sexta-feira, 8 de julho de 2022

Mudanças

Há motivos de sobra para a satisfação de viver no Oeste e nesta cidade que, alguns, com desdém, dizem ser de "águas mornas". "Vamos Mudar" era o slogan das últimas eleições autárquicas, que teve resultados positivos e está a acontecer, como abaixo se confirma.

O calor, que raramente nos visita, mantém-se por aqui há três dias e, segundo os entendidos, ainda ficará mais alguns, sem necessidade de alojamento local ou estabelecimentos hoteleiros. Conseguiu chegar, sem dificuldades de maior, apesar de as indicações serem poucas e, nalguns casos, nenhumas. Nada que a perseverança não vença.

Ao contrário do que era costume, o nevoeiro não tem aparecido e a tal visita, mesmo sem a tabuleta indicativa do caminho para a Praia do Mar, chegou mesmo lá abaixo, pondo toda a gente a bufar, salvo seja, claro. O mar, sempre do contra como convém, não tem colaborado muito, mantendo-se teimosamente violento e explicitando com vigor que, no seu território, é ele quem manda, sem oposição ou regra.

As mudanças estão a verificar-se por toda a parte, com excepção da Ucrânia, onde a guerra se mantém inclemente e sem fim à vista. No Reino Unido, Boris Johnson já está a contactar as empresas para decidir qual lhe vai mudar os "trainecos" de Downing Street para um qualquer outro bairro de Londres, mais recatado e com menos festas; no Japão, contrariando o habitual sossego, um tonto assassinou, a tiro, um ex-primeiro-ministro; o antigo presidente de Angola despediu-se da vida em Espanha, deixando a família desavinda e o governo do seu país muito pesaroso.

Ninguém aguenta tanta mudança ... para que tudo fique na mesma! 

quinta-feira, 7 de julho de 2022

(Des)Acordo

Um mail de uma instituição conhecida e prestigiada na caixa do correio desperta a curiosidade e aguça a pressa de o ler. Ainda não tinha aquecido o lugar e já estava a ser dissecado, com um interesse desmesurado, a roçar a coscuvilheirice.

A informação nele contida pedia para solucionar um problema com um cartão multibanco e, embora me fossem familiares quer a terminologia quer o acontecido, nada tinha a ver comigo, já de "férias" da banca há vários anos. Na resposta, que redigi de imediato, referi o lapso que devia existir no endereço. Como era esperado, não tardaram as desculpas pelo erro que haviam cometido. Não tinha existido qualquer inconveniente nem tinha sido lesivo de ninguém, muito menos violado o sigilo bancário ou qualquer outro. Apenas tinha havido perda de tempo por parte de quem se enganou e o meu divertimento por verificar que ainda há, pelo menos, um homónimo a exercer funções nessa área de eleição que é a banca.

O curioso é que a resposta estava redigida conforme as regras desse contrato magnífico que é o Acordo Ortográfico, e rezava assim:

"... de fato este mail não era para o senhor."

A minha dificuldade com as novas regras é evidente e a minha teimosia ajuda imenso. De facto, os fatos, completos, permanecem no guarda-fatos mas, de facto, não são utilizados há largo tempo, por opção (será oção) e por a adaptação (será adatação) desses fatos ao facto de estar de férias permanentes não ser fácil. Ainda por cima, com este calorzinho, não seria de facto normal aparecer na praia de fato vestido, sujeito a ser apelidado de tonto mesmo não havendo qualquer facto que o comprove. 

Conclusão: de facto não há razão nenhuma para usar os fatos que estão guardados nem de facto se justifica que eu altere a minha teimosa obstinação de escrever à moda antiga. É factual! 

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Ver(ão)

Chegou o Verão à Foz e isso relega para segundo ou terceiro plano o que se passa no país e no mundo. O importante, daqui para a frente, é saber se o mar está a vazar ou a encher, se as ondas são perigosas e puxam muito, se as bandeiras da demarcação da zona de banhos estão no sítio ou deveriam ter sido colocadas um pouco mais a norte, se lá vamos a mais uma "cabeçada", se o sol aperta e pode queimar, se a bandeira surge amarela ou se, finalmente, aparece verde. Vermelha é a sua cor normal!

- Está bruto ... mas a água está óptima!

Entretanto, o Presidente da República já recuperou da falta do almoço brasileiro e, ainda mal tinha aterrado, começou a trabalhar em força, como é seu timbre há muito. Recebeu o novo líder do PSD, condecorou o ex-líder do mesmo partido, seu antecessor no cargo, a quem deve ter custado trocar o fresquinho das águas do Algarve pelo calor sufocante da capital, e falou, muito, com os jornalistas, peças essenciais para a divulgação da mensagem de Belém, sempre oportuna e necessária para que, todos, percebamos o mundo que nos rodeia e do qual fazemos parte. Uma aula universitária traz sempre algum ganho.

