domingo, 14 de agosto de 2022

Mandrião?

Muito afã, pouca vontade, nenhum assunto. Só desculpas ... 

Tudo decorre dentro da normalidade de quem goza férias sem quaisquer preocupações, se delicia no mar, ouve e participa em conversas, de circunstância mas deliciosas. E, mesmo assim, não há rotinas. Os dias são todos semelhantes e, ao mesmo tempo, bem diferentes.

- Há um bocadinho de vento hoje, não achas?

- Que pena não se conseguir passar para a terceira praia!

Muita gente, muitas línguas, muitas caras, gente bonita, alguns nem tanto. Há espaço para todos e hoje nem a zona de banhos estava demarcada. O mar dorme, não se mostra aborrecido, porta-se bem, abre a porta a toda a gente e convida ao disfrute, oferecendo uma temperatura não habitual, a limpidez do costume, o sossego na entrada, na permanência e na saída. Calmaria absoluta!

Uma graçola adequada ao momento:

- Ontem ficaram cá duas pessoas!

- ???

- Perderam o autocarro! 

Mantendo-se esta rotina, finar-se-á o rótulo de terrível que sempre tem sido atribuído ao mar da Foz.

- Não deites foguetes. Parece que a festa acaba amanhã! 

sábado, 13 de agosto de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Ler foi, é e deverá continuar a ser por muito tempo, espero, um dos meus passatempos favoritos, ao qual dedico diariamente uma boa parte do meu tempo livre com grande prazer. Com frequência sou surpreendido por livros sobre os quais não tinha uma expectativa elevada e, afinal, revelam-se uma enorme e agradável surpresa.

É o caso do que actualmente estou a ler, ou melhor, a devorar, tal é o interesse que me está a despertar.

"(...) A economia doméstica funcionava na base da poupança e da reciclagem. A roupa passava dos mais velhos para os mais novos, por exemplo, do meu irmão para mim. Fatos antigos e gastos do meu pai eram oferecidos aos membros mais necessitados da família, e depois adaptados ao novo corpo. Coisas velhas, avariadas ou partidas não se deitavam fora; antes eram recicladas e/ou remendadas ou passajadas. Lembro-me de ouvir a mantra do <<Guarda o que não presta, acharás o que é preciso>>. Aplicavam-se cotoveleiras às mangas de casacos e camisolas poídas pelo uso, e novos fundilhos aos calções gastos; viravam-se punhos e colarinhos às camisolas coçadas do meu pai; os sapatos levavam tacões, biqueiras, meias-solas ou solas inteiras novas; os tachos e os vasos de barro rachados eram apertados com os <<gatos>> de aço; o latoeiro itinerante substituía os fundos dos tachos metálicos rotos; havia quem soldasse os dentes partidos de garfos, e as facas eram afiadas pelo amola-facas-e-tesouras que todas as semanas fazia a ronda do bairro. O curioso é que ainda encontro muita desta economia de reparação na Nova Iorque actual, emblema do capitalismo. Conheço lojas especializadas só em torneiras ou em aspiradores, com peças e acessórios de modelos quase centenários!

Contava-se então a anedota das poupanças domésticas do ditador Salazar, que em começo de carreira académica ainda usaria talheres quebrados e facas desencabadas. Quando tomou conta do poder e subiu a Presidente do Conselho de Ministros, a governanta, Dona Maria, ter-lhe-ia dito que era tempo de renovar o faqueiro. Ao que Salazar terá respondido: <<Até aqui servi-me dos (talheres) partidos; a partir de agora passo a usar os soldados>>. E assim foi: mandou soldar os talheres em falta, os partidos políticos foram proibidos, e a supressão das liberdades assegurada pela tropa e forças paramilitares. (...)"

Mocidade Portuguesa
Jorge Calado
Imprensa Nacional (2022)

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Espanto

Continua toda a gente estupefacta e sempre agoirando que os dias bons já são demasiados e irão acabar, sem qualquer dúvida ... amanhã!

Dois dias, três dias, quatro dias e a bandeira do "Sporting" mantém-se inamovível no alto dos três mastros de madeira que se encontram no areal. Até já está a ficar descolorida, situação que só costuma acontecer à do "Benfica" e à do "Estoril", esta a mais habitual ocupante e a que todos os frequentadores bem conhecem e não estranham.

Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. O esplendor do sol, a ausência do vento, o mar chão, durante tanto tempo seguidinho, fazem o pobre desconfiar e ouvir os pessimistas: esperem pela pancadaVão chegar dias que nos farão esquecer rapidamente este luxo.

Aproveitar enquanto é tempo. Hoje foi mais uma manhã de sonho, que terminou com a reserva para amanhã, ainda que à condição, não vá o diabo tecê-las. Na Foz, a verdade de hoje pode redundar numa enorme mentira amanhã.

Nota triste: Foi hoje sepultado Fernando Chalana, um dos maiores jogadores de futebol que vi jogar, brilhar e brincar às fintas. Foi cedo demais ...

