quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Calamidade

Face à evolução, preocupante, do número de infectados e de óbitos resultantes desse vírus que nos bateu à porta e entrou sem ser convidado,  o Governo decidiu que o país passasse ao estado de calamidade, a partir das zero horas de hoje, com todas as restrições que isso implica e que já por cá passaram há uns meses.

Decidiu, também, propôr à Assembleia da República, a discussão de um diploma que torne obrigatório o uso de máscara em locais públicos e a instalação e utilização da aplicação Stayaway Covid. 

Estalou a polémica e com toda a razão. Porque "carga de água" se tem de recorrer à obrigação legal, com coimas e polícias a aplicar as ditas, se toda a população portuguesa é dotada de um civismo respeitador das liberdades, dos outros e das regras. Todos aprenderam em pequeninos como se deviam comportar e isso fica para toda a vida ...

Surgiu logo uma infinidade de gente preocupada com a violação da liberdade que o uso obrigatório de máscara pode causar, esquecendo-se que, em primeiro lugar estão as pessoas e a sua saúde, e que a minha liberdade termina quando colide (ou pode colidir) com a dos outros.

Tendo sempre presente o alto grau de civismo que constatamos todos os dias por este país fora, talvez seja de acrescentar à Lei a proibição de cuspir para o chão, de passear o cãozinho e deixar os excrementos para alguém limpar, ou de deitar lixo pela rua fora, incluindo as máscaras.

Lembrei-me destes exemplos mas, se procurar bem, encontrarei outros que poderiam dar excelentes spots televisivos bem mais interessantes do que o lixo de linguagem que, muitas vezes, por lá se ouve com grande destaque.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

FALU

A arte de rua chegou às Caldas e Bordalo II encerrou o festival de arte urbana denominado FALU. O conjunto de obras feitas no âmbito do festival passou a fazer parte do património cultural da cidade e a contribuir, de forma positiva, para a sua imagem.

Poder-se-á dizer que Bordalo voltou à cidade onde ainda tem uma grande e prestigiada fábrica de cerâmica - a Bordalo Pinheiro - , mas desta vez para utilizar materiais reciclados e muita imaginação.

A obra de Bordalo II é, de dia, espectacular. À noite, não me parece tão interessante, com cedências à luz artificial que talvez se dispensassem.

Ao final da manhã de hoje tentei perguntar a opinião ao lobo do "velho" Bordallo, que "vigia" a Praça 5 de Outubro. Irónico, foi lesto na resposta:

- Opinião é coisa que não tenhoO homónimo do meu criador colocou a obra tão longe e tão escondida que, daqui, nem a consigo ver quanto mais apreciar. Se me deixassem dar uma voltinha por aí, mas não, confinaram-me e não me autorizam sequer que desça daqui.


terça-feira, 13 de outubro de 2020

Coronavírus

Hoje não me apetece escrever, ou melhor, não me apetece fazer nada. Há dias assim, para quem pode ... e eu posso!

Escrever para quê? E porquê? E sobre?

Bom, à primeira pergunta a resposta é simples: para mim! Dá-me gozo, mas hoje a disposição não é grande.

Afiei o lápis (gosto de escrever com lápis bem afiado), peguei no papel, reutilizando aquele que só está escrito de um dos lados, e parei. Não com a perturbação da página em branco que só os grandes têm, mas com o cérebro parado pela falta de assunto, com tantos assuntos na primeira linha. Paradoxo!

Apenas uma nota para memória futura: o vírus não tem contemplações e infectou um terceiro elemento na selecção nacional de futebol. Amanhã há jogo com a Suécia e Cristiano Ronaldo, tal como aconteceu com José Fonte e Anthony Lopes, não irá jogar.

De acordo com os testes de hoje, todos os outros elementos estão negativos. Amanhã lá estarão todos e, entre eles, o meu filho, que fez "apenas" seis testes desde o início deste estágio, em nove dias.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Mais de mil

Sempre tive uma relação ambivalente com o número mil, talvez por três zeros, mesmo à direita, trazerem à lembrança os "zeros à esquerda" que por aí pululam. 

Recordo, na minha infância, um caderno de problemas de matemática chamado 1111. Continha, como o próprio nome indica, 1111 problemas para resolver, os quais, na opinião de quem mo emprestou, eram essenciais para enfrentar o exame de admissão. Lembro-me, também, da Lenda de El-Rei D. Sebastião, criada pelo Quarteto 1111, cantada por todos os jovens daquela época e algumas vezes com letra adaptada a circunstâncias outras, que não vêm agora à colação. A memória também me diz que, no início da vida laboral, ganhar mais de mil escudos mensais não era para todos, quando a grande maioria ainda ganhava à semana e muitos só nos dias em que o tempo deixava trabalhar. Mais tarde, quando chegou o Euro, ter um ordenado superior a mil dos ditos também não estava ao alcance de qualquer um.

