terça-feira, 2 de março de 2021

Mãe

- Vou buscar os medicamentos e volto já.

- Não vale a pena. Quando voltares já cá não estarei.

Era um final da tarde e estavas deitada na cama do hospital, com grandes dificuldades na respiração mas completamente lúcida. A percepção do que iria acontecer era muita mas, ainda assim, saí para satisfazer o pedido da enfermeira. Não cheguei a casa e os medicamentos por lá ficaram ... o telefone tocou antes e voltei pelo mesmo caminho. Tinhas razão ...

Foi há dezassete anos e continuas a ser a minha rosa, da noite, da tarde e da manhã.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Palavras bonitas

 SERENATA DO ADOLESCENTE

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade, 
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome de luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda - ante o teu seio -
queimar tão pobre mocidade!

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Sismo 1969

Não sou muito dado a efemérides. Os jornais e as televisões encarregam-se de nos trazer à lembrança coisas que, aos olhos de muitos, aconteceram há imenso tempo e das quais já poucos se lembrarão. A mim, parece que foi ontem ...

Ainda não tinha feito 17 anos e estava a dormir em casa, com apenas a minha mãe por companhia. O meu pai teria saído há pouco para o trabalho - começava bem cedo, quando a noite ainda estava no auge - e a minha irmã estava pela capital do distrito, a estudar. Só regressava ao fim-de-semana e aquela noite de 28 de Fevereiro de 1969 marcava o início de uma sexta-feira. Já não recordo bem a hora em que o sismo se deu, mas deverá ter sido por volta das quatro da manhã. O sono era profundo e a minha mãe abanou-me bastante para me acordar. Ainda ouvi os copos a tilintarem no armário da louça e vi a aflição dela, a gritar para sairmos, que a casa podia cair.

Viemos até à porta. Havia vizinhos aflitos, com medo, mas nenhuma casa tinha caído e não havia outros estragos. O susto foi grande. Dele restou um efeito: ainda hoje acordo sem dificuldade nenhuma e sem rabujice.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Magnólia

A Primavera está a chegar e o Inverno, que tanto nos tem torturado, parece finalmente disposto a partir, e a dar-nos possibilidade de voltarmos a ver o Sol e a rua, sem grandes receios mas com as cautelas que se impõem e, tudo o indica, vieram para ficar. 

A magnólia, que foi retirada do vaso já moribunda, adaptou-se ao espaço amplo, no meio da relva, renasceu e já floriu.

Por vezes o conforto não garante o bem-estar e liberdade rima sempre com felicidade, por pouca que seja. Foi o que aconteceu à magnólia: confinada ao espaço de um vaso, feneceu e manifestou claramente intenção de partir. O vaso dava-lhe algum espaço e conforto mas ela queria a liberdade, sem muros, para mostrar a sua graça, o seu contentamento e ... a mosca que dela muito gosta.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Palavras bonitas

CIRCULAMOS EMBOLSADOS

Circulamos embolsados
em automóveis de luxo

Nas portas surdas
os fechos
são linhas a níquel a traçar o limite
dos peões ocasionais

O espaldar desune
anula o solavanco
reduz a área exposta

Esguichos lavam
pára-brisas que a gargalhada abaula
Clareiam as estradas

Só o retrovisor
lembra o caminho andado
a um olho reflectindo
de quem guia

Trémulo o chassis
pressagia
as roturas
os sulcos dos freios
a divulgação do desastre

Mas real e criada
no bolso de Picasso
uma pomba de bico florido
suja por inocência os tejadilhos

A noite dividida
Sebastião Alba

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Tempos novos

Desde há um ano que vivemos tempos novos, inclementes para muitos, dificílimos e estranhos para todos. O malfadado bicho e as suas variantes têm azucrinado a vida, provocado nervosismo, aumentado a miséria, impedido os contactos, a diversão e o lazer, o descanso e o convívio, para além do trabalho da grande maioria.

A situação que temos vivido é inédita para as actuais gerações, sem qualquer semelhança com os ecos da guerra civil espanhola, a fome e as restrições da segunda grande guerra, a violência da ditadura e os tormentos da guerra colonial.

Apesar disso, numa altura em que o bom senso devia prevalecer e a união na diversidade de opiniões deveria estar sempre presente e ser obrigação de todos, assiste-se a um conjunto de barbaridades ditas, muitas vezes, por gente que deveria estar calada. Proliferam pelas redes ditas sociais "notícias" e "comentários" de arrepiar, algumas vezes com aproximações à verdade mas, na maior parte, com redondas mentiras e invenções.

