quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Tempo

Falar do tempo que faz, fez ou vai fazer, foi sempre o escape para mudar o rumo de uma conversa que enfastia ou a chave para abrir um diálogo que se afigura difícil de iniciar.

Todos temos opinião sobre o que vai acontecer, tenhamos ouvido o Boletim Meteorológico ou apenas olhado para o céu, azul, cinzento ou estrelado.

- Hoje está um dia lindo. Será que amanhã também estará assim?

- Hum! Há ali umas nuvenzitas ao fundo ...

- Mas não chove. Talvez se levante o vento e eu não gosto nada de frio.

- Não acho. Só se mudar. Está suão e daí só vem calor.

- Pois. Quando Deus queria, até do norte  chovia.

- Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.

- Ninguém controla a natureza e ainda bem. 

 - Muda tudo de repente. Não viste a semana passada. Estava tão bom e, de um momento para o outro, foi aquela água toda.

Está feita a conversa, fiada, delirante, educativa e substancialmente enriquecedora para os interlocutores. O obrigatório acontece, está cumprido o ritual, amanhã se verá, mas ninguém reivindicará  a sua sapiência de o ter antecipado.

E se chove? Não falharei se disser sempre que sim ... em algum lugar do mundo.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Libertinagem

Leio o Expresso desde o número 1, que saiu em Janeiro de 1973. Desde esse longínquo ano em que ingressei no serviço militar obrigatório, não devo ter falhado a sua compra meia dúzia de vezes. Semanas houve em que, por ausência, juntei dois ou três exemplares, para respeitar o compromisso junto de quem mo guardava religiosamente. Ainda hoje, ao sábado, o meu saco aguarda que eu apareça, já não no mesmo sítio, entretanto encerrado, mas com a mesma "religiosidade".

Muitos dos que hoje nele escrevem ainda não tinham nascido, o que não me dá nenhum direito especial nem sequer abona muito à minha sanidade.

Esta semana o Expresso trouxe a habitual entrevista de "final de praia" com o Primeiro-Ministro, António Costa, que li com toda a atenção e longe de imaginar que, afinal, aquilo que deveria ser analisado e comentado se esvaiu por entre as garras de uma pulhice.

Custou-me. Saber que alguém do "meu" jornal fez a canalhice de divulgar uma "conversa" na qual, em off, António Costa desabafa, apelidando de cobardes os médicos que se terão recusado a prestar assistência aos utentes do Lar de Reguengos de Monsaraz é baixo, muito baixo.

Numa época em que os predadores e pescadores de escândalos estão sempre disponíveis para inundar  com "notícias diabólicas" pretensos jornais, televisões e redes sociais, não levou muito tempo a haver uma difusão generalizada da "actualidade" e do "crime".

O Expresso foi sempre, e assim tem de continuar, a imagem da credibilidade das notícias, da diversidade de opiniões, da liberdade, numa palavra.

Espero que o "meu" jornal averigue quem foi o bufo e lhe dê a oportunidade de ir "pregar para outra freguesia", onde o jornalismo sério esteja ausente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Palavras bonitas

Não vou a Lisboa desde Fevereiro e é dessa ida a última vez que subi a Calçada do Carriche. Em tempos idos e com uma configuração muitíssimo mais apertada, era o caminho utilizado para entrar na capital indo do Oeste.

A memória tem destas coisas e a associação foi imediata com esta pérola, escrita há largos anos por um grande poeta, e sempre actual. Lisboa (e o mundo) ainda mantém muitas Luísas que, diariamente, sobem a calçada.

CALÇADA DE CARRICHE

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada, 
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe
sobe que sobe
sobe a calçada.

Luísa é nova, 
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada, 
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa, 
Luísa sobe,
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama, 
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga, 
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe, 
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Poesias completas
António Gedeão
Portugália (1975)

sábado, 22 de agosto de 2020

SURPRESA (ou talvez não)

De acordo com as notícias de ontem, na praia, a PSP anda meio escondida pela cidade, não se mostrando ao cidadão que, eventualmente, transgride, e debitando as multas sem contemplação, enviando-as pelo correio.

