                                         com o que mostra por fora.

António Aleixo
Este livro que vos deixo ...
Edição, corrigida, de Vitalino Martins Aleixo (filho do poeta)
1975

domingo, 21 de junho de 2020

Beethoven animado

Há quatro anos, deixei aqui o Bolero, de Ravel, em animação, linda, partilhada por um amigo.
Hoje, numa pesquisa rápida, encontrei a Quinta Sinfonia de Beethoven, animada de forma idêntica e a provar que a união entre a boa música e o bom gosto da animação dá um resultado fantástico.

sábado, 20 de junho de 2020

Quotidiano

Telemóvel numa mão, um pequeno saco na outra, vestido comprido, branco, a companhia de alguém, família ou amiga, que mais parece sua serviçal.
Retira o vestido, branco, e surgem três ou quatro tatuagens, nas pernas e nos braços, vistosas, coloridas, e um biquini, não branco, vermelho forte.
Acciona o telemóvel em direcção ao mar, fotografa ou filma, enquadrando o poiso. Uns saltinhos a caminho da água, a companheira atrás, que fria, retira o pé, faz marcha-atrás, vira as costas ao azul esverdeado e à calmaria que o mar hoje nos entregava. 
O mar convida a entrar, calmo, bandeira verde, coisa estranha, sem as ondas do costume e com um sol radioso, sem nuvens nem nevoeiro nem sequer a nortada costumeira.
A mão disponível não larga o telemóvel. Ajeita o cabelo, faz pose, alisa o cabelo, faz pose, alinda-se , sorri, faz boquinhas, trejeitos, dobra-se, ergue-se, e o dedo frenético fixa o registo, para a posteridade, dos momentos "inesquecíveis".
Chama a companheira, dá-lhe o telefone e principia o desfile. Um passo para a frente, tomba a cabeça, segura o cabelo, levanta a perna, finge entrar no mar, mãos para cima, agora na cintura, espreita o mar, vira-lhe as costas, mexe na areia, segura os joelhos, agora a anca, mais uma volta, mais um pulinho, água não, só a fingir, e o mar espreita, tranquilo, esperando que a sereia entre.
Não entrou, mas as fotos hão-de ser "postadas" e registarem, para a posteridade, que foi uma grande manhã de praia ... sem banho. C'os diabos, a água está tão fria ... nem sei como é que aguentam!

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Carlos Ruiz Zafon

Chegou cá a casa nos primeiros anos do século XXI, com A sombra do vento. Vieram depois O jogo do anjo, O príncipe da neblina, O prisioneiro do céu, O palácio da meia-noite, As luzes de Setembro e O labirinto dos espíritos. Marina foi o último que li, mas não pertence ao acervo da "biblioteca".
Já não haverá mais. O grande escritor catalão morreu hoje, aos 55 anos, e, espero eu, que os seus livros não façam parte do Cemitério dos livros esquecidos.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Música popular

Partiu há três meses e, se já pouco era ouvido, desapareceu completamente dos meios de difusão pública.
Para mim continua a ser um dos grandes autores da música portuguesa, a quem ouço há cerca de 50 anos e a quem volto sempre com enorme prazer, como foi o caso de hoje, sugerido pelos automatismos dos meus arquivos digitais. Uma música tradicional, pouco conhecida, do álbum Cantos da borda d'água, de 1984.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Poesia racismo

Uma cabeça contra umas pedras bicudas

O meu patrão era taxeiro 
e eu moleque do seu bebé
chamado Constantino o tal bebé
e o patrão Machado
e ela D. Maria
ele era ateu
e muito vinhateiro
e ainda boxeur com os criados
um dos adversários sou eu
com o vencimento de vinte e cinco
com tanto trabalho que tinha
brincar com o menino branco
e ainda com o patrão em socos
socos só dele
eu sem me defender
sangue pelo nariz
sapatos nas costelas
eu caindo
assim nem vencia o tal Machado
este sou eu?
perguntava-me eu próprio
que recebo socos de um ser humano?
não devo ser, 
quando eu caía
este patrão tinha festa
lá no coração
pois era campião
dum K.O. falso
com este patrão
muito sofri
na avenida J. Serrão
em 1949
tanto levei
e tanto sangue saía
e criou-me um câncro
nas minhas unhas
veneno na língua
das dores dele
vivi doente
sem remédio, sofri
pois preto não precisa de remédio
dizia o senhor
autor do boxe.

terça-feira, 16 de junho de 2020

O jeito para línguas

Eram três jovens alunos da Escola, que todos os dias se deslocavam do Bombarral, onde residiam, para frequentarem as aulas nas Caldas. Eram cerca de dezoito quilómetros percorridos no ronceiro comboio do Oeste, apanhado bem cedo, depois de um périplo pelas ruas da vila até à estação da CP.
Naquele dia, a volta que precedia a chegada à estação foi mais longa e passou pelo Largo principal da urbe, onde se depararam com um casal de franceses, necessitado de ajuda para prosseguir o seu caminho, souberam depois, rumo à Nazaré.
Parado no meio da via, não causando, na época, qualquer estorvo ao diminuto trânsito, mas impressionando os olhos dos da terra, um carro vistoso, enorme e brilhante (seria talvez um "boca-de-sapo", mas nenhum deles conseguiu confirmar). 
Na mão do homem um mapa, onde era apontada a Nazaré e, por gestos, os dois cônjuges procuravam indagar o caminho da saída, perante a ausência de qualquer sinalética que fizesse luz. Os interlocutores eram dois ou três adultos, que não conseguiam entender patavina do que pretendiam aqueles seres vestidos de forma meio estranha e que, ainda por cima, falavam uma língua que nenhum deles entendia.
A aproximação dos três jovens foi a salvação ... c'os diabos, três jovens, ainda por cima estudantes nas Caldas (!), saberiam resolver o problema do entendimento e ajudar os franceses.
E assim aconteceu.
Os três já detinham alguns conhecimentos da língua francesa e, com facilidade, perceberam que o problema era o caminho de saída rumo à Nazaré. O L., mais afoito, conseguiu fazer-se entender e, de imediato e, para espanto dos adultos, os três entraram no belo automóvel, iniciando a viagem que, para eles, terminaria em Caldas de "La Reine", e, para os franceses, à custa das precisas indicações dos jovens, culminaria, por certo, num belo banho de mar na Nazaré ou na deslumbrante paisagem do Sítio.
Na viatura, de luxo, a conversa resumiu-se, diz quem participou, a monocórdicos "oui", "non", "à droite", "à gauche", até à Praça da República, em pleno centro das Caldas.
E aqui surgiu a grande dificuldade!
Era necessário transmitir aos franceses que chegara a hora de parar "la voiture", que a hora das aulas se aproximava e que nenhum dos três estava interessado em prosseguir até à Nazaré e qual o caminho que deveriam seguir.
Em vão, cada um buscava a frase necessária, o "abre-te Sésamo que parasse o carro", "o valor de xis desta difícil equação".
O nervosismo e a falta de conhecimentos entaramelavam a língua e a frase, quando parecia quase, quase a chegar, fugia num ápice.
Até que ... "nous ficarrons ici"!
Os franceses entenderam, pararam "la voiture", esmeraram-se em "merci, merci beaucoup" e "les élèves" encaminharam-se a passos rápidos para a escola, onde fizeram jus à sua capacidade de explanação, para espanto e gáudio dos privilegiados que a ouviram.
A aventura foi de tal maneira glosada e gozada que o pobre coitado, que tinha resolvido o problema, foi durante bastante tempo massacrado com o "ficarrons".