segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Visto e revisto

Estão os três "confinados" à mesa da esplanada. Fazem-lhe companhia dois cães, pequenos, a quem admoestam com frequência. Em cima da mesa estão, invariavelmente, três garrafas de cerveja, que vão sendo despejadas sem dificuldade e sem necessidade de copos. A manhã vai a meio. Conversam alto, embora o que dizem seja imperceptível para quem passa. Da voz, entaramelada pelo álcool e por outras substâncias, apenas se percebe, mal, os inúmeros "bué" e "tipo", que estão sempre a servir de muleta. 

Ela é a leader. Determina, manda, enerva-se. Dos três é a mais velha. Terá talvez 50 anos, julgo. Nasceu num bom berço mas perdeu-se, ou achou-se, quem sou eu para julgar. Por vezes, o trio ausenta-se durante uns tempos. Talvez o (pouco) dinheiro que devem ter desapareça. E o café vende cervejas, não as dá.

Raramente se vêem a comer. Alimentam-se da cerveja e do resto ...

domingo, 1 de novembro de 2020

Apetrechos

Guarda o que não presta e encontrarás o que te é preciso.

No poupar é que está o ganho.

Quem não inventa não é artista.


Tudo Reutilizado. Por este cesto já devem ter passado uns bons quilos de berbigão da lagoa, mantidos à tona por duas excelentes bóias.

sábado, 31 de outubro de 2020

Dia Mundial da Poupança

Hoje é o Dia Mundial da Poupança.

Tempos houve em que, no dia de hoje, havia um mealheiro de cerâmica, fabricado na Secla, para oferecer aos melhores clientes, com vista a estes irem poupando para o futuro dos filhos, colocando no recipiente, de vez em quando, uma moedinha. O objectivo era conseguir alguma poupança para abrir uma conta para a criança, lembrando sempre a entidade que lhe dava o "cofre".

Tal como agora, só conseguia encher o mealheiro quem tivesse alguma folga no orçamento, que lhe permitisse prescindir de uma moedinha de cinco, dez ou vinte cinco tostões. As moedas de cinco e de dez escudos eram mais bonitas, mal empregadas para serem escondidas, e suficientes para algumas compras já significativas. Outros tempos!

De manhã, no supermercado, meia dúzia de coisas custaram mais de cinquenta euros e a admiração foi quase nula. O cartão nem sente mas, nas contas dos tostões, foram mais de dez contos que lá ficaram!

Nem o mealheiro cheio de moedas chegava ...

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Mar sem fim

As ondas quebravam uma a uma

Eu estava só com a areia e com a espuma

Do mar que cantava só para mim. 

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andersen
Caminho

Não se desce nem se experimenta a água. Deve estar bem fria, para não variar. 

Olhar este mar e ouvir a sua música faz esquecer as notícias e o que elas transportam. É um privilégio poder dar um saltinho à Foz, apreciar esta maravilha, sem ninguém à volta, com apenas quatro ou cinco corajosos a apanhar sol como se fosse Agosto e dois ou três a tentar enganar os robalos que, com o mar tão forte, se põem a jeito e engolem um engodo saboroso. Pela boca morre o peixe ...

Confirma-se, também, que o mar continua a bater na rocha e o mexilhão, coitado, a sofrer as agruras das ondas sem ter por onde escapar. O que lhe vale (a ele, mexilhão) é ter a companhia das lapas, dos percebes, das algas e de tantos outros companheiros da desdita, para não se sentir discriminado, a pensar que o azar só a ele acontece. Como se pode ver, o mar não discrimina e bate em tudo o que lhe aparece pela frente, seja roto, nu, vestido, nobre ou plebeu, masculino ou feminino.

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ondas

A cada dia que passa somos surpreendidos com o desleixo, a incúria, a falta de educação e a estupidez de muita gente. São lugares comuns, ditos e escritos milhares de vezes, mas dão jeito para começar. Não se trata de convencimento da infalibilidade, longe disso, da perfeição absoluta ou qualquer outra manifestação de egocentrismo, antes a constatação de que continua a haver gente, e muita, que, de forma egoísta, se esquece que estamos a viver um período muito especial,  que teve, tem e terá consequências terríveis para todos, mesmo para aqueles que apregoam a sua (in)capacidade de resistir a tudo, só porque sim. Mantém-se viva a esperança de não ser preciso montar nenhum estado policial, que controle tudo e todos, porque esse estado ainda está na memória de muitos e não se deseja aos que nunca o experimentaram, mesmo aqueles que continuam a agir sem respeito pelos outros seus semelhantes.

De toda a gente que hoje foi ao Sítio da Nazaré para espreitar as ondas da Praia do Norte, quantos, antes de se deslocarem,  cuidaram de pensar em si próprios, nos seus e em todos os que estão ou estarão à sua volta? A julgar pela aparência, não devem ter sido muitos ...

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Escolhas

Enquanto se aguarda que o telefone toque a marcar a hora e o dia da vacina para contrariar a gripe, enquanto se assiste a uma discussão, sobre o Orçamento do Estado, tão agitada que até parece que se analisam certezas, enquanto os números "covidais" não param de subir, liga-se a televisão e ouve-se, a abrir os telejornais, a notícia de que hoje têm lugar as eleições para a direcção do Sport Lisboa e Benfica.

