sábado, 5 de fevereiro de 2022

Netos

Iniciei o dia a espreitar um pequeno vídeo, sobre o meu neto caçula, que me deixou extasiado e feliz, muito feliz. 

O meu Miguel completa hoje seis anos e é um doce. Dotado de uma personalidade forte (teimoso é o avô e não creio que haja genes herdados), lê com desenvoltura, fala com nexo, tem curiosidade a rodos.

- Porque me pegas sempre ao colo?

- Já estás muito grande mas, por enquanto, ainda consigo. Assim, posso dar-te um abracinho mais forte ...

O aperto acentua-se ainda mais e a satisfação, de ambos, é visível e muito bem compreendida pelos dois.

Aqueles olhos dizem tudo!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Calçada

Anafado, barriga proeminente, poucos cabelos e todos brancos, arrasta uma das pernas com muita dificuldade, auxiliado pela muleta que apoia no braço direito. À vista desarmada, (que raio de expressão, como se fosse possível usar canhões em vez de óculos ou lentes de contacto) parece ter sofrido uma intervenção cirúrgica - operação era antigamente - na anca, tal é a patente cautela com que se desloca.

Os olhos vão atentos a tudo o que lhe possa provocar algum desequilíbrio. A calçada é traiçoeira e deixa pedras acima do nível, arranjando forma de o mais incauto tropeçar sem dar por isso. É a maneira de se vingar por estar por ali apertada e ter levado umas valentes marteladas antes de lhe darem o poiso definitivo. Não vê mais nada à sua volta e, mesmo na passadeira, as cautelas com o trânsito não diminuem as que tem com o solo. Cautela e caldos de galinha ...

Parece ter um destino concreto, não anda à deriva, tem objectivo na caminhada. Nota-se à légua (outra expressão já sem sentido algum: quem é que, agora, consegue ter cinco quilómetros de horizonte silencioso?). Chegou ao destino. Entrou na loja, talvez vá comprar peúgas, ou meias, ou camisolas interiores, de alças ou mangas, talvez de mangas, brancas, de certeza. Está frio e a idade não convive bem com ele.

Quentinho, talvez a anca melhore depressa e ainda volte a correr. Quem sabe!?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Misturas

A política e o futebol têm muita coisa em comum ou, como dizia o outro, às vezes até parecem farinha do mesmo saco.

Os resultados obtidos quer num quer noutra são tão escrupulosamente escalpelizados, analisados e comentados que chega a parecer que habitam um mundo do Além, só acessível a uns poucos iluminados, donos de toda a sapiência, que nunca é partilhada, muito menos ensinada a todos aqueles a quem se convencionou chamar de cidadão comum e que integram a, agora na moda, sociedade civil.

A conclusão, brilhante, é que a culpa nunca é nossa e, apesar de termos jogado mal, não merecíamos que aquilo nos sucedesse. Fizemos uma análise clara e segura da situação, estudámos tudo muito bem, planeámos ainda melhor mas ... com aquele árbitro era impossível ganhar. E tudo estava preparado com antecedência e com todo o requinte ... de malvadez. Somos umas vítimas ...

Não nos cansamos de repetir, para que todos saibam, que a culpa não foi nossa e que vamos lutar contra tudo e contra todos, que a nossa vontade é indómita e nada nem ninguém nos deterá. Os árbitros, todos eles, que se cuidem ...

Vamos levantar a cabeça!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Palavras bonitas (ilustradas)

Barril de Alva, 28 de Setembro de 1942

SAUDAÇÃO

Não sei se comes peixes, se não comes,
Irmão poeta Guarda- Rios:
Sei que tens céu nas asas e consomes
A força delas a guardar os rios.

É que os rios são água em mocidade
Que quer correr o mundo e conhecer;
E é preciso guardar-lhe a tenra idade,
Que a não venham beber ...

Ave com penas de quem guarda um sonho
Líquido, fresco, doce:
No meu livro te ponho,
E eu no teu rio fosse ...

Diário II
Miguel Torga
Coimbra (1977)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Verão

O ano ainda ontem começou e já estamos no segundo mês. Dantes dava-se corda aos relógios e o tempo corria, sim, mas muito mais devagar. Toda a gente se lembra o quão difícil era chegar aos dezoito anos, para se ser emancipado, que a maioridade, essa, só se atingia aos vinte e um. 

Agora, ainda nem o Inverno, real, não o do calendário, chegou e o Carnaval já se perfila a grande velocidade. Sem folias, está bem de ver. O "bicho" nem precisa de corda, tem pilhas mais do que suficientes para aguentar tudo, manter-se à tona e a distribuir infecções por todo o lado. Nem o Primeiro-Ministro escapou. É mesmo mauzinho, o raio do vírus. Nem deixou o homem celebrar a vitória, tal como impediu a Inês, líder do PAN, de saborear a derrota. Não vai ser este ano que voltam os gigantones, as matrafonas e os corsos famosos, perdendo-se, uma vez mais, a alegria e a diversão dos folgazões e as críticas que, melhor ou pior, são características nestes festejos.