Os carros iam à primeira revisão quando atingiam os mil quilómetros, sabendo-se que só a partir dessa ida ao mecânico se podia acelerar, sem limites que não os policiais. Percorrer mais de mil quilómetros era quase como ir ao infinito, quando para ir ao Porto era preciso um dia bem comprido e a distância eram só duzentos e cinquenta. E o mil-folhas era um bolo de que eu gostava muito, mas que o estômago hoje detesta.

Agora há mil razões para estar preocupado por, há cinco dias seguidos, (e mais virão), o número de infectados com este malfadado vírus, que nos veio visitar sem convite, ultrapassar (e muito) os mil ... e pôr o velho no covil.

domingo, 11 de outubro de 2020

Quotidiano

Mais velho que eu, demorou a reformar-se, saindo apenas aos setenta, quando já não lhe era permitido continuar. Há uns anos disse-me achar-se a ser "empurrado", mas não sairia.

- Sinto-me bem. Não lhes faço a vontade. E depois, o que vou fazer?

(R)Encontrei-o hoje, com algumas dificuldades de locomoção, um olhar meio triste apesar de a paisagem  estar belíssima. De máscara colocada, tivemos um breve diálogo, que a caminhada era para ser feita.

- Então como vai? Dá-se bem com a nova situação?

- Eu ainda trabalho, replicou de pronto. Não lá, é óbvio. Dedico-me à consultoria, de segunda a quinta. Só regresso ao casal à sexta-feira.

Mudei de assunto. O tempo está óptimo, a lagoa uma maravilha, não há vento, nem parece Outono, está com um excelente aspecto, e mais uma série de lugares comuns, trocados para "encher chouriços".

- Bom, vou andando. Os meus companheiros de caminhada já vão longe e não esperam pelo "velho". Prazer em vê-lo e até um domingo destes. Ao domingo de manhã, ando sempre por aqui.

E lá fui fazer a caminhada, que também posso fazer de segunda a sábado, "consultando" os astros para ver se chove ... 

sábado, 10 de outubro de 2020

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Aprender sempre

Quase todos os dias me lembro de uma frase que ouvi, várias vezes, a um professor de há muitos anos, chamado Dragomir Knapic, natural da ex-Jugoslávia e refugiado em Portugal desde a 2ª. Guerra Mundial. Já deve ter partido há muito, porque, há mais de 40 anos, já não era jovem. Já por aqui falei nele e cada dia que passa vou confirmando quão verdadeira é a frase "quanto mais sei, maior é a minha ignorância". 

O meu amigo ADS presenteia-me, muitas vezes, utilizando esse novo modelo de carta sem envelope que se chama mail, com curiosidades, fotos, filmes, músicas. novidades, etc.. Hoje enviou-me um vídeo de uma canção napolitana, que ouvi pela primeira vez num "cartucho" na voz de Mário Lanza e que Luciano Pavarotti levou aos quatro cantos do mundo. Até aqui, nada de novo. Ó Sole Mio deve ser das músicas mais conhecidas em todo o mundo. Todavia, esta trazia um instrumento para mim novo e que, afinal, já é centenário.

Chama-se THEREMIN e é tocado sem ser tocado!

Fui à "central do esclarecimento" chamada Google e encontrei muitos tópicos para esclarecer a minha ignorância e uma "aula" oferecida pela Antena 3, que pode ser vista e ouvida aqui. Procurei, também, saber alguma coisa sobre a intérprete do Theremin que o vídeo mostrava e a "central" do costume esclareceu-me que KATICA ILLÉNYI é uma violinista, cantora, bailarina e tocadora de Theremin, nascida na Hungria em 1968.

Deixo o acesso ao Ó Sole Mio, que pode ser ouvido utilizando este link e, para demonstrar que há Theremin em muitos sítios (agora já sei!), a área da ópera cómica Gianni Schicci, de Puccini, O Mio Babbino Caro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Memória

As memórias da infância e juventude são hoje bem mais claras do que aquilo que fiz de manhã. De acordo com o que dizem os estudiosos, é normal que o "computador" pessoal despreze o que aconteceu há pouco e privilegie aquilo que tem anos esquecidos, já não tem jeito nenhum, poucos se lembram e, para a grande maioria, é uma estucha perfeitamente dispensável. Também diz quem sabe que é comum fazer ligações entre o que acontece no momento e coisas passadas e arrumadas.

