sábado, 24 de julho de 2021

Palavras bonitas

CATILINA

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
à luz crepuscular do meu instinto

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr'além do nó de angústia mais convulso.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Impressão ... digital

Em meados dos anos setenta do século passado, a actividade bancária e as pessoas que dela usufruíam não tinham nada a ver com a realidade de hoje. O dinheiro real circulava de mão em mão, uns com muito outros com pouco, como sempre. O cheque dava os primeiros passos para a universalização e era um meio de pagamento quase só usado pelas empresas, para efectuarem parte das suas liquidações, nomeadamente a fornecedores de outras bandas. O crédito em conta dos ordenados viria muito mais tarde e demorou bastante tempo a ser utilizado por toda a gente. Os funcionários públicos recebiam os seus vencimentos, em dinheiro vivo, nos respectivos serviços ou nas tesourarias de finanças.

Na Praça da República existiam apenas três agências bancárias (hoje parece que regredimos e voltaram, por enquanto, a existir de novo três): a do Banco de Portugal, que não estava aberta ao público e servia quase só para alimentar de dinheiro as instituições que dele careciam ou para receber em depósito o excesso de tesouraria de alguma; a Caixa Geral de Depósitos, virada para a poupança particular e para o crédito às entidades públicas, às grandes empresas e ao crédito bonificado à habitação, que dava os primeiros passos; e ainda o Banco Português do Atlântico, dedicado fundamentalmente às empresas, pequenas e médias e ao pequeno comércio. Havia mais três agências, noutros locais da cidade, e dois ou três correspondentes bancários, que quase só serviam de "caixa de correio" das letras que vinham à cobrança.

José, assim chamado para poupar no espaço, tinha vendido uns eucaliptos e o comprador passara-lhe um cheque para o respectivo pagamento. Indagou onde poderia transformar aquele papel em notas úteis e lá foi até ao BPA.

- Assine aqui.

Não sabia uma letra do tamanho de um comboio e, envergonhado, confessou-o.

- Não há problema. Tiramos-lhe a impressão digital.

Veio a caixa de madeira, com tampo de pedra, foi colocada a tinta, preta, alisada como rolo de borracha.

- Dê cá o dedo.

Rodou-se da esquerda para a direita e a "fotografia" do indicador direito foi colocada no verso daquele papel que, por estranho que parecesse, valia três contos de réis. O empregado anotou, na frente do cheque e em tamanho grande, o número da chapa que lhe atribuiu.

- Agora vá ali à caixa.

José subiu a Praça, entrou na Caixa, sentou-se e aguardou. Demora tanto! Se calhar estão a fazer as notas, pensou. Um dos empregados estranhou a presença daquele homem, ali sentado há tanto tempo. 

- Está à espera de alguém?

- Não. Estou a aguardar que me chamem para receber, respondeu, exibindo a chapa do BPA.

Desfez-se o equívoco, José desceu a Praça e entrou de novo na agência do Atlântico.

- Em vez de vir receber, foi passear?

- O seu colega mandou-me ir à caixa e eu fui ... lá acima.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Sonhos

Uma noite destas, em que o sono tardou a chegar ou já ia a fugir, o Carlinhos veio visitar-me. Queria conversa e não parecia particularmente bem disposto.

- Estou chateado contigo!

- Bolas, que mal te fiz eu? Porto-me sempre tão bem, que às vezes até me estranho.

- Pois, mas não não cumpres o que prometes e isso é muito feio.

Não percebi o remoque, mas eram visíveis as "trombas". Esperei, calmamente, que surgisse mais alguma palavra que clarificasse o assunto que o toldava. Não tardou muito ...

- Autorizei-te, e desafiei-te, a utilizares o meu nome e as minhas "estórias" e esperava que cumprisses essa missão com mais assiduidade. Ainda só vi dois textos e isso magoou-me muito. É pouco para uma pessoa tão famosa e vivida como eu sou, e que tem tanto para contar e ser dado a saber ao mundo.

Embatuquei. Era verdade e a verdade, por vezes, é muito difícil de aceitar e mais ainda de justificar. 

- Tu sabes bem que nunca me esqueço de ti, mas surgem outros temas, a oportunidade passa ou é adiada para "manhã". As tuas "estórias" têm de ser cuidadosamente contadas.