Dir-se-á: é o produto do progresso e da evolução tecnológica! Não é nada! É o espalhar da burrice, da grosseria, da malcriadice, da insensatez, de muitos que, se estivessem "olhos nos "olhos", ficariam caladinhos a acenar a cabecinha e de "rabinho entre as pernas". 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Teatro

Apesar de continuar confinado no Oeste profundo, a dois passos do Atlântico e, longe, longe, da civilização que se desenrola pelos lados da capital, sob a supervisão do Marquês lá do seu alto "leonino", ontem fui ao teatro. 

Sem sair de casa, cumpridor que sou da lei e das recomendações, desloquei-me à secretária, liguei o computador - também podia ser no IPad ou no telemóvel, mas o conforto não seria o mesmo -, "abri" o Teatro D. Maria II, comprei o bilhete e assisti a um excelente espectáculo, de mais de três horas, com um pequeno intervalo quando eu o determinei.

A peça chama-se ÚLTIMA HORA, tem texto de Rui Cardoso Martins, encenação de Gonçalo Amorim e interpretação soberba de todos os actores, com destaque para José Neves, Maria Rueff e Miguel Guilherme. Aborda o tema do fim dos jornais "a sério", em época de redes sociais e de notícias de "sangue".

Vale a pena. O bilhete custa apenas 3,00 Euros, sim, não me enganei, 3,00 €, e a peça estará em cena até ao dia 26 deste mês.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Corrupção ou solidariedade

Um homem alto, espadaúdo, bem falante, capaz de manter uma conversa escorreita, quando não estava de serviço. Fardado, era intratável, roçando sempre a arrogância e a malcriadice. Agente da PVT, acrónimo de Polícia de Viação e Trânsito, designação oficial, à época, da autoridade a quem competia a fiscalização do trânsito e a aplicação das multas por excesso de velocidade, por peso a mais, por deficiente arrumação das mercadorias, e por muitas outras infracções, algumas "inventadas" à última da hora, para justificar o serviço e o "papelinho".

O posto dos "Provadores de Vinho Tinto", como eram conhecidos na gíria, funcionava à saída da cidade (ou à entrada, para quem vinha do sul), era dotado de uma balança de pesados e estava quase sempre aberto, mesmo a horas fora do comum. Paralelamente, havia agentes a deslocarem-se de mota, na procura de infracções protagonizadas por condutores que utilizavam outros caminhos que não os que passavam pelo posto. Muitas vezes, os veículos de mercadorias apanhados "por aí", eram obrigados a vir "à balança" por suspeitas de peso a mais, só possível de confirmação no tal equipamento situado nas traseiras do redondo edifício.

As empresas, ou melhor, os patrões, na linguagem comum à época, tinham receio da PVT  e procuravam ter com eles as melhores relações, distribuindo lembranças regularmente, em espécie ou mesmo em dinheiro vivo. Por vezes, eles apareciam, à civil, para cumprimentar e, com esse cumprimento, se fazerem notados e lembrados. Era sinal de que o abastecimento não tinha acontecido ou o gasto havia sido demasiado e era necessário reforçar o stock.

- Não precisa de nada? Uma caixinha branco, ou é melhor tinto?

- Já que insiste, pode ser uma de cada.

Daquela vez, o assunto era complicado, via-se bem, e a conversa tinha de ser com o patrão. Havia algum nervosismo, o que não era nada costume. O encontro foi proporcionado e a conversa deu-se.

- Sabe, decidi construir uma "barraquita" e, como o ordenado é pouco, conto com a ajuda dos amigos.

- E como posso eu ajudar? De que é que precisa mais?

- Tudo. Cimento, areia, madeira, tijolo, fretes, o que lhe for possível. Tudo faz jeito.

A "barraquita" ainda hoje existe, com um jardim frondoso à frente e um terreno extenso, nas traseiras. A "olho", deve ter mais de duzentos metros quadrados e desenvolve-se em dois pisos. Uma "barraquita" ...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Venda directa

- Boa tarde. Estou a falar com o senhor F...?

Sim, sou eu.

- O meu nome é S... e estou a ligar-lhe para lhe dar a conhecer um nosso novo produto de saúde. Antes de continuar, devo dizer-lhe que a chamada irá ser gravada. Autoriza?

- Não percebo a necessidade. Se só me vai dar a conhecer um novo produto para a minha saúde, qual é a necessidade de gravar a chamada?

