domingo, 29 de novembro de 2020

Esquisitices

Tempos esquisitos os que se vivem actualmente.

Não bastava não se poder circular entre concelhos, não se saber se comemoraremos o Natal, não nos surpreendermos com o remar de pé mas, que diabo, a Páscoa ao contrário? 

Que mais nos espera? A ver vamos, como diz o cego!




sábado, 28 de novembro de 2020

Organização

Nada me move contra o PCP, antes pelo contrário. Habituei-me, desde novo, a respeitar a enorme luta do partido contra a ditadura e perfilho a opinião expressa por Melo Antunes que, no final do dia 25 de Novembro de 1975, para calar algumas vozes que chegavam com pressa de voltar ao antigo, esclareceu, sem papas na língua, que 
"O Partido Comunista é indispensável à democracia"

Podia não ser necessário mas, à cautela, o melhor era clarificar, calando idiotices que pairassem nalgumas cabeças. Nos últimos dias, o PC tem sido notícia em todos os orgãos de comunicação social, por virtude de realizar o seu Congresso, apesar da pandemia, ainda por cima num concelho - Loures - muito fustigado pelos números e com confinamento obrigatório. Os comentadores não se cansam de bradar  que, apesar de não ser ilegal, o Partido devia dar o exemplo e não o realizar nestas condições. A tudo isso, o PC responde com o que considera serem ataques à liberdade e dizendo que a sua organização fará cumprir todas as regras da DGS, não expondo ninguém a qualquer risco, quer no interior quer no exterior do pavilhão onde a reunião magna se realiza. 

A organização que o PC reivindica, e pratica, lembrou-me uma estória, muito "reaça", ouvida nos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), há quase meio século.

Dois amigos encontram-se no centro da capital e um deles, mal vestido, magricela, lamenta-se ao outro, a quem já não via há alguns meses.

- Estou muito mal. A vida não tem corrido bem e as dificuldades são muitas. Nem sequer consigo comprar umas botas para substituir estas alpargatas, todas rotas. As botas são caras e o dinheiro mal chega para a bucha.

- Não te posso ajudar. Também tenho dificuldades. Mas ouvi dizer que ali, no PC, dão botas a toda a gente. Vai lá!

E foi. Bateu à porta e uma voz solícita, cumprimentou:

- Bom dia, camarada. Em que posso ajudar?

- Ouvi dizer que aqui davam botas e eu necessito tanto de umas, disse, exibindo as alpargatas rotas.

- É verdade. E o camarada quer pretas ou castanhas?

De sorriso aberto e já a sonhar com umas botas novas, respondeu:

- Se me dá à escolha, prefiro castanhas.

- Então dirija-se ali àquela porta. 

- Bom dia, camarada. Eu queria umas botas castanhas, por favor.

- De cano alto ou cano baixo?

Mais um sorriso e a resposta pronta:

- Cano alto!

 - Ali, naquela porta à esquerda.

A satisfação era visível quando cumprimentou mais um camarada.

- Bom dia, camarada. Eu queria umas botas, castanhas, de cano alto.

- Com fecho ou sem fecho?

- Com fecho, claro, que já estou a ficar velhote!

- Então é ali, naquela porta ao fundo.

- Bom dia, camarada. Queria umas botas, castanhas, de cano alto e com fecho.

- De salto alto ou rasas?

- De salto alto, que pequeno já eu sou!

- Ali, naquela porta à direita.

Abriu a porta indicada e achou-se na rua, de novo junto ao amigo que lhe dera as indicações.

- Então, deram-te as botas?

- Dar não deram, mas lá organizados são eles!  

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Sexta-Feira

A partir de hoje e até terça-feira, não é autorizado ir para a brincadeira. Pode ir para o emprego, se o tiver e se houver um papel que o justifique. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Quotidiano

Os números "covidianos" não param na sua ascensão, à procura de um pico que não há meio de ser atingido. A nossa "ilha" mantém-se firme, no lugar mais baixo da escala "covídica", apesar de também seguir uma trajectória ascendente. 

Amanhã chegará a proibição de viajar entre concelhos, mesmo para aqueles que são "paredes meias" e cuja divisão se circunscreve a apenas um risco num mapa. Que seja para o bem de todos, espera-se.

