Desde manhã sem Net nem televisão, que fazer à noite?
Ler, ouvir música e pensar que voltamos a 1960.
O que vale é a NOS garantir que amanhã, às 12H27 estará tudo resolvido! 😭
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Desde manhã sem Net nem televisão, que fazer à noite?
Ler, ouvir música e pensar que voltamos a 1960.
O que vale é a NOS garantir que amanhã, às 12H27 estará tudo resolvido! 😭
Por muito que os negacionistas gritem que não, vivemos em tempo de "guerra", com aspas por não existirem exércitos em confronto e as balas serem apenas imaginárias ou seringas exibidas até à exaustão.
Hoje, pela primeira vez, os infectadas pelo vírus que nos acompanha há quase um ano, ultrapassaram os dez mil, número que, mesmo para um leigo na matéria, é assustador. O agravamento da situação traz consigo mais dificuldades na saúde, mais desequilíbrios, mais pobreza, mais injustiça, mais fome.
É bonito de ver a preocupação com os sem-abrigo, os avisos para que as pessoas se protejam do frio, tenham cuidado com as braseiras, saber que, "comemorando" o dia de reis foram servidas setecentas refeições a quem delas muito necessitava, tudo realçado e acentuado por palavras solidárias e tão habituais nesta época.
Confrontado com tudo isto, surge-me sempre a imagem de uma sociedade justa, sem miséria, sem "caridadezinha", sem "escravos", caminhando para a igualdade na diferença, com todos a viverem dignamente, com respeito, independentemente da "gravata" ou do "fato-de-macaco".
Quase meio século depois, os sonhos de Abril que a juventude dos meus vinte e dois anos alimentou e pensou ser possível, ainda estão muito longe de se concretizarem.
Como sou muito teimoso, vou continuar a sonhar ...
Decorre a campanha eleitoral para a Presidência da República e, presume-se, sem grande margem de erro, quem será o vencedor.
Esperar-se-ia, por isso, que os debates fossem conduzidos com elevação, procurando retirar de cada candidato as suas ideias sobre como resolver os problemas do país, as soluções que cada um tem em mente, as propostas concretas sob a forma como encaram a função a que se candidatam.
Engano! O que se vê e ouve nas televisões é a procura incessante da "guerra", da mesquinhice, do supérfluo, mesmo quando os candidatos em presença pretendem ter uma conversa civilizada.
Fica-se com a ideia de que, afinal, o país pode e deve ser presidido aos berros, como se o Palácio de Belém fosse um qualquer estádio de futebol ou uma tasca reles, e que gritar muito chega para que se mereça destaque e importância.
Valham-nos os ditados populares: "Quem muito fala pouco acerta" e "Vozes de burro não chegam ao céu".
- Estou farta de "futebóis" no recreio! Acabou-se!
A voz da professora ecoava, forte e determinada. Era claro para todos que mandava e fazia-se obedecer.
- De quem é a bola?
Ninguém respondia, não viesse de lá o castigo da régua, da cana-da-índia ou dos dedos a repuxarem as orelhas.
- Vou guardá-la. No final do ano talvez o dono se acuse.
Na escola da GNR e da PSP, já aqui comentada, também ninguém sabe quem é o dono da bola, mas o jogo prossegue até à conclusão do rigoroso inquérito que foi logo iniciado e há-de concluir-se talvez para as calendas.
O professor Cabrita não acabou o jogo, não guardou a bola e parece ter-se escondido no armário. Não se ouve nem se vê ... mas é ele que manda!
Amanheceu com muito frio e com alerta da Protecção Civil, para quem estivesse distraído e não o sentisse. O céu, como canta Caetano Veloso, dum azul celeste, celestial, o vento e a chuva, ausentes. Estavam reunidas as condições para a caminhada domingueira, para criar as reservas imprescindíveis ao suporte do confinamento que, a partir das 13 horas, está decretado. Nem para tomar uma bica há excepção e, por isso, restará o café caseiro, com a qualidade Nespresso, boa mas não substituível.
A Lagoa estava linda. Já é lugar comum mas ela toma muito cuidado com a maquilhagem e todos os dias se apresenta diferente.
Façamos a viagem: o barco do Toni estava disponível e foi sem Pena que abandonámos o trilho costumeiro e caminhámos pelo areal. Apareceram Os Melgas, a Gabriela e o Malhoa, mas nenhum impediu o Navio de nos oferecer uma manhã Feliz.
