sábado, 20 de março de 2021

Vocabulário

Sou "cliente" do blogue Duas ou três coisas, que o embaixador Francisco Seixas da Costa mantém com informações diárias, quase todas de excelente gosto e conteúdo. Ontem deparei-me com um conjunto de vocábulos, muitos deles que nunca tinha ouvido, publicados no jornal brasileiro Folha de S. Paulo, por Mariliz Pereira Jorge. O objectivo foi, julgo, encontrar palavras para definir aquele que preside ao país de Chico Buarque, de Machado de Assis, de Jorge Amado, de João Cabral de Melo Neto, de Clarice Linspector, de Caetano Veloso, de Maria Bethânia e tantos outros. 

"Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha.Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda. Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jacodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Boçal. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível. Mentecapto. Demónio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjecto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona. Execrável. Infando. Nefando. Abominável. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista. Cínico. Animal. Desaforado. Histrião. Grosseiro. Vulgar. Malandro. Inconveniente. Sujo. Sem-vergonha. Obsceno. Brega. Charlatão. Perverso. Monstro. Ditador. Embusteiro. Horrível. Desnaturado. Carrasco. Egocêntrico. Mariola. Salafrário. Imbecil. Lunático. Bufão- Garganta. Farofeiro. Farsante. Oportunista. Indefensável. Broxável. Carniceiro. Irresponsável. Excrementíssimo. Marginal. Praga. Traiçoeiro. Criminoso. Terrorista. Asqueroso. Cu de boi. Podre. Capiroto. Embuste. Lazarento. Indecoroso. Desmoralizado. Imprudente. Maléfico. Parasita. Delinquente. Seboso. Coisa-ruim. Quadrilheiro. Arrombado. Mau-carácter. Frouxo. Fracassado. Ressentido. Obtuso. Boçal. Brutamontes. Cavalgadura. Descortês. Lorpa. Pateta. Cretino. Parvo. Pacóvio. Inapto. Desqualificado. Pequi-roído. Genocida."

O português é uma língua riquíssima: tantas palavras para designar um parvalhão!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Dia do Pai

O meu pai dizia. com frequência que:

- É bom chegar a velho mas não é bom ser velho.

Tinha toda a razão, acrescento eu. Faria hoje 99 anos.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Devaneios assertivos

Da sabedoria popular:

Bem prega Frei Tomás. Faz sempre como ele diz, nunca como ele faz

Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita

Não basta à mulher de César ser séria, é preciso parecê-lo

Cão que ladra não morde

Livrar de cão que não ladra e de homem que não fala

Fui à minha vizinha, envergonhei-me. Vim para casa, remediei-me

Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal

No poupar é que está o ganho

Quem muito dorme pouco aprende

Quem vê caras não vê corações

De Peter Drucker:

Gerir é fazer certas as coisas; liderar é fazer as coisas certas

quarta-feira, 17 de março de 2021

Barber Shop

A caminho do barbeiro, não encontro ninguém conhecido. Passam por mim meia dúzia de pessoas, bem mais novas e apressadas. No parque de estacionamento havia lugares "à fartazana". A actividade da cidade ainda está muito longe do normal. Muitas lojas do pequeno comércio ainda permanecem fechadas e isso causa algum desconforto ao passar, lembrando o Fulano, o Sicrano, o Beltrano que, à vista, estão "mortos".

O meu amigo C. está a funcionar "ao postigo" e falou comigo à porta. Ninguém entra para comprar nem para dois dedos de conversa. Estávamos nisto, enquanto eu aguardava a minha hora marcada e o barbeiro despachava o freguês anterior e desinfectava tudo, quando apareceu um cliente. Queria ver canas de pesca, embora a actividade de pescador amador ainda esteja interdita.

- Tem alguma ideia?, perguntou o C.

- Queria ver ...

- Não pode entrar. A polícia passa muitas vezes e, se estiver lá dentro, aplica-me uma multa. Vou trazendo para aqui, para ver se gosta ...

