sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Aprender sempre

Quase todos os dias me lembro de uma frase que ouvi, várias vezes, a um professor de há muitos anos, chamado Dragomir Knapic, natural da ex-Jugoslávia e refugiado em Portugal desde a 2ª. Guerra Mundial. Já deve ter partido há muito, porque, há mais de 40 anos, já não era jovem. Já por aqui falei nele e cada dia que passa vou confirmando quão verdadeira é a frase "quanto mais sei, maior é a minha ignorância". 

O meu amigo ADS presenteia-me, muitas vezes, utilizando esse novo modelo de carta sem envelope que se chama mail, com curiosidades, fotos, filmes, músicas. novidades, etc.. Hoje enviou-me um vídeo de uma canção napolitana, que ouvi pela primeira vez num "cartucho" na voz de Mário Lanza e que Luciano Pavarotti levou aos quatro cantos do mundo. Até aqui, nada de novo. Ó Sole Mio deve ser das músicas mais conhecidas em todo o mundo. Todavia, esta trazia um instrumento para mim novo e que, afinal, já é centenário.

Chama-se THEREMIN e é tocado sem ser tocado!

Fui à "central do esclarecimento" chamada Google e encontrei muitos tópicos para esclarecer a minha ignorância e uma "aula" oferecida pela Antena 3, que pode ser vista e ouvida aqui. Procurei, também, saber alguma coisa sobre a intérprete do Theremin que o vídeo mostrava e a "central" do costume esclareceu-me que KATICA ILLÉNYI é uma violinista, cantora, bailarina e tocadora de Theremin, nascida na Hungria em 1968.

Deixo o acesso ao Ó Sole Mio, que pode ser ouvido utilizando este link e, para demonstrar que há Theremin em muitos sítios (agora já sei!), a área da ópera cómica Gianni Schicci, de Puccini, O Mio Babbino Caro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Memória

As memórias da infância e juventude são hoje bem mais claras do que aquilo que fiz de manhã. De acordo com o que dizem os estudiosos, é normal que o "computador" pessoal despreze o que aconteceu há pouco e privilegie aquilo que tem anos esquecidos, já não tem jeito nenhum, poucos se lembram e, para a grande maioria, é uma estucha perfeitamente dispensável. Também diz quem sabe que é comum fazer ligações entre o que acontece no momento e coisas passadas e arrumadas.

O Prémio Nobel da Literatura de 2020 foi hoje atribuído a uma poeta americana - LOUISE GLUCK - que não conhecia e continuo a não conhecer, por nunca ter lido nada por ela escrito. Talvez por ter sido escolhida a poesia, veio-me à memória, não a frase batida do Sérgio Godinho, mas a Balada da Neve, de Augusto Gil, que decorei há muitos, muitos anos e ainda permanece, vejam só, na primeira "gaveta do arquivo" memorial. E, diga-se de passagem, nesse tempo eu mal sabia o que era nevar e nunca tinha visto sequer uns farrapitos ...

BALADA DA NEVE

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho ...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria ...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho ...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança ...
E descalcinhos, doridos ...
a neve deixa ainda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil (1873-1929)

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Quotidiano

Já não íamos ao cinema, ou a qualquer outro espectáculo, há mais de seis meses. A vinda do filme "O ano da morte de Ricardo Reis", de João Botelho, a uma das salas do La Vie, decidiu-nos. Tínhamos lido o livro, tínhamos visto a peça de teatro, fantástica, encenada para A Barraca por Hélder Martins da Costa, era imperioso não faltar ao filme.

- Vamos na terça-feira, à sessão da tarde. Não deve haver muita gente, depois do feriado.

A sessão começava às seis e vinte mas, à cautela, às cinco horas estávamos na bilheteira. A sala é pequena e, com as restrições existentes, a lotação deveria ser de apenas metade da normal. Preocupações de idoso ...

- Não vêm cá desde que começou a pandemia, certo?

- Sim!?

- Nós agora não temos lugares marcados. Pedimos às pessoas que deixem uma ou duas cadeiras vagas, atrás e ao lado. E também não temos intervalo, para evitar que as pessoas se juntem.

- Está bem. E já venderam muitos bilhetes?

- São os senhores os primeiros.

