segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Medo

Dizia-me ontem um amigo com quem não estava há largos meses:

- Mal saio de casa. Tenho medo. Vou ao supermercado logo pela manhã e tento despachar-me depressa. Nem à praia venho ... calhou hoje, mas vou embora não tarda nada. Está a chegar muita gente.

Medo. Apesar do tempo decorrido, do número de pessoas já vacinadas, de as notícias transmitirem um pouco mais de esperança, continua a ser a palavra mais presente, mesmo quando não é pronunciada. O que se tem passado deixa marcas, obriga a questionamento, transmite insegurança, deixa dúvidas permanentes, e termina sempre com "E se?".

Vive-se um tempo difícil, que faz perder a paciência, se é que ela ainda se encontra por aí. Exasperamo-nos com as esperas, não tiramos os olhos de quem tem por missão desinfectar, receamos pegar no correio que o carteiro nos estende, aproveitando bem o comprimento do braço, duvidamos que a mão do empregado não tenha tocado na chávena. E a inversa, tal como na matemática, também é verdadeira. Será que este tipo não estará?

Há medo do vírus corporal e do informático, há medo das fraudes, dos contactos, do trânsito, do calor e do frio, do vento e da chuva, há medo dos fogos e do polícia, de tudo e de nada, transformando-nos em medricas, hipocondríacos, opinativos, "achistas", "melgas", egoístas, parvos, estúpidos, convencidos, cheios de certezas absolutas e de ausência de dúvidas.

- Eu não tenho dúvida nenhuma de que ...

Até quando? A ver vamos ... 

domingo, 8 de agosto de 2021

Desporto

Chegam ao fim os Jogos Olímpicos 2020, realizados em Tóquio este ano, em consequência das limitações impostas por esse malfadado vírus que teima em manter-se na nossa companhia, apesar dos sentimentos que desperta e das vacinas que vão sendo dadas. Que me lembre, são os primeiros Jogos que acontecem em ano ímpar e julgo até, sem ter recorrido à "enciclopédia Google", que tal nunca se tinha dado.

Portugal teve uma participação "curiosa", arrecadando o maior número de medalhas de sempre - uma de ouro, por Pedro Pablo Pichardo no triplo salto, outra de prata, por Patrícia Mamona também no triplo salto, e duas de bronze, uma no judo por Jorge Fonseca e outra na canoagem, por Fernando Pimenta. Foram tidas e mostradas algumas atitudes e reacções que não lembram "ao diabo" mas lembraram a algumas pessoas com responsabilidades, de atletas a jornalistas. E foi pena!

O desporto, mesmo para os que dele fazem profissão, encerra um princípio elementar e que tem de estar sempre presente - saber perder. Deve aprender-se de pequenino e permanecer para sempre, a não ser que o mundo esteja de pernas para o ar e que andemos todos na Lua. Para que alguém possa ganhar tem de existir pelo menos um que perca. E o que é normal é perder, porque só há competição quando os participantes são pelo menos dois, e apenas um fica em primeiro.

Um pouco de humildade faz sempre bem, mesmo quando se foi ou ainda se é atleta de primeira linha.

sábado, 7 de agosto de 2021

Vícios

Há muitas coisas que já não conseguirei concretizar, mesmo que viesse a terminar para além dos cem, desiderato que não será atingido ainda que a minha vontade fosse muito forte.

Uma delas é ler todos os livros que tenho, todos os que ainda espero adquirir e aqueles que gostaria muito de ter lido mas que não foi possível fazê-lo no tempo devido. Ler é uma paixão que pede meças com o prazer de comprar. Talvez seja melhor utilizar a palavra vício em vez de paixão. Chega a ser obsessivo, a quase não ter limites e a obrigar a tento na "pinha" e na carteira. Para ajudar, estas modernices dos cartões, dos telefones e de todas as demais formas de gastar facilmente o dinheirinho, subtraem a noção de custo, desvalorizam o gasto, menosprezam a necessidade e reduzem o racionalismo a quase zero. Ainda por cima, há formas de pagar que demoram mais de um mês a produzirem efeitos visíveis na tal carteira, que é nova e, se não se cuida, abre-se em demasia. Nem tem moedas a tilintar ...

- Tenho aqui tantos para ler ... mas este não posso deixar de comprar. 

- E este, que saiu agora e é de um autor de quem nunca li nada. A sinopse é interessante e li uma crítica muito boa. 

A Feira do Livro vai começar a 26 de Agosto. A lista está feita e sofrerá muitas actualizações. Para além disso, no local há sempre qualquer coisa que chama, apela, manifesta-se. Está decidido: até lá, por muito forte que seja a vontade, não comprarei mais livros!

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Sabedoria

Ontem o pescador, diligente e amigo, tinha avisado:

- Aproveitem bem. Amanhã o mar dá a volta.