A primavera ainda está longe e, tudo o indica, o inverno será longo. A esperança de melhores dias mantém-se bem viva e a boa música ajuda muito.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

25 Novembro

Há 45 anos era eu um jovem bancário, acabado de ingressar na CGD, num edifício enorme, situado no Largo do Calhariz, em pleno Bairro Alto, e que ainda hoje lá permanece, agora servindo, julgo, de sede à Fidelidade Seguros. A admissão à Caixa tinha sido efectuada, após concurso, em Setembro de 1974 e protelada, nessa altura, por força do serviço militar obrigatório. 

A saída da tropa tinha acontecido no final de Agosto de 1975 e, por isso, estavam bem frescas as memórias dos tempos que por lá tinha passado, nomeadamente após o "dia inicial inteiro e limpo" imortalizado por Sophia de Mello Breyner Andresen. A presença no Gabinete do Ministro da Defesa Nacional desde o primeiro governo provisório (Maio de 1974) foi uma experiência de vida marcante, que recordo sempre com emoção e saudade. Deu-me a oportunidade de conhecer muita gente, alguns insignificantes, mas a grande maioria educada, dedicada e empenhada. São já muitos os que desapareceram, mas com todos aprendi muito e não os esqueço.

Conhecia (alguns pessoalmente) a grande maioria dos intervenientes na disputa, quer de um lado quer do outro. Não vale a pena, a esta distância, fazer quaisquer comentários ou análises sobre o sucedido, as suas causas e muito menos sobre as consequências. A história é o que é. A realidade e os olhos de hoje são completamente outros.

Recordo, apenas, um dia tenso, no trabalho e pela noite fora, à espera que o desfecho não descambasse naquilo que, pela manhã, parecia inevitável. Talvez o hoje quase esquecido Francisco da Costa Gomes, com a serenidade que lhe valeu a alcunha de "Rolhas", tenha sido a "peça" que evitou o troar dos canhões e a guerra civil que parecia estar a chegar.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Ligações

Ontem, ao contrário do que é costume, não tive possibilidade de ver o programa Visita Guiada, de Paula Moura Pinheiro, que é normalmente exibido na RTP-2, por volta das 23H00 de cada segunda-feira.

Graças às tecnologias disponíveis, que dão bastante jeito, estive a vê-lo há pouco. Desta vez a visita fez-se à Casa de Tormes, onde se situa a Fundação Eça de Queiroz. De acordo com quem sabe, foi nesta casa que Eça escreveu A Cidade e as Serras. A conversa, interessante, havida com o historiador Rui Ramos, trouxe-me à memória alguns pormenores do livro, que a arca, com dificuldade, ainda mantém à tona, embora já com enormes "brancas".

Não resisti. Fui à estante, abri "ao calhas" e saiu isto sem procurar mais. Uma beleza!

(...) Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar ... Jacinto ocupou a sede ancestral - e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou - e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - "Está bom!"

Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.

- Também lá volto! - exclamava Jacinto com uma convicção imensa, - É que estou com uma fome ... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado - e pousou sobre a mesa uma travessa de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas. (...)

A cidade e as serras
Eça de Queiroz
Lello & Irmão - Editores

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Caldas da Rainha

Apesar do erro divulgado pelo Power Point da Direcção Geral de Saúde, o nosso concelho permanece, no mapa "covidiário", numa zona pintada a branco, cor indicativa de risco moderado e circunscrita a um conjunto, pequeno, de quatro concelhos do Oeste - Caldas da Rainha, Óbidos, Bombarral e Lourinhã.

Ainda subsistem por aí muitas coisas péssimas, reveladoras de mau gosto e de falta de sensibilidade. Porém, a verdade é que na cidade (e no concelho) há locais que nos fazem sentir bem, gostar de por aqui viver e que, sabemos, causam inveja a quem nos visita. 

Não vale a pena referir que a praia da Foz do Arelho é a melhor de Portugal por se saber que seremos contraditados por a água ser muito fria e o mar demasiado bruto. Mas, quantas cidades haverá no país que tenham dois "pulmões" como o Parque D. Carlos I e a Mata Rainha D. Leonor? Poucas, sem qualquer dúvida.

