segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Barretes

Trabalhava no campo, à jorna, como muitos outros que conheci na minha juventude. Tinha uma perna torta, fruto de algum acidente ou proveniente de "defeito de fabrico", nunca cheguei a saber. Era um dos que se apresentava, logo pela manhã, em busca de um diazito de trabalho que desse uns trocados para a mercearia. Poucas vezes era escolhido. A mazela condicionava a sua ligeireza e, por isso, só quando a necessidade de braços era muita, tinha sorte. 

Numa pequena leira, arrendada ao proprietário e, às vezes, seu patrão, cultivava as batatas, as couves, as cebolas e os tomates, as nabiças, algumas favas e ervilhas, e era de lá que retirava o sustento para a sua casa, onde vivia só com a mulher. A renda da leira era, se bem recordo, dez escudos por ano.

- Venho cá pagar os dez mil réis do ano ...

O barrete já vinha na mão, retirado que fora à porta do escritório, e que assim permaneceria até à saída, sempre com a reverência de quem servia e não podia ser apanhado em falta. As moedas estavam lá no fundo, junto à borla mas pelo interior daquela peça preta que, fosse Verão ou Inverno, lhe tapava a cabeça e só de lá saía para o devido cumprimento a alguém importante.

Chamavam-lhe o Pica-Milho, não por ser especialista em milho ou possuir algum milharal, mas talvez porque sim ... toda a gente tinha uma alcunha. Podia ser Pulga, Maestro, Roto, Pacau, Jabarda, Larau ou outra qualquer das muitas que, tantas vezes sem razão aparente, eram a identificação de alguém cujo nome de registo não era registado por ninguém.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Teatro

Foi uma tarde (bem) passada, ontem, no Teatro da Rainha. Primeiro, a 5ª. Edição do Colóquio "Teatro, Espaço Vazio e Democracia", durante o qual se debateu a situação da projectada sala que há-de ser a deles, nossa, para que a Companhia dê largas às suas ideias, criando e desenvolvendo aquilo que sabe fazer: ARTE.

A situação da obra, nesta altura, é literalmente um buraco, detectado quando se iniciaram as escavações e que resulta de um antigo areeiro, entulhado, e, por isso, sem condições de segurança para as fundações. A situação foi omitida a quem fez o projecto e o caderno de encargos da empreitada não a previu. O imbróglio "esburacado" ainda está longe de ser resolvido, com a Câmara Municipal a procurar chegar a acordo com a empresa, a qual, entretanto, abandonou a obra. Os responsáveis da Câmara presentes no Colóquio estão moderamente optimistas e esperam que, dentro de três anos, o espaço esteja a funcionar em pleno. Tenho as minhas dúvidas mas sou, por natureza, pessimista.

Depois dos assuntos "sérios", nada melhor do que desfrutar de cerca de uma hora e meia de teatro, com uma encenação óptima de Fernando Mora Ramos para o "Discurso sobre o filho da puta", um texto de Alberto Pimenta, que já conhecia mas nunca tinha visto encenado. A interpretação dos quatro actores foi soberba e deu ainda mais vida à qualidade do texto. No regresso a casa, já noite cerrada, vinha reconfortado.

Nota final: O Teatro da Rainha já tinha programado o espectáculo há muito, pelo que é manifestamente exagerada a presunção de que a sua apresentação tem alguma coisa a ver com a prisão de João Rendeiro, na África do Sul, acontecida na manhã de ontem. E eu, que sou pessimista, fico preocupado com as actuais restrições aos voos da África do Sul, que poderão obrigar o senhor a vir de barco ou a nado.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Assistíamos juntos aos jogos do Bayer Leverkusen. Ele costumava dizer que os presidentes dos clubes de futebol estão completamente errados. Insistem em contratar treinadores, quando qualquer adepto sabe muito mais do assunto. Pareceu-me uma ironia que funcionava então e que continua a ressoar nos dias de hoje. Basta entrar num café e perguntar como vai o Benfica, o Sporting ou o Porto, que aparecem treinadores com um copo de três na mão e palito na boca, ou mesmo, como agora, de fato e gravata na televisão, que evitariam contratos milionários pondo tudo a trabalhar na perfeição, graças às análises óbvias feitas a posteriori. Nós também éramos assim, claro, a História compreende-se de trás para a frente e é hermética em relação ao futuro. Compreender o que passou e o que deveria ter sido feito é relativamente fácil, o que é difícil é imaginar todos os "ses" possíveis que o futuro nos coloca, e, dizia, nós, como qualquer outro adepto, sabíamos perfeitamente quais os jogadores que deveriam jogar e quais deveriam ficar no banco ou ser vendidos, que estratégia usar, com que perna determinado jogador deveria rematar ou driblar, sabíamos tudo, era um bom tempo, esse em que sabíamos tudo com toda a certeza possível, hoje já não consigo ter certezas sobre nada. Acho que compreender o futebol era um treino para compreender a vida. Ao perceber as jogadas possíveis, as intenções, dissimuladas em fintas ou abertamente provocadoras ou explícitas, compreendíamos as relações entre as pessoas e, ao olhar para o jogo como um todo, também percebíamos a vida como um todo, desde a tristeza inalterável do resultado negativo até à euforia do triunfo esporádico. É a idade que corrói esta felicidade, não é?(...)"