A pressa, afinal, não tinha qualquer justificação. Efectuado o pagamento, com desconto sénior, fomos passear pelo centro comercial, para "matar" o tempo. Montras, uma exposição de arte africana, uma visita à Bertrand a espreitar as novidades,

- Não vais comprar livros agora ...

e lá subimos ao terceiro andar, quando faltava um quarto de hora para o início da sessão. A menina da bilheteira, simpática, veio ter connosco.

- Se quiserem, podem entrar. A sala já está higienizada e estão melhor sentados.

Agradecemos a preocupação e lá fomos. 

Sessão exclusiva! Nem sequer um outro espectador! A sessão foi igual à que seria se a lotação estivesse esgotada: houve publicidade, os thriller e, finalmente, surgiram as imagens a preto e branco, com uma música de fundo muito agradável. 

Já tinha decorrido mais de hora e meia. Concentrado nas imagens, nos diálogos e nos surgimentos do Pessoa, morto mas dialogante, mal ouvi o sussurro:

- Parece-me que deixei o fogão ligado ...

Não valia a pena pedir ao Pessoa para ir lá verificar. Estava ocupado com os amores do Ricardo Reis, confinado ao ecran e dali não saía. Arriscar era perigoso. E se fosse verdade?

A sala ficou apenas com as cadeiras, mas o filme deve ter chegado ao fim, pró boneco. O trânsito ainda fez perder algum tempo, com um passeante que estorvava, outro que circulava a dez à hora, mas nem cinco minutos depois os portões abriram-se.

- Que sorte! Está tudo esturricado, mas o tacho aguentou-se.

As ervilhas tinham-se transformado em bolinhas negras, mais parecendo chumbo para caça grossa. O cheiro era forte.

O resto do filme ficará para quando a televisão o transmitir.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Ontem e hoje

Ontem, a propósito de uma reportagem que vi num dos canais de televisão, lembrei-me de uma história contada pelo meu pai, que se teria passado no quartel das Caldas, quando este ainda estava nos pavilhões do Parque.

Contava ele que, num dia de prevenção rigorosa, em plena II Grande Guerra, estava de sentinela um soldado novo, a quem teriam sido dadas instruções rigorosas para não deixar entrar ninguém que não se apresentasse devidamente fardado.

- Não entras.

- Mas eu sou o comandante!

- Quero lá saber que sejas o comandante. Se queres entrar vai vestir-te ao menos à sargento!

A história serve apenas para enquadrar uma conversa (mais uma) que o Presidente da República teve com jornalistas, na qual explicava os incómodos causados por António Lobo Xavier ter testado positivo ao coronavírus, após a reunião do Conselho de Estado. E prosseguia, informando que tinha sido possível testar rapidamente todos os Conselheiros e garantindo que não havia ninguém infectado, incluindo a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que tinha estado presente na reunião.

E foi então que, do grupo de jornalistas, um infiltrado, de microfone na mão, perguntou:

- Você também foi privilegiado nisto?

Não se acredita mas, tal como no soldado, não basta dizer que se é e ter um microfone na mão. 

Se quer participar nas conferências, aprenda, ao menos, como se deve dirigir ao Presidente da República.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

República

Comemoram-se hoje 110 anos do dia em que José Relvas proclamou a República, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa.

A República, essa, não festeja o seu centésimo décimo aniversário, por ter sido forçada a uma hibernação, ou confinamento, de 48 anos e mais quase um mês. 

Neste período, esteve fechada a sete chaves, guardada pelos defensores da "lei e da ordem", comandados pelo "chefe supremo" que, "a bem da nação, dirigia tudo isto com mão de ferro, acolitado por muitos "olhos e ouvidos" que, ao que parece, estão a ressuscitar, saudosos desses tempos de "progresso e paz".

Viva a REPÚBLICA!

domingo, 4 de outubro de 2020

Memória

A minha irmã diz que eu sabia de cor este texto e que o teria decorado ainda antes de ir para a escola, ao lê-lo na sua companhia. 
Lembro-me bem dos bois do Jeirinhas mas claro que já não recordo o texto, se é que alguma vez o soube, como garante a minha mana, que não é mentirosa.
A Internet, que tem muitos defeitos, também é muito útil em algumas situações. E esta foi uma delas: como não tenho o livro da terceira classe - acho que era nesse que vinha - não havia sítio nenhum onde o encontrasse em letra de forma. "Googlei" e ei-lo, com ilustração e tudo:

OS BOIS TEIMOSOS

Tinha-se acabado a poda. As vides já estavam quase todas atadas em feixes, e era preciso levá-las para o pátio da casa porque a falta de lenha para o lume era grande por aqueles sítios, e podiam roubá-las de noite. O dono da vinha, que não podia largar a gente do serviço para ir buscar o carro, disse para o Manuel Jeirinhas, um rapazote dos seus catorze anos:

- Ó Jeirinhas, tu és capaz de ir a casa e meter os bois ao carro?

- Ora essa, patrão! Então não havia de ser? Pois já se vê que sou! 

- Então vai a casa num pulo, e traz o carro para levarmos as vides. Mas não te demores, que é quase noite. 

O moço  partiu a correr, muito contente com aquela prova de confiança que lhe dava seu amo. Chegou a casa, e foi um instante enquanto apôs os bois ao carro. Depois de tudo pronto, começou a chamá-los de aguilhada no ar; mas, com grande admiração sua, os bois não andavam! Passou a chamá-los pelos seus nomes, a ameaçá-los com a aguilhada, mas, qual história! - os animais não levantavam os canelos do chão. Entrou de praguejá-los em altos berros, de picá-los com o ferrão, e eles torciam-se, abanavam a cabeça, mas lá andar para a frente é que não havia meio.

O Jeirinhas, muito descoroçoado, começou a dizer mal da sua vida:

- Mas que teima será esta dos bois, que não querem andar? E o patrão que logo me recomendou que viesse num pulo! Como há-de ser isto agora?

De repente, teve uma inspiração:

- Já sei! Isto não é senão coisa de bruxedo!

Levantou-se de um salto, deitou a fralda da camisa para fora, e foi-se à cabeça dos bois, zurra-que-zurra, zurra-caturra, a esfregá-la com quanta força tinha, porque ouvira dizer que era aquilo remédio infalível para o mau olhado ...

Depois daquele trabalho todo, tornou a chamar os bois e a puxar por eles: mas nada! Se teimosos estavam antes, mais teimosos ficaram depois! O rapaz desanimou então de todo, e começou a chorar:

- Agora o patrão, se calhar, há-de dizer que eu dei cabo dos bois! Valha-me Deus Nosso Senhor!

Nisto, pôs-se a olhar muito sério para os bois, e disse: 

- Espera lá ... Este boi parece que puxava do outro lado ... E se eu trocasse os bois? ...

Dito e feito. Tirou os bois: mudou o da direita para a esquerda e o da esquerda para a direita, e tornou a apô-los ao carro. Os animais, assim que se viram nos lugares a que estavam acostumados, ó pernas para que vos quero! meteram por ali fora que foi um regalo!

O Jeirinhas compreendeu então que ele é que tinha embruxado os bois.

 

sábado, 3 de outubro de 2020

Memória

Ontem, por força de um vídeo enviado, lembrei-me do jogo do pião e recordei-o, sozinho, no quintal cá de casa. Hoje, à custa de ter lido que "um corvo crocitava no alto de uma bela árvore", recordei-me da fala dos animais, que aprendi na primária. Já não recordava o autor nem me lembro de o seu nome ser referido, mas descobri tratar-se de um poeta que viveu entre 1839 e 1896 e se chamava Pedro Diniz.

A memória, velha, tem destas coisas.

VOZES DOS ANIMAIS

Palram pega e papagaio                           Muge a vaca, berra o touro;          
E cacareja a galinha;                                 Grasna a rã; ruge o leão;               
Os ternos pombos arrulham;                   O gato mia; uiva o lobo;               
Geme a rola inocentinha.                         Também uiva e ladra o cão.          

Relincha o nobre cavalo;                          Regouga a sagaz raposa;
Os elefantes dão urros;                             (Bichinho muito matreiro)
A tímida ovelha bale;                                Nos ramos cantam as aves;
Zurrar é próprio dos burros.                     Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras                              O pardal, daninho aos campos,
O canto seu variar;                                    Não aprendeu a cantar;
Fazem às vezes gorjeios,                          Como os ratos e as doninhas,
Às vezes põem-se a chilrar.                      Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita;                             Chia a lebre; grasna o pato;           
Zune o mosquito enfadonho;                  Ouvem-se os porcos grunhir;        
A serpente no deserto                              Libando o suco das flores,            
Solta assobio medonho.                           Costuma a abelha zumbir.             