O Prémio Nobel da Literatura de 2020 foi hoje atribuído a uma poeta americana - LOUISE GLUCK - que não conhecia e continuo a não conhecer, por nunca ter lido nada por ela escrito. Talvez por ter sido escolhida a poesia, veio-me à memória, não a frase batida do Sérgio Godinho, mas a Balada da Neve, de Augusto Gil, que decorei há muitos, muitos anos e ainda permanece, vejam só, na primeira "gaveta do arquivo" memorial. E, diga-se de passagem, nesse tempo eu mal sabia o que era nevar e nunca tinha visto sequer uns farrapitos ...

BALADA DA NEVE

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho ...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria ...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho ...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança ...
E descalcinhos, doridos ...
a neve deixa ainda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil (1873-1929)

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Quotidiano

Já não íamos ao cinema, ou a qualquer outro espectáculo, há mais de seis meses. A vinda do filme "O ano da morte de Ricardo Reis", de João Botelho, a uma das salas do La Vie, decidiu-nos. Tínhamos lido o livro, tínhamos visto a peça de teatro, fantástica, encenada para A Barraca por Hélder Martins da Costa, era imperioso não faltar ao filme.

- Vamos na terça-feira, à sessão da tarde. Não deve haver muita gente, depois do feriado.

A sessão começava às seis e vinte mas, à cautela, às cinco horas estávamos na bilheteira. A sala é pequena e, com as restrições existentes, a lotação deveria ser de apenas metade da normal. Preocupações de idoso ...

- Não vêm cá desde que começou a pandemia, certo?

- Sim!?

- Nós agora não temos lugares marcados. Pedimos às pessoas que deixem uma ou duas cadeiras vagas, atrás e ao lado. E também não temos intervalo, para evitar que as pessoas se juntem.

- Está bem. E já venderam muitos bilhetes?

- São os senhores os primeiros.

A pressa, afinal, não tinha qualquer justificação. Efectuado o pagamento, com desconto sénior, fomos passear pelo centro comercial, para "matar" o tempo. Montras, uma exposição de arte africana, uma visita à Bertrand a espreitar as novidades,

- Não vais comprar livros agora ...

e lá subimos ao terceiro andar, quando faltava um quarto de hora para o início da sessão. A menina da bilheteira, simpática, veio ter connosco.

- Se quiserem, podem entrar. A sala já está higienizada e estão melhor sentados.

Agradecemos a preocupação e lá fomos. 

Sessão exclusiva! Nem sequer um outro espectador! A sessão foi igual à que seria se a lotação estivesse esgotada: houve publicidade, os thriller e, finalmente, surgiram as imagens a preto e branco, com uma música de fundo muito agradável. 

Já tinha decorrido mais de hora e meia. Concentrado nas imagens, nos diálogos e nos surgimentos do Pessoa, morto mas dialogante, mal ouvi o sussurro:

- Parece-me que deixei o fogão ligado ...

Não valia a pena pedir ao Pessoa para ir lá verificar. Estava ocupado com os amores do Ricardo Reis, confinado ao ecran e dali não saía. Arriscar era perigoso. E se fosse verdade?

A sala ficou apenas com as cadeiras, mas o filme deve ter chegado ao fim, pró boneco. O trânsito ainda fez perder algum tempo, com um passeante que estorvava, outro que circulava a dez à hora, mas nem cinco minutos depois os portões abriram-se.

- Que sorte! Está tudo esturricado, mas o tacho aguentou-se.

As ervilhas tinham-se transformado em bolinhas negras, mais parecendo chumbo para caça grossa. O cheiro era forte.

O resto do filme ficará para quando a televisão o transmitir.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Ontem e hoje

Ontem, a propósito de uma reportagem que vi num dos canais de televisão, lembrei-me de uma história contada pelo meu pai, que se teria passado no quartel das Caldas, quando este ainda estava nos pavilhões do Parque.

Contava ele que, num dia de prevenção rigorosa, em plena II Grande Guerra, estava de sentinela um soldado novo, a quem teriam sido dadas instruções rigorosas para não deixar entrar ninguém que não se apresentasse devidamente fardado.

- Não entras.

- Mas eu sou o comandante!

- Quero lá saber que sejas o comandante. Se queres entrar vai vestir-te ao menos à sargento!

A história serve apenas para enquadrar uma conversa (mais uma) que o Presidente da República teve com jornalistas, na qual explicava os incómodos causados por António Lobo Xavier ter testado positivo ao coronavírus, após a reunião do Conselho de Estado. E prosseguia, informando que tinha sido possível testar rapidamente todos os Conselheiros e garantindo que não havia ninguém infectado, incluindo a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que tinha estado presente na reunião.

E foi então que, do grupo de jornalistas, um infiltrado, de microfone na mão, perguntou:

- Você também foi privilegiado nisto?

Não se acredita mas, tal como no soldado, não basta dizer que se é e ter um microfone na mão. 

Se quer participar nas conferências, aprenda, ao menos, como se deve dirigir ao Presidente da República.