quinta-feira, 23 de junho de 2022

Estonar

Em tempos idos, as ervas que enxameavam as terras eram raspadas superficialmente para, de seguida, serem enterradas, enriquecendo a base das culturas que aí iriam ser lançadas. A tarefa de raspar as ervas, normalmente executada por mulheres, por não ser tão exigente do ponto de vista físico quanto a cava, era chamada de estona. Estonar precedia a cava e a sementeira e considerada essencial para que a cultura, qualquer que fosse, tivesse êxito.

O mesmo princípio - rapar, não as ervas mas os pêlos - se aplica ao cabrito, na zona de Oleiros. O cabrito estonado é depois assado no forno e, logo de seguida, colocado nos pratos para que cada um dos comensais o saboreie e se delicie. 

Vale a pena, foge-se à vulgaridade, aproveita-se para satisfazer a vista com paisagens lindas e para conviver com gente amiga, vencendo o hiato que a pandemia decretou.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Parvoíces

Apetecia-me escrever sobre o debate que a RTP 3 está a transmitir em directo e que poderia/deveria ser para discutir, esclarecer e tentar resolver os problemas que o país tem e aqueles que o futuro, inevitavelmente, lhe trará. O debate tem como objectivo a colocação de questões ao Governo, por parte dos deputados eleitos por todos nós, os que votámos, e que, dessa forma, determinámos que fossem os nossos representantes.

A segunda intervenção, de um cretino que até foi eleito e, por isso, por lá se senta com todo o direito e representa umas centenas de milhares de portugueses, tira a vontade, ou melhor, espevita a vontade de desligar, não fora a gravidade que a parvoíce das palavras que saem daquela boca sem freio, encerra. A preocupação de criar espectáculo, a forma e a ausência de conteúdo, a acentuação e a elevação do seu ego, os aplausos e os àpartes dos seus súbditos, tudo sem um mínimo de dignidade e de respeito por si próprio e por aqueles que lhe ofereceram o voto, enoja, chega.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Degradação

Nasceu num berço de prata, pelo menos. Os pais pertenciam à média burguesia, sempre viveram bem e, aparentemente, também lhe proporcionaram as melhores condições. O aspecto visual da altura assim o indicava e não havia quaisquer razões para pensar diferente.

Ainda jovem, o vício das drogas tomou conta do seu quotidiano e também do irmão, um pouco mais novo. A degradação foi-se acentuando. Os pais morreram e já não assistiram à derrocada. Está um farrapo, embora ainda conserve algumas regras de higiene. O irmão desapareceu daqui. Não se sabe - eu, pelo menos, não sei - se ainda está vivo.

Hoje, a meio da manhã, estava sentada na esplanada e a cerveja ia quase no fim. Talvez fosse a primeira do dia, mas outras se iriam seguir, entremeadas com o "charro" que não dispensa à vista de todos. A manhã acabará com meia dúzia de cervejas e uns quantos "charritos". Por vezes tem companhia: um "namorado" com quem discute acaloradamente e um cãozito, sossegado, aos pés dos dois. Hoje estava sozinha. Terá tido companhia nestes últimos anos?

Dentro do café, um companheiro de juventude, um pouco mais velho. Antigo craque de futebol, jogou na Luz e acabou no Caldas, onde tinha começado miúdo. Tem a doença da moda. Fui cumprimentá-lo, com a dificuldade de quem não sabe o que dizer. Riu-se muito mas claro que não me reconheceu. A mulher fez o sorriso de circunstância, revelador da necessidade de compreensão do que deve ser uma luta diária e terrível.

Pensei para comigo: vai escrevinhando, lendo e passeando. É bom sinal!

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Diferenças

De acordo com essa enciclopédia fundamental que agora quase dispensa a aprendizagem e a memorização, o hibisco é uma planta da família das Malváceas e tem centenas de espécies. Além de ser utilizada na produção de chás, é, segundo a sapiência do Google, originária de parte incerta, embora haja registo das primeiras aparições não em Fátima mas na África Oriental e na Ásia. Algumas das espécies são comestíveis, mas só para quem tem boa boca, acrescento eu, que não confio na sabedoria do Google.

Cá em casa vive um hibisco há muitos anos. Já esteve por duas vezes em perigo de vida, mas conseguiu recuperar e por aqui se mantém, fresquinho que nem uma alface. Neste momento só tem folhas, aguardando-se que as flores cheguem em breve. Se S. Pedro ajudar, talvez no início de Julho elas estejam por aí, a tornar (ainda) mais belo o jardim. 