A idade parece trazer mais tendência para a rotina e a pandemia reforçou. Poucas alterações no dia-a-dia, uma ida ao café, rápida, a visita ao mar da Foz do Arelho, o entretenimento no jardim, umas caminhadas, algumas conversas com amigos e pouco mais, se descontarmos Julho e Agosto em que a praia foi rainha. Nem uma viagem, um espectáculo de teatro ou de música, apenas uma ida ao cinema, que nem sequer correu muito bem. Cuidado, sempre muito cuidado, foram as recomendações sempre ouvidas nas notícias e dos mais próximos. E o medo é que guarda a vinha.
A leitura, que sempre ocupou, ao longo de toda a minha vida, um espaço regular, diário, maior ou menor consoante a disponibilidade, foi rainha nestes nove meses de desassossego. Os livros lidos foram muitos. Exagero! Podiam ter sido mais, ainda faltam ler tantos, mas o tempo vai encurtando ...
Cheguei!
Sou 2021 e já estou instalado em todo o mundo, depois de completar o movimento de rotação do planeta.
Não sei ainda como me irão apelidar aqueles que fizeram do meu antecessor uma espécie de resultado de jogo de andebol, começado em vinte / vinte e assim terminado. Se seguirem a mesma nomenclatura, eu serei, pelo menos, uma vitória ... dos visitantes, com vinte / vinte e um a começar e a terminar, lá bem no final de Dezembro.
Trago objectivos bem definidos, para tentar cumprir, e para cujo cumprimento contarei, espero, com o esforço e a dedicação de todos. Sem isso, ser-me-á impossível atingi-los e terei o mesmo destino do que me antecedeu, sem levar a cabo nada de jeito.
À cabeça do tableu de bord está a exterminação do maldito vírus, que nos azucrina a moleirinha desde Março do ano passado. Além disso, temos de recuperar a economia e a alegria de viver, temos de ser mais solidários e educados; temos de deixar de cuspir para o chão, de colocar o lixo nos recipientes a isso destinados, de respeitar a natureza e os seus ciclos e também os outros e as opiniões diferentes. Contem comigo para dar início a uma nova forma de viver e de estar, para que o mundo tenha futuro e não fique à mercê de qualquer intruso ou imbecil que por aí apareça.
P.S. - Não comecei bem. Portugal perdeu hoje um dos seus grandes nomes, da música, do convívio, da cidadania, do respeito, da educação. Aos 81 anos, Lisboa, o país e o mundo viram partir Carlos do Carmo.
Como recordação, fica um pequeno exemplo, na parceria com Bernardo Sassetti, que partiu já lá vão quase oito anos. A música é de José Afonso, outro enorme que, desde 1987, também faz parte da memória sempre viva.
Vou-me embora!
Estou farto de ser vilipendiado por toda a gente, que se revela torpe e mal educada, enxovalhando-me na via pública, nas conversas mais restritas, nas rádios, nas televisões, nos jornais, nas redes ditas sociais e, vejam só, até nas novas plataformas de conteúdos televisivos e/ou cinematográficos. Estou cansado. Ninguém tem uma palavrinha de conforto, um afago, um carinho, nada.
Depois de por cá ter permanecido 366 dias (sim, porque eu sou bissexto) a tentar cumprir os objectivos que me foram traçados, eis-me a chegar ao fim sem uma única pessoa a reconhecer o esforço que fiz, mesmo que esse esforço tenha sido inglório, improdutivo e, nalguns casos até, infame. Novos e velhos, crianças e adultos, ninguém, mas mesmo ninguém, deseja sequer olhar para mim a direito. E todos fazem votos para que o meu substituto seja melhor do que eu e me faça desaparecer rapidamente do calendário, refrescando-o como o Marcelo fez ao Palácio de Belém.
Estou triste, mas compreendo. Não tive culpa nem tenho problemas de consciência. Fiz o que pude. Quis o destino que me calhasse a mim, eu que até tinha um nome giro - dois mil e vinte para uns, vinte vinte para outros - e me preparava para ficar na história da terra de Camões como o ano em que o calote do país tinha diminuído e que os horizontes da melhoria se consolidariam, acabo a ser corrido por indecente e má figura, com tachos e panelas a bater, gritos e ralhos, escritos e esconjuros, tudo dentro de casa, e a ser completamente varrido dos pensamentos positivos que, em alguns, ainda possam existir.