- Quero o acordo cancelado. Pretendo estar na ribalta, ser "primeira página", ter destaque, ser comentado. Se não podes ou não queres dar-me isso, vou procurar outro ou outros que estejam disponíveis. Quero estar na primeira fila, sempre. Acho que mereço mais do que muita "estrela" que por aí circula nas redes e se pavoneia nos jornais.

Convencido, pensei para mim. Devia voltar-lhe as costas ou mandá-lo àquela parte. Era o que merecia.

- A decisão é tua. Para compromissos desses, comigo não contas. Não gosto de ser condicionado por ninguém. Queres restringir a minha liberdade e obrigar-me a ser teu escriba, e eu não estou para isso.

Ficou pensativo e abismado. Não estava à espera e o ego sentiu-se. "Enfiou-se".

- E digo-te mais: conheço muitas "estórias" tuas mas, como bem sabes, uma grande parte não merece nem pode ser publicada. A linguagem e as actividades não são compatíveis com a divulgação pública. Às vezes até a restrita é difícil e é preciso escolher os ouvintes. Acresce que o vernáculo e os comentários jocosos sobre tudo, das religiões à política, não se ajustam a um sítio que se pretende preze a moral e os bons costumes, e mantenha a bitola com algum nível. Há quem diga que, quando a conversa desce de nível, sobe de interesse, mas eu não estou para aí virado.

- Ora, ora! Deixa-te desses pruridos infantis. Nem pareces deste tempo. A língua quer-se desabrida e sem peias, tipo bronco, bué da fixe. Não querem lá ver o cota ... 

Acordei. 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Numa vila sertaneja e tradicionalista como Trigais, por meados do século XX, não eram de esperar comportamentos de modernidade no interior das famílias, como por exemplo essa coisa de os filhos tratarem os pais por tu. Nada de americanices. Os pais são para ser tratados com respeito.

A família de Feliciano era uma família típica do meio. Ou seja, constituída por um pai que chefiava, ralhava, marcava rumos e garantia o sustento da família; uma mãe que se encarregava das tarefas domésticas, nas quais estava incluída a educação dos filhos; um filho e uma filha que reverenciavam e obedeciam aos pais.

Delfim Carvalhais, o pai, timoneiro da barca, passava o melhor do dia na loja a aviar a clientela, a pesar quilos de arroz na balança marca A. Pessoa, a partir o bacalhau às postas numa guilhotina própria para isso, a conferir a contabilidade rudimentar, a encomendar aos fabricantes produtos em falta, a aturar caixeiros-viajantes tagarelas, e às vezes, quando a freguesia rareava e o ócio se instalava, a dormitar ou a cismar na morte da bezerra, sentado do lado de dentro do balcão, com um rádio de pilhas roufenho, permanentemente sintonizado na Emissora Nacional, a despejar música e propaganda assolapada do regime. Se era Inverno, punha os pés sobre o estrado da braseira. Umas vezes por outras, ao cair da tarde, depois de fechadas as repartições públicas, apareciam três ou quatro compinchas desocupados e armava-se nas traseiras da loja uma mesa clandestina de abafa ou sete-e-meio, interrompido para Delfim atender algum freguês que entrasse. 

Nas férias escolares, Delfim gostava de levar o filho para a loja, esperançado em, dessa forma, despertar nele o gosto pelo comércio, porque seria o comércio, se outras oportunidades não surgissem, que lhe asseguraria um futuro desafogado. Quando o filho era já mais crescidinho, começou a encarregá-lo de tarefas proporcionadas à sua idade, força e entendimento, e no fim recompensava-o com meia dúzia de rebuçados peitorais.

A filha não, não a levava para a loja. Delfim tinha ideias muito arreigadas sobre o que pode e não pode fazer uma rapariga, o que parece bem e o que parece mal, e os perigos a que se expunha toda a mulher que não se guiasse por estes sábios preceitos. E tratava de separar devidamente as águas, isto é, as ocupações dos filhos. Por isso, Carlota ficava com a mãe em casa e instruía-se nas tarefas domésticas, ajudando a passar a ferro ou a cerzir alguma peça de roupa a precisar de conserto. E assim ia adquirindo as competências que devem exornar uma boa dona de casa. (...)

