sábado, 5 de setembro de 2020

Adágios

Num dia de almoço plebeu, no qual (quase) todos puxaram a brasa à sua sardinha, conviveram contando estórias, manjaram batatas, pimentos e tomates, tudo regado a contento e terminado com alguns "comprimidos" tomados à colherada e fundamentais para o progresso da diabetes, meia dúzia de ditados populares ilustradores da sabedoria da experiência.

Quem porfia mata caça

Grão a grão enche a galinha o papo

Quem muito manduca, pouco trabuca

Ovelha que berra, bocada que perde

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura

Quem tudo quer tudo perde 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Palavras bonitas

DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO

Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.

De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse, é consuetudinário.

O sol nas noites e o luar nos dias II
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Jogo do ringue

Surgiu de um saco de praia. Era uma "roda" de borracha, vermelha, que todos identificaram de imediato:

          - Isso é um ringue!

E os sexagenários abriram os sorrisos, fizeram comentários, recordaram aventuras e ... foram jogar.
Não já com a perfeição de antigamente, mas cumprindo o ditado de que "quem sabe nunca esquece".
Faltou a marcação do campo, a distribuição dos jogadores por duas equipas, o "mata". Sobrou a vontade, o estilo, a técnica e as recordações que nos vão alimentando no intervalo dos banhos naquela água gelada que, como diz um dos habituais, "há-de fazer bem a qualquer coisa".

Chegado a casa, fui consultar o "dicionário" que tudo tem e para cuja consulta nem é necessário saber a ordem alfabética. "Googlei" jogo do ringue e, entre outras informações "preciosas", surgiu-me um vídeo do Mindelo, gravado em 2011. Concluí: em Cabo Verde os jogadores não são sexagenários, movimentam-se sem dificuldade, interrompem o jogo para que os carros e outros elementos perturbadores passem, correm muito e discutem outro tanto. Os sexagenários já só fingem ...

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Bilhete de Identidade

- Levas vinte escudos, que chega e sobra. O homem vai dizer que não tem troco e tu respondes que vais trocar à loja.

Dito e feito. Era a primeira vez que, sozinho, ia tratar da renovação do bilhete de identidade. O homem tinha os cabelos todos brancos, estava atrás de um grande balcão de madeira castanha, vestia um fato cinzento e usava umas mangas pretas por cima das do casaco. Não havia mais ninguém na sala.

- Bom dia. Venho renovar o meu bilhete de identidade, disse eu, estendendo o antigo, que iria caducar em breve.

Pegou no bilhete, mirou, remirou e, do alto da sua arrogância, despejou:

- Espera.

Se a timidez e o receio já eram grandes, o medo da ordem provinda de tal figura acentuou-se. Metia respeito ao falar, gritava, como se fosse polícia e tivesse à sua frente um criminoso. Era o "dono" da loja.

- Chega cá!

Tinha saído de trás do balcão e aproximou-se da craveira onde, percebi, me iria medir a altura. Eu já era grande, pensava, mas não sabia ao certo quanto media.

- Encosta bem as costas.

A peça de madeira que iria assinalar a altura na fita marcada, foi solta e caiu sobre a cabeça, dura, do miúdo que eu era. Não doeu muito, mas não foi meiga. Anotou no papel que trazia, usando um lápis que tinha nascido nos dias pequenos ou já tinha sofrido muitas aparadelas. Não fez comentários nem me disse a altura.

- As fotografias?

- Estão aqui,  senhor Garcias.

De novo atrás do balcão, coloca uma enorme caixa em cima, abre a tampa, retira o rolo e mancha a pedra de tinta bem preta. Pega no meu indicador direito sem dizer palavra, tinge-o de preto e, a seguir, fixa a imagem em dois papéis distintos. Um era o impresso que, depois de preenchido e plastificado em Lisboa, haveria de ser o meu novo bilhete de identidade, o outro deveria ser destinado a arquivo, para o que desse e viesse. 

Preencheu o papel que substituiria o velho bilhete, já guardado, e que iria servir para efectuar o levantamento do novo daí a 15 dias ou um mês. Estava concluído o trabalho, só faltava pagar. E tinha demorado pouco mais de meia hora. Maravilha!

- São dezassete e quinhentos.

Estendi a nota de vinte Santo António, que o meu pai me tinha dado. Recolheu a nota, simulou olhar para a gaveta e

- Não tenho troco.

- Eu vou ali fora, à loja, e troco.

O olhar fulminante acompanhou o devolver da nota, atirada com violência.

Fui à tasca do Tição e pedi, por favor, para me trocarem a nota, para pagar no Registo Civil.

- O homem não tem troco, não é? É o costume. Ele queria era ficar com o troco. Foste esperto.

