domingo, 5 de junho de 2022

Domingo

Cavaco tem toda a razão. Já nada é como no tempo em que ele governava, todos eram muito felizes e viviam em harmonia plena, seguindo as suas doutas instruções e sapiência. Nem já o tempo se comporta como devia e parece ignorar todas as louváveis indicações recebidas.

Para o primeiro domingo de Junho está determinado, se não na Constituição da República, pelo menos na regulação consuetudinária, que há lugar a uma ida à Foz, para regalar a vista, refrescar o pulmão, andar na areia e dar, ao menos, um mergulho. Fiz a parte que me competia e, logo pela manhã, fui até lá.

Porém, há sempre quem prevarique e não cumpra as suas obrigações, continuando, contudo, a reclamar o seu direito à existência e, quiçá até, à remuneração que lhe foi atribuída para executar a função de tudo deixar fluir, sem interferir nem mandar palpites. 

O mar estava chão, a temperatura da água devidamente aquecida pelo "esquentador" da Foz, que nunca prima por trabalhar com muita força, o norte apenas enviava uma ligeira brisa que mal se notava e o sol, faltou. Sem qualquer justificação e contrariando as determinações da senhora do IPMA que, coitada, agora se verá obrigada a fazer um relatório exaustivo e justificativo do seu falhanço de previsão.

Mas, há sempre um mas: a ausência do sol determinou a mudança da cor do mar, que passou de azul a verde, dando à imensa "planície" uma infinidade de tons, bem visíveis até à Berlenga.

Conclusão: há sempre algo de positivo em qualquer ida à Foz.

sábado, 4 de junho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) O padre estava a fechar as portas da igreja quando me avistou. Olha quem ele é!, exclamou, e convidou-me a entrar, já jantaste? Não tenho fome, respondi. Romano cheirou o ar. Um jantar daqueles mais líquidos, hã?

Atravessámos a capela e subimos à sala de música. Um piano, duas velhas guitarras, um contrabaixo aconchegado no seu saco. Um Cristo na parede com a pintura esfarelada. O padre foi buscar uma garrafa de vinho e dois copos; serviu-me, serviu-se. Bebemos ao mesmo tempo. Que a paz esteja contigo, disse Romano. E contigo, respondi.

Sentados em duas velhas cadeiras, contei-lhe a história dos últimos dias. Ele sabia de algumas coisas. Da minha vida, aliás, conhecia praticamente tudo, ou, pelo menos, as partes importantes. Em 2008, no princípio do longo deserto da minha carreira literária - antes de descobrir que era mais feliz sem escrever -, procurara ajuda em toda a parte. Meditação, hipnose, yoga, psiquiatria, religião. Queria uma solução rápida para aquilo que só o tempo podia resolver; queria a panaceia imediata para uma dor antiquíssima. O padre Romano pareceu-me a melhor opção. Não se preocupe, dissera-me ele, numa das nossas primeiras conversas depois da missa de domingo - eu, um agnóstico confesso! -, Deus sabe melhor que nós aquilo que nos faz falta. Mas o senhor padre não compreende ..., começava eu, numa litania do desespero. E ele escutava-me, paciente, com um sorriso no rosto, aquele sorriso irritante de quem vai à frente, já conhece o caminho e sabe que ele conduz, não à fantasia de um apocalipse, mas a vales frondosos onde a nossa alma deambula pacificada.

Pratique a oração, pode ajudá-lo, recomendou-me, nessa altura. Não sei rezar, respondi. Não precisa de saber, sente-se na beira da cama e feche os olhos, não peça coisas materiais, nem prosperidade, muito menos Lhe peça para voltar a escrever. Então peço o quê? (...)

Naufrágio
João Tordo
Companhia das Letras (2022) 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Prego

Funcionava na esquina do Largo com a rua apertada, numa loja autónoma a cerca de cem metros da agência da Caixa Geral de Depósitos. A designação Casa de Crédito Popular encimava a porta e as letras eram idênticas às da CGD, embora mais pequenas. Ninguém se lhe referia pela designação oficial: era o "Prego" da Caixa. 

Os seus dois empregados só em finais da década de setenta do século passado foram integrados nos quadros. Até aí, tinham autonomia completa, só respondiam perante os serviços centrais da capital, auferiam vencimentos distintos, sem carreira definida nem evolução obrigatória. A dada altura, alguém achou que pagar a renda da loja era um desperdício e determinou a integração do "Prego" nos serviços da Agência, com a consequente subordinação hierárquica e a afectação de apenas um dos empregados à actividade autónoma que continuou a ser desenvolvida.