E, nos entretanto, aconteceu um incêndio num prédio na zona de Algés, o qual, segundo a repórter da SIC Notícias presente no local, foi combatido por vários operacionais, apoiados por cerca de quatro viaturas. O tempo, em televisão, é sempre muito curto e isso impediu que a repórter o tivesse para contar os carros com precisão.

Compreende-se. Não é fácil contar até quatro ...

terça-feira, 5 de julho de 2022

Palavras bonitas

Para o meu neto Gil, que hoje completa 16 anos e, do alto do seu metro e oitenta e cinco me olha sempre com um sorriso desconcertante e um afecto enorme, que eu procuro e, se calhar, nem sempre consigo, retribuir com todo o carinho.

É o meu neto GRANDE, que se equilibra em sapatilhas 45 e se alimenta de forma a repôr o esforço diário que os muitos quilómetros natatórios lhe consomem. Apesar disso, ainda consegue arranjar tempo para ler, muito, e ser um excelente aluno.

Parabéns, meu NETO!

FÁBULA DA FÁBULA

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralisadora,
Que, em verso e em prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente e sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.

E realmente ...
Simplesmente, 
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.
Diário VIII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1959)

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Hipocrisia (?)

Há mais de quatro meses, mais concretamente a 24 de Fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia, dando início a uma guerra que, como todas, é estúpida, sem qualquer sentido ou justificação, por muito que nos queiram fazer entrar pelos olhos as razões que, sem dúvida, a razão desconhece.

Apesar de, tanto quanto nos fazem crer as notícias, as batalhas continuarem cada vez mais cruéis e arrasadoras para soldados, populações e bens, e não parecer que a guerra esteja perto do fim, começam a ouvir-se discursos, a saber-se de reuniões, a ter-se conhecimento de diligências para a reconstrução da Ucrânia, com referências explícitas a muitos milhares de milhões de euros ou dólares que irão ser necessários. E, quase de certeza, já se perfilam muitos algozes com os bolsos preparados, sob a batuta do sacrifício que isso lhes vai exigir, para tomarem a primeira fila das tarefas a executar e receberem, claro, o que lhes é devido. A miséria que por lá vai grassando é apenas um pequeno pormenor, do qual ninguém é culpado.

O Papa vai dizendo que está disponível para entrar na mediação, necessitando apenas que lhe abram uma pequena nesga da porta, através da qual possa dialogar para tentar pôr fim à barbárie. Já deve ter percebido que, por mais que reze, Deus não consegue calar as armas e os interesses.

A reconstrução, vista daqui da pontinha da Europa, será imprescindível e urgente, mas só possível se e quando as armas se calarem de vez. 

domingo, 3 de julho de 2022

Partilha

Uma grande música, quase da minha idade, eternizada por Édith Piaf e aqui cantada pela grande Bethânia.

Não me arrependo de nada ... porque nada fiz que me leve ao arrependimento.

sábado, 2 de julho de 2022

Contratempos

Depois de Pedro Nuno Santos ouvir um ralhete de António Costa por "voar" com excesso de velocidade, de o Rio ficar seco e o Monte ...negro, também ao Presidente da República, que ontem partiu para o Brasil numa viagem de três dias, lhe calhou uma "fava".

O programa brasileiro devia ser do tipo "tudo incluído" mas, à última da hora, o ocupante da cadeira presidencial do Brasil deu o dito por não dito e cancelou o almoço aprazado para segunda-feira, em Brasília. Esta decisão, inesperada, irá causar algum transtorno ao nosso Presidente, apesar de ele não ser um homem de grandes comezainas. Talvez por isso, atribuiu pouca importância à indelicadeza e lavou-a com um banho nas praias de Copacabana, durante 20 minutos, segundo o que o próprio deu conta aos jornalistas.

Pelo que se sabe, o "caramelo" que se senta na cadeira brasileira amuou e dispensou a boa companhia que Marcelo decerto lhe proporcionaria, mesmo considerando a dificuldade que iria ter em entendê-lo,  por ele se exprimir como se tivesse sempre a boca cheia de favas. 

A "agência de viagens" não pediu autorização ao "bicho" para as outras refeições e ele deveria pretender exclusividade nas mesmas, para mostrar como cozinha bem e fazer publicidade aos seus dotes culinários, de certeza tão bons ou melhores do que aqueles que exibe na função que exerce. 