Sinopse de Amor e Guerra
Afonso Cruz
Companhia das Letras (2021)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Decisões

Já germinava há bastante tempo. Grandes decisões têm de ser ponderadas, amadurecidas, repensadas, para não darem asneira.

Foi hoje, finalmente. Tenho três televisores em casa e resolvi adquirir um quarto. Dirão uns:

- Não sabe o que fazer ao dinheiro.

Argumentarão outros:

- Para quê, se cada vez se vê menos televisão. Só pode ser vício e parvo.

E não é. É necessidade imperiosa de ter um televisor diferente, mais completo e adaptado à realidade que temos hoje. Um televisor que permita desligar metade do ecran, de forma independente e sempre que eu queira. Explico melhor: passou a ser normal que todos os canais, ao transmitirem notícias, dividam o ecran em duas partes distintas, colocando, normalmente à esquerda, quem noticia ou comenta, seja Presidente da República, Primeiro-Ministro ou entendido na matéria e, no outro lado, um braço despido a ser espetado por uma agulha. A câmara aproxima bem a imagem, de forma a não se perder pitada.

Estou farto! Quero continuar a ver e a ouvir notícias mas dispenso as agulhadas. Aprendi cedo que "tudo quanto é demais é moléstia" e isto já acontece há demasiado tempo, sem que haja qualquer necessidade ou justificação. 

Falta apenas decidir qual a marca do televisor a adquirir e, como o tempo não convida a sair, vou consultar esse grande sabichão Google, que tem resposta para tudo.

Bolas! Que desilusão! Ponderei tanto, demorei a decidir para tomar a melhor opção e, afinal, ainda não há televisores que permitam fazer o que pretendo. Parece impossível! No século XXI! Não se admite!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Impulsos

Como qualquer pessoa normal, julgo, também faço compras apenas por impulso. Tento controlar-me mas, por vezes, até nos livros isso acontece.

Quando era criança, se o fui, havia uma tia-avó que morava, sozinha, em Lisboa. Chamava.se Dionísia e o contacto com ela foi muito pouco, pela distância e pela idade. Veio acabar os seus dias na Misericórdia das Caldas, por força de influências que o meu padrinho exerceu, conseguindo o seu internamento no lar da Instituição. Na época, o estabelecimento de internamento não se chamava lar, mas a palavra que era utilizada caiu em desuso ou foi suprimida pela violência que continha.

Numa das, na altura poucas, deslocações a Lisboa, fomos de propósito a uma rua estreita, por detrás do Cinema S. Jorge e paralela à Avenida da Liberdade, visitar a tia.

- É neste prédio que mora a tia Dionísia, referiu a minha mãe.

E lá fomos, escada acima, até ao último andar.

Rua Júlio César Machado. Fixei, sem cuidar de saber quem era nem a razão de a rua ter aquele nome. Anos mais tarde, soube que se tratava de um escritor mais ou menos esquecido, contemporâneo e amigo de Camilo Castelo Branco, sem mais acrescentos.

A semana passada, num dos habituais mails de divulgação, a Tinta da China dava conta da edição, na sua colecção Literatura de Viagens, do livro "Do Chiado a Veneza", de Júlio César Machado. Mandei vir. Chegou hoje. Julgo que são crónicas de uma viagem a Itália. Ainda não li, mas já está na fila.

Foi a minha tia Dionísia que me ordenou a compra.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Matina

Apesar do mar encapelado, do vento que se faz sentir, dos avisos sobre a depressão Barra, o João está Feliz. Recebeu a Canária, amarelinha e talvez cantadeira como convém a quem enfrenta o mar e ali estão, juntos a alguma distância, não vá o corona traí-los e estragar a felicidade. O Pena está triste. Se dúvidas houvera, o nome com que se exibe eliminava-as. À sua beira não há mais ninguém e o "casal", embevecido, nem para ele olha.

As gaivotas não arriscam o voo e procuram sítios mais abrigados do que a proa dos barcos. Os patos nem devem ter saído de Tornada, não por o calendário determinar que hoje não se trabalha mas por haver no ar e na água a sensação (ou a certeza) de que vai haver borrasca.

A água está escura, agitada, longe daquele verde azulado ou azul esverdeado que exibe, orgulhosa, no Verão que ainda vai tardar uns meses a voltar. 

Faltam peças e gente, mas a Lagoa é sempre (muito) bonita!






terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Inventário

Baixinho, poucos cabelos e brancos debaixo do boné, engravatado a azul claro sobre camisa de terylene branca, fardado de azul escuro, a calça com uma "risca" de cetim de alto a baixo e o casaco com botões dourados, sempre cintilantes. Era o caixa da Banda.