O "Prego" manteve-se em funcionamento até meados dos anos oitenta, quando o senhor JP, único funcionário que percebia alguma coisa daquilo, se reformou. Acabaram os serviços de crédito popular, como era previsível há muito. O senhor JP avaliava os "trainecos" que lhe traziam para garantir o empréstimo pretendido. Do ouro aos lençóis bordados, dos fatos de casamento às máquinas fotográficas, dos gira-discos às máquinas de escrever Messa ou Remington, aparecia de tudo. O senhor JP tinha indicações para só aceitar ouro e metais preciosos mas exorbitava, com a autoridade dos anos, e nada recusava, atento às necessidades de cada cliente, cigano ou pescador, agricultor ou comerciante.

Os empréstimos concedidos pagavam juros trimestrais, não havendo reembolso de capital, que só aconteceria quando o cliente conseguisse reunir a verba que lhe havia sido emprestada. A liquidação integral permitia reaver o bem que havia "dormido" no cofre ou na arrecadação do sótão durante, muitas vezes, tempos infindos. A não liquidação atempada dos juros implicava a venda do bem, dado de penhor, em leilão público, o que era raro acontecer. Os devedores cumpriam e, se de todo isso lhes era impossível, apareciam a justificar-se e, não raro, a trazer novo bem para reforçar a garantia e obter "mais algum". JP encarregava-se de os contactar, deslocando-se à respectiva residência, para entender as razões do atraso.

Os clientes do "Prego", habituais, usavam bens, muitas vezes de família, para financiarem as suas necessidades, os seus negócios, a sazonalidade das suas ocupações, sem burocracias e sem favores.

- Vale 100. Emprestamos 80.

Quando os serviços encerraram definitivamente, os bens e os contratos foram transferidos para a capital, que centralizou tudo na Rua Vale do Pereiro. Acabou o "Prego" público na cidade e alguns passaram grandes dificuldades para reaverem o que, de facto, era seu. Faltava o JP ...

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Monarquia

Começaram hoje as festas dos 70 anos do reinado de Isabel II, de Inglaterra, com a pompa que o tempo decorrido e a predilecção dos ingleses pela instituição monárquica, justificam, aliadas à curiosidade que os contos de fadas despertam em todos nós, mesmo nos mais cépticos.

A Rainha tem conseguido passar pelos intervalos da chuva que, com regularidade, desaba sobre o palácio londrino, seus moradores ou desertores. Talvez seja esse o seu grande mérito, conseguindo manter a sua pessoa acima da mesquinhez e da superficialidade de quem a rodeia. Com silêncios ensurdecedores ou discursos quase monossilábicos, vai segurando a chama acesa e a aura que a faz pairar num limbo com tanto de inacessível como de mitológico.

Aos olhos de quem está longe, é mau "tocador de ouvido" e um convicto defensor de que o berço apenas deve servir para o conforto do sono - mesmo assim, nem todos dormem nas mesmas condições - a monarquia não é, longe disso, o futuro.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Penitência

Começa Junho e S. Pedro presenteia-nos com uns aguaceiros, para que tenhamos consciência de que é ele quem determina e o faz a seu belo prazer, sem ouvir ou prestar contas a ninguém, nem mesmo a Belém.

Podia, ao menos, ter tido a consciência de não fazer isto no Dia Mundial da Criança. Aos petizes, coitaditos, devem ter restado as brincadeiras nas salas, leituras, jogos, histórias e desenhos, sem os saltos e as corridas que lhes são quase tão preciosas quanto "o pão para a boca" e tornando o dia tão normal como todos os outros.

Esta predisposição oestina para contrariar e ser sempre diferente devia ser objecto de estudo e análise detalhada, por parte de quem sabe, fosse de um Cavaco ou do Juiz que não conseguiu a cadeira do Constitucional. Ambos têm tempo e saber para se dedicarem a este tema e, de certeza certa, trariam resultados palpáveis aos olhos de todos. Veríamos tudo esclarecido de vez.

Porém, o sofrimento continua a arrastar-se e ninguém explica. Passamos o ano a sonhar com o Verão, que há-de trazer céu azul, temperatura amena, ausência de vento, mar chão. Chega Junho e acontece tudo ao contrário. Por mais efeitos de que a pandemia e a guerra sejam responsáveis, não parece justo que, por aqui, continuemos a ser húmidos, salvo seja, a pôr o casaquinho à noite, a esperar, sentados, que o vento sossegue. 