Ninguém ligou ao aviso, na certeza de que era basófia de pescador a dar "uma de entendido" nas peripécias do Atlântico que banha a Foz. O tempo estava tão bom, o mar estava chão, nem sequer havia vento. Tretas, para não estar calado.

Hoje, logo à chegada se deu conta que o "saber da experiência feito" existia. O mar nem parecia o mesmo. Revolto e trocado, ondas bem altas, apesar de a maré estar a encher há pouco tempo. Nem um surfista quanto mais um banhista.

Caminhada até à aberta e de novo a conversa do pescador:

- A "juventude" tem de ter cuidado. As ondas enganam, o mar está muito bruto e bate quando menos se espera.

Lá está ele outra vez ... nós conhecemos bem isto, que diabo.

Banho na aberta, sem perigo. O mar começava a entrar e fazia uma piscina agradável, com a água a uma temperatura nada habitual.

Regresso pela borda de água, em amena cavaqueira. O pescador já tinha partido e o mar batia com força, espraiando e convidando a andar na areia molhada. Conversa animada, quatro almas alinhadas na perpendicular e, de repente, uma onda vem de lá com uma violência que, por pouco, não leva todos ao chão. Foi preciso força nos pés e nas pernas para evitar que o caminho fosse o agueiro que desaguava lá bem no fundo. Um susto, um banho de água temperada com (muita) areia e a confirmação de que, afinal, quem conhece bem o mar é o pescador ...

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Figos

As felosas-brancas cirandam por toda a copa da figueira, saltando de ramo em ramo e comendo os maduros figos que por lá se vão dando. Passeiam-se pelos grossos troncos, ocupam as melhores folhas, saboreiam o melhor sol, resguardam-se na sombra divina quando o calor aperta.

Na parte de baixo, esvoaçam as fuinhas-dos-juncos, tentando subir o tronco sem nunca o conseguirem. Falta-lhes a força, e a capacidade de voar também é diminuta; sobra-lhes a fome e o medo de caírem da árvore. O controlo é apertado, as "donas" da figueira não admitem veleidades nem heroicidades, que o respeitinho é muito bonito e quem manda, gosta.

Mal nasce o Sol, as fuinhas ainda tentam aproveitar alguma distracção própria do acordar, e ensaiam subir, para alcançar um qualquer figo, mesmo que não dos de interior mais fofinho. Impossível. Há sempre alguma felosa bem acordada e vigilante que, com escarcéu e bater de asas, lhes retira qualquer entusiasmo e as obriga a contentarem-se com as pequenas migalhas largadas de cima.

E todos os dias se repete a cena de há milhões de anos: as felosas-brancas enchem o papinho e deliciam-se com o docinho dos figos bem madurinhos; as fuinhas-dos-juncos contentam-se com os restos, as sobras, os podres e os que, verdoengos, nunca chegarão a ter sabor.

O resto da passarada encara como normal que "enquanto uns comem os figos, a outros lhes rebentem os lábios",

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Papel

O embaixador Francisco Seixas da Costa diz hoje, no seu blogue "Duas ou três coisas", que deixou de comprar as "toneladas" de jornais que costumava adquirir, por altura das férias, à "menina da tabacaria".

Sem qualquer intuito de comparação, bem longe disso, também cá por casa vão rareando os jornais em papel, resumindo-se, por teimosia intrínseca, ao Expresso semanal, comprado no quiosque, e ao Jornal de Letras, à Gazeta das Caldas e à Visão que o carteiro (profissão em vias de extinção!?) vai trazendo, quinzenalmente, o primeiro, semanalmente, os outros dois. Mas a avidez da leitura desapareceu e o ritual tem tendência a copiá-la em breve, quando a coragem para quebrar a regra o permitir. 

As notícias hoje fervilham, são despejadas por todos os meios, repetidas até à exaustão ou até surgir um novo acontecimento mais apelativo aos olhos e aos ouvidos das audiências ávidas. Inúmeros "jornalistas" das redes sociais, das mensagens no telemóvel, dos mails, inundam-nos a todo o instante e despertam-nos a impaciência.  E com a grande "vantagem" de serem sistematicamente opinadas pelos grandes "sabões" de tudo o que acontece e de mais um par de botas.

É o progresso, a actualidade, o desenvolvimento, ou, como dizia a minha mãe, já não é o meu tempo ...