Alguma atrapalhação, mas recompõe-se de imediato.

- Não somos nós que queremos. É a lei!

- Mas isso só é obrigatório se houver algum contrato, não é verdade?

- Pois, mas eu, para continuar a nossa conversa, tenho de ter a sua autorização para gravar.

- Não vale a pena. Não se incomode. Não estou interessado, obrigado.

Desligado o telefone, dou por mim a pensar:

- Como obtiveram o meu número de telefone, identificado com o nome e, quem sabe, pela idade e talvez até com a morada?

- A chamada é gravada e substitui o contrato. Para os dois lados?

A complicação é minha, velho embirrento. As autoridades reguladoras conhecem perfeitamente estas empresas, fiscalizam-nas e conhecem bem as condições de venda de cada uma, verificando as condições contratuais e não permitindo que haja violações das leis em vigor.

Sonhos. A melhor solução é o cliente assinar um contrato de muitas páginas e letras pequeninas, que ninguém lê, ou, melhor ainda, que diga sim a tudo incluindo à gravação da chamada, para memória futura ... da vendedora. 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Guerra colonial

Pertenço a uma geração que cumpriu o serviço militar obrigatório. No meu caso, entrei no tempo da "outra senhora" e por lá andava no dia 25 de Abril de 1974. Esse privilégio foi e é meu, só meu, egoisticamente meu.  É muito difícil partilhar o sentimento, a alegria, a esperança, que uma luzinha tinha acendido um ano antes, quando, no Regimento da minha cidade, fui "dactilógrafo", ao fim de semana, dos escritos do meu comandante de companhia. Mas, como dizia o outro (ou seria a outra?), isso agora não vem ao caso. Surgiu a talhe de foice e serve apenas para deixar claro que foi esse dia inesquecível, em que "festejei" os meus 22 anos, que evitou a minha ida para a guerra ... ou para outro lado.

A morte de Marcelino da Mata que, ao que parece, é o militar mais condecorado das Forças Armadas, desencadeou escritos, opiniões, artigos, entrevistas, conversas de gente de todos os quadrantes, muita dela sem qualquer autoridade e conhecimento para falar sobre assunto tão melindroso e tão sensível. 

A guerra colonial não é assunto tabu. Pode e deve ser discutido, analisado e compreendido por todos, sem borrachas ou parênteses, todavia apenas no âmbito global, por respeito a todos os que por lá passaram, de um lado e do outro. Os exércitos em confronto eram constituídos por pessoas, que faziam parte de equipas e raramente estavam sós. A atribuição de actos a pessoas concretas e a recordação deles, com pormenores e alguns "pormaiores", pode criar, e cria, problemas à memória de todos os que, contrariados, obrigados ou até voluntariados, por lá passaram durante dois anos (às vezes mais), sem telemóvel, sem internet, sem qualquer contacto com a família e os amigos que não fossem as "epístolas" escritas nos aerogramas, conhecidos como "bate-estradas". 

Ainda há, felizmente, muita gente viva que deu tiros e sofreu emboscadas, rebentou minas ou colocou-as, que talvez tenha matado para não morrer, que cumpriu ordens ou foi obrigada, que contestou ou se submeteu, que desertou ou aguentou até ao fim. Essa gente, anónima, não merece nem precisa de ver e ouvir desenterrar um passado que não se pode nem se deve apagar, mas do qual se dispensa a individualização e muito menos a criminalização. Muitos houve que por lá ficaram, sem direito, sequer, a voltarem às suas origens e com a homenagem, apenas, dos seus camaradas.

Tenho amigos e familiares que, tantos anos passados, ainda preferem o silêncio ao comentário sobre o que sofreram, o que fizeram, o que viveram, o que sentiram e os sonhos que, por vezes, ainda os acordam. Muitos, a grande maioria, saiu do país pela primeira vez, no Santa Maria ou no Niassa, no Príncipe Perfeito ou no Infante D. Henrique, depois de cerca de seis meses de instrução duríssima, durante os quais estava sempre presente o aviso de que o objectivo era rumar a dois anos de "degredo", com "bilhete" garantido de ida e com grandes dúvidas sobre a volta.

Meninos, não brinquem com coisas sérias! No próximo século, a história se encarregará de nomear os "Vasco da Gama", os "Gil Eanes" e os "Afonso de Albuquerque". Por agora, deixem-nos ficar sossegados. Não é preciso activar memórias, que estão frescas em todos os que viveram esses tempos.