É triste chegar ao fim de um ano de trabalho e constatar que, quando a história me recordar, escreverá, com letras bem grandes, que fui um ano para esquecer!
Desculpem. Ainda me resta alguma força e um mínimo de dignidade, essa coisa tão arredia que muitos desconhecem, para desejar que o meu sucessor 2021, apesar de não ter um nome tão bonito quanto o meu, seja melhor e vos dê o bem-estar e o sossego que eu não fui capaz.
Até nunca mais e votos de melhores dias.
O vosso odiado 2020.
Num ano tão difícil como foi o que agora está a acabar, é bom que não esqueçamos de como éramos e o que tínhamos até Abril de 1974, evitando algumas tentações que por aí abundam e para as quais vão aparecendo algumas câmaras de eco.
Estou a acabar o último livro das leituras, muitas, que 2020 me ofereceu. Talvez ainda hoje ou, no máximo, amanhã, chegue à última página. Hei-de lembrar-me dele, com toda a certeza, e é de um autor que nem sequer conhecia. Conta a história dessa prisão sinistra que o Botas instalou em Cabo Verde, onde muitos sofreram, e morreram, às mãos de muitos "animais" sem um pingo de dignidade.
(...)Nessas coisas pensamos para não pensarmos noutras.
O ano de 1945 começou em Abril, logo seguiu para Agosto e terminou abruptamente em Outubro.
Ele perguntou-nos:
- Porque não têm mantas?
- Virou trapo, respondemos.
- E casacos?
- Virou farrapo.
- Prato?
- Furou.
- Colher?
- Quebrou.
- Botas?
- Acabaram.
- E? ...
- Nunca tivemos,
respondemos em coro.
Ele ficou pensativo, pediu licença e saiu. No dia seguinte, ofereceu-nos um aparelhinho de rádio. Muito inteligente. A oferta do rádio não foi uma benfeitoria, mas, sim, uma forma raposa para entendermos a situação.
Pois, em Abril mesmo, ouvimos que Salazar decretou luto nacional pela morte de Mussolini e Hitler, num espaço de dois dias.
Em Agosto, escutámos pelo mesmo rádio a bomba atómica. E depois: "A Guerra acabou", alto e bom som.
Em Setembro, assistimos em directo às manifestações em Lisboa. Nunca imaginei que, na minha modesta condição de ainda vivo, sentiria os ombros a crescerem, a coluna a ficar erecta, e em mim um efémero direito a ter vaidade.
Em Outubro, escutámos o mais surpreendente comunicado do governo português, dizendo para todo o mundo que em Portugal não havia presos políticos. Alguém atirou o rádio contra a parede. Tenho as pilhas guardadas.
Chegou a hora do recreio!
Ao contrário do que é costume, as duas salas marcaram o período de lazer para a mesma hora e todos os meninos correm para ocupar os melhores lugares.
Os da sala GNR chegaram primeiro, fizeram o círculo no chão de terra, tiraram dos bolsos os piões e as cordinas, e preparam-se para iniciar o jogo, combinado há já três dias. Mas, de surpresa, eis que surge um problema: os da sala PSP reivindicam para si aquele espaço e o jogo não pode iniciar-se. Transmitem aos da sala GNR que sempre foi ali que brincaram e que o direito consuetudinário lhes assegura a legalidade da situação. A sala GNR que vá brincar para outro lado, que aqui não brinca.
Todos os alunos discutem, aduzem razões, esgrimem argumentos, gritam, barafustam, evidenciam as virtudes do diálogo e o acordo não chega.
- Que se passa aqui?, grita o professor Cabrita, alertado pelo barulho.
- Os meninos da sala GNR ocuparam o nosso espaço. Aqui é e sempre foi o nosso campo.
- Jogam os dois! Quem manda sou eu! Amanhem-se! Vou já mandar abrir um rigoroso inquérito, para determinar quem tem razão. Preparem-se que eu vou ser duro. Olhem o exemplo da sala do SEF!
Qualquer semelhança entre esta estória e a "guerra" travada ontem, em Évora, entre a GNR e a PSP para a escolta das viaturas de transporte das vacinas não é mera coincidência.
É garotice de quem parece não ter mais com que se preocupar ou a (in)disciplina das chamadas forças da ordem.