quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Eternidade?

Seis meses decorridos e "tudo na mesma, como a lesma".

A guerra, que a Rússia promoveu ao invadir a Ucrânia, continua sem sinais de acabar. Nem as perspectivas de abrandamento surgem e muito menos aparecem ideias que possam levar aos caminhos da paz.

Tudo tende para infinito, como na matemática, e não há ninguém que levante a voz e diga:

- Basta!

Até quando os interesses se sobreporão às dificuldades das gentes que sofrem na pele e aos que irão, ou já estão, a sentir o peso na carteira?

terça-feira, 23 de agosto de 2022

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Serventia

Não era um pedreiro qualquer, muito menos um trolha daqueles que sujam muito e fazem mal. Era conhecido pela perfeição com que executava todos os trabalhos e pela capacidade em arranjar soluções, mesmo nos casos bicudos. Também eram parte intrínseca dele o mau feitio, a ausência de um sorriso, o semblante sempre fechado e carregado, e a exigência de ter sempre um servente a seu lado. Recusava trabalhar sozinho e era ele que escolhia o acompanhante.

Falava baixo e devagar, com momentos em que as palavras eram sussurradas, numa momice exclusiva e impossível de entender. A perfeição com que executava tudo o que lhe era pedido superava os atributos negativos, que fazia gala em exibir, sabendo que só recorriam a ele quando mais ninguém era capaz. Era bom no que fazia, e sabia-o. Quando era preciso, havia que aturá-lo mais as suas exigências.

Daquela vez foi-lhe pedido que arranjasse um bocado de parede junto à porta principal, caído em consequência de uma manobra mal calculada do tractorista, quando se aprestava para recolher um monte de folhas no pátio da entrada. Era fundamental que o trabalho fosse feito depressa e bem e, para isso, havia pouco quem. Era necessário impedir a todo o custo que o patrão, quando regressasse, se apercebesse do que tinha acontecido. Só o João conseguiria ...

- Quero o Joaquim comigo!

Sem discussão, foi-lhe feita a vontade. Pediu também um banco para se sentar, dado que o trabalho era a nível baixo e já lhe custava dobrar-se. O Joaquim cirandava de um lado para o outro, cumprindo as suas ordens, secas e claras.

- Cimento ... areia ... água ... esponja ... pincel ...

Tudo o que era necessário para a perfeição da obra tinha de aparecer mal ele abria a boca. Numa das deslocações, o Joaquim demorou mais um pouco e 

- Ó Joaquim ... Joaquim (mais alto) ... Joaquim (um berro)

- Diga, senhor João.

- Dá-me ali aquela colher.

A colher tinha-lhe caído das mãos e estava ali, perfeitamente ao seu alcance. Apanhá-la era trabalho de servente!

domingo, 21 de agosto de 2022

Palavras bonitas

MULHER-POETISA

Pareces um mistério
intransponível

Alguém que se
esquivou 
ao seu preceito

Na recusa
de obedecer à vida

Ao quererem-te domada
e desse jeito
dócil  obediente  submissa

<<Impossível>> - respondeste
branda e esquiva

Sou mulher
Revoltosa
E poetisa

Poemas para Leonor
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2012)

sábado, 20 de agosto de 2022

Contrastes

Uma manhã de sonho, admitindo-se como verdade que se pode sonhar com o passado, estando bem acordado e com uma realidade visível e sentida.

Já se sabia (o saber da experiência feito) que a semana de mar calmo, céu azul e vento ausente servia apenas de engodo, e que viriam dias, muitos, para se sonhar, e recordar, essa dádiva tão fugaz.

Ontem o vento não deu sossego, o mar só deixou entrar na "aberta", mas o sol ainda nos veio visitar. Hoje até o astro-rei faltou. Céu cinzento, mar revolto, nem a camisola saiu do tronco. O "tapume" ainda foi colocado, a bola de Berlim comprada, umas dúzias de páginas lidas.

- Pode ser que abra ...

Um outro teimoso aproveitou para falar sobre a sua desdita, demonstrando que o trabalho pode, se não nos acautelamos, ser um modo quase de morte e não um modo de vida. 

- É preciso ter calma. Tudo se vai resolver ...

A palmadinha nas costas que soluciona todos os problemas, quando estes acontecem aos outros ...

- E, com isto tudo, já é meio dia e vinte e do sol, nem sombra!

Teimosos, amanhã voltarão. Há sempre a esperança de que o calor que grassa no país experimente vir até à Foz e dê tréguas aos fogos que o fustigam de lés a lés.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Recordações

Numa época em que os animais, e muito bem, são acarinhados e há muita gente a envidar esforços para que sejam respeitados, a memória fez "ressuscitar" um conjunto de quadras que constavam de um dos livros da instrução primária, talvez o da 4ª. classe. 

A "enciclopédia Net" esclareceu que o seu autor foi Pedro Diniz (1839?-1896) e que Antero de Quental o recolheu no seu Tesouro Poético da Infância, livro que não consta da biblioteca caseira mas que ainda é possível encontrar à venda.

E, em rima, se confirma e esclarece que o corvo crocita, a raposa regouga e alguns burros, não todos, zurram

                    VOZES DOS ANIMAIS

Palram pega e papagaio                                        O pardal, daninho aos campos,
E cacareja a galinha;                                             Não aprendeu a cantar;
Os ternos pombos arrulham,                               Como os ratos e as doninhas,
Geme a rola inocentinha.                                      Apenas sabe chiar.

Muge a vaca, berra o touro;                                 O negro corvo crocita;
Grasna a rã, ruge o leão;                                      Zune o mosquito enfadonho;
O gato mia, uiva o lobo,                                       A serpente no deserto
Também uiva e ladra o cão.                                 Solta assobio medonho.

Relincha o nobre cavalo;                                      Chia a lebre; grasna o pato;
Os elefantes dão urros;                                         Ouvem-se os porcos grunhir;
A tímida ovelha bale;                                            Libando o suco das flores,
Zurrar é próprio dos burros.                                Costuma a abelha zumbir.

Regouga a sagaz raposa                                       Bramam os tigres, as onças;
(Bichinho muito matreiro);                                   Pia, pia o pintainho;
Nos ramos cantam as aves,                                  Cucurica e canta o galo;
Mas pia o mocho agoureiro.                                 Late e gane o cachorrinho.

Sabem as aves ligeiras                                          A vitelinha dá berros;
O canto seu variar;                                               O cordeirinho balidos
Fazem às vezes gorjeios,                                     O macaquinho dá guinchos;
Às vezes põem-se a chilrar.                                A criancinha, vagidos.

                                                A fala foi dada ao homem,
                                                Rei dos outros animais.
                                                Nos versos lidos acima,
                                                Se encontram, em pobre rima,
                                                As vozes dos principais.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Sapiência

Dragomir Knapic, um refugiado da então Jugoslávia a leccionar em Portugal, ensinou-me, há mais de meio século que "quanto mais sei, maior é a minha ignorância". E este  pensamento acompanha-me desde então e mantêm-se sempre actual.

Hoje, ao continuar a Mocidade Portuguesa, de Jorge Calado, obra já aqui referida e cuja leