sábado, 19 de fevereiro de 2022

Pimpões

Os Pimpões comemoram hoje oitenta e quatro anos de actividade ininterrupta, em prol da instrução e recreio, como está bem explícito na sua designação. Durante toda esta caminhada, a Associação tem sabido adaptar-se sempre às novas necessidades dos seus sócios, continuando a desenvolver actividades importantes e necessariamente diferentes daquelas com que se iniciou.

Hoje já não há educação de adultos nem teatro para ocupação dos tempos livres, nem bailes que divertissem quem tão poucos motivos tinha para isso. A natação e o basquetebol são as grandes áreas no desporto, e a escola de dança o referencial na cultura.

Fui dirigente daquela casa durante cerca de 15 anos, dos melhores que recordo da minha vida. Deixei lá bastante de mim, julgo, mas aprendi muito mais. Do teatro à música, da pintura ao bailado, da gestão às relações humanas, do desporto à diversão. Conheci muita gente, alguns sem o mínimo de interesse enquanto pessoas, bastantes que recordo muito e bem. 

Foi lá que os meus filhos aprenderam a nadar, muito bem, diga-se, para que conste. A filha fez competição federada, o filho preferiu outra modalidade. Os netos também por lá andam, em busca da perfeição natatória. Dois deles já competem e o mais velho tem conseguido óptimos resultados, culminados com a chamada à selecção nacional da sua categoria.

Ainda hoje é nos Pimpões que vou dando as minhas braçadas, para tentar evitar um mais rápido anquilosamento do físico. Logo à noite, estarei a assistir à festa de aniversário, com o maior prazer.

Longa vida a uma Associação tão antiga e tão dinâmica, e os votos de que se mantenha sempre em actualização permanente, sem subserviências nem sobrancerias.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Diminutivos carinhosos

- Aqui mora o senhor Chiquinho S..

Chiquinho?! Era um velho que ali morava, com a mulher. Já várias vezes o tinha visto, muito embora não estivesse por ali há muito tempo. 

- Esteve na América muitos anos, tem lá os filhos e os netos e voltou agora para gozar cá a reforma.

Era a conversa dos que tudo sabiam, que acrescentavam terem os filhos por lá uma boa vida e que o velho recebia, todos os meses, uma "bruta reforma".

- Todos os meses o carteiro lhe entrega um cheque vindo de lá. Deve ser bem gordo.

Chiquinho? Como é possível? Os "inhos" estão reservados às crianças e não a todas. Há alguns, como o Agostinho, amigo do Carlinhos, que os tem por toda a vida, mas são excepções. Chiquinho? Um homem com aquela idade? Ainda se fosse "menino Chiquinho", como alguns a quem o sangue garantia serem meninos toda a vida. Mas "senhor Chiquinho"? Não se compreendia ...

Por vezes, havia temporadas de dois, três meses, que na casa não havia vivalma.

- Foram ver os filhos e os netos, diziam os entendidos que tudo sabiam. 

E devia ser verdade. Iam recordar tempos idos, agora sem obrigações, como convém a quem já passou o tempo de obrar. Chegou o Verão e a casa permaneceu fechada. Não tardou a chegar a notícia dos sabedores:

- Já morreu o senhor Chiquinho S.. Tinha lá o seu feitio mas, no fundo, no fundo, até nem era mau diabo. Por lá ficou, se calhar contra a vontade dele.

Teve sorte! Nasceu Chiquinho e foi-o até morrer.

Passei por lá há pouco. A casa já não é a mesma e do Chiquinho S. só se lembrarão alguns velhos. Mas porque me lembrei eu disto?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Quotidiano

Hoje foi dia de música, muita música ... nem por sombras da qualidade desta. Mas, muitas vezes, ouve-se aquilo que não se quer, seja música ou discursos ocos!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Será desta?

Parece que sim!

A porta do regresso à vida normal está entreaberta e, de acordo com quem sabe disto, vai abrir-se completamente dentro de pouco tempo. Não escancarar-se, que as correntes de ar são perigosas e podem pôr em risco os móveis, os vidros e tudo o que não esteja devidamente protegido.

Todavia, e porque apenas nos jogos se regressa à casa de partida, a memória retratará muito bem como era, o cérebro terá capacidade para rebobinar a fita ou para pôr a orquestra a tocar a partitura desde o início, mas nada será como dantes porque "ninguém se lava duas vezes nas águas do mesmo rio".