Transfigurava-se. Não sabia uma letra do tamanho de um comboio, como respondia sempre que o questionavam sobre saber ler, mas dominava completamente as pautas de música. Era ele quem o maestro incumbia de suprir as falhas e as desatenções do colega do bombo, que não entendia a diferença entre uma semicolcheia e uma semibreve e dava a pancada mais forte quase sempre atrasada. Nas arruadas, era o único que tocava sempre, mesmo quando a banda se calava. Marcava o compasso da marcha, com as duas baquetas a rufar e fazia com que todos os músicos marchassem certinhos, sem necessidade de regência.

Durante a semana de trabalho era o fiel do celeiro. Cabia-lhe, também, manter a entrada da quinta livre das folhas dos plátanos ou de quaisquer outros lixos, não fosse chegar alguém importante e o saibro não estar um brinquinho para ser pisado. Tratava do Bob, um boxer meigo que o acompanhava quando não dormitava, deitado à sombra, sempre com um olho meio aberto e atento a tudo o que se passava à sua volta.

- Ainda temos muita aveia?

- Quase seiscentos quilos. Encetei hoje uma saca e estão ali mais onze.

Sem máquina de calcular ou papel e lápis, era na cabeça que tinha o inventário, sempre actualizado.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Dissolução

Apesar de ser Domingo, dia tradicionalmente dedicado ao descanso, o Presidente da República foi ontem trabalhar, assinou o decreto de dissolução da Assembleia e confirmou, dando-lhe forma legal, a marcação das eleições para 30 de Janeiro do próximo ano.

É a primeira vez que a Assembleia da República é dissolvida sem haver demissão do Governo, situação que já levanta polémica entre constitucionalistas e opinadores. Uns consideram que passa a ser apenas um Governo de gestão, enquanto outros argumentam que a ausência da demissão permite e determina que as funções e os poderes se mantenham intactos.

Mais um excelente contributo do "direitez" para "opinações" várias, de entre as quais seria importante também existir uma neste espaço. Não vai acontecer. Parafraseando um chefe que tive há muitos anos, falece-me competência no assunto e não dou palpites. Todavia, fico certo de que não haverá conclusões em tempo útil, demonstrando, se isso ainda fosse necessário, que o Direito pode ser tudo menos direito e conclusivo, e que é sempre bom existirem, pelo menos, duas opiniões sobre o mesmo assunto.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Dia cinzento

Se tivesse aceitado o convite, teria mergulhado hoje nas águas cálidas de Cabo Verde, descansando a mente e pigmentando a pele mais um pouco. Ouviria mornas e coladeras tradicionais, sempre tão bonitas, para quem gosta, claro. 

Por aqui, faz frio e chove, num daqueles dias em que só apetece lareira ...

sábado, 4 de dezembro de 2021

Responsabilidades

Já não há Cabrita Ministro!

O Ministério Público decidiu processar o motorista do antigo (desde ontem) Ministro da Administração Interna e Eduardo Cabrita foi à vida, não sem antes revelar a sua interpretação clara sobre o sucedido.

- O veículo onde eu seguia foi vítima de um acidente ...

Sem querer, o ex-Ministro "encomendou" mais trabalho para o Ministério Público (MP) levar a cabo. 

O motorista já está acusado de homicídio por negligência, tarefa que não deve ter sido difícil por que toda a gente sabe que os motoristas oficiais são seres completamente irresponsáveis, que não obedecem às regras nem às ordens de quem sobre eles detém prevalência disciplinar e hierárquica, e, ainda por cima, decidem sempre chegar com grande antecedência aos locais de destino, criando, com isso, situações embaraçosas às autoridades que transportam. 

O MP deverá também mover uma acção contra o trabalhador atropelado que atravessou a auto-estrada num local onde, legalmente, não era permitido (nem passadeira havia), provocando um despiste que poderia ter tido consequências terríveis para os ocupantes da viatura. No entanto, o Tribunal não chegará a pronunciar-se por já não ser possível citar o prevaricador.

Por último, talvez o MP proponha que o Tribunal se pronuncie sobre o montante da indemnização a atribuir ao veículo sinistrado, pelos estragos com que ficou e por ter sido obrigado a abandonar a carreira de que tanto gostava, não passando hoje de mais um "chaço" numa garagem qualquer. É vital que se faça justiça ao veículo que sofreu um acidente e disso não teve qualquer culpa.

Há momentos na vida em que o silêncio é o melhor discurso, por mais insistências e vontades que surjam. Todo este triste espectáculo seria evitado se, naquele fatídico dia 18 de Junho de 2021, Sua Excelência tivesse vindo a público, de preferência por escrito para evitar baboseiras, dizer que se ia embora e que o Estado assumiria, de imediato, as responsabilidades integrais junto da família do falecido, uma vez que já não lhe poderia devolver a vida.