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Prioridades

Apesar de não haver demonstração científica que o comprove, tudo indica que a capacidade de entendimento diminui na razão directa do aumento da idade. Esta é a conclusão, empírica, de quem circula por aí e aprecia mirar o que se vai passando à sua volta, ainda que com cada vez mais dificuldade em entender.

A rotunda estará a cerca de cem metros e é fácil concluir que algo de anormal por lá se passa: os carros estão parados na faixa da esquerda, a aguardar que o trânsito volte a fluir e permita que a viagem prossiga. Toda a gente percebe que as dez ou doze viaturas estão paradas e são conduzidas por gente a quem a inteligência não bafejou. Estúpidos, não aproveitam a faixa da direita, que se encontra completamente livre e a pedir utilização. Só não vê quem é cego ou burro ...

Surge um, segue-se outro, e outro ainda, acelerando e sorrindo para os papalvos, pouco ou nada dotados e que se mantêm parados. Chegam com a rapidez que a inteligência lhes permite e, afinal, não é possível passar. A faixa está bloqueada por um acidente, situação que a sua inteligência não permitiu perceber, por não entenderem a possibilidade de isso acontecer e menos ainda de uma simples batidela obrigar esta gente estúpida a parar. 

Os seus iluminados cérebros forneceram, de imediato, a solução: liga-se o pisca e, com cuidado não vão estes estúpidos recusar, apertando, entram nos primeiros lugares, circundam o acidente e seguem viagem, por certo dando graças à sua capacidade infinita de arranjarem soluções inteligentes.

Percebi agora, com a lentidão própria de quem é pouco dotado: a prioridade era deles, que se apresentavam pela direita! 

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Em português do Brasil, sem qualquer resquício do malfadado acordo e com a beleza que a língua portuguesa sempre tem, quando utilizada por quem sabe. Pouco importa se o autor é da África, da América, da Ásia ou deste cantinho europeu. Se for bem escrito, fica aprovado mesmo não havendo acordo.

"(...) Cinco, cinco e meia, é horário de saída das escolinhas do bairro. Bruninho tinha quase dois anos, averiguei quais trabalhavam com essa idade, encontrei duas nas imediações. Celso não teria matriculado o filho muito longe. Deixei o carro na rua e fui sondar a pé. Diante da primeira instituição, o pipoqueiro fritava pipoca com queijo coalho, pedi uma. Os pais se avolumavam com o portão ainda fechado, a outra escola ficava na rua de trás, achei que poderia ser lá e me apressei, no meio do caminho achei o contrário, a primeira reunia elementos que encantariam Celso, a mais próxima da sua casa, pequena, sem aglomeração de crianças maiores, adolescentes batendo mochila pelos muros, ambiente controlado, câmera onde dormem os bebês, piso antiderrapante, refeição inclusa na mensalidade com arroz, feijão, carne moída, chuchu, maçã raspada e as gotas sabor tutti frutti dos antitérmicos que as moças afáveis dão para os bebês dormirem ou pararem de chorar. Eu jamais induziria o sono do Bruninho. De volta à Arte do Crescer, o portão estava aberto, uma moça falava ao microfone avisando a chegada dos pais, chamava pelo nome. Vicente, berçário um. Camila, turma verde. Antônio, turma azul. As crianças vinham trazidas pelas professoras até a porta, pai nenhum entrava na Arte do Crescer. Nenhuma babá na porta, me dei conta de que Celso podia buscar Bruninho e me ver ao lado do pipoqueiro. Uma rechonchuda vinha com passos rápidos, nem corrida, nem caminhada, um trote, sapatilha branca, assim como a calça, a blusa e a tiara. Bruninho, turma verde. (...)"

A pediatra
Andréa Del Fuego

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Realismo

Desde ontem que o "Sporting" assentou arraiais na Foz, com água que parece importada do Algarve, um sol radioso e o vento deportado para outras paragens, talvez para acompanhar alguns mais necessitados ou pouco habituados. Também têm direito, que o sol quando nasce é para todos e o mesmo se deve aplicar ao vento. Há tantos de férias lá por baixo ...

Na conversa de hoje dizia-se que Vilamoura se tinha mudado para o Oeste e que a divulgação desse facto não devia ser feita, para não atrair multidões. Egoísmo puro! Para além de haver "muito chão para camas", não se deixem convencer que este estado de coisas se irá manter por muito tempo.

Seguidinhos, seguidinhos, é uso ser apenas um dia ... Já vão dois.

Não deitem foguetes que a festa não tarda a acabar e voltarão as lamentações!

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

"Lusíadas"

Não faço a mais pequena ideia de quem é José Gabriel, nome indicado como autor dos versos populares, verrinosos, sarcásticos e tão assertivos que as novas tecnologias me fizeram chegar, através de uma familiar residente a uns bons quilómetros daqui, há já dois ou três dias.

Resisti a transcrevê-los pelo desconhecimento referido e pela hesitação própria de quem não gosta de pessoalizar demasiado os textos que por aqui vão ficando. Mas ... há sempre um mas de desculpa, pensando bem, a ida do primeiro português ao espaço é tema tão importante e transcendente que justifica o espaço ocupado e o gozo que dá.