O rio está longe de ser o mesmo (tem chovido pouco) e as pessoas também já se alteraram, ainda que a aparência possa ser idêntica. O tempo, essa coisa indescritível que todos os dias anda sem que possamos ter sobre ela qualquer controlo, deixa marcas difíceis de esquecer e de apagar e traz novidades, alterações, comportamentos sempre diferentes.

De acordo com os especialistas, talvez se esteja agora a aproximar a endemia, anunciada pelo Presidente da República há bastante tempo e que, tudo parece indicar, será a prenda que o Verão nos trará, juntamente com os mergulhos no mar da Foz. 

A ver vamos!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Guerra ou ficção

Tão depressa a guerra está iminente como a diplomacia está a conseguir, com as suas diligências, um acordo que a permitará evitar. Uns dizem que se sentem ameaçados com a proximidade da NATO, os outros respondem que são um país soberano e pretendem a ela aderir.

Nos últimos dias, a possível invasão da Ucrânia pela Rússia tem sido a notícia mais badalada e tratada, parecendo estar em causa uma pequena excursão de fim de semana, para a qual é necessária alguma preparação e cuidado. A realidade pode ser bem mais grave e produzir consequências terríveis. Entretanto, as informações baralham, dão perspectivas, sugerem causas, apontam futuros, marcam dia para o começo, geram boatos, transmitem apreensões.

Ninguém de bom senso espera de uma guerra algo de positivo. Quem já a sentiu por perto sabe que "o boato fere como uma lâmina" e que faz parte da estratégia. Que não passe disso, que não aconteça, mesmo que daí surjam dificuldades e contratempos que as necessárias cedências inevitavelmente produzirão.

A esperança é que o diálogo com o inimigo exista, como foi preconizado, há tantos anos, pelo grande Raúl Solnado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Proclamação

Saibam todas e todos, as e os que este titubeante texto vierem a ler, que o humilde escriba tomou hoje uma decisão que há-de ficar registada nos anais da história e proporcionar a todas as portuguesas e a todos os portugueses uma estranha sensação de qualquer coisa de inominável, sem o mínimo de credibilidade ou razoabilidade, mas importantíssima para a sua vida de todos os dias.

O Presidente da República de todas e de todos os portugueses vai receber uma carta pedindo que ele, que tanto adora as portuguesas e os portugueses, todos da mesma maneira e com o mesmo carinho, sem a mínima discriminação, inste todas as deputadas e todos os deputados para que aprovem, mal tomem posse dos lugares para que foram, recentemente, eleitas e eleitos, uma lei que coloque justiça na denominação do dia que hoje se comemora.

As deputadas e os deputados deverão elaborar, votar e aprovar uma lei que consagre o 14 de Fevereiro como o Dia das Namoradas e dos Namorados, acabando, de vez, com este tratamento indecoroso, sexista e ultrajante. Estou seguro que as portuguesas e os portugueses apoiam esta proposta e têm uma esperança imensa na decisão, favorável, das deputadas e dos deputados na nação.

São medidas como esta que farão da língua, que todas e todos falamos, uma língua clara, abrangente e integradora de todas e de todos, tratando todas e todos por igual.

Não lhes perguntei, mas tenho a certeza que Simone e Martinho da Vila apoiam esta proposta.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

(In)Decisão

Tempos houve em que as decisões sobre viagens, curtas ou longas, eram de impulso, sem qualquer ponderação, cuidados ou análise de risco, apenas porque sim ou para corresponder a qualquer desafio, mesmo sem qualquer racionalidade ou interesse.

- E se lá fôssemos?

- Já lá estamos? 'bora lá.

Depois, tal como a fruta, amadurece-se e qualquer decisão, por mais banal que possa parecer, é analisada à lupa, ponderados os prós e os contras, vislumbrados os custos, discutida com o travesseiro e, em princípio, tomada quase definitivamente.

O tempo corre. A partir de determinada altura, tal como a fruta apodrece, também a vontade e a capacidade de decidir se vai esboroando. E no cérebro só surgem dúvidas e hipóteses de não correr bem, de ser desagradável, não compensar o custo, ser o benefício duvidoso, existirem perigos latentes.

- E se chove?

- Se calhar há muito trânsito ...

- É capaz de estar muita gente e isto anda tão perigoso ...

- Não se consegue chegar antes de noite. Talvez seja melhor ficar por lá e regressar de manhã.

- Há algum hotel de jeito? Justifica-se?

- Até nem me apetece muito, mas ...