Marcelo lá terá de se contentar com uma "sandocha" e esperar que a refeição da TAP seja melhorada no regresso.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Um rinoceronte vindo lá dos confins do mundo para a casa das feras de D. Manuel I, um professor castelhano que estuda a obra de Fernando Pessoa e até com ele fala quando deambula pelos lugares "pessoanos" de Lisboa, e mais um excelente livro do Clube Tinta da China.

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"(...) olhe para esta gente que está aqui à frente à espera de vez para tirar uma fotografia comigo, estes homens e estas mulheres, estas raparigas e estes rapazes que se aproximam de mim, que se põem aqui ao meu lado, sentados ou de cócoras, esperam que o fotógrafo dispare e depois regressam às suas vidas, satisfeitos por se terem imortalizado com o que julgam ser um dos marcos imprescindíveis da cidade, da nação; é evidente que nenhum deles, vamos ser optimistas e dizer que só alguns, sabem verdadeiramente quem sou, e é possível que nem uma das pessoas que desfilaram por aqui ao longo do dia seja capaz de repetir de cor um único dos meus versos, nem sequer os mais fáceis, os primeiros que escrevi, aquela famosa quadra através da qual comuniquei à minha mãe que me mudaria com ela para a África do Sul. Não acha que tenho razão? Acho, acho, respondeu Espinosa depois de acabar de um gole o café, morno pelo tempo de repouso e pela temperatura, ainda quente, mas já um pouco fresca, da rua. Ora bem, continuou Pessoa, estarei eu realmente em condições de pedir a esta gente que me leia? Estarei eu em posição de lhes exigir que conheçam os meus poemas, quando estão a viver um período tão hostil, tão inclemente, tão ímpio, tão propenso ao desacato e à traição em detrimento das artes? Que pensa, querido Espinosa? Os tempos nunca foram fáceis, dom Fernando, respondeu Espinosa, tentando ultrapassar o tímido pessimismo no qual ameaçavam mergulhá-lo as palavras do seu incomensurável contertúlio, , não foram para si, nem foram para nenhum dos grandes génios da literatura universal, a História é sempre convulsa e sempre acontece, não podemos livrar-nos dela. E no entanto escrevemos, interrompeu-o Pessoa, escrevemos como se não houvesse nada mais importante do que encher os nossos papéis, como se nesse empenho em que deixamos a vida residisse o segredo da salvação do mundo, mas no fundo sabemos que não é assim, que nunca é assim, (...)"

O rinoceronte e o poeta
Miguel Barrero

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Aeroporto

Por mais que o vento fustigue e trame as boas manhãs de praia, há sempre algo que acontece e anima o dia.

Foi ontem anunciado, pelo Ministro Pedro Nuno Santos, com pompa e circunstância, que, afinal, quase meio século depois, havia sido decidido que não íamos ter apenas um novo aeroporto mas sim dois, um no Montijo e outro em Alcochete, ambos com vista para o estuário do Tejo, que é lindo em qualquer época do ano e, por si só, atrai muitos milhares de turistas. 

Hoje, o Ministro teve de voltar à ribalta para se penitenciar, por ordem de António Costa, que um erro de comunicação o fez divulgar a decisão, sem a comunicar previamente ao Primeiro-Ministro e ao Presidente da República e, pasme-se, sem ter obtido o beneplácito do líder do principal partido da oposição, que ainda não o é mas vai ser no próximo fim de semana, acrescente-se com o rigor que estes assuntos requerem.

São "malhas que o império tece" mas o sapo não deve ter sido nada fácil de engolir e muito menos de digerir, lá isso não.

Acalmada a ventania, surgirá a decisão e será aplaudida por vir muito atrasada, tal como muitos aviões, e ser indispensável para o progresso do país.

E, c'os diabos, mais uma semana, um mês, ou anos, não tem relevância nem importância. Quem esperou 50 anos ...

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Tropeção (?)

O Presidente da República, do alto da sua função e inegável sabedoria, verbalizou a sua opinião sobre a igualdade entre homens e mulheres assim: 

"(...) Só haverá igualdade entre homens e mulheres quando chegar aos mais altos postos uma mulher tão incompetente como chega, em vários casos, em inúmeros casos, aos mais altos postos, um homem.(...)"

Fiquei surpreendido com um achado tão eloquente. Pensava eu, pelos vistos mal, que chegar à igualdade entre as pessoas não teria a ver com o sexo das mesmas e sim com a competência e a abertura nos acessos. Pelos vistos, torna-se imperioso nomear mulheres incompetentes para, com isso, atingir a igualdade de oportunidades.

Quero acreditar que foi o cansaço ou a pressa que determinaram, salvo melhor opinião, a ousadia da afirmação presidencial. 

A preocupação, julgo eu, deve ser conseguir as nomeações pela competência e, se assim for, não se colocará o problema do sexo. Mas eu sou lírico ...