Arquivemos, por isso, a nota do facto, contado em verso rimado, como convém a tão épica aventura.

I
"Eu canto Mário Ferreira, o falonauta
Que em pila voadora ao céu subiu.
Cuidando ser do espaço um astronauta,
à patranha do Bezos sucumbiu.
Dez minutos voou - façanha lauta -
E logo prestes do alto céu caiu.
Pagou milhões só para ir ao ar,
Mais lhe valera ter ido à Feira Popular.

II
Agora, compara-se aos maiores,
Supera-os até, é bestial.
Recebam com loas, bandas, flores,
este novo herói de Portugal.
Nem os reis lhe foram superiores,
qual Gama, qual Álvares Cabral!
Ao céu foi, em nave maneirinha
Inspirada nas Caldas da Rainha."

domingo, 7 de agosto de 2022

Bossa Nova

Faz hoje 80 anos e mantém vivo o fulgor da grande música brasileira. Caetano Veloso é um nome incontornável da história da música brasileira e, ao fim de tantos anos, continua a ser um artista de mão cheia e um homem que não cede a pressões.

Para além das músicas que se irão eternizar, como este Leãozinho, ainda se dedicou (e dedica) à escrita, com a qualidade bem notória na poesia e também na prosa, como evidencia este pequeno excerto e o resto do livro, lido há muitos anos, confirma.

(...) "Uma visita conveniente foi a que nos fez o Rei Roberto Carlos. Ele nos era, como já disse, grato pela revalorização que fizemos do seu trabalho. De passagem por Londres, quis nos ver. Ao atender o seu telefonema para marcar a visita, Rosa Maria Dias (então ainda mulher de Péricles, também morando conosco) não acreditou que fosse verdade e, ao render-se à evidência, chorou. Roberto veio com Nice, sua primeira mulher, e nós sentíamos nele a presença simbólica do Brasil. Como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a embaixada brasileira em Londres (que não tinha contado conosco e, segundo nos contou um amigo que procurou por mim através dela, usava a meu respeito a expressão "persona non grata"), e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas de esquerda, que a princípio não nos entenderam e nos queriam agora mitificar: ele era o Brasil profundo."(...)

Verdade Tropical
Caetano Veloso
Companhia das Letras (1997)

sábado, 6 de agosto de 2022

Escalas de serviço

De acordo com o que foi aprendido na instrução primária, o sol nasce todos os dias de manhã, bem cedo, aí por volta das sete, mais coisa menos coisa. E é assim que acontece, desde tempos imemoriais, em todo o cantinho peninsular ou quase.

No mês de Agosto e no Oeste, o sol não cumpre a escala de serviço, por estar de férias no Algarve ou nas Beiras e se deitar a altas horas. Só aparece lá para o final da manhã, muitas vezes a meio da tarde e, ultimamente, nem sequer cá põe os pés. Não é justo! A falta de recursos não justifica a ausência por, ao que se julga saber, ele apenas depender de si próprio, ainda que com influência da sua preguiça. Parece ser apenas e só uma vontade indómita contra os incautos que acham que as praias oestinas vivem perfeitamente sem o brilho daquele malandreco. Estão as pessoas a aguardar por ele, de casaquinho vestido e tudo e, mesmo assim, com algum "tiritanço", e do sol, nada. Manda as nuvens, coitadas, que não têm certificação para exercer a sua especialidade e não podem ir além de uma triagem rápida e intuitiva, palpitando que talvez ele surja dentro de pouco tempo.

- É sempre assim?

- Não!!! Amanhã já vai estar melhor ... ou não. (isto não foi dito, só pensado). 

Depois do esclarecimento à turista, comprou-se a bolinha "alemã", colocou-se a chave na ignição, o motor pegou e o regresso encetou-se.

Como amanhã é Domingo, é provável que o sol se balde de novo e de manhã não haja serviço. 

Praia encerrada. Utilize a mais próxima. Se quiser sol, venha à tarde, que já estaremos em condições de o atender. 

Isto das escalas de serviço é muito, muito complicado. Até para o sol.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Palavras bonitas

ESPLENDOR DE AGOSTO

Aconteceu o pior: o esquecimento.
Esqueci tudo o que deve ser lembrado
e já não sei se és tu ou se te invento
e se o que resta é só o imaginado.

Esqueci o nome o olhar esqueci o rosto
reclinado nas tardes de Setembro.
E já não sei sequer quem foi deposto
e se lembro não sei se és tu que lembro.

Porque tudo esqueci e não esqueci
esplendor dos corpos no azul de Agosto
e aquele não sei quê que havia em ti
e aquele ardor em mim de fogo posto.

Esqueço a lembrar e se te lembro esqueço
e já não sei se és margem ou ainda o centro
de tanto inventar não te conheço
e quanto mais te esqueço mais te lembro.

Nada escrito
Manuel Alegre
D.Quixote (2012)