Esta vertigem da vida, que nos encaminha para a meta a uma velocidade estonteante, aliada ao sol radioso que se mostra sem qualquer pudor numa época em que devia estar bem recolhido, dando lugar às nuvens negras e à chuva que bem necessária é, tem um lado positivo compensador, que não é de somenos e deve ser valorizado: o Verão está aí à beirinha e o mar abandonará a violência com que, nesta altura, bate na desgraçada da rocha, violência à qual nem o mexilhão escapa, coitado. E, quando ele chegar, o mexilhão vai deliciar-se com a sua meiguice, o caminho para a Foz passa a actividade diária e o mergulho nas ondas refresca a cabeça, mantendo-a fresquinha, como convém.

Estamos quase lá. Falta só um bocadinho de nada!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Eleições

"Vitória, vitória, acabou-se a história!"

Quem apostou que iria haver um novo governo a meio da legislatura, perdeu. E perdeu bem! 

Numa altura em que todo o país (e o mundo) ainda anda a braços com o malfadado vírus, que tem atazanado a vida a todos e criado problemas que trarão repercussões enormes no futuro, prevaleceu a ideia de que derrubar o governo era criar mais uma pandemia a juntar à outra. E por isso ...

Os portugueses que votaram, bem mais do que nas eleições anteriores, deram uma trepa naqueles que não tiveram calma e correram sem nexo. Não há bela sem senão e, na nova assembleia, sentar-se-ão doze "caramelos" que  lá não pertencem, mas que se há-de fazer ... são os custos do sistema. Não sendo perfeito, é o melhor que se pode arranjar e, confirmou-se uma vez mais, permite punir e premiar, desde que as pessoas se interessem e se dêem ao trabalho de colocar a cruz no sítio certo.

Desta vez, a legislatura deverá durar os quatro anos previstos na lei e depois ... se verá!

domingo, 30 de janeiro de 2022

Actualidade

Esta manhã passei os olhos pelo número 320 da Exame Informática, correspondente ao mês de Fevereiro deste ano, que vai começar na próxima terça-feira. Confesso que a minha dificuldade em ler já é muita, não por a revista ser editada em alguma língua que não domine mas antes pela minha estranheza, dificuldade e ignorância de uma grande parte dos temas nela tratados.

Os tempos mudaram. E muito. Não sendo um info-excluído, dominando razoavelmente Excel, Word, Power Point e outros programas, sempre na óptica do utilizador, reconheço, todavia, que muitas das utilidades que hoje aparecem ligadas à informática me deixam perplexo e extasiado com os caminhos que se abrem todos os dias, alguns (poucos) dos quais ainda vou conseguindo trilhar sem dificuldades de maior, dada a sua "leveza".

Voltando à Exame Informática referida, surgiu-me um título que despertou a curiosidade, a qual, mesmo algo mitigada, ainda por mim vai escorrendo: "ESCOVAS DE DENTES INTELIGENTES". E, logo abaixo, a explicação: "a tecnologia ajuda-nos em tantas actividades ... porque não usá-la também na higiene oral? Além de eléctricas, são inteligentes!". De seguida, surgem cinco exemplos de escovas eléctricas, cujo preço vai de 39,99 € a 279,99 € e que apresentam um manancial de soluções e de informação que eu acho (sim, sou "achista") que devia ser obrigatório usar uma delas e não aquela coisa anacrónica que escova os dentes tal qual como no século passado.

1. "Executa 31 mil movimentos por minuto (...) e permite, através da app, analisar a escovagem."

2. "Tem um sensor de pressão que ajusta sozinho o número de movimentos para proteger as gengivas."

3. "A fusão entre os sensores e um algoritmo de IA alerta o utilizador caso se esqueça de escovar uma área específica."

4. "É como um assistente (...) até regista o nosso progresso de limpeza ao longo das semanas."

5. "É o Ferrari (...) tem elegância, desempenho e a capacidade de mapear em 3D os dentes."

Fiquei esclarecido e ainda estou a reflectir a decisão a tomar. 