Feliciano
A.M.Pires Cabral
Tinta da China (MMXXI)

terça-feira, 20 de julho de 2021

Netos

O último na cronologia das datas e o segundo na hierarquia das idades, faz hoje 10 anos. 

(Agora era a altura de dizer que parece que foi ontem e o tempo passa num instante. Não vale a pena. Já toda a gente sabe e ninguém deve perder tempo com futilidades.)

Daqui a dois meses - o futuro é que é importante - iniciará um novo percurso escolar, numa nova escola e com uma nova forma de ensino, articulado com a música, por escolha própria.

Novas tarefas e um esforço grande lhe vão ser exigidos, na gestão de horários para conciliar o estudo normal, a música, o futebol, a natação, a brincadeira, as "teatrices" e a leitura. Mas ele vai conseguir. É forte, sabe controlar-se e está (quase) um homem. Até já tem dois dígitos na idade!

Parabéns para o Vasco, meu neto querido.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Confinamento

Observada de fora e à primeira vista, nada indicia que haja habitantes naquela casa. Fechada a "sete chaves", sem nada nas imediações da porta, estores totalmente corridos, não há qualquer sinal de vida por aquelas bandas.

Quem conhece, sabe que lá moram quatro adultos, três dos sexo feminino e um "macho alfa", a quem cabe mandar, determinar, fiscalizar e controlar todo o movimento ou a ausência dele. Raramente alguém sai daquela porta à luz do dia. O "chefe" esgueira-se logo pela manhã até à padaria, compra o que lhe parece necessário e "arquiva-se" de imediato. Por vezes, a deslocação é mais longa, ao supermercado, a uma loja mais distante e, nesse caso, utiliza o carro e a companhia (nem sempre) de uma das filhas. A preocupação suprema é recolher rapidamente, evitando encontros e muito menos conversas.

Nas deslocações mais longas, que acontecem por vezes aos fins-de-semana, os quatro ocupam a viatura, acompanhados de inúmeros saquinhos com o necessário para passarem dois dias fora. A saída é sempre feita já noite velha e a chegada acontecerá pela mesma hora, quando os riscos de encontrar alguém são diminutos.

Têm ADN de morcego ou alergia à luz natural. Preferem a luz artificial, que o "corona" detestará, dizem. Vivem felizes e são simpáticos ... quando não conseguem evitar encontros "indesejáveis". 

São "cebolas", que se há-de fazer!

domingo, 18 de julho de 2021

Tempo

Mais uma pausa na praia. O Santo que coordena o tempo oestino não quer que nos habituemos ao ócio e não nos disponibiliza céu azul e temperaturas agradáveis todos os dias e lá saberá porquê. É matéria que merece um rigoroso inquérito por parte das autoridades competentes, uma vez que não é justo que sejamos sempre sacrificados e o Santo poderá estar a exorbitar das suas competências.

Ontem, a temperatura estava agradável mas o Sol esteve escondido toda a manhã. Deve ter adivinhado que iria haver greve nos aeroportos e não arriscou viajar. Manteve-se (e mantém-se) escondidinho atrás das nuvens, deixando escapar o aviso de que por lá irá permanecer por tempo indeterminado.

A manhã de hoje avisava que era preferível não contribuir para o buraco do ozono e ficar por aqui, sem consumir gasolina, que está cara, nem correr o risco de fazer um passeio "à senhora da asneira".

- Não vale a pena arriscar. Vêem-se daqui as nuvens e deve estar vento de sobra.

De acordo com as informações disponíveis nas novas tecnologias, o céu está nublado, a temperatura talvez chegue aos 20º e o vento sopra do Norte, a vinte quilómetros à hora e, pontualmente, com algumas rajadas mais fortes.

Se a rotina determinasse que amanhã seria dia de trabalho, teria arriscado e lá estaria, mesmo sem evidenciar a peitaça. Porém, como as férias continuam, não vale a pena ser masoquista. Melhores dias virão, no Verão que há-de chegar. Todos verão que vai ser assim (eu o determino), sem trocadilhos e com muito calorzinho, como é costume por estas bandas ... tão certo, tão certo, como eu me chamar Antímio!

sábado, 17 de julho de 2021

Responsabilidade

Os pequenos apontamentos que por aqui vou deixando e que, desde que o coronavírus nos veio visitar, têm sido diários, são apenas isso: apontamentos, despretensiosos, com opiniões próprias ou transcrevendo alheias com as quais concordo, gostos, pequenas reflexões, sem qualquer outro intuito que não o de deixar expresso o meu comentário sobre os mais diversos assuntos.

