terça-feira, 1 de março de 2022

Palavras bonitas

RETRATO DE NATÁLIA

Hierática cromática socrática
passas branca de neve pela sala
nebulosa da pele via láctea
do único percurso que nos falta.

No teu andar há ventres há tecidos
de leve lã circuitos do brocado
duma seda tecida na manhã
dos raios dos teus olhos deslumbrados.

Nos teus quadris há cisnes há pescoços
de virgens degoladas há indícios
do alabastro quente dos teus ossos
iluminando claros precipícios.

É isso. Uma vestal iluminada
uma deusa rangendo uma secreta
porta barroca aberta para o nada
que é o docel da cama do poeta.

Ali deitas crianças animais
gemidos e maçãs vagidos e atletas
pois que amas as coisas naturais
com tua carne impúbere e erecta.

Porém tu acalentas tu alentas
nossa senhora lenta mãe do escândalo
ave de carne lírio de placenta
com aroma de nardos e de sândalo.

Desinfectante e amante eis que transformas
em teus olhos de cânfora as orgias
e o teu corpo ânfora é a forma
em que a lira da noite vasa o dia.

fotos-grafias
J.C. Ary dos Santos / Nuno Calvet
Quadrante - Colecção Poesia
(1970 - edição apreendida pela PIDE)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Notícias

Na manhã de hoje, aconteceu uma reunião entre as duas partes beligerantes - Rússia e Ucrânia - na procura de uma solução para o conflito que já leva alguns dias. Até ao momento, ainda não se conseguiu apurar as conclusões da dita reunião.

Dito assim, podia ser uma notícia de jornal televisivo, se lida por uma voz simpática, e ilustrada com metade do écran a exibir uma situação já antiga. O momento que se atravessa é grave e pode tornar-se dramático, digo eu, fazendo o papel de "achista", como tantos outros,  e tendo por base apenas e só o que vemos, ouvimos e lemos, como dizia Sophia.

Há coisas que me desconcertam: olho para um qualquer canal dos noticiosos e verifico a passagem em rodapé de notícias há muito desactualizadas, muitas vezes antecedidas ou sobrepostas da legenda, branca sobre fundo vermelho, de "ÚLTIMA HORA". E isto passa todo o santo dia, algumas vezes com erros ortográficos, e ninguém dá fé. 

A pressa sempre foi inimiga da perfeição. Se eu não morresse, nunca! E eternamente buscasse, e conseguisse, a perfeição das cousas!, dizia Cesário Verde, sem pressas. O jornalismo está a viver um ciclo diferente, talvez deficiente, e a deixar que as modas substituam o rigor. As redes ditas sociais já são fonte de notícia e, muitas vezes, o que por lá é espalhado, acaba aproveitado para trabalho.

Preocupa-me ... mas deve ser da velhice!

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Sem norte

Já passou por aqui, a propósito da desgraça que nos atormenta desde 2020 e que ainda não está completamente debelada, embora pareça ter melhoras significativas. 

Confirmando o ditado de que uma desgraça nunca vem só, o "imperador" do leste europeu resolveu fazer-nos recordar o final da década de 30 do século passado, "brincando" com todos num dislate absurdo e absolutamente maquiavélico. Não se imagina onde iremos chegar nem as consequências que tudo isto acarretará para o futuro e, por isso,

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Loucura

Por maior que seja o esforço para o não fazer, é inevitável falar da guerra que está a acontecer, ali ao lado, na Ucrânia. Não que perceba alguma coisa do que por lá vai, saiba ou entenda alguma das razões, ou tenha a condescendência para as suportar. Nada justifica a violência, qualquer que seja o motivo e por muito importante que o seja. Como em todas as guerras, a grande maioria que sofre é completamente alheia aos interesses que a desencadearam e apenas lhe resta tentar salvar-se, a si e aos seus.

Caminhamos sobre um barril de pólvora, manipulado por gente sem escrúpulos, que coloca os (seus) interesses económicos de uns quantos em detrimento dos muitos, num terreno minado onde apenas existem pequenos carreiros de sobrevivência e, ainda por cima, não acessíveis a todos.

Na selva em que o mundo se tornou, se alguma vez deixou de o ser, ninguém parece conseguir controlar o "leão", arvorado em rei dos animais, sem regras nem controlo, debitando ódio e ordens para a "floresta", sem ter presente que mesmo as pequenas formigas têm direito à vida.

Parece decalcado daquele outro que foi derrotado em 1945. Deu-se ao luxo de, nos últimos vinte anos ou mais, ter vomitado intenções que foi concretizando, pouco a pouco, sem que ninguém se lhe opusesse e o impedisse. A condescendência com os loucos só pode existir até ao momento em que a sua demência não ponha em causa a sanidade dos outros, tal como deve acontecer com a liberdade.

Assobiar para o lado confirma-se que não é solução.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

1939/1945 ou 2022?

"(...) Ao sair do sepulcro sentiu uma dor lancinante no ombro esquerdo. Tinha o osso deslocado e uma ferida muito feia, provocada pelas pedras que lhe haviam aberto um buraco na parte superior do braço onde cabia a ponta de um dedo. Doía-lhe muito, mas sempre resistira bem às pancadas. Lazlo, que tinha sobrevivido ao bombardeamento por pura sorte sem a colaboração dos intestinos nem a intervenção de uma viga salvadora, ligou-lhe a ferida conforme pôde e foram à procura dos enfermeiros. Não os encontraram. Poucos eram os sobreviventes e, entre eles, nenhum oficial. O ordenança do comandante disse-lhe que na última vez que o viu ele estava reunido com os outros chefes em volta de uma mesa, no único quarto que mantinha o tecto. Tinha-lhe mandado trazer cigarros e aquele pedido salvara-lhe a vida. Quando voltou, com dois cigarros russos que tinha roubado a um sargento, encontrou apenas um túmulo de pedra gigantesco, sem qualquer indício de vida sepultada. O privilégio de viverem sob um tecto tinha exterminado os oficiais num instante.

