segunda-feira, 13 de junho de 2022

Ilusões

Os olhos perscrutam o horizonte e apenas vêem uma mancha acinzentada, azulada, indefinida, sem nada que indicie haver por ali alguma coisa de palpável, muito menos umas ilhotas bem robustas e antigas.

Nem sinal das Berlengas, dos Farilhões, muito menos das Estelas ou das Desertas. Mas estão lá, disso não haja qualquer dúvida. Não é fácil de explicar a quem, pela primeira vez, se sente no areal da Foz e deite os olhos ao mar, cumprindo a sugestão de as descobrir.

- Não vejo nada. Estás a brincar ...

Não se movem, nunca, esteja o mar revolto ou mansinho. Escondem-se, de quando em vez, criando nova paisagem, ou aparecem mesmo ali à frente, quase à "mão de semear".

- As Berlengas, hoje, estão mesmo aqui. Se calhar, amanhã chove.

E no dia seguinte estão mais ao fundo, mal se distinguem no meio do oceano, confundem-se entre o céu e o mar, com vergonha de se exibirem. Logo no outro se distinguem perfeitamente, mas lá tão longe. 

A natureza tem destas coisas, incompreensíveis, alterando-se e forçando realidades que, não deixando de o ser, "vestem" hoje paletó e lacinho e amanhã uma bata suja, da cor do horizonte e nele bem embrenhada. Tal qual as pessoas, que tão depressa se fazem ouvidas e notadas, como a seguir se escondem em silêncios ensurdecedores, procurando transmitir que, afinal, não passam de uma ilusão, que não são o que foram e nem sequer por lá andaram. Todavia, olhando bem, está lá tudo, por mais que escondam.

E a culpa só pode ser da natureza!

domingo, 12 de junho de 2022

Pontes

Por me parecer pertinente e para ajudar ao destaque dado à situação que se está a viver nos hospitais, um pouco por todo o país, incluindo este cantinho oestino onde, tudo o indicia, morreu um bébé por falta de assistência adequada, e quando a hipocrisia de muita gente que devia ser responsável e não corporativista vem ao de cima, "roubo" o comentário do Embaixador Francisco Seixas da Costa, no seu blogue "Duas ou três coisas":

"É minha impressão ou a maioria das pessoas que, numa reação demagógica, culpou a ministra da Saúde pelas carências de pessoal especializado, em certas unidades hospitalares, se "esqueceu" de perguntar o que a "ponte" teve a ver com as falhas?"

E acrescento eu: os mapas de férias, elaborados no início do ano, já contemplariam estas ausências e foram, pela certa, bem analisados antes da devida aprovação. Quem os aprovou estava ciente que as parturientes não iriam escolher esta altura para terem os seus filhos, preferindo, por ser muito mais interessante, fazerem uma deslocação ao sul para se bronzearem. Daí à aprovação foi apenas o "salto" de uma assinatura com o "Concordo", que é sempre bem mais fácil do que fazer escolhas, conducentes a inimizades perfeitamente dispensáveis. "Eu sou o chefe, mas não quero problemas. Nem vou cá estar nessa altura."

sábado, 11 de junho de 2022

Sábado à tarde

A tarde serviu para espreitar a exposição World Press Cartoon, que permanecerá no CCC até 28 de Agosto. Vê-se com muito agrado e tem muitos cartoons carregados de humor e acutilância, de autores de todas as partes do mundo e com temas actuais, da pandemia à guerra, de Biden a Merkel, Johnson  e Macron, Putin e Trump. As burkas do Afeganistão também têm lugar de destaque. 

Depois, uma tentativa, gorada, de ver a exposição patente no Posto de Turismo. A secção expositiva encerra aos sábados, domingos e feriados, dias em que, naturalmente, quase ninguém anda na rua e menos ainda escolhe para visitar a cidade. 

No átrio, um aluno da ESAD terminava uma instalação, com madeiras reaproveitadas, bem interessante. Está a decorrer o 25º. Caldas Late Night, organizado por aquela escola de artes e a cidade está pejada de juventude, irreverente, como convém a qualquer artista. As vestimentas, a cor dos cabelos, a forma como se deslocam e privam, alertam os menos atentos de que o futuro é da inovação, da tentativa e erro, da actualidade, da ousadia. A música (também) faz parte da festa. O tipo da dita e o som que sai das colunas, seja ele emitido por um grupo ou pelo computador de um qualquer DJ (no caso, era o NV), comunica que há uma selecção de espectadores e que é melhor ficar em casa, à noite, nem que, para isso, surja a velha desculpa.