A minha análise, empírica, claro, diz-me que isto só pode ser castigo divino por pecados cometidos antanho.

terça-feira, 31 de maio de 2022

Ressonar

Raro era o dia em que os olhos não evidenciavam a noite mal dormida. Vermelhos, enormes, quase a saltarem das órbitas, punham a nu a necessidade de permanecer acordado até tarde e a ausência da devida compensação matutina. Afinal de contas, uma noite ainda se aguenta, duas já é muito difícil, três é quase impossível.

Em teoria, vivia sozinho e não tinha como meta procurar companhia definitiva. Já estava perto dos quarenta, usava barbas enormes por achar ser um desperdício de tempo cortá-las pela manhã. Sempre eram mais cinco minutos de preguicite ... Na maior parte dos dias, a gravata vinha no bolso, enrolada, e só era colocada já no local de trabalho, numa ida estratégica à casa de banho, antes que o chefe se apercebesse da falta do apêndice obrigatório.

O desleixo no vestir era visível. Muitas vezes as colegas chamavam-lhe a atenção para a camisa mal abotoada, as calças enrodilhadas ou mesmo sujas, o cinto torcido, as meias do avesso, os sapatos diferentes. Se era possível, naquele dia vinha ainda pior. A noite devia ter sido muito comprida e talvez, até, tempestuosa.

- Não dormiste?

- Tive companhia. Ainda por lá deve estar. Não arranjou poiso por aqui e ofereci-lhe "alojamento". No pouco tempo que ficou para dormir alguma coisa, ressonou. Nunca me tinha acontecido e olha que eu levo alguma experiência. Imagina! Até eu, com o sono que sempre tenho, não consegui dormir ...

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Raposas

- Cá em casa não entram raposas ...

O aviso era referido com solenidade, chamando a atenção para a necessidade de se ser bom aluno, que a vida não estava para brincadeiras. Felizmente, confirmou-se: lá em casa nunca entraram raposas, a não ser na gola de uma samarra que fez as delícias da juventude, de tão quentinha que era. Nesta altura, esta aleivosia não deve ser pensada quanto mais escrita. Safo-me porque pouca gente lê isto e a senhora do PAN tem muito mais que fazer do que perder tempo com conversas e estórias de velhos. Ainda por cima, já quase ninguém usa samarras e muitos haverá que nem sabem o que é! (Vão ver à Net ou perguntem no Face).

O meu amigo ADS, eclético fotógrafo "encartado", reconhecido na capital e no estrangeiro, com raízes bem vincadas nessa enorme terra do concelho de Góis que dá pelo nome de Colmeal (por lá produz-se mel excelente) envia-me com regularidade fotografias que vai fazendo, nas viagens, nas paisagens citadinas ou campestres, nos ninhos dos borrachos ou das rolas, as quais vou guardando no arquivo virtual que tem uma capacidade inesgotável. Noutros tempos seriam guardadas em álbuns e consultadas apenas "quando o rei fazia anos" e já se apresentavam amarelecidas. Agora, com as facilidades trazidas pelo arquivo tecnológico, passo por lá e revejo-as sempre com agrado. 

Hoje, esta fez recordar, não faço ideia porquê, a raposa dos tempos escolares e "obrigou-me" a ir ler a sua história aqui, num belo texto da autoria de Lisete Matos, publicado no blog da UPFC em Março de 2021. Para cúmulo, o belo texto está ilustrado por magníficas fotografias. Vale a pena "ganhar" cinco minutos a ler e a apreciar como a raposa, tantas vezes injustiçada, é, afinal, tão sociável.

domingo, 29 de maio de 2022

Enxertia

Pró enxerto ter futuro
E atingir a qualidade,
O vinho tem de ser puro,
Bom, e em quantidade.

A enxertia, na vinha, era uma actividade complexa e difícil de arranjar quem a executasse a contento. Havia poucos enxertadores e, para além de serem bem pagos, era necessário reservar a sua contratação com muita antecedência. Toda a gente queria o trabalho para a mesma altura e não era possível atender a todos. 