O barbeiro, que fica em frente da loja do C., chamou-me. Estava na hora de me sentar na cadeira e de cortar a guedelha.

Já mais leve, voltei à conversa com o C.

- Vendeste a cana ao homem?

- Não. Talvez volte quando a pesca voltar a ser permitida. Hoje até nem foi muito mau. Vendi um saco, entreguei quatro cofres (para as armas) e tive algumas promessas...

O dia está a acabar. As poucas pessoas que (ainda) andam na rua, vão recolhendo à casinha. Espera-se um amanhã melhor, mas não vai ser fácil ... 

terça-feira, 16 de março de 2021

Futuro

Faz hoje um ano que coloquei aqui o primeiro texto sobre o "bicho". Também passam hoje 47 anos do levantamento do "meu" RI5, que serviu de prólogo ao 25 de Abril. Uma poeta que muito admiro - Natália Correia - deixou-nos também neste dia, há 28 anos.

Porém, como a vida não é feita de passado e sim das portas abertas para o futuro, o meu neto GRANDE, que ainda não tem 15 anos, fez isto, apenas com um telemóvel.


E ainda há quem diga "no meu tempo" ...

segunda-feira, 15 de março de 2021

Ao postigo

Postigo - s.m. 1. pequena porta secundária, aberta numa muralha, fortificação, etc. 2. janelinha em portas ou janelas, para se olhar quem bate, sem as abrir; espreitadeira. 3. m.q. Guiché 4. m.q. Portinhola ('de coche') 5. pequena janela 6. abertura no tampo dianteiro de tonel ou pipa (pelo qual se faz a limpeza) 7. mar Tampa com que se fecham vigias, gateiras, etc., em embarcações 8. mar m.q. Gateira ('abertura') etm. lat. posticum 'a parte posterior de uma edificação, porta dos fundos, porta escusa, quarto dos fundos, latrina, traseiro, nádegas'.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
2003

De acordo com as regras do confinamento, o café de hoje foi ao postigo, sem pecado e com chávena própria, que nos copos de papel o sabor é muito, muito diferente.

Uma maravilha ... e soube tão bem!

domingo, 14 de março de 2021

Sol

Um dia de sol tão bonito, a cheirar a Primavera, merece uma voz maravilhosa e uma música a condizer.

Razões que a razão desconhece fazem com que uma grande artista pareça "banida" dos holofotes e das rádios do seu (nosso) país, na certa por a sua qualidade não estar ao nível das piroseiras que, todos os dias, nos invadem a casa sem quaisquer escrúpulos.

O "Amor a Portugal", em cerca de cinco minutos, numa interpretação soberba de Dulce Pontes, acompanhada brilhantemente pela Banda da Armada.

sábado, 13 de março de 2021

(Des)Confinamento

Foi divulgado, pelo Primeiro-Ministro António Costa, o calendário que determina a forma como, se tudo correr bem, iremos voltar à vida (quase) normal. Aconteceu no final do dia de quinta-feira, deu origem a inúmeros comentários, apoios e críticas de quem sabe do assunto e disse-se até,  "malevolamente", que o Presidente da República teria aproveitado a viagem a Roma para não falar ao país e  se descartar da decisão, prevenindo a eventualidade de alguma coisa correr mal e haver necessidade de voltar atrás. António Costa chamaria a esses rumores pura especulação e Marcelo Rebelo de Sousa viria, mais tarde, garantir que tudo tinha sido combinado assim, para que o encontro com o Papa Francisco não saísse prejudicado e os quinze minutos de audiência fossem diminuídos.

Cá por mim, velho apressado, telefonei ao meu barbeiro no final do dia de ontem, para não o incomodar nos trabalhos de preparação da reabertura, que deveria estar a levar a cabo, criando as condições para segunda-feira.

- Vai reabrir na segunda, não é verdade?