A Mata, que convida sempre a um longo passeio por toda ela, oferecia, na manhã de hoje, esta paisagem de sonho.

Ainda bem que o Power Point estava errado e continuamos a poder desfrutar.

domingo, 22 de novembro de 2020

Manhã

Com um pouco de sorte, o "jardim zoológico" poderia ter mais espécies, mas foi o que se conseguiu arranjar. Os patos e os flamingos estariam ocupados lá mais para o fundo da Barrosa ou dos Musaranhos, ainda sem necessidade de descansar.

Não é fácil conseguir que um coelho, uma rola e uma gaivota partilhem o mesmo espaço, de forma pacífica, num barco sem motor e preso à âncora, no meio de muita, muita água, de um azul espantoso.

A caminhada domingueira fez-se numa manhã de sol lindo, a incidir sobre as máscaras de todos os que gostam de passear à beira da Lagoa.

As e os que adoram a prancha também por lá andavam e ainda ficaram, que aquele exercício, no meio da água, exige muito mais tempo.

sábado, 21 de novembro de 2020

Pandemia emergente

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez ontem uma comunicação ao país, apelando para a união na diversidade de opiniões, e para a compreensão do que é necessário todos fazermos para que os números da pandemia não aumentem de tal forma que o SNS sufoque. Na sua curta declaração, justificou a manutenção do estado de emergência, alertando de forma clara para o que está a surgir e o que pode chegar. 

Vivemos um momento no qual quem tem responsabilidades tem obrigações. De partidos a jornalistas, de governantes a opinadores, a hora é de ser mais cuidadoso, rigoroso e mobilizador, não cedendo ao facilitismo e à demagogia. Sintético e esclarecedor, crítico mas construtivo, transmitindo serenidade e esperança, se mais não fora pelo respeito que devem merecer os que partiram e aqueles que, nesta altura, quase esgotam os recursos dos hospitais.

Estamos em tempo de congregar atitudes em prol do bem comum, sem deixar de criticar quando a situação justifique, sempre com a perspectiva de ajudar a corrigir, antes que as vozes dos salvadores que por aí chegam se sobreponham às de quem acredita que só há futuro com a diversidade de opiniões e de ideias.

Talvez se justifique voltar a Camões e, nomeadamente, ao último verso da terceira estrofe do Canto I de Os Lusíadas, para não cansar muito. Se não o conseguirmos, corremos o risco de ver o país embarcar sem rumo, numa nau sem fundo e de a musa não cessar de cantar e continuar a apregoar os nossos (de)feitos.
(...)
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram:
Cale-se de Alexandre e de Trajano,
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a antiga Musa canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(...)

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sentir & Saber

A propósito da publicação do livro Sentir & Saber - A caminho da consciência, editado pela Temas & Debates, o cientista António Damásio dá uma entrevista à Visão desta semana, na qual discorre sobre a actualidade, a política, o cérebro e o futuro. Dessa entrevista, copio e roubo uma pergunta e a respectiva resposta, por me parecerem, ambas, dignas de destaque, pela objectividade e actualidade.

(...) Visão - Tem esperança de que, desta experiência, possa surgir uma espécie de "homem novo", mais atento, como escreve no livro, à "inteligência, fenomenal e ainda incompreendida, da natureza"?

António Damásio - Não tenho qualquer dúvida. Vejo uma enorme mudança de atitudes. No espaço sociopolítico em que vivemos, existe a noção de que a Natureza está a ser agredida, temos plena consciência de que as alterações climáticas podem vir a comprometer o nosso futuro. Claro que há outros lugares onde as pessoas negam a existência dessas alterações climáticas, mas, quando se olha para os grandes números, para as principais sociedades, não tenho dúvidas de que a maioria da população acredita que estamos perante uma emergência climática. Quanto mais respeitarmos a vida noutros seres que não sejam apenas seres humanos, melhor estaremos no futuro. Mas, atenção: respeitar a Natureza não é respeitar os passarinhos, os cães e os gatos. De um modo geral, isso são espécies que as pessoas respeitam porque as consideram facilmente interligáveis com os seres humanos. O que é preciso é respeitar todas as outras espécies, até mesmo aquelas que não vemos claramente que nos dão vida, como as bactérias. (...)