Não há dúvida que sou adepto do maior clube do mundo ... qualquer coisa que por lá aconteça, por mais irrelevante que seja, é notícia de abertura, de meio, de fecho e, sobretudo, de enorme relevo, por dela depender o bem-estar e a felicidade de todos os que por aqui vivem e dos que a diáspora mantém por esse mundo fora.

Se dúvidas houvera, ficaram esclarecidas: o acto eleitoral do Benfica está bem acima das previsões orçamentais, da zanga das "meninas" com o PM, do resultado das eleições dos Açores, ou das restrições que já estão em vigor e das que se aproximam.

Valha-nos S. Luís, S. João ou S. Rui (não sei se existe), porque deles depende o futuro do maravilhoso rectângulo, mais dos que nele vivem.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Livros lidos (ou em vias disso)

Uma língua não tem necessidade de formatação obrigatória e só ganha com a diversidade.

(...) eu sei que muita gente diz que o camarada Jesus vive nos céus e que o paraíso e mesmo o inferno ficam lá em cima, mas para mim, assim de repente a olhar

aquela belezura

como o meu pai gosta de dizer

para mim o paraíso ficava dentro daquela caixa com cheiro de mil chocolates lindos que nem derretiam os formatos de conchas do mar, búzios, caranguejos, cores que imitavam o bolo mármore da tia Maria, creme a fingir que era castanho,  preto a  misturar-se com  um branco cor  de leite com  café e o cheiro também, todos de boca estávamos só com os olhos bem abertos que até o meu pai e a minha mãe riram quando eu a e mana Tchi, a olhar aquela quantidade de cores e cheiros, tivémos que iniciar de bater as palmas como se fosse comício do 1º de maio, e a Yala também nos imitou

- viva os camaradas vizinhos franceses!

eu gritei

- viva! 

todos responderam

- viva essa caixa de chocolate

- viva!

- obrigado, camaradas

eu imitei um camarada que sempre terminava os comícios com essa frase 

quando o pai deu o sinal de largada, depois de brindarmos àquela enorme caixa que tinha aparecido tão bem vinda no nosso natal, eu pensei que fôssemos comer bem rápido até a mãe nos mandar parar para respirar 

aquela caixa era quase de magia, não eram só as cores misturadas e os cheiros lindos; não era só o brilho do laço; o sabor, isso posso já jurar aqui pelo meu avô que tá debaixo da terra, o sabor era uma coisa do outro mundo, mas eu tou a falar de um outro mundo que fica ainda mais em cima do que as alturas do tal paraíso ,(...)

O livro do deslembramento
Ondjaki
Caminho (2020)

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

domingo, 25 de outubro de 2020

Técnica de Vendas

O título deste post era a designação de uma disciplina do meu ensino secundário, já lá vão bem mais de 50 anos. Nela se aprendiam conceitos de atendimento e de relações com os clientes, que deviam ser pautadas por uma linguagem de verdade, lisura de processos e tendo sempre em vista a máxima suprema: a razão de existência de qualquer empresa e, já agora, de qualquer serviço, é a satisfação dos seus clientes, sem peias nem jogos escondidos, e sempre com clareza de procedimentos e intenções.

- Recebi esta carta e não percebo bem isto. Pode ajudar-me?

A cena passou-se numa agência do banco onde, na altura, exercia funções. A senhora, viúva, já com alguma idade, era cliente, recebendo a reduzida reforma através de crédito na sua conta. Mantinha uma excelente relação com todos, por ser vizinha de um dos que lá trabalhavam e a quem conhecia desde menino, como não se cansava de referir. Era extrovertida, gostava de dar novidades - Fulano morreu, Sicrana separou-se - sem complexos nem vergonhas.

- Isto é a informação de que não pagou o cartão de crédito e que tem 10 dias para o fazer, sob pena de mandarem a dívida para cobrança coerciva, via Tribunal.

- Eu não tenho nada disso! Só tenho o vosso cartão, para levantar dinheiro na máquina ou pagar na loja, mas raramente o utilizo. Gosto mais de vir aqui visitá-los.

- ???

A minha cara deve ter sido elucidativa e reavivou-lhe a memória.

- Espera lá! Há talvez dois meses, no supermercado, dois senhores muito simpáticos ofereceram-me um cartão e disseram-me que podia gastar até 500 Euros nas lojas. Fiquei toda contente e, logo ali, comprei uma panela de pressão e um ferro eléctrico, que me deram um jeitão. Depois, comprei umas roupinhas para o Inverno. Também substituí o fogão a gás por um maior e mais moderno. Não cheguei aos 500 Euros, mas faltou pouco! Não me diga que agora tenho de pagar?

- Claro, respondi.

- Mas eles disseram que não tinha de pagar nada ... As lágrimas soltaram-se e a face corou. 

O marketing agressivo produz muitas situações destas. E agora nem rosto tem. Surge, inopinadamente, pelo telefone ou pelas redes ditas sociais, sempre com a "cenoura" ao alcance da mão, sem qualquer dificuldade e só para si, que é uma pessoa especial.

A última que soube foi a de um colchão oferecido, por ter sido "cliente eleito" ... apenas tinha de pagar um seguro de 35 Euros mensais, durante 36 meses. Coisa pouca, para um produto de excelência! E a venda concretizou-se e deve ter somado aos objectivos e às comissões do aldrabão que a promoveu. 

sábado, 24 de outubro de 2020

Quotidiano

Já não acontecia há algum tempo, mas hoje houve futebolada conjunta com os quatro netos. O tempo não ajudou, o jogo não durou os noventa minutos, que o corpo não o permite, mas o dia foi enorme.