sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Graça

Adorava contar estórias. E contava-as com humor, fazendo rir todos quantos o ouviam, mesmo quando a graça das ditas era pouca ou nenhuma. A sua eloquência, a postura teatral, o gesticular constante e adequado, tornavam a anedota mais boçal num discurso de prender atenções, como se dele dependesse o futuro do mundo.

Invejava-o, mesmo sabendo que a inveja é um pecado mortal. Aquilo que se podia contar em um/dois minutos, estendia-se, demorando, divagando, pormenorizando, acrescentando, misturando, de tal forma que, mesmo ouvida pela enésima vez, a estória surgia sempre nova.

Formou-se em Direito, deixou o Banco, nunca mais o vi, perdi-lhe o rasto, ao tempo ainda não tinham chegado os facilitadores telemóveis. Voltou à sua Braga natal e por lá deverá continuar a contar estórias, divagando na defesa ou na acusação, convencendo os juízes da sua razão e da dos seus constituintes.

Continuo a ouvir (e a contar) anedotas, adoçando a estória, dando voltas palavrosas e intermináveis, pintando cenários, acrescentando figuras ... mas falta sempre algo.

Há coisas que não se aprendem nem se estudam, nascem.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Caminhos

- Despistado

Quase nunca acerta no melhor caminho. Raramente o percurso mais rápido é descortinado e, muitas vezes, só a meio da viagem se apercebe de que, afinal, podia, e devia, ter escolhido outro.

Liga o "piloto automático" e confia nas suas capacidades de decisão improvisada e no conhecimento que detém há tanto, tanto tempo. Afinal, não há rua nenhuma da cidade que não conheça, e bem. Para quê estar a perder tempo com análises e planeamentos? De repente ...

- Mas não era por aqui ...

E lá desaparece mais um litro de gasolina, que está tão cara, diga-se de passagem, porque a volta, agora, será muito maior para chegar ao destino. 

- Parece impossível. É só dar à chave. Nem pensa ...

Há sempre vários caminhos para se atingir um objectivo. E vale a pena experimentar, ousar, tentar, inovar, perceber, procurando sempre o caminho crítico que há-de levar ao destino pretendido por cada um de nós e que varia sempre, até com o sol do dia ou o cinzento das nuvens.

O futuro está aí, à porta, e parece que os automóveis, um dia destes, já nem precisarão de chave quanto mais de ser conhecido o caminho. Um simples contacto biométrico, uma ordem sussurrada, e ei-lo a arrancar com rumo certo e determinado, sem falhas.

Talvez esteja para breve a sua chegada, a tempo, ainda, de corrigir todos os "nabos" que não cuidam do percurso antes de iniciarem a viagem e se deixam seduzir pelo improviso. Poupará tempo, evitará contratempos, não falhará, mas será sensaborão e não terá graça nenhuma.

É tão bom perceber que nos enganámos e que, afinal, o caminho não era bem por ali.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Esta "secção" costuma ser utilizada apenas para transcrever pequenos excertos de livros que se estão a ler, ou que foram terminados há pouco tempo, e ainda não tomaram o caminho para o seu lugar de descanso. Desta vez isso não acontece. Mas há uma razão, forte, para tal.

Ontem faleceu um, na minha modesta opinião, excelente escritor açoriano, relativamente pouco conhecido e cuja partida mereceu apenas umas referências de rodapé, indo, quem sabe, ao encontro da sua pouca propensão para a ribalta.

Na "estante" cá de casa há cinco livros de Cristóvão de Aguiar (08.09.1940-05.10.2021), lidos com bastante agrado em tempos idos. Para memória futura, ficam por aqui "meia dúzia" de linhas de MARILHA, livro editado em 2005, romanceando a vivência nos seus Açores. Podiam ser de Trasfega, Raiz comovida, Braço tatuado ou Miguel Torga - Um percurso partilhado, mas foram estas que saltaram na primeira abertura.

"(...) Auscultou-a com esmiuçado reparo. Palpou-lhe a barriga como se estivesse amassando um alguidar de pão. O doutor Virgínio de Medeiros. A cara atenta e franzida, fino de feições. E de repente a ruga funda, no início da testa, prolongando-lhe do lado esquerdo a cana do nariz, aprofundou-se ainda mais. Chamou o marido de parte, atrigado e portador de sinais visíveis de apoquentação. Mansamente foi-o informando que só para a operação. De corte urgente se tratava. Caso contrário, podia dizer adeus à mulher e mudar de estado. Só para os preparos da faquinha, eram mil patacas. Não contando com a aposentadoria no Hospital da Misericórdia da Ribeira Grande. Se ele dispusesse do dinheiro, muito que bem. Operava-se a mulher. Se o não tivesse, que fosse por ele ao sogro, ou que este ao menos se afiançasse pelo pagamento. Dentro de três semanas, o mais tardar um mês. Nele depositava toda a confiança. No sogro. Tratara-o quando caíra, desamparado, da armação do tecto de uma casa em construção. Ficaram amigos. Não sendo assim, que fosse com Deus bater a outra porta. Na dele não seria servido ...

