quarta-feira, 8 de junho de 2022

Paula Rego

Faleceu hoje, em Londres, aos 87 anos, determinando o fim de uma vida cheia e marcante.

Nunca "quis" adquirir qualquer obra sua, "apenas" por receio de que as paredes não suportassem o seu peso de artista enorme, e irreverente, como irá ser recordada no futuro. 

Para além da grande qualidade que os meus olhos, pouco conhecedores, diga-se, tiveram o prazer de apreciar ao vivo, numa visita à Casa das Histórias efectuada logo após a sua inauguração (2009) e uma outra grande exposição em Serralves, fica para sempre a força dos seus quadros e das personagens retratadas.

Do "espólio" cá de casa faz parte uma pequena reprodução de um quadro, cujo peso a parede conseguiu suportar, e uma edição do livro As Meninas, de Agustina Bessa-Luís, ilustrada com imagens de muitas das suas obras.

(...) - Não sei como pintar o chão - diz ela. Parece gostar de pôr as pessoas dependentes das suas dúvidas, erros, experiências em movimento, instáveis. As pessoas correm a ajudá-la, dão-lhe conselhos. Isso diverte a menina.
Era no tempo radioso de Walt Disney, das suas travessuras, do coelho Tambor a fazer a corte à sua coelha duma maneira hilariante. Ela ria-se, no escuro da sala sentia-se sozinha como ela gostava.
- Como hei-de pintar o chão?
- Fazes assim, assim, e o chão fica pintado - disse Vic. Paula ouvia-o com amor. Mas não era dum conselho que ela estava à espera, era de atenção, a atenção um pouco gulosa que se tem pela criança que está a crescer. Ela estava a crescer, D. Violeta não dava por isso. Queixava-se à mãe, batia-lhe nos dedos com a régua. A dor sobressaltava a menina. Por isso perguntava sempre:
- Como hei-de pintar o chão? (...)
As Meninas
Agustina Bessa-Luís
Três Sinais Editores (2001)

terça-feira, 7 de junho de 2022

Conversas

Se não há nada para dizer, fale-se do tempo. 

- O dia hoje está bonito. Se calhar, amanhã chove.

- Não. Agora só chove lá para o final da semana. Foi o que ouvi. O vento é que parece ir soprar com alguma força. Vamos ver!

Está a conversa feita. Tudo tratado e nada resolvido, como sempre. Ainda bem ...

- Tens visto F. ? Já não a vejo há séculos. 

- Foi o que trouxe a pandemia. As pessoas isolam-se cada vez mais e passam-se semanas sem lhes pormos a vista em cima.

- Mas está viva (Ri-se muito), isso garanto. Ontem escreveu qualquer coisa no Face, já não sei bem o quê. Ou terá sido no Insta?

- Eu vi uma fotografia. Pareceu-me que andaria a passear.

- Pois ... e não era por aqui. Nós não temos aquele sol tão lindo nem árvores tão frondosas.

- Podia ter identificado o local ... deve querer deixar a dúvida e dar oportunidade a que lhe perguntem.

- Sabe-se lá se a foto é de agora.

- Tens toda a razão. E até pode ser uma montagem ... as máquinas fazem tudo!

 - Bem, adeus. Tenho de ir. O miúdo sai agora e vou pô-lo ao futebol. Esta semana calha-me a mim.

- Adeus, "bjinhos". Gostei muito de conversar contigo!

Cada uma seguiu o seu caminho. O tempo urge, há muito para fazer e nada para dizer.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Resiliência

" A cultura é tudo o que resta depois de se esquecer aquilo que se aprendeu"

Depois de tantos anos passados, de uma vida intensa, cheia de coisas boas ( e algumas péssimas), dou por mim a pensar que ainda tenho alguns traumas que não resolvi nem vou resolver, e que se acentuam à medida que o tempo vai prosseguindo a sua maratona, sem me passar cartão nem comigo contar sequer para os primeiros cem metros.

Um dos meus defeitos, enorme, é ser invejoso, muito, do saber enorme que cada vez mais pessoas evidenciam, e exteriorizam, pondo a minha ignorância completamente a nu e fazendo com que me interrogue sobre para que serviu um caminho já tão longo, o ter lido tanto, ter prestado atenção ao que se passou (e passa) à minha volta, ter ouvido atentamente explicações e dissertações de pessoas que sabiam dos assuntos e o explicavam sem pedantismo e com clarividência. Concluo: a minha capacidade de absorção de conhecimento é infinitamente baixa.