Vamos persistindo nos livros (hoje chegaram mais dois), muito por teimosia e porque esses não perdem actualidade e vão exercitando os "dez réis de caco" que ainda se mantêm à tona.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Não falou do gatinho nem de qualquer outro tema. Nem se lembrou da mica, nem do artigo. Não era ninguém. Não encontrava palavras e ele parecia feliz por não ter de conversar. Quando acabou, Nino recostou-se na cadeira, oferecendo o peito pressentido na camiseta justa ao olhar de quem estivesse. O pescoço é que era mais curto. Depois agradeceu com os floreados habituais o guisado perfeito, nunca provara nada melhor. E lançou-se numa peroração pós-prandial, que dizia mais ou menos isto:

- Um fantasma não tem de ser necessariamente irreal. Pode ser tão real como tu ou eu. Eles têm é diversos graus de realidade, de densidade, cara Anna, e eu diria que, em média, o seu grau de realidade depende sobretudo da densidade que cada um de nós consegue atribuir-lhe. Há quem consiga criar fantasmas do nada, mas o melhor, penso eu, é ter uma base, uma espécie de primário, como na pintura. Se houver um primário, uma cor unida, que nos empape a tela, a partir daí é mais fácil criar uma imagem. Ela é segura, é duradoura. Há quem considere que ver fantasmas é sinal de loucura. Mas na verdade todos somos fantasmas uns dos outros.

Anna calou-se, percebeu que tinha ali pano para mangas, no fundo pareceu-lhe banal o que ele dizia, no que precisou de sofisticação para aceitar ideias muito batidas pelo tempo - apenas porque vinham dele. De tudo o que dissera, ela escolheu sentir-se como alvo de uma crítica à sua devoção. Nino subtraía-se, mais uma vez, ao sentimento falso que nela imaginava com tanto empenho uma verdade qualquer, uma <<relação>>. Do ponto de vista estritamente filosófico, a teoria do fantasma não era convencional.(...)

Afastar-se
Luísa Costa Gomes
D.Quixote (2021)

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Bolas de Berlim

O "São Pedro" que tem a seu cargo a gestão climática do Oeste deve ter-se distraído com a abertura decretada e não cumpriu a determinação "primeiro de Agosto, primeiro de Inverno". Porém, rapidamente se apercebeu do lapso e mandou chover na noite e na manhã do dia 2, ainda a tempo de que a grande maioria dos veraneantes desta região não se apercebesse da imperdoável falha e não o recriminasse como é costume. Marques Mendes não o irá, assim, incluir no seu comentário semanal, por "três razões" fundamentais, que afinal, contando bem, até são quatro.

Vazia, a praia. Até o vento quis estar ausente. A chuva da noite e do início da manhã abandonou a região, com o "rabinho entre as pernas", que ninguém brinca com  o Oeste. Mas o objectivo tinha sido conseguido. A "fauna" da manhã ficou em casa, a tratar das limpezas ou a recuperar do sono adiado.

Havia pescadores. Mas estes são determinados pelas marés e nunca pelo tempo.

- Ainda era escuro quando cheguei. Mas não dá nada ... tenho ali uma douradita e é um pau! Daqui a pouco começa a vazar, acabou.

- Mas não há peixe?, pergunta o "nabo" que, dele, só percebe no prato, e pouco.

- A Lagoa não vaza bem, a porcaria do fundo não chega ao mar e o peixe não vem à costa, anda lá longe.

Explicação aprendida e apreendida, caminhada de regresso à cadeira, livro nas mãos. Já não faltará muito para o regresso a casa, dando lugar à "fauna" da tarde.

A menina das "bolinhas" aparece, um pouco atrasada em relação à hora habitual.

- Fui "fazer" as unhas. (exibe um verde azulado ou um azul esverdeado, não sei bem). Ainda não vendi uma ...

Vendeu, claro. São óptimas. Até as que vieram para casa já marcharam, não fosse azedarem...

sábado, 31 de julho de 2021

As férias

E Julho chega ao fim, com muito vento e algumas nuvens, como aconteceu em quase todos os seus dias. Não deixa saudades e, se justiça houver, vai ser castigado: só voltará para o ano!

Cumprindo o calendário gregoriano, amanhã inicia-se Agosto, mês em que qualquer português que se preze vai ou diz que vai de férias. Ninguém compreenderia que, após tudo aquilo que nos condicionou durante este ano e meio, se ficasse em casa, por opção ou incapacidade do porta-moedas, recipiente já caído em desuso e substituído com todas as vantagens pelo contact less.

É hora de fazer fotografias, para mostrar as nossas capacidades, agora que todos somos fotógrafos de alto gabarito, armados de telemóvel, mostrando os nossos corpos e as paisagens por onde andamos ou gostaríamos de andar, colocando nas redes sociais e à disposição dos "imensos amigos" as viagens do nosso sonho, as praias das nossas emoções, os restaurantes das nossas perdições, o rosto das nossas comoções e até, quem sabe, o sumo dos nossos limões.

Se for gente mesmo, mesmo importante, surgirão fotos em jornal ou revista, respostas a questionários "profundos" e "certeiros", uma roda de muitos amigos com câmara de televisão por perto, uma participação via Skype em directo, com luz suficiente para se constatar o "bronze", despejando um comentário oportuno, determinante e, se possível, supérfluo.

E não vale a pena tentar tratar do que quer que seja. Agosto é mesmo mês de férias e quem pensar o contrário anda distraído e tem o passo trocado.