Casados de fresco. Seis, sete meses. Castigo divino? Nunca se sabia. Mal a matar com os pais dela, sogros dele. Pedia-lhes a benção, segundo a lei vigente em Tronqueira e seu termo debruado de outras ilhas. E a mulher também. Às vezes nem resposta ouviam, de tal forma entredentes pronunciada. Deus te abençoe. (...)"

Marilha
Cristóvão de Aguiar
Dom Quixote (2005)

terça-feira, 5 de outubro de 2021

República

É fundamental, imperioso, obrigatório que, todos, façamos de Portugal uma República viva e que ela viva sem reisinhos, príncipes ou morgados, rainhas e princesas, fidalgos ou cortesãs.

Que sejamos corteses sem viver da e na corte, que as ruas e as avenidas possam ser sulcadas por todos, que o nome e a proveniência sejam os últimos identificadores das capacidades de cada um, que o mérito a todos distinga, sem cuidar da averiguação prévia da cor do sangue. 

Que respeitemos o outro e as suas opções, que não julguemos cada um em função daquilo que pensamos, que tenhamos sempre um país livre, aberto e plural, onde todos caibam e não haja atropelos, mesmo que alguns queiram condicionar o que a grande maioria pretende preservar. 

VIVA A REPÚBLICA!

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Campeões do Mundo

A selecção de Portugal sagrou-se ontem Campeã do Mundo de Futsal, derrotando, na final, a equipa da Argentina, por 2-1, depois de um jogo emotivo e disputadíssimo até ao último segundo.

A final resolveu-se nos quarenta minutos de jogo útil mas, no último segundo, a selecção argentina ainda acertou no poste da baliza de Portugal. O jogo foi renhido e a Argentina era o detentor do título, o que ainda valoriza mais o feito conseguido pelos jogadores portugueses. 

FIFA FUTSAL WORLD CUP LITHUANIA 2021

domingo, 3 de outubro de 2021

Rotina

Tudo é efémero!

No Afeganistão, já deverá estar tudo normal; nas Canárias, o vulcão quase não é notícia; a pandemia caminha a passos largos para desaparecer, das notícias, entenda-se. Os refugiados já se evaporaram do Mediterrâneo; o Rendeiro já tem dois "mandatos" e não concorreu a eleições; os novos autarcas estão quase a tomar posse; as moratórias chegaram ao fim; a "bazuca" não dará a morteirada que os empresários reivindicam; o Inverno chegará ... e o Natal também.

Os "achistas", entre os quais eu m'acho, continuarão a fazer comentários sapientes nas redes ditas sociais e os repórteres televisivos continuarão a deixar que outros façam o seu trabalho, colocando o microfone nas ventas do primeiro falador que lhes apareça pela frente: dá muito menos trabalho e não se queimam com a opinião sobre o assunto relatado.

Tudo voltará a ser como dantes, quartel-general em Abrantes.

sábado, 2 de outubro de 2021

Será desta?

Parece que, finalmente, estamos a entrar na recta final desta maratona complicadíssima, que nos roubou a paz e a tranquilidade, nos deu medos e ânsias, e nos fez recordar que, por mais fortes que sejamos, não passamos de "insectos" quando confrontados com a vontade da natureza.

Tenhamos a esperança que os excessos, tão esperados quanto naturais, não provoquem nenhum retrocesso e que o Natal, que está aí à porta, volte a ser o que era antes.

Mas, porém, todavia, contudo, como aprendi na primária, tinha de surgir algum "equívoco" de última hora para colocar no devido lugar o Almirante Gouveia e Melo, depois das lições de organização e logística que deu a um país normalmente tão desorganizado. Vai ficar sossegado uns tempos, para se capacitar que os bons exemplos não podem estar sempre a ser exibidos e que as primeiras filas têm os lugares reservados e não admitem "intrusos".

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Dia Mundial da Música

É proibido estacionar ... mas pode-se parar, ficando alguém ao volante para se pôr a mexer, caso surja o "chui" mal disposto.

O livro faz sempre companhia e o "motorista" está concentrado a ler mais algumas páginas, completamente alheio ao que se passa à sua volta. De repente, o carro abana com o barulho característico da batidela. Os olhos levantam-se e vêem a carrinha, branca, já a afastar-se um pouco, depois do mal feito, que se espera seja pouco.

O velho sai do carro e o novo abeira-se do ponto de encontro das duas viaturas. Nem bom dia, quanto mais desculpas.

- Ah! Não foi nada. Encolhe os ombros. Distraí-me a olhar para ali. E aponta o café.

- Deve ter mais cuidado com as manobras e com os outros.

- Com essa idade nunca errou? O que é que quer!