Da guerra à política, das finanças à economia, da produção ao consumo, do vírus ao futebol, não há uma única área em que os meus conhecimentos se comparem aos que todos os dias vejo, e ouço, e leio, expressos por tanta gente que, claramente, está a léguas de distância de mim e a quem me é completamente impossível acompanhar.

Não devo ter sido dotado da resiliência que, diariamente, ouço referir como qualidade fundamental para ser alguém na sociedade actual. Não resisti e fui cuscar esse livro fantasmagórico e completamente ultrapassado, que tem sete volumes e se chama "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa".

Resiliência: s.f. 1. Fís. propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. 2. Fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. Etim. ing. resilience (1824); elasticidade; capacidade rápida de recuperação.

Fiquei esclarecido. Tenho de adaptar-me à má sorte ou às mudanças, sob pena de ser submetido a uma deformação elástica e não retornar à forma original.

domingo, 5 de junho de 2022

Domingo

Cavaco tem toda a razão. Já nada é como no tempo em que ele governava, todos eram muito felizes e viviam em harmonia plena, seguindo as suas doutas instruções e sapiência. Nem já o tempo se comporta como devia e parece ignorar todas as louváveis indicações recebidas.

Para o primeiro domingo de Junho está determinado, se não na Constituição da República, pelo menos na regulação consuetudinária, que há lugar a uma ida à Foz, para regalar a vista, refrescar o pulmão, andar na areia e dar, ao menos, um mergulho. Fiz a parte que me competia e, logo pela manhã, fui até lá.

Porém, há sempre quem prevarique e não cumpra as suas obrigações, continuando, contudo, a reclamar o seu direito à existência e, quiçá até, à remuneração que lhe foi atribuída para executar a função de tudo deixar fluir, sem interferir nem mandar palpites. 

O mar estava chão, a temperatura da água devidamente aquecida pelo "esquentador" da Foz, que nunca prima por trabalhar com muita força, o norte apenas enviava uma ligeira brisa que mal se notava e o sol, faltou. Sem qualquer justificação e contrariando as determinações da senhora do IPMA que, coitada, agora se verá obrigada a fazer um relatório exaustivo e justificativo do seu falhanço de previsão.

Mas, há sempre um mas: a ausência do sol determinou a mudança da cor do mar, que passou de azul a verde, dando à imensa "planície" uma infinidade de tons, bem visíveis até à Berlenga.

Conclusão: há sempre algo de positivo em qualquer ida à Foz.

sábado, 4 de junho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) O padre estava a fechar as portas da igreja quando me avistou. Olha quem ele é!, exclamou, e convidou-me a entrar, já jantaste? Não tenho fome, respondi. Romano cheirou o ar. Um jantar daqueles mais líquidos, hã?

Atravessámos a capela e subimos à sala de música. Um piano, duas velhas guitarras, um contrabaixo aconchegado no seu saco. Um Cristo na parede com a pintura esfarelada. O padre foi buscar uma garrafa de vinho e dois copos; serviu-me, serviu-se. Bebemos ao mesmo tempo. Que a paz esteja contigo, disse Romano. E contigo, respondi.

Sentados em duas velhas cadeiras, contei-lhe a história dos últimos dias. Ele sabia de algumas coisas. Da minha vida, aliás, conhecia praticamente tudo, ou, pelo menos, as partes importantes. Em 2008, no princípio do longo deserto da minha carreira literária - antes de descobrir que era mais feliz sem escrever -, procurara ajuda em toda a parte. Meditação, hipnose, yoga, psiquiatria, religião. Queria uma solução rápida para aquilo que só o tempo podia resolver; queria a panaceia imediata para uma dor antiquíssima. O padre Romano pareceu-me a melhor opção. Não se preocupe, dissera-me ele, numa das nossas primeiras conversas depois da missa de domingo - eu, um agnóstico confesso! -, Deus sabe melhor que nós aquilo que nos faz falta. Mas o senhor padre não compreende ..., começava eu, numa litania do desespero. E ele escutava-me, paciente, com um sorriso no rosto, aquele sorriso irritante de quem vai à frente, já conhece o caminho e sabe que ele conduz, não à fantasia de um apocalipse, mas a vales frondosos onde a nossa alma deambula pacificada.

Pratique a oração, pode ajudá-lo, recomendou-me, nessa altura. Não sei rezar, respondi. Não precisa de saber, sente-se na beira da cama e feche os olhos, não peça coisas materiais, nem prosperidade, muito menos Lhe peça para voltar a escrever. Então peço o quê? (...)