- Claro! Finalmente ...

- Guarde uma hora para mim. O cabelo está enorme. Pode ser à sua escolha, não tenho preferência e a minha agenda tem o dia livre ...

- Só na quarta-feira. Segunda e terça já estão completas. E só pode ser às 17H30. Posso marcar? Já tenho outra chamada em espera.

- OK. Quarta-feira, às 17H30. Até lá.

Conclusão: o cabelo cresceu a muita gente e houve muitos mais apressados do que eu. Não devem ser só velhos!

sexta-feira, 12 de março de 2021

Dentista

De boca aberta, deitado na cadeira enervante da estomatologista, oiço a conversa que se vai desenrolando entre a técnica e a ajudante. São jovens e têm algumas recordações que me são familiares, criando-me a vontade de participar, mas não posso. A concentração e as alterações que o meu sistema nervoso produz assim que entro naquele consultório, impedem qualquer raciocínio ou frase, para além do "sim" ou do "não", do aceno, do esgar ou do gesto.

O rádio, sintonizado na Antena 2, emite um som meio esquisito, que desperta lembranças às conversadoras.

- Parece o amola-tesouras.

- A doutora lembra-se?

- Lembro-me bem. Era miúda e a minha mãe dava-lhe as facas para afiar.

- E o "pitrolino", recorda-se?

- Isso não. Nem sei o que é.

- Era o homem da carroça, que vendia o petróleo e o azeite, avulso.

- Já só me lembro do azeite engarrafado e petróleo acho que nem nunca vi ninguém comprar.

Silêncio. A concentração no dente é completa.

- Está quase. Deve estar cansado de ouvir estas conversas sem jeito nenhum.

A mão sai do cinto e faz sinal que não há cansaço. A médica continua a sua tarefa, fala dos discos de vinil que o pai ainda tem, diz que se habituou a ler livros digitais e já não quer o papel.

- Até comprei um "ipad" especial, um "kindle". É espectacular.

Acabou! Há que sair da cadeira, agradecer, pagar e desejar às duas a continuação de um bom dia. Mais uma vez, aquilo que para mim é ontem, afinal já nem faz parte do imaginário da grande maioria.

A ida ao dentista correu muito bem e volto lá na próxima semana, para acabar o tratamento ... e ouvir!

quinta-feira, 11 de março de 2021

Regresso ... ao futuro

É comum a muita gente o reivindicar da experiência, do passado, a excelência dos seus atributos e a obra que realizaram, em contraste com a "incapacidade" das gerações mais novas, que nada sabem do que custa a vida e não conseguem fazer nada de jeito.

- Se fosse no meu tempo ...

E ficam perorando por um passado que já foi e não voltará, por muito que lhes custe. Águas passadas não movem moinhos e ninguém se lava duas vezes nas águas do mesmo rio. O passado é importante para conhecermos a história, a sua evolução, os progressos realizados, e para aprendermos com os erros cometidos. Analisando assim, compreendemos que, se não houvesse arrojo e audácia (isto lembrou-me o arrojo, audácia e desprezo pela vida que se ouvia no "poço da morte" das feiras), ainda estaríamos na idade da pedra ou lá muito perto.

O tempo de fazer, de pular, de arriscar, passa depressa e não adianta que os mais velhos tentem condicionar o progresso do mundo com argumentos falaciosos de "eu fiz e fui o maior ... da minha rua". Os olhos evoluem e aquilo que viram há trinta anos já mudou, pelas deficiências visuais próprias do avançar da idade e porque, felizmente, outros surgiram com muito mais capacidade e muito melhor visão.

Até os automóveis caminham a passos largos para dispensarem os condutores! Ora eu, que tirei a carta há mais de meio século e decorei o código de trás para a frente e vice-versa, não quero crer que se possa conduzir sem a caixa de velocidades e, muito menos, sem colocar as mãos no volante ... Isso vai ser muito perigoso ... ou não!