- É capaz de estar vento, e frio. Desagradável.

Uma nota final: às cinco e meia da tarde, a praça ainda não estava completamente desmontada. Temos de a manter por ali. Faz parte da história e as pessoas adoram o mercado ...

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Organização

O restaurante reabriu há poucos dias, muito tempo depois de ter encerrado e após uma reformulação profunda, feita com bom gosto, por sinal. 

A manhã tinha proporcionado um passeio à beira-mar e algum tempo de leitura, abrigados da nortada que se fazia sentir, ainda que não de forma a assustar quem a ela está habituado. O sol ia rompendo, o mar estava a encher e as vagas eram bem altas. A Lagoa ria-se dos milhões de litros com que era presenteada e os pescadores também pareciam satisfeitos com o peixe que, assim o diziam, haveria de chegar dentro de alguns instantes.

- Vamos experimentar o novo ...

Ainda não estava cheio, mas não tardaria muito. Os clientes que já estavam sentados, aguardavam. Aqueles que iam chegando, esperavam, sentados.

- Ainda demora muito?

- Mais cinco ou dez minutos.

Os vários empregados corriam de um lado para o outro, desorganizados, sem ninguém que desse indicações e explicasse como fazer. Uma boa parte parecia, ou melhor, era completamente inexperiente. Um trazia as toalhas, outro vinha a seguir desinfectar a mesa e, claro, levantava-as. Agora vinha o cesto do pão, depois os talheres. Toda a gente corria mas ninguém parecia conhecer o destino.

Uma hora depois, chegou à mesa o que havia sido encomendado. Estava muito bom, sem dúvida.

Ao lado, três abandonaram, cansados de esperar. Lá ao fundo, outros quatro saíram também.

- Só esperamos até às duas e meia, ouviu o empregado, jovem, e, corado de vergonha, respondeu:

- A cozinha diz que são só mais cinco ou dez minutos ...

A conta não demorou tanto como a comida, mas foi necessário insistir duas vezes.

- Falta organização, não acha?

- Pois ...

Se não arrepiam caminho, não duram muito!

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Legalidade

Um novo capítulo da saga aqui iniciada e que deverá estar, tal como a guerra, bem longe do fim.

Sem o papel nada feito. 

A reforma provisória estabelecida e comunicada são cerca de 190,00 € mensais, ainda que qualquer pessoa com o mesmo número de anos de trabalho (mais de vinte) tenha direito a, pelo menos, cerca de 300,00 €. É o valor da reforma mínima para quem teve descontos durante esse período, e não leva em linha de conta o montante sobre o qual esses descontos foram efectuados. 

- É verdade, mas falta o papel da Ucrânia e sem ele, a lei diz que é assim. Reforma provisória do valor que aí está indicado, que só será alterado quando chegar o papel.

 - Com a guerra, sabe-se lá quando virá ou até se o pedido chegou ao sítio devido.

- Pois ... mas não há nada a fazer. Tem de esperar.

Ainda tem, felizmente, condições para trabalhar e é isso que continua a fazer, para não morrer à fome ou passar a viver debaixo da ponte, como está a acontecer a muitos dos seus compatriotas.

- Depois recebe os retroactivos todos.

Se o papel não for destruído por algum bombardeamento entretanto, penso.

- A lei é muito dura.

Questiono-me: falta lei ao senso ou falta senso à lei?

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Paula Rego

Faleceu hoje, em Londres, aos 87 anos, determinando o fim de uma vida cheia e marcante.

Nunca "quis" adquirir qualquer obra sua, "apenas" por receio de que as paredes não suportassem o seu peso de artista enorme, e irreverente, como irá ser recordada no futuro. 

Para além da grande qualidade que os meus olhos, pouco conhecedores, diga-se, tiveram o prazer de apreciar ao vivo, numa visita à Casa das Histórias efectuada logo após a sua inauguração (2009) e uma outra grande exposição em Serralves, fica para sempre a força dos seus quadros e das personagens retratadas.