Já não vale a pena alertar os partidos que hoje concorreram às eleições para o efeito que teria no resultado, se, no programa, incluíssem a possibilidade de oferecer uma destas escovas a cada português. Mas fica a indicação. Quem sabe se nas próximas (que não deverão tardar muito, digo eu, que sou "achista") não resultaria em pleno.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Reflectindo

A reflexão está a acontecer e não deixa margem para outra coisa que não seja reflectir porque hoje é o dia da reflexão e no dia da reflexão não se pode fazer outra coisa que não seja reflectir e por isso se exige a todos e a cada um que reflictam sobre como agir amanhã, perante a decisão que haverão de tomar frente ao boletim de voto que exige uma decisão reflectida, tomada como o resultado de uma reflexão de vinte e quatro horas, que há-de reflectir a escolha de cada um e lá para o final da noite, veremos, ouviremos e leremos sem podermos ignorar, como reflectia Sophia, o resultado de uma profunda reflexão reflectida por todos os que foram votar, com toda a segurança proporcionada pela reflectida reflexão de quem sobre o assunto muito reflectiu e votou, e também por aqueles cuja reflexão lhes determinou a reflectida decisão de não comparecerem por acharem que estas eleições resultam de uma não reflectida decisão tomada em plenário por deputados que não reflectiram o suficiente, apesar do aviso reflectido do Presidente da República que a todos disse, depois de reflectir por uns momentos, que a reflexão sobre o chumbo devia ser muito bem reflectida, mesmo que para isso fossem necessários vários dias de reflexão e não apenas o curto dia que nos é proporcionado para reflexão tão importante, escasso para que a reflectida decisão se torne clara e aponte o local da cruz que seja o resultado da reflexão tida e que não deixe qualquer dúvida por reflectir, proporcionando o resultado reflectido pela reflexão de todos os portugueses.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Gaivotas ...

... em terra, temporal no mar.

A rotunda tem uma fonte enorme, redonda, com azulejos a cobrir a parede da zona que armazena a água e de onde a mesma parte para criar efeitos incolores durante o dia e luminosos mal o sol se põe. Divide, ou une, dois bairros característicos da cidade - Ponte e Arneiros - e por ela muito trânsito flui, às vezes com bastante dificuldade, pelos diversos e estratégicos itinerários que proporciona.

Até há pouco tempo, os únicos visitantes alados eram alguns melros mais afoitos e um ou outro pardal que aproveitava a água para se dessedentar e a relva para penicar. Agora, porém, tem muitos habitantes fixos, emigrados da Foz do Arelho, que olvidaram ou não querem fazer o caminho de regresso. Dela fazem o seu mar e por ali se quedam, dormindo nos postes de iluminação. As inúmeras gaivotas exercitam a sua capacidade física por toda a cidade, acima dos telhados, e depois descansam na relva e na água da fonte.

Estão de tal forma habituadas ao novo poiso que terão perdido o sabor salgado da água do mar, a sensação da areia debaixo das patas e o prazer gastronómico dos peixes que os seus bicos surripiavam à lagoa e ao mar. Agora, de acordo com os novos tempos, vão-se abastecendo no takeaway dos benfeitores dos gatinhos, que deixam as bolinhas de ração em sítios estratégicos, sendo que grande parte delas, bolinhas, nunca chegam a descer pela goela dos bichanos a quem eram destinadas. As gaivotas, em voo picado, encarregam-se de, rapidamente, fazerem desaparecer o pitéu que mãos e corações preocupados queriam que alimentasse os gatos sem abrigo.

"Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma - Lavoisier"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) A ideia de uma peregrinação a Roma, empreendida por uma viúva alemã em era de turbulência religiosa, poderá desafiar um narrador de histórias de qualquer época e local. E se se aduzir que nos achávamos no fim da Primavera de mil quinhentos e trinta e quatro, e que Martinho Lutero afixara as suas negregadas teses dezassete anos antes no portal da Igreja do Castelo de Wittenberg, núcleo donde eu, a referida senhora, iria partir, obteremos um quadro em que se revelará tarefa simultaneamente árdua e fascinante introduzir alguma acção.

Eis que o Reformador continuava entretanto, e tal e qual como hoje, a exprimir a sua arrogância, quer contra o Papado inamovível, quer contra os fanáticos anabaptistas.

Seriam várias as semanas de preparativos aturados, visando a bem dizer uma quase mudança de residência para um país diferente, na qual eu acabaria por investir aquilo que me assistia ainda de meios de fortuna, e de energias do corpo. E naquela loucura senil, ou naquele ímpeto redentor, sentia-me por vezes à beira da assinatura de uma sentença de morte. Recrutei quanto consegui de batedores, criados e guardas, reuni os animais de tiro e carga indispensáveis, e acumulei arcazes sobre arcazes, de mantimentos e roupas, de armas de ataque e defesa, de peças de mobiliário, e de artigos de botica. E convidei a querida Susanna, amiga de sempre, para me acompanhar na expedição em que figuraríamos como as únicas mulheres. Quanto às relíquias que me cumpriria negociar, tendo obtido para o efeito a promessa de mediação do cardeal Cajetan, distribuí-as pelos falsos engenhosamente praticados nos múltiplos caixões de transporte da bagagem.(...)"

Tríptico da Salvação
Mário Cláudio
D. Quixote (2019)