Para me causar inveja, esse defeito terrível que ninguém deve ter, o meu amigo ADS fotografou uma flor da capital, fazendo-a chegar aqui por estes "envelopes" virtuais, que de tudo se encarregam. Confirma-se, uma vez mais, que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem.

Até no florescimento do hibisco a província perde.




domingo, 19 de junho de 2022

Incompreensível

Quase todos os dias se ouvem, vêem ou lêem notícias sobre atrasos intermináveis na resolução de processos na justiça, de anos e anos sem solução ou à espera de análises de recursos intermináveis, baseados em mil e uma argumentações, produzidas por advogados habilidosos ou de inteligência superior, que conseguem ver para além do que "alcança a própria vista".

Talvez a grande maioria dos processos que dão entrada nos tribunais seja resolvida com celeridade ou dentro de prazos razoáveis. Esses, naturalmente, não são notícia.

Talvez ... mas a justiça, que não deveria ser notícia, tem como missão julgar e julgar é resolver de forma justa e atempada, sem "pés atrás", preconceitos ou habilidades, e com tratamento idêntico sejam quem forem os prevaricadores.

Ler que dois processos levaram dez anos a condenar seis pessoas por escravidão é incompreensível e ofensivo para quem é cidadão deste país e nele paga os seus impostos.

Fica a certeza que o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República, o Conselho Superior da Magistratura, o Presidente da República ou a Assembleia da República, uma destas entidades tão responsáveis e habitualmente prolixas em declarações, mande instaurar um costumado rigoroso inquérito, para apuramento das responsabilidades de todos os intervenientes, apurando-se quem é pedregulho na engrenagem ou quem recebe ordenado sem o merecer.

A liberdade, a presunção de inocência e o direito à defesa nada têm a ver com isto.

sábado, 18 de junho de 2022

Dúvida

Foi a girafa que furou a buganvília ou foi esta que se lhe colou ao pescoço?

Quem quiser ser esclarecido, dê um saltinho ao Parque D. Carlos I. Vale sempre a pena!

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Integridade

Correndo o risco de ceder à demagogia e a alguns lugares comuns, mesmo assim ganha a teimosia de sempre, que espero se mantenha lúcida até ao fim.

Quem, mesmo sossegadinho, viveu sob a ditadura, não consegue compreender que exista gente, no auge da sua força e com acesso a quase tudo, a defender tempos idos e águas passadas. Muita dessa gente estaria condenada às portas fechadas, ao pescoço dobrado, à ausência de esperança, a morrer na valeta. Os pais de alguns deles, e os avós muito mais, nunca sonharam ser possível ver os filhos ou os netos ascenderem na sociedade, subindo alguns degraus na escada, mesmo que só até ao primeiro patamar. A esses, deixa-se claro que a escada da sua vida começou a fazer-se em 25.04.1974.

E aquilo que parecia impossível voltar a acontecer, alguns querem que regresse. Arreda, arreda, vá de retro, Satanás. 

Faz muita falta reflectir sobre o que já por aqui passou, como éramos e como somos, ou melhor, como se vivia e como se vive, apesar de ainda haver muita gente a vegetar. Com todos os defeitos que tem, a democracia abriu portas à discussão, à diferença, às possibilidades, à exibição do querer e da vontade, ao direito ao trabalho e à opinião, à revolta, à contestação, à paz. Haja paz e façamos um mundo melhor para todos. E aqueles que já moram no "primeiro andar" pede-se-lhes que não olhem com desprezo para a "cave" e não exibam as benesses de forma ostentatória e ofensiva para quem nada tem. 

Há muitos que nada seriam se a sociedade constituída por todos e para todos não lhes tivesse dado essa oportunidade, muitas vezes com o recurso a expedientes e malabarismos que deixam muito a desejar no campo da honestidade que se ouve apregoada. Talvez seja a altura de darem algo em troca, tendo presente que o dinheirinho traz alguma felicidade e ajuda muito, mas não compra tudo e todos.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Trabalho

Por ser dia de descanso, hoje não parecia haver capacidade para assegurar o regular funcionamento deste "diário", apesar da justíssima ansiedade dos que a ele recorrem para resolver os grandes problemas de fundo. Na verdade, poucos (ou nenhuns) são os que disso necessitam ou usufruem de qualquer vantagem das eventuais visitas que por aqui efectuam. Talvez só por vício ou masoquismo, se justifique a trabalheira que dá uma consulta diária de textos "para encher chouriços".