- Pensamos nisso para outra altura. Há mais marés que marinheiros ...

- Pois!

A última frase é elucidativa e vinculativa. Um dia destes pensa-se de novo. Pondera-se. Analisa-se. Discute-se. Conclui-se.

Será diferente? 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) À maioria faltava-lhe a curiosidade e, além disso, quem é que entendia suficientemente a língua hebraica? Quem sabia mais do que ler as palavras sem conhecer o seu sentido? Na melhor das hipóteses, as pessoas encantavam-se com a sua música, mas não com o seu significado.

- Há séculos, disse ela, as coisas superiores e importantes eram exclusivo dos homens. Ainda nos tempos de hoje isso se ressente. Só os homens são chamados para pegar nos rolos da tora e para ler os textos. Onde alguma vez se viu um rabino ou um cantor de sinagoga de saias? Mas basta. Agora já sabes porque é que nós duas ficamos cá em cima, isoladas dos homens.

Tirando os sermões sobre o que era prático e económico, nunca a avó me explicara tanta coisa de uma só vez. E, facto estranho, nas faces pálidas surgiram-lhe manchas vermelhas que faziam lembrar rosas murchas.

- Os homens ainda agora têm mais importância do que as mulheres?, perguntei.

- Enfim, as coisas já estiveram piores. Espero que se dêem grandes modificações, até tu seres rapariga crescida.

Era deveras emocionante ouvir falar assim a avó Ester. Eu precisava de aproveitar aquela ocasião para ficar a saber mais sobre o assunto. Mas pousou o dedo nos lábios, o que queria dizer que me devia calar.

De noite tentei continuar a conversa com o avô, que, no entanto, não parecia interessado.

- Achas que a tua avó não tem importância nesta casa?, perguntou, e deu uma risada seca.

Oh, sim, era verdade: a avó Ester era a pessoa mais importante em nossa casa. Limpava, cozinhava, lavava a roupa, guardava o dinheiro, destinava os gastos e dava ordens. O avô chegava a mentir, de tanto medo que tinha dela. Mas, mesmo assim, tudo isso nada tinha a ver com o que a avó me dissera naquela tarde. (...)"

O mundo em que vivi
Ilse Losa
Afrontamento (2018)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Cor

MENSAGEM é um jornal online sobre Lisboa, dedicado a quem por lá vive e ao que acontece na bela capital. Embora não reúna a condição prévia, recebo indicações sobre o que vai sendo publicado, permitindo-me coscuvilhar aquilo que é dito pelos "mensageiros" ao povo lisboeta e também, porque não, aos provincianos como eu que vivem a quase uma centena de quilómetros da "civilização" e por ela se interessam.

Hoje foi dia de receber o mail de alerta e, de entre as várias notícias, vinha a maravilha que reproduzo abaixo.

Tão bonito! E que bem sabe ouvir, quando há por aí alguns energúmenos a falarem da cor ... da pele.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Vertigem

Tal como a banana madura não volta a verde, quem andou não tem para andar e águas passadas não movem moinhos, também quem usufrui desta maravilha que é a vida tem o seu ciclo e, naturalmente, a sua importância vai diminuindo, ainda que muitos tenham dificuldade em assumir essa realidade - que a todos abençoa - e achem que o mundo acaba quando deixarem de dar aos braços.

Logo pela manhã, ainda nos primeiros cumprimentos à borda da piscina, um jovem referiu, nem me lembro a que propósito, uma música que tinha ouvido pela manhã e que, para ele, devia ser muito, muito antiga.

- Lembra-se dela, perguntou trauteando o que tinha ouvido.

- Perfeitamente. Deve ser do início da década de oitenta, do século passado, claro.

- Ainda eu não era nascido ...

Quase uma hora de braçadas, a boa disposição sempre gerada na água apesar do cansaço, tempo de finalizar a actividade e de ir para o banho retemperador. Há mais vida para além da piscina.

- Há pouco estava a ouvir a sua conversa com o J. e pensei: lembro-me bem da música. Fiz as contas e concluí que já lá vão perto de quarenta anos e eu era, na época, um adolescente vivaço. O tempo passa a correr ...

 - Tal como a água. É melhor tomarmos a chuveirada e pensar que, para a semana, voltaremos a encontrar-nos aqui.

Ficou por ali a conversa. Cada um tomou o seu banho, secou-se, vestiu-se e despediu-se, com a certeza de que o tempo passa depressa e a esperança que demore bastante a passar.

Nadar cria essa ilusão!