Se já eram conhecidos relatos de multas por estacionamento indevido, passadas pelo agente que passa de mota e anota, na memória, a matrícula do veículo transgressor, surge agora a nova de que a não paragem num cruzamento com visibilidade e pouco movimento mas dotado de um sinal STOP, deu uma cartinha com um "prémio" de 120,00 € e o registo de pontos na carta de condução. Do polícia fiscalizador e observador da infracção nem rasto.

A PSP é necessária e fundamental para assegurar o cumprimento das regras mas, como em tudo, a sua actuação deve primar pelo bom senso, regra que, não estando na lei, é imperiosa nas relações em sociedade.

Atirar a pedra e esconder a mão é feio. Mandar a pedra pelo correio sem qualquer conversa com o prevaricador é perder a dignidade numa função tão nobre quanto necessária.

Ou será que o esforço formativo é agora canalizado para a escrita nas redes sociais e se perdeu a capacidade de dialogar de viva voz?

As entidades fiscalizadoras da actuação dos cidadãos têm por dever supremo fazer cumprir a lei, de forma tempestiva e coerente, usando o diálogo como profilaxia de infracções futuras. Não me passa pela cabeça que, um dia destes, alguém que não goste de mim ou seja um pressuroso defensor da lei, possa ir dizer ao polícia conhecido que estive mal estacionado ou não parei no STOP e que, em consequência, me apareça na caixa do correio a multa respectiva. 


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Quotidiano

Ágil, subiu o muro e correu para a relva. O barulho do estore a abrir tolheu-lhe o passo. Escondeu-se, atento a tudo quanto se passava à sua volta. A presença de um humano à janela incomodou-o ainda mais e fê-lo encolher até deixar de ser visível. Os arbustos garantem um bom esconderijo.

O destino, claro, era o WC verde, mas os velhos levantam-se cedo e contrariam as vontades, por mais naturais que sejam. 

Daí a pouco, não resisti. Um espreitar de "cusco" e, pasme-se, já lá estava o presente matinal. O autor tinha desaparecido sem esperar pelos agradecimentos.

Aqui há gato!? Não, houve!

A mangueira fez o trabalho de remoção, a relva riu-se e comentou para si, num sorriso verdejante: estão tontos! Choveu tanto esta noite e já me estão a regar de novo ...

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Palavras bonitas

Nicolau Santos, jornalista e poeta, vem declamando quase diariamente, no Instagram, versos de diversos autores, na sua grande maioria portugueses. Sou "visita", ouço com muito agrado alguns que já conhecia e muitos outros que são novidade. São sempre momentos agradáveis, quer pelos poemas quer pela qualidade da voz que os recita.

Hoje ouvi, de Fernando Assis Pacheco, um belo poema sobre o desaparecimento de Ruy Belo, outro grande poeta, natural de aqui bem perto - S. João da Ribeira.

Tenho aquele livro, disse para mim.

Fui à estante e lá estava ele.

PRESO POLÍTICO

1

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite são iguais por dentro.
Não há papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros tão tranquila;
tão tranquila que já nem desespera
de ser apenas voz, não uma guerra.

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
Não há papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta mão estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que farás da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
São de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade
Não me esqueças, amigo, não me esqueças.
                                                              1966
A musa irregular
Fernando Assis Pacheco
Edições Asa (1997)

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Ofensivo

Apetecia-me escrever que é imoral, absurdo, loucura, insensatez, vergonha, disparate, parvoíce, ofensa, e mais todos os adjectivos possíveis de aplicar ao "exílio" do ex-rei de Espanha nos Emirados Árabes Unidos, acomodado numa suite que custa "apenas" 11.000 Euros por noite. Uma grande parte da população mundial não consegue ganhar isso num ano. 