Já passaram mais de 15 anos sobre o primeiro post (15 de Maio de 2006) e, por vezes, sorrio ao ler o que escrevi em tempos idos. Até hoje, ainda não me arrependi de nada mas, se isso vier a acontecer, cá estarei a "dar a mão à palmatória" e a penitenciar-me pelo erro cometido. Foi assim que aprendi e foi sempre dessa forma que me comportei. Se havia responsabilidades, se tinha acontecido erro, não havia outro remédio senão assumir, solicitando as desculpas devidas.

Por isso, "chateiam-me" as pessoas que procuram sempre bodes expiatórios, que nunca cometem erros e, se alguma coisa correu mal, nunca têm nem um niquinho de culpa, por mais importante e influente que seja o cargo que desempenham. Da política ao futebol, dos empresários aos bancos, dos jornais às televisões, o que não falta por aí são exemplos de descaramento e lata.

E conseguem fazer dos outros parvos, sem se rirem ou corarem. Não ficarão na história e, se daqui a alguns anos, alguém se lembrar de os relembrar, será apenas para lembrar que gente dessa nem vale a pena falar e muito menos lembrar. A "lembradura" foi repetida de propósito!

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Dúvida

Uma mosca sem valor
pousa, com a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

António Aleixo

O coronavírus parece a mosca do Aleixo. Pousa em todo o lado, não escolhe casa ou barraca, palácio ou gaiola, e, por mais "insecticida" que se lhe deite, não abandona o campo nem acaba o jogo. 

Com calor ou frio, o céu carregado de nuvens ou azulinho celeste, a chuva caindo ou o vento soprando, por cá se vai mantendo sem ter sido convidado, sem bilhete ou passaporte, molestando diariamente milhares de pessoas, levando algumas (felizmente bem menos do que no auge) e mantendo toda a gente em alerta forçado, preocupada, receosa de fazer isto ou aquilo, de ir ali ou além, de andar ou ficar parado.

E nem a praia traz a tranquilidade que é necessária e merecida e à qual o dia, lindo, convidaria. O distanciamento social, as conversas ao largo, as toalhas afastadas, os jogos ausentes, grupinhos de dois ou três miúdos, não mais, barracas para alugar, pouca gente no banho, e não é só por a água estar fria. Mas, antes de tudo isso:

- A máscara?

- Ficou no carro!

Volto atrás e digo para os meus botões: até na praia, bolas! Quando é qu'isto acaba?

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Autárquicas

As eleições autárquicas estão à porta e a azáfama é grande. A necessidade de mostrar, de se dar a conhecer, de aparecer e ser visto, de inaugurar obra mesmo insignificante, faz parte do quotidiano de todos, ansiosos que os eleitores os adorem e lhes concedam a "benção" de os apoiarem, de preferência com notícia partilhada nas redes sociais e nos jornais da "santa terrinha".

E ideias? E projectos? E ser diferente? E ambição de mudar? Nada disto parece estar na primeira linha, tudo ou quase tudo se resumindo a um "dizes tu, respondo eu", como se a "farinha" fosse igual e o "saco" semelhante. Será?

Agora que a idade acentua a propensão para a calma, a crítica e a análise (presunção e água benta, cada um toma a que quer), fico olhando, vendo e ouvindo os candidatos e, se de alguns já não tinha qualquer esperança em algo de novo, outros cheiram a mofo, outros há que me parecia (parece) poderem trazer algo de diferente.

Ainda vão a tempo! Deixem-se de tricas com e sobre o poder instalado, que pretende manter-se igual a si próprio. Tragam ideias novas, futuro, esperança, vontade, diferença, perspectiva, balanço, coragem, e digam isso sem peias nem medos. Não abram portas ao passado e apresentem novos modelos, que a hora é de mudança.

Não se submetam aos cânones do malfadado politicamente correcto. Disso já temos que chegue e estamos todos fartos!