Num posto de socorro improvisado junto das ruínas de um hospital, um médico encaixou o osso de Adrián, tratou-lhe da ferida e enfaixou-lhe o braço ao peito. Enquanto o instruía sobre como o manter o melhor possível, Lazlo entrou no edifício e regressou com duas aspirinas que conseguira requisitar de pistola em punho. O médico não teceu comentários sobre o procedimento. Aconselhou Adrián a tomar só uma e a guardar a outra para mais tarde, recomendando-lhes que voltassem para o quartel à espera de novas ordens. Quando regressaram ao palácio, já entardecia. Durante todo o dia só tinham comido uns pedaços de pão conseguidos à força, impondo-se a uma multidão que assaltava as ruínas de uma padaria, mas até nisso foram afortunados porque os companheiros jejuaram todo o dia.(...)"

Os doentes do Doutor García
Almudena Grandes

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Ditos

Não me apetece escrever sobre o vírus, nem sobre a guerra, muito menos sobre o Benfica, onde parece haver mais minas do que no leste da Ucrânia, sem que se vislumbrem batedores com capacidade suficiente para as detectarem.

Também não me apetece falar sobre o lindo dia de sol que Fevereiro nos ofereceu hoje, para juntarmos a mais uns quantos com que nos tem brindado. Parece estar a lembrar-nos que o Verão está quase a chegar e que o Carnaval, este ano adiado para Março mas que lhe pertence por direito próprio, nos vai trazer algumas matrafonas, zés pereiras e máscaras lúdicas, ainda que sem desfiles.

As outras máscaras vão perdendo protagonismo, dando lugar à carranca que muitos têm trazido escondida. Paira no ar a convicção de que tudo se está a compôr e que os dias bons, sem problemas, chegarão a breve trecho.

Não sou pessimista e, por isso, também acredito que não irá ser preciso refazer esta saga de castigo que quase todos cumprimos. As excepções foram meia dúzia de "iluminados" que hão-de ficar registados na história escrita naquele papel que foi açambarcado no início da pandemia.

Mas ... há sempre um mas, que acentua a dúvida: na minha idade, dizem, tudo o que vem é para ficar e o que vai ... já não volta.

Espero que quem manda nisto determine que, no que à pandemia diz respeito, se cumpra apenas a segunda parte do ditado.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Anseios

A pandemia, finalmente, parece ter cumprido a determinação do Presidente da República, transformando-se em endemia, embora com um atraso que devia ser punido. Mas deixemos isso para a justiça, que se encarregará de, em tempo útil, como é costume, determinar a pena que lhe deve ser aplicada ou a absolvição que lhe for devida.

Deixou por cá estragos bastantes para ser recordada como um período bem difícil para todos, velhos e novos, estragos esses que se manterão bem vivos na memória. Foram dois anos de confrontação diária com uma realidade que era desconhecida de toda a gente, que obrigou a alterar procedimentos, contactos, vivências, formas de trabalhar, ritmos. Muitos são os que já cá não estão para recordar o sofrimento e inúmeros aqueles a quem foram deixadas marcas físicas e psicológicas que tardarão a desaparecer.

Confirmando-se, como se espera, estas boas notícias, deseja-se que o conflito latente, que parece iminente e é notícia premente, não se concretize. Que a Rússia não invada a Ucrânia, que a Nato deite água e não gasolina, que os diplomatas façam (bem) o seu trabalho, que as fábricas de material de guerra se reconvertam ou diminuam a produção, que haja juízo nas cabeças de quem detém o poder. 

Sabendo de antemão que o lirismo não resolve nada, era bom que quem detém o poder se lembrasse que apenas o exerce, ou devia exercer, em nome e para o bem de todos.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O tempo e os livros

Ao contrário da grande maioria dos portugueses, de acordo com os resultados de um inquérito promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e recentemente divulgado, leio todos os dias e todos os dias confirmo que não vou ter tempo para ler tudo o que tenho em casa, mais aquilo que já saiu e não adquiri, mais o que irá ser editado e não deveria ser perdido, mais ainda o que existe de bom e que desconheço.

Para agravar ainda mais, há livros que demoram a ler, por mais esforçado que se seja. E, para complicar ainda mais, o cérebro já não aceita ler dois ou três em simultâneo, como acontecia antigamente. Ler um livro de 750 páginas, como tem o que agora me acompanha - Os doentes do Doutor Garcia, de Almudena Grandes - não é possível em dois ou três dias, pelo menos para mim.

Conclusão: o tamanho da pilha aumenta, e mantém-se a mania de comprar. O espaço ocupado na secretária já é significativo. Podia colocá-los nas prateleiras (onde as vagas são exíguas) e ter a lista à mão, para os ir buscar quando chegasse a sua vez, mas não era a mesma coisa. Assim, vou conversando com eles, transmitindo-lhes a justificação, que aceitam humildemente e sem qualquer contestação:

- A seguir és tu

E por vezes não é, porque outro se insinuou e foi escolhido primeiro.

- Há-de chegar a tua vez, descansa

A pilha vai aumentando e o tempo ... diminuindo. A vontade, essa, mantém-se firme e concretiza-se enquanto os olhos o forem permitindo. Às vezes choram. Não quero perceber se estão emocionados com o que lêem, ou se é mesmo cansaço. Ah! E sempre em papel. Manusear o livro faz parte do ritual para o (tentar) compreender.