E voltou costas, ainda a "momar" mais algumas palavras, que não percebi nem quis entender. Afinal o velho não devia estar ali parado, àquela hora, quando havia alguém a trabalhar e a necessitar de estacionar o carro e que, coitado, era distraído sem nenhuma culpa disso.

Regressou daí a pouco, com dois sacos de plástico cheios de pevides, que foi buscar/comprar à praça. Percebi logo o caminho das desculpas que eram devidas: as pevides serão acompanhadas de umas cervejolas e as cascas irão para o lixo, fazer companhia às desculpas que já por lá estarão há anos.

Voltei ao livro e ainda li mais duas ou três páginas, até a "cliente" chegar.

Mas estou contente. Tive "música" logo pela manhã, no Dia Mundial da dita, e o carro nada sofreu, a olho nu.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Cinemas

Liz, Rex, Royal, Imperial! Que nomes de estadão. Ainda hoje impressionam. O giro dos meus cinemas. O Liz era o mais fino, aonde iam a mãe e a tia, muito bem-arranjadas, aos domingos. O pai não ligava a cinemas. Tinha visto Ladrões de Bicicletas em cópias privadas e colectividades esconsas, porque sim. O tio preferia o bilhar.

Havia classificações etárias, dos seis anos em diante. Quase todos os filmes (já censurados, cortados) eram para maiores de doze. O primeiro contacto que tive com o Shane foi a minha mãe a contá-lo, com entusiasmo. Anos mais tarde, eu confirmaria tal admiração. Mas, na altura, era preciso fazer batota, ou apanhar o porteiro da sala distraído.

Os colegas gabavam-se de terem truques, escapanços, cumplicidades que lhes deixavam ver filmes para dezoito anos! Dezoito anos! Ainda faltava tanto.

Mas chegou o liceu e, no liceu, no segundo ciclo, aquilo passou a ser um corrupio. A dois passos do Gil Vicente, ficava o belíssimo Royal que, por nossa causa, inconfessadamente, atrasava as sessões um quarto de hora, o que nos permitia assistir ao primeiro filme, logo desde o genérico, após correrias desenfreadas. Sessões duplas. Grandes coboiadas!

No Royal, a sala interior tinha um gosto requintado do princípio do século. Chão de pranchas. Muito baile ali rodou ... O Liz era discreto, fofo e elegante. No Rex, as cadeiras, de napa castanha, desagradáveis, adequavam-se ao filme negro do costume. O Imperial era modernaço, a atirar para francesices. Bem gravada (com obras-primas e tudo) me ficou toda a filmalhada que esqueci.

De maneira que é claro
Mário de Carvalho
Porto Editora (2021)

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Ironia do destino

Há gente para quem a vida é e será sempre madrasta e este homem é um deles. Mal nasceu, registaram-no como Rendeiro, condicionando e impedindo que se tornasse Proprietário, Empresário, Comerciante, Investidor ou qualquer outro nome condizente com prestígio.

Não! Será Rendeiro para toda a vida, aqui ou algures num país daqueles de onde não há aviões para Portugal. Nem mesmo com um creditozito à habitação deixará de ser Rendeiro e isso deve custar muito. Por mais sacrifícios, poupanças e aquisições que faça, nunca passará a Proprietário, quanto mais a Senhorio.

Na sua vida profissional, dedicou-se inteiramente à gestão de fortunas de outros, por via de um Banco que até era Privado de nome. Estaria ainda nessa nobre função, não fora a crise do Lehman Brothers ter atirado o castelo abaixo e acabado com a alta rentabilidade dos avultados activos financeiros que geria,  proporcionando altos rendimentos aos donos que lhe tinham confiado a "massa". Tudo se desmoronou, por culpa que não lhe pode ser imputada, e muito menos por isso castigado. São coisas que acontecem num mercado aberto ao mundo, sempre na busca do bem estar de todos os que têm para isso capacidade.

E agora, não contente com tanta desdita, a justiça portuguesa ainda quer que o homem cumpra uns anitos de prisão a que foi condenado. É preciso descaramento!

Para fugir a esta ignomínia, Rendeiro deve ter vendido os poucos "trainecos" que possuía e, com dificuldade, deu o salto para um país qualquer de onde pudesse pular para um outro, dos tais que não têm voos para este lindo país à beira mar plantado. A esta hora estará, por certo, a passar grandes dificuldades, talvez lavando escadas ou cavando batatas, em condições terríveis, explorado até ao tutano por algum malvado parecido com aqueles a quem dedicou toda a sua vida de trabalho e que se apressaram a tirar-lhe o tapete quando deles precisou.

Esta gente não se enxerga: então há lá motivos para prender o homem?. Ainda bem que ele se pôs "ao fresco" e, lá longe, não se sabe bem aonde, luta pela sobrevivência e pela liberdade que alguém, completamente desprovido de sentimentos, lhe pretende tirar.

P.S. - João Rendeiro, antigo presidente do Banco Privado Português, foi condenado, com sentença transitada em julgado, a vários anos de prisão, mas foi autorizado a viajar para Londres.