Do "espólio" cá de casa faz parte uma pequena reprodução de um quadro, cujo peso a parede conseguiu suportar, e uma edição do livro As Meninas, de Agustina Bessa-Luís, ilustrada com imagens de muitas das suas obras.

(...) - Não sei como pintar o chão - diz ela. Parece gostar de pôr as pessoas dependentes das suas dúvidas, erros, experiências em movimento, instáveis. As pessoas correm a ajudá-la, dão-lhe conselhos. Isso diverte a menina.
Era no tempo radioso de Walt Disney, das suas travessuras, do coelho Tambor a fazer a corte à sua coelha duma maneira hilariante. Ela ria-se, no escuro da sala sentia-se sozinha como ela gostava.
- Como hei-de pintar o chão?
- Fazes assim, assim, e o chão fica pintado - disse Vic. Paula ouvia-o com amor. Mas não era dum conselho que ela estava à espera, era de atenção, a atenção um pouco gulosa que se tem pela criança que está a crescer. Ela estava a crescer, D. Violeta não dava por isso. Queixava-se à mãe, batia-lhe nos dedos com a régua. A dor sobressaltava a menina. Por isso perguntava sempre:
- Como hei-de pintar o chão? (...)
As Meninas
Agustina Bessa-Luís
Três Sinais Editores (2001)

terça-feira, 7 de junho de 2022

Conversas

Se não há nada para dizer, fale-se do tempo. 

- O dia hoje está bonito. Se calhar, amanhã chove.

- Não. Agora só chove lá para o final da semana. Foi o que ouvi. O vento é que parece ir soprar com alguma força. Vamos ver!

Está a conversa feita. Tudo tratado e nada resolvido, como sempre. Ainda bem ...

- Tens visto F. ? Já não a vejo há séculos. 

- Foi o que trouxe a pandemia. As pessoas isolam-se cada vez mais e passam-se semanas sem lhes pormos a vista em cima.

- Mas está viva (Ri-se muito), isso garanto. Ontem escreveu qualquer coisa no Face, já não sei bem o quê. Ou terá sido no Insta?

- Eu vi uma fotografia. Pareceu-me que andaria a passear.

- Pois ... e não era por aqui. Nós não temos aquele sol tão lindo nem árvores tão frondosas.

- Podia ter identificado o local ... deve querer deixar a dúvida e dar oportunidade a que lhe perguntem.

- Sabe-se lá se a foto é de agora.

- Tens toda a razão. E até pode ser uma montagem ... as máquinas fazem tudo!

 - Bem, adeus. Tenho de ir. O miúdo sai agora e vou pô-lo ao futebol. Esta semana calha-me a mim.

- Adeus, "bjinhos". Gostei muito de conversar contigo!

Cada uma seguiu o seu caminho. O tempo urge, há muito para fazer e nada para dizer.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Resiliência

" A cultura é tudo o que resta depois de se esquecer aquilo que se aprendeu"

Depois de tantos anos passados, de uma vida intensa, cheia de coisas boas ( e algumas péssimas), dou por mim a pensar que ainda tenho alguns traumas que não resolvi nem vou resolver, e que se acentuam à medida que o tempo vai prosseguindo a sua maratona, sem me passar cartão nem comigo contar sequer para os primeiros cem metros.

Um dos meus defeitos, enorme, é ser invejoso, muito, do saber enorme que cada vez mais pessoas evidenciam, e exteriorizam, pondo a minha ignorância completamente a nu e fazendo com que me interrogue sobre para que serviu um caminho já tão longo, o ter lido tanto, ter prestado atenção ao que se passou (e passa) à minha volta, ter ouvido atentamente explicações e dissertações de pessoas que sabiam dos assuntos e o explicavam sem pedantismo e com clarividência. Concluo: a minha capacidade de absorção de conhecimento é infinitamente baixa.

Da guerra à política, das finanças à economia, da produção ao consumo, do vírus ao futebol, não há uma única área em que os meus conhecimentos se comparem aos que todos os dias vejo, e ouço, e leio, expressos por tanta gente que, claramente, está a léguas de distância de mim e a quem me é completamente impossível acompanhar.