O bacelo, Richter de preferência que era o que melhor se adaptava ao clima da região, era plantado num ano e só no seguinte recebia a enxertia com a casta pretendida, fosse ela Moscatel, Fernão Pires, Trincadeiro, Malvasia ou outra qualquer. A equipa de enxertadores era constituída, normalmente, por quatro trabalhadores que se iam revezando na preparação dos garfos, no corte do bacelo, na incisão do mesmo e na finalização com a atadura de junco. Apenas a preparação dos garfos era feita em posição normal, enquanto as outras exigiam o andar curvado bem lá em baixo, junto à terra. Daí a rotação ser fundamental, para que houvesse algum descanso do trabalho mais duro e as tarefas corressem melhor. Ao tempo não havia hérnias discais. Quando muito, doíam os "quadrizes".

As navalhas utilizadas estavam sempre bem afiadas e eram autênticas lâminas. O garfo era aparado de um lado e do outro, com uma delicadeza digna de registo, e iria entrar na incisão do bacelo, bem juntinho, para que a seiva se começasse a misturar de imediato. Dizia-se que o garfo tinha de ser bem molhado na boca do enxertador e que, nela, deveria sempre existir uma pinga de vinho bom. Era a garantia para que a enxertia pegasse.

O junco atava de forma bem forte a junção, havia quem pintasse com cal branca ou alcatrão, e, se tudo corresse bem, a cepa daria um cachito no ano seguinte e iniciaria o seu período fértil por muitos e bons anos. Se corresse mal, o cacho que surgiria era "americano" e o bacelo seria retanchado. Ao fim de dois ou três anos já não se notaria que o retanchado era mais novo do que os outros.

Agora, o bacelo já é enraizado com a enxertia feita e sai direitinho para a vinha. A avaliar pelo que se vê por aí, há muita procura e o negócio floresce.

sábado, 28 de maio de 2022

E o papel?

Ler jornais é saber mais! Será? A cada dia que passa menos gente lê jornais e mesmo aqueles que dizem que lêem, a maior parte apenas lhe passa os olhos, em diagonal. Metade das notícias já estão ultrapassadas, a outra metade caminha vertiginosamente para essa situação e as redes sociais já fizeram os comentários, desmentidos e actualizações. Os canais de televisão encarregaram-se de repisar tudo e mais um par de botas, acrescentando pormenores e conclusões.

Os jornais de referência (o que será isto?) mantêm informação online, actualizando-a ao minuto e tornando dispensável e ultrapassada a edição em papel. Só alguns teimosos, com tendência para acabar, insistem no hábito de comprar jornais como antigamente. E, apesar disso, estou convicto que a grande maioria desses teimosos, eu incluído, também já faz a tal leitura na diagonal, que o tempo é cada vez mais curto e o que era, já foi.

Será bom? Será mau? Não vale a pena perder muito tempo com a dúvida nem julgar que eu estou certo (no meu tempo é que era bom) e todos os outros, principalmente esses novatos que não percebem nada da vida, estão errados. O desfile militar em que toda a gente segue com o passo trocado e um só - eu, claro - marcha com o passo certo, é a alegoria que clarifica a resistência à mudança e a (in)capacidade de entender que a experiência dos anos, não sendo de desprezar, não actualiza nem desenvolve, e contribui pouco ou nada para que o amanhã seja diferente.

E se chove? ... ouve-se o Kissinger que, do alto dos seus 99 anos, tem a solução mágica para a guerra da Ucrânia.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Antigamente ...

Há 35 anos, em Viena, num estádio que já não existe, um jovem de 35 anos (coincidência) que nem sequer era ou é adepto do Futebol Clube do Porto, assistiu, deliciado, à vitória na final da Taça dos Campeões Europeus de futebol, perante o fortíssimo Bayern de Munique. 

O FCP, depois de ter estado a perder por 1-0, deu a volta ao resultado com um golo de calcanhar marcado por Madjer e ainda hoje, tantos anos passados, recordado pela alegria que deu às centenas de portugueses que estavam presentes, com o estádio quase cheio de alemães. Antes do jogo era visível a confiança dos adeptos do Bayern, completamente perdida assim que Juary marcou o segundo e deu a brilhante vitória à equipa treinada por Artur Jorge. Pinto da Costa já comandava os destinos do FCP.

Foi uma viagem inesquecível, com mais de 6.000 quilómetros percorridos por vários países da Europa, alguns dos quais já não existem. Hoje não teria coragem para repetir tal aventura, apenas e só porque tantos quilómetros deixariam uma pegada ecológica enorme ...

Só recordar isto deixa algum cansaço e talvez seja conveniente uma pausa para descanso. A ver vamos como se apresenta o dia de amanhã ...