Foram feitos todos os esforços para manter a "porta aberta", com outros trabalhadores e melhor qualidade. Não houve uma única pessoa que se dispusesse, disponibilizasse ou aparecesse para garantir a produção do dia, o que se compreende muito bem, dada a excentricidade da tarefa.

A capacidade de trabalho de quem se mantém sempre ao serviço também se esvai. Paciência, é a vida. Não é grave nem por aí vem qualquer mal ao mundo. É apenas uma incapacidade séria de planeamento e de antecipação, coisa que grassa por aí com fartura e que, por isso, se não deve estranhar. Tudo isto foi agravado pelo estrago que uns pingos de chuva, bem grossos, por sinal, fizeram numa manhã de praia que se antecipava como óptima, considerando as previsões divulgadas para o país. 

A água estava boa e o mar disponível para facilitar os acessos ao pessoal, antecipando até uma possível enchente. Nada disso aconteceu. Três teimosos, cumprindo o ritual na "prainha", aproveitando a maré vazia e o caminho com sinal verde. O mar, como óptimo trabalhador que é, tem cumprido a sua tarefa e transportado muita areia de um lado para o outro, mostrando rochas novas e soterrando muitas antigas. Tudo isto sem qualquer concurso nem comissões de verificação.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Tarefas

Este ano, a ginjeira está bem carregada. E as ginjas vão amadurecendo com calma, primeiro as lá de cima - apanham mais sol - a que se seguirão as outras se, entretanto, nada ocorrer de especial.

Já foi concretizada a primeira colheita e, de acordo com a informação veiculada por quem sabe, está assegurada a produção de doce para as encomendas precoces.

Os melros, sempre atentos, aproximam-se cada vez mais e, sem vergonha, vão fazendo a colheita por sua conta. Não fazem parte do quadro nem têm qualquer vínculo que os ligue à ginjeira. São uns meros tarefeiros sem escrúpulos, que nem aproveitam estes dias feriados para fazer pontes e irem "laurear a pevide", como tanta gente fez. Acresce que, como não têm satisfações a dar a ninguém nem respondem disciplinarmente ou legalmente a qualquer entidade, comem as ginjas quando muito bem querem ou lhes apetece, sem qualquer preceito ou respeito. 

Por mais temido que seja o ramo, aparecerá sempre um qualquer melro a deliciar-se com as ginjas, maduras, claro, e comidas apenas e só quando lhe aprouver. Se estiverem verdes, não prestam, só os cães as podem tragar, como dizia a raposa, das uvas.

Se os melros tivessem um contrato de prestação de serviços biunívoco, a ginjeira determinava o seu cancelamento imediato. Não se pode "tarefar" apenas quando convém.

terça-feira, 14 de junho de 2022

Menosprezo

Naquele final de tarde da terça-feira só tinham aparecido seis "futebolistas para o habitual jogo semanal de futebol de salão, praticado ao ar livre e em piso de cimento, para enrijar o osso. Eram os tempos da Parada, que hoje serve de parque de estacionamento. Os pavilhões, com piso de madeira, ainda estavam para chegar!

- Somos tão poucos. Nem dá para um joguinho. 

Uns pontapés à baliza, antecedidos de umas corriditas para aquecer os músculos, e não aparecia mais ninguém. Seis não dava para nada e o lamento dos "quarentões" pela ausência dos colegas, que nem sequer avisaram, era perfeitamente audível.

Meio envergonhados, foram-se aproximando. Eram quatro jovens, treze, catorze anos, com ar de quem não se importava de fazer companhia aos "velhos" e colaborar na jogatana.

- De certeza que os "putos" são fraquitos, mas é melhor que nada. Jogamos com calma, para não os assustar ...

 - Querem jogar?

- Se nos deixarem ...

Um dos "velhos" foi para a baliza dos miúdos, para que ficassem duas equipas com igual número de jogadores.

- Vejam lá o que fazem. Não vamos massacrar os "putos". 

Ainda mal a bola começara a rolar e o primeiro já lá estava. Foi um massacre. Os miúdos chegavam sempre primeiro e os "velhos" nem a cheiravam. Alguns de nós achavam que eram tecnicamente muito dotados e que isso era suficiente.

- Com calma. Troquem bem a bola que chegamos lá.

Não chegámos. Foi uma abada. E os miúdos até pareciam toscos ...

Lição de vida: "quem primeiro alça, primeiro calça" e "mais vale quem quer que quem pode".