Naufrágio
João Tordo
Companhia das Letras (2022) 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Prego

Funcionava na esquina do Largo com a rua apertada, numa loja autónoma a cerca de cem metros da agência da Caixa Geral de Depósitos. A designação Casa de Crédito Popular encimava a porta e as letras eram idênticas às da CGD, embora mais pequenas. Ninguém se lhe referia pela designação oficial: era o "Prego" da Caixa. 

Os seus dois empregados só em finais da década de setenta do século passado foram integrados nos quadros. Até aí, tinham autonomia completa, só respondiam perante os serviços centrais da capital, auferiam vencimentos distintos, sem carreira definida nem evolução obrigatória. A dada altura, alguém achou que pagar a renda da loja era um desperdício e determinou a integração do "Prego" nos serviços da Agência, com a consequente subordinação hierárquica e a afectação de apenas um dos empregados à actividade autónoma que continuou a ser desenvolvida.

O "Prego" manteve-se em funcionamento até meados dos anos oitenta, quando o senhor JP, único funcionário que percebia alguma coisa daquilo, se reformou. Acabaram os serviços de crédito popular, como era previsível há muito. O senhor JP avaliava os "trainecos" que lhe traziam para garantir o empréstimo pretendido. Do ouro aos lençóis bordados, dos fatos de casamento às máquinas fotográficas, dos gira-discos às máquinas de escrever Messa ou Remington, aparecia de tudo. O senhor JP tinha indicações para só aceitar ouro e metais preciosos mas exorbitava, com a autoridade dos anos, e nada recusava, atento às necessidades de cada cliente, cigano ou pescador, agricultor ou comerciante.

Os empréstimos concedidos pagavam juros trimestrais, não havendo reembolso de capital, que só aconteceria quando o cliente conseguisse reunir a verba que lhe havia sido emprestada. A liquidação integral permitia reaver o bem que havia "dormido" no cofre ou na arrecadação do sótão durante, muitas vezes, tempos infindos. A não liquidação atempada dos juros implicava a venda do bem, dado de penhor, em leilão público, o que era raro acontecer. Os devedores cumpriam e, se de todo isso lhes era impossível, apareciam a justificar-se e, não raro, a trazer novo bem para reforçar a garantia e obter "mais algum". JP encarregava-se de os contactar, deslocando-se à respectiva residência, para entender as razões do atraso.

Os clientes do "Prego", habituais, usavam bens, muitas vezes de família, para financiarem as suas necessidades, os seus negócios, a sazonalidade das suas ocupações, sem burocracias e sem favores.

- Vale 100. Emprestamos 80.

Quando os serviços encerraram definitivamente, os bens e os contratos foram transferidos para a capital, que centralizou tudo na Rua Vale do Pereiro. Acabou o "Prego" público na cidade e alguns passaram grandes dificuldades para reaverem o que, de facto, era seu. Faltava o JP ...

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Monarquia

Começaram hoje as festas dos 70 anos do reinado de Isabel II, de Inglaterra, com a pompa que o tempo decorrido e a predilecção dos ingleses pela instituição monárquica, justificam, aliadas à curiosidade que os contos de fadas despertam em todos nós, mesmo nos mais cépticos.

A Rainha tem conseguido passar pelos intervalos da chuva que, com regularidade, desaba sobre o palácio londrino, seus moradores ou desertores. Talvez seja esse o seu grande mérito, conseguindo manter a sua pessoa acima da mesquinhez e da superficialidade de quem a rodeia. Com silêncios ensurdecedores ou discursos quase monossilábicos, vai segurando a chama acesa e a aura que a faz pairar num limbo com tanto de inacessível como de mitológico.

Aos olhos de quem está longe, é mau "tocador de ouvido" e um convicto defensor de que o berço apenas deve servir para o conforto do sono - mesmo assim, nem todos dormem nas mesmas condições - a monarquia não é, longe disso, o futuro.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Penitência

Começa Junho e S. Pedro presenteia-nos com uns aguaceiros, para que tenhamos consciência de que é ele quem determina e o faz a seu belo prazer, sem ouvir ou prestar contas a ninguém, nem mesmo a Belém.

Podia, ao menos, ter tido a consciência de não fazer isto no Dia Mundial da Criança. Aos petizes, coitaditos, devem ter restado as brincadeiras nas salas, leituras, jogos, histórias e desenhos, sem os saltos e as corridas que lhes são quase tão preciosas quanto "o pão para a boca" e tornando o dia tão normal como todos os outros.