Não devo ter sido dotado da resiliência que, diariamente, ouço referir como qualidade fundamental para ser alguém na sociedade actual. Não resisti e fui cuscar esse livro fantasmagórico e completamente ultrapassado, que tem sete volumes e se chama "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa".

Resiliência: s.f. 1. Fís. propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. 2. Fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. Etim. ing. resilience (1824); elasticidade; capacidade rápida de recuperação.

Fiquei esclarecido. Tenho de adaptar-me à má sorte ou às mudanças, sob pena de ser submetido a uma deformação elástica e não retornar à forma original.

domingo, 5 de junho de 2022

Domingo

Cavaco tem toda a razão. Já nada é como no tempo em que ele governava, todos eram muito felizes e viviam em harmonia plena, seguindo as suas doutas instruções e sapiência. Nem já o tempo se comporta como devia e parece ignorar todas as louváveis indicações recebidas.

Para o primeiro domingo de Junho está determinado, se não na Constituição da República, pelo menos na regulação consuetudinária, que há lugar a uma ida à Foz, para regalar a vista, refrescar o pulmão, andar na areia e dar, ao menos, um mergulho. Fiz a parte que me competia e, logo pela manhã, fui até lá.

Porém, há sempre quem prevarique e não cumpra as suas obrigações, continuando, contudo, a reclamar o seu direito à existência e, quiçá até, à remuneração que lhe foi atribuída para executar a função de tudo deixar fluir, sem interferir nem mandar palpites. 

O mar estava chão, a temperatura da água devidamente aquecida pelo "esquentador" da Foz, que nunca prima por trabalhar com muita força, o norte apenas enviava uma ligeira brisa que mal se notava e o sol, faltou. Sem qualquer justificação e contrariando as determinações da senhora do IPMA que, coitada, agora se verá obrigada a fazer um relatório exaustivo e justificativo do seu falhanço de previsão.

Mas, há sempre um mas: a ausência do sol determinou a mudança da cor do mar, que passou de azul a verde, dando à imensa "planície" uma infinidade de tons, bem visíveis até à Berlenga.

Conclusão: há sempre algo de positivo em qualquer ida à Foz.

sábado, 4 de junho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) O padre estava a fechar as portas da igreja quando me avistou. Olha quem ele é!, exclamou, e convidou-me a entrar, já jantaste? Não tenho fome, respondi. Romano cheirou o ar. Um jantar daqueles mais líquidos, hã?

Atravessámos a capela e subimos à sala de música. Um piano, duas velhas guitarras, um contrabaixo aconchegado no seu saco. Um Cristo na parede com a pintura esfarelada. O padre foi buscar uma garrafa de vinho e dois copos; serviu-me, serviu-se. Bebemos ao mesmo tempo. Que a paz esteja contigo, disse Romano. E contigo, respondi.

Sentados em duas velhas cadeiras, contei-lhe a história dos últimos dias. Ele sabia de algumas coisas. Da minha vida, aliás, conhecia praticamente tudo, ou, pelo menos, as partes importantes. Em 2008, no princípio do longo deserto da minha carreira literária - antes de descobrir que era mais feliz sem escrever -, procurara ajuda em toda a parte. Meditação, hipnose, yoga, psiquiatria, religião. Queria uma solução rápida para aquilo que só o tempo podia resolver; queria a panaceia imediata para uma dor antiquíssima. O padre Romano pareceu-me a melhor opção. Não se preocupe, dissera-me ele, numa das nossas primeiras conversas depois da missa de domingo - eu, um agnóstico confesso! -, Deus sabe melhor que nós aquilo que nos faz falta. Mas o senhor padre não compreende ..., começava eu, numa litania do desespero. E ele escutava-me, paciente, com um sorriso no rosto, aquele sorriso irritante de quem vai à frente, já conhece o caminho e sabe que ele conduz, não à fantasia de um apocalipse, mas a vales frondosos onde a nossa alma deambula pacificada.

Pratique a oração, pode ajudá-lo, recomendou-me, nessa altura. Não sei rezar, respondi. Não precisa de saber, sente-se na beira da cama e feche os olhos, não peça coisas materiais, nem prosperidade, muito menos Lhe peça para voltar a escrever. Então peço o quê? (...)

Naufrágio
João Tordo
Companhia das Letras (2022)