Não fui nada. O aviso do meu pai foi precioso e determinante.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Dias de anos

Desde 1975 que não trabalho no meu dia de anos. Agora, que a situação é de "férias permanentes", nem seria necessário o feriado, mas é importante que ele se mantenha para sempre.

A liberdade não tem preço, deve ser sempre comemorada por todas as razões e ainda por eu ter feito 22 anos no seu dia.

Já os meus filhos não têm a mesma sorte. Nasceram ambos em dias "normais" e, por isso, raramente têm direito à folga no seu trabalho.

Hoje o filho faz 39 anos e nem oportunidade tem de receber os carinhos da família, isolado que está em estágio "pandémico" e rigoroso. Os parabéns são virtuais da família real, e presenciais da outra "família" onde está integrado - a selecção nacional de futebol, em estágio para os próximos compromissos da Taça das Nações (Croácia e Suécia).

Se vencerem os dois encontros, como se deseja e espera, terá valido a pena, uma vez mais, o sacrifício da ausência física.

Cá estaremos todos para as comemorações, com atraso, mas com o mesmo entusiasmo.

domingo, 30 de agosto de 2020

Educação e limpeza

 Podia ter sido mais uma, para que a média, sempre tão querida, ficasse certa. 

O telemóvel, que serve para tudo, até para telefonar, marcou 1.700 metros percorridos e a mente contou 16 máscaras Covid no chão, com a natural companhia de sacos de plástico, papéis, luvas, etc.. Não andei em nenhuma lixeira licenciada, antes numa estrada nacional ou municipal, que circunda a "minha" praia da Foz. Não fui demasiado atento ao que me surgia à frente dos pés, havendo por ali paisagens bem mais interessantes. Admito, por isso, que a contagem peque, e muito, por defeito. Em média, a cada 100 metros aparece uma máscara e algumas estão tão bem colocadas que se vislumbra o cuidado com que foram ali depositadas. 

É obra! Dramático ou patético?

Estamos longe de ter um comportamento cívico capaz, apesar de, se perguntados, arrisco a dizer que todos responderão que o têm. Talvez a geração dos meus netos corrija, se não prestar atenção aos exemplos dos seus mais velhos.

E nem imagino quantas cuspidelas estarão na calçada! "Penas que não se vêem, não se sentem."

Vão começar, agora, a multar as "beatas", não faço ideia como, mas a polícia deve saber. Talvez com operações Stop ou gente "escondida" a vigiar.

E se apostassem nas campanhas de educação não haveria melhores resultados? As televisões podiam, e deviam, dar uma grande ajuda, e de forma simples: se as câmaras, em reportagem, em vez de focarem a cara dos "opinadores", focassem o chão que eles pisam, talvez resultasse.

sábado, 29 de agosto de 2020

(a)Normalmente

Numa manhã de muito vento e após ter terminado o livro de Teresa Veiga chegado esta semana (Cidade Infecta), dou por mim a escrever umas notas no telemóvel, em vez do lápis Viarco que habitualmente utilizo. O passeio à beira oceano com regresso pelo lado da lagoa a isso levou.

O "novo normal", como lhe chamam os grandes opinativos, talvez seja responsável por esta alteração de hábito ou, para parecer muito "avant la lettre", a utilização integral das novas tecnologias e a dispensa do que me acompanhou sempre. 

Na volta pela lagoa, mais abrigada da nortada e com bastantes veraneantes, dou por mim a olhar e a estranhar um grande grupo, "acampado" na areia e a regalar-se com o sol. Que grande ajuntamento! São da mesma família, para estarem assim tão juntinhos? Já tudo se estranha. Será a nova rotina? O comportamento dos outros, tão banal, já me parece esquisito? E os outros, acanham-se quando eu passo sem a distância determinada ou sem a máscara protectora? A recriminação dos comportamentos vai passar a regra? Deixaremos de tolerar as diferenças e a liberdade de cada um? Atingiremos a desfaçatez de passarmos a polícias cívicos uns dos outros? Regularemos tanto que as baias nos sufocarão? Tenho esperança que o bom senso prevaleça, que nos respeitemos dentro das diferenças, sem pensar que só o outro pode ter a "lepra" que não queremos para nós.

Nestas alturas, a memória rebusca e traz sempre ao de cima a frase do polícia cioso das suas obrigações, confrontando um grupo de jovens, no qual eu me incluía, e que tinha ido fazer uma visita nocturna a Peniche, aí pelos inícios da década de 70 do século passado, bem antes de a liberdade passar por aqui.

"São proibidos os grupos agrupados e mais que dois a andar parados".

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Rua Damasceno Monteiro

Ontem à noite li a crónica de Dulce Maria Cardoso, que a Visão publica na edição desta semana.