Bramam os tigres, as onças;                    A vitelinha dá berros;                          
Pia, pia o pintainho;                                 O cordeirinho, balidos:                        
Cucurica e canta o galo;                           O macaquinho dá guinchos;                
Late e gane o cachorrinho.                      A criancinha, vagidos.                       
                                                             
A fala foi dada ao homem, 
Rei dos outros animais.
Nos versos lidos acima,
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principais.                                     

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Jogo do pião

Embora o mundo esteja cheio de notícias, não me surgia nada de novo para registar no dia de hoje, em que a tempestade Alex avisou que vinha mas, felizmente, pouco por ela se deu aqui no Oeste. 

Já toda a gente falou da morte de Quino, que deixou a Mafalda sem pai; a contaminação de Trump e da sua "partenaire" é abertura de todos os telejornais mas não é assunto sobre o qual me dê vontade de escrevinhar; a desgraça que passou ontem por Alvalade e o "galo" que o Rio Ave teve também são assuntos para os comentadores sapientes e não para um leigo, ainda por cima provinciano.

Sem perder pitada da Volta a Portugal em bicicleta, que hoje chegou a Águeda e amanhã partirá daqui, espreitei um mail do meu amigo ADS, que me fez trazer à memória o jogar ao pião, parte integrante da minha meninice. Não tinha a perfeição dos jogadores do vídeo, mas dava-lhe um jeitito. Ainda hoje há um pião cá em casa, com "cordina" e tudo, pronto a ser lançado não já no chão de saibro mas no cimento liso. A técnica não é a que era, mas ainda consigo pô-lo a dançar e apanhá-lo para a mão, utilizando o polegar e o indicador com a destreza possível. Jogar "do ar à mão", isso não. É atrevimento que nem ouso experimentar, não vá o pião magoar-se, coitado. Também por cá não existe nenhum "pião das nicas", exemplar normalmente velho, que era utilizado para suportar as "ferroadas" dadas pelos parceiros de jogatina, quando se perdia, evitando, dessa forma, que o principal se degradasse.

Agora, a julgar pelo vídeo japonês, que não consigo aqui reproduzir, é tudo muito mais técnico e sofisticado, para espectador apreciar. Mas o meu pião lançado há pouco, fica aqui lindamente.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Livros

"ALA" que se faz tarde!

António Lobo Antunes tem mais um livro a chegar. Chama-se "Dicionário da linguagem das flores" e sairá no próximo dia 13 de Outubro. É mais um título de um autor de quem gosto muito e que escreve como ninguém.

Já encomendei e estou ansioso por perceber a linguagem das flores, ao jeito de Lobo Antunes. Em tempos idos, conheci um jardineiro que com elas falava e muito bem se entendia, a julgar pela beleza que o jardim onde trabalhava sempre evidenciava.

Comecei, como toda a gente do meu tempo, a comprar livros nas livrarias. Fui um "grande" cliente da Loja 107, enquanto existiu cá na cidade. A Isabel Castanheira era uma livreira de eleição, que sabia (e sabe) muito de livros e também da sua actividade. Encerrou as portas a tempo de evitar a decadência do negócio, pressionada pela "venda a metro" na concorrência das grandes superfícies. A Isabel foi para casa e nunca mais houve livrarias dignas desse nome nas Caldas. 

Não há nada que se compare a uma compra na livraria e não é necessário que seja a Lello, no Porto, ou a Bertrand do Chiado. O ritual de pegar no livro, ler a badana, a primeira página, a última, abrir uma à sorte, espreitar, ler duas ou três linhas, não tem explicação. E, depois de decidida a compra, percorrer as prateleiras, olhar de baixo para cima para ler a lombada, ver as novidades, o antigo, o que já se tem e o que se gostava de ter, tirar um ou outro, recolocá-lo no lugar ... e o tempo passa sem se dar por isso. Só percebe isto quem gosta de livros. Em papel, claro. 

Agora, na maior parte das vezes, faz-se a encomenda na Wook e aguarda-se que o carteiro toque uma ou duas vezes (como o outro) e nos entregue o embrulho, fazendo o comentário "são livros!?". Também tem ritual, mas não é a mesma coisa abrir a caixa e verificar se está tudo, a entrar numa casa cheia daquilo que se gosta.

Os tempos são outros, mas ler é cada vez mais importante!