Situações como esta não são muito comuns neste espaço, mas há coisas que ultrapassam os limites e a capacidade de entendimento, por mais liberal e desligado que se seja. 

Interrogo-me como foi elaborado o estudo económico aquando da construção dum hotel deste nível. Os autores devem ter "pescado à linha" os potenciais clientes, garantindo, à partida, a sua presença e, desta forma, a rentabilidade do investimento. O estudo estendeu-se, pela certa, ao mundo inteiro e criou logo expectativas aos que foram identificados e alertados para o que de fenomenal aí vinha. A chatice é que, agora, toda essa gente fica impedida de usufruir da suite, ocupada por tempo indeterminado e sem data provável para a reserva.

Não deve ser nada fácil lidar com o sonho de dormir numa cama pela certa com lençóis de ouro, ou de penas animadas, para além de companhia incluída, esfregação das costas, exercício físico com suadoiro, refeições de carapaus alimados e petingas de escabeche, e, por decisão de um caprichoso monarca aposentado, não lhe ter acesso. 

Criada esta situação, corre-se o risco de as depressões aumentarem exponencialmente e trazerem mais preocupações para os SNS de cada país.

Esta gente com muito dinheiro tem privações que não lembram ao diabo nem ao comum dos mortais e são, por isso, fonte de preocupação de todos.

Percebi, agora, porque é que o homem não veio para Cascais. Não há, naquela zona, um hotel com a dignidade que ele merece. 

Talvez se possa arranjar um cantinho na Cova da Moura, com vista para o Tejo e para o Castelo, ou no Bairro do Aleixo, mirando o Douro e a Torre dos Clérigos.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Barbeiro

Sempre fui ao barbeiro, mas agora, quando preciso de cortar o cabelo, vou à "Barber Shop". O homem é o mesmo, o sítio é o mesmo, as tesouras iguais, as máquinas e o secador, a toalha e o resto não tiveram qualquer alteração, mas soa melhor, e é mais chique: vou à "Barber Shop", que já tem uma coluna à porta, com luzes a rodar de cima para baixo, ou será de baixo para cima?

Marcação efectuada via telefone, como acontece desde há alguns meses. Pude escolher a hora e optei pelas cinco da tarde, não para tomar chá, mas por ter adivinhado uma manhã de sonho, como aconteceu. A tarde também deve ter sido excelente, como se adivinhava quando de lá saí. Continuo a preferir a primeira parte do dia, correndo sempre o risco de o sol estar ausente, por atraso, e, muitas vezes, por falta de comparência. Não foi o caso de hoje. Quando o interior não está a "queimar", o oeste fica sem nevoeiro e com temperatura óptima.

- Boa tarde. Vamos ao costume?

- Pode cortar mais um pouco, para não demorar a secar, que é tempo de praia. Veja lá se hoje consegue cortar os brancos e deixar os pretos. Das outras vezes, isso nunca acontece. Com tantas mudanças, talvez seja possível ...

- Nem pense. Ficava com tão poucos que a cabeça torrava no sol da Foz.

Não há mais clientes. O seguinte só chegará depois de eu ter saído e de tudo ser desinfectado. Ao contrário do que acontecia antes, não há conversas com terceiros, não há jornais na mesa, o único interlocutor é o homem da tesoura, com o ruído de fundo da televisão.

Falámos do Benfica, do futebol sem público, do Jesus e do Cavani, do Bayern e dos oito ao Barcelona, dos cinco do Inter e dos cabelos brancos, que são cada vez mais.

- Dê-se por satisfeito. Olhe que há muita gente que nem brancos tem.

E, como sempre, o barbeiro tem razão, perdão, "the man of Barber Shop". 

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Palavras bonitas

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
ao luar e ao sonho, na estrada deserta.
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
mas quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida ...
(...)

Poesias de Álvaro de Campos
Obras completas de Fernando Pessoa
Edições Ática (1980)