Começa assim: O mau feitio do sr. Adérito salvou o 47 da Rua Damasceno Monteiro, um bonito prédio de tabique e varandinhas de procissão, construído no princípio do século passado. (...)

Alto lá! Eu morei no primeiro andar deste prédio há meio século. E que recordações ele me traz. A tia - era assim que todos a tratávamos, embora não fosse tia de ninguém dos que lá viviam - era Gertrudes de sua graça e morava lá há muitos anos. O andar era enorme e a tia alugava quartos, com autorização do senhorio, naturalmente. Éramos 12, a dormir em quartos duplos e, nalguns casos, triplos, rapazes e raparigas, em quartos separados, como é óbvio. Havia estudantes, a maioria, militares, e trabalhadores da província que tinham o seu emprego na "aldeia grande". Lembro-me de um ser técnico na Siemens e outro nos Correios. Estes dois dormiam no mesmo quarto e tinham tratamento algo diferenciado, por serem mais velhos e, nos dois casos, com algum mau feitio. Eram os hóspedes mais antigos e nunca tinham recriminação pela hora de chegada, nem o banho cronometrado. Todos os outros eram brindados com chamadas de atenção, reprimendas, conselhos, sempre num tom maternal e cordato. 

A tia só levantava a voz para o marido, mecânico de profissão, ora por chegar tarde, ora por vir cedo, por trazer nódoas de óleo no fato-macaco, por não se ter descalçado à entrada, um fartote. Fanático pelo Benfica, o tio, João de seu nome, ao domingo extasiava-se. Saía de casa de manhã, cedo, e ia a pé até ao Estádio da Luz, onde passava o dia até ao final do jogo de seniores, quando o Benfica lá jogava. De manhã, via os juvenis e os juniores, almoçava o farnel que a tia lhe arranjava e voltava todo ufano, mesmo que o Benfica tivesse perdido. Falava "com a boca cheia de favas". "O Benfica jogou bem, teve foi azar". O boné vermelho e o cachecol do "glorioso" faziam parte da fatiota dominical, tal como o cabelo bem penteadinho e cheio de brilhantina. O quadro completava-se com um bigode preto, bem farfalhudo, mas sempre aparado.

Não tinham filhos. Em determinada altura, apareceu uma criança de 2/3 anos (já não me recordo bem), que passou a viver lá em casa, mimadinha pela tia por ser a filha que nunca tinha tido. Dificuldades da mãe, ausência de pai, necessidades de emigração, nunca soubemos bem por a tia não adiantar nada se a conversa ia por aí. Foi notícia de jornal alguns anos depois, mas isso fica para outra altura. 

Havia sempre café naquela casa. A cafeteira estava na mesa e a tia cuidava de a manter provisionada e com a bebida morna. Adorava que um qualquer de nós lhe fizesse companhia num "cafézinho das velhas", que bebia a toda a hora. Todavia, gostava muito mais que  a acompanhássemos a uma leitaria em Almirante Reis, onde o café, de máquina e tomado à mesa, era muito mais saboroso.

Se fosse um passeiozinho à Baixa, com um café e um pastel de nata na Central da Baixa, era "oiro sobre azul". E, às vezes, calhava-lhe: "Dá-me só um instante para eu me arranjar."

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Feira do Livro

Abriu hoje a Feira do Livro de Lisboa

Há muitos anos que não falho uma e lá me desloco pelo menos uma vez. Poucos ou muitos, trago livros recentes, mais antigos que me passaram na saída, outros que nem sequer conheço. Coscuvilhar os stands dá-me um prazer muito grande, mesmo que o sol não poupe as costas e obrigue a um gelado ou uma imperial para dar força à caminhada. O Parque Eduardo VII é um local fantástico para este evento, tal como já o era a Avenida da Liberdade, antigamente.

Embora não me seja fácil vencer a timidez endémica, muitas vezes contactei autores ao vivo, assisti a conversas, pedi autógrafos, que toda a gente gosta mas uma boa parte diz que não dá um passo para isso.

O Conselho de Ministros cá de casa ainda não tomou a decisão definitiva, mas todos os estudos apontam para, neste ano, se fazer "gazeta".

Fica-me a consolação que o malfadado vírus não me impede de ler e a net e os correios me garantem o abastecimento. Ainda ontem recebi dois livros, entre eles o novo de Teresa Veiga - Cidade infecta - que, por gentileza da Tinta da China, me chegou às mãos antes da data prevista para o seu lançamento (e com desconto).

Passe a imodéstia, não será por mim que as editoras, as livrarias e os autores perderão receitas mas, se as vendas já eram poucas, este ano deverão estar "pelas ruas da amargura".