Esta predisposição oestina para contrariar e ser sempre diferente devia ser objecto de estudo e análise detalhada, por parte de quem sabe, fosse de um Cavaco ou do Juiz que não conseguiu a cadeira do Constitucional. Ambos têm tempo e saber para se dedicarem a este tema e, de certeza certa, trariam resultados palpáveis aos olhos de todos. Veríamos tudo esclarecido de vez.

Porém, o sofrimento continua a arrastar-se e ninguém explica. Passamos o ano a sonhar com o Verão, que há-de trazer céu azul, temperatura amena, ausência de vento, mar chão. Chega Junho e acontece tudo ao contrário. Por mais efeitos de que a pandemia e a guerra sejam responsáveis, não parece justo que, por aqui, continuemos a ser húmidos, salvo seja, a pôr o casaquinho à noite, a esperar, sentados, que o vento sossegue. 

A minha análise, empírica, claro, diz-me que isto só pode ser castigo divino por pecados cometidos antanho.

terça-feira, 31 de maio de 2022

Ressonar

Raro era o dia em que os olhos não evidenciavam a noite mal dormida. Vermelhos, enormes, quase a saltarem das órbitas, punham a nu a necessidade de permanecer acordado até tarde e a ausência da devida compensação matutina. Afinal de contas, uma noite ainda se aguenta, duas já é muito difícil, três é quase impossível.

Em teoria, vivia sozinho e não tinha como meta procurar companhia definitiva. Já estava perto dos quarenta, usava barbas enormes por achar ser um desperdício de tempo cortá-las pela manhã. Sempre eram mais cinco minutos de preguicite ... Na maior parte dos dias, a gravata vinha no bolso, enrolada, e só era colocada já no local de trabalho, numa ida estratégica à casa de banho, antes que o chefe se apercebesse da falta do apêndice obrigatório.

O desleixo no vestir era visível. Muitas vezes as colegas chamavam-lhe a atenção para a camisa mal abotoada, as calças enrodilhadas ou mesmo sujas, o cinto torcido, as meias do avesso, os sapatos diferentes. Se era possível, naquele dia vinha ainda pior. A noite devia ter sido muito comprida e talvez, até, tempestuosa.

- Não dormiste?

- Tive companhia. Ainda por lá deve estar. Não arranjou poiso por aqui e ofereci-lhe "alojamento". No pouco tempo que ficou para dormir alguma coisa, ressonou. Nunca me tinha acontecido e olha que eu levo alguma experiência. Imagina! Até eu, com o sono que sempre tenho, não consegui dormir ...

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Raposas

- Cá em casa não entram raposas ...

O aviso era referido com solenidade, chamando a atenção para a necessidade de se ser bom aluno, que a vida não estava para brincadeiras. Felizmente, confirmou-se: lá em casa nunca entraram raposas, a não ser na gola de uma samarra que fez as delícias da juventude, de tão quentinha que era. Nesta altura, esta aleivosia não deve ser pensada quanto mais escrita. Safo-me porque pouca gente lê isto e a senhora do PAN tem muito mais que fazer do que perder tempo com conversas e estórias de velhos. Ainda por cima, já quase ninguém usa samarras e muitos haverá que nem sabem o que é! (Vão ver à Net ou perguntem no Face).

O meu amigo ADS, eclético fotógrafo "encartado", reconhecido na capital e no estrangeiro, com raízes bem vincadas nessa enorme terra do concelho de Góis que dá pelo nome de Colmeal (por lá produz-se mel excelente) envia-me com regularidade fotografias que vai fazendo, nas viagens, nas paisagens citadinas ou campestres, nos ninhos dos borrachos ou das rolas, as quais vou guardando no arquivo virtual que tem uma capacidade inesgotável. Noutros tempos seriam guardadas em álbuns e consultadas apenas "quando o rei fazia anos" e já se apresentavam amarelecidas. Agora, com as facilidades trazidas pelo arquivo tecnológico, passo por lá e revejo-as sempre com agrado. 

Hoje, esta fez recordar, não faço ideia porquê, a raposa dos tempos escolares e "obrigou-me" a ir ler a sua história aqui, num belo texto da autoria de Lisete Matos, publicado no blog da UPFC em Março de 2021. Para cúmulo, o belo texto está ilustrado por magníficas fotografias. Vale a pena "ganhar" cinco minutos a ler e a apreciar como a raposa, tantas vezes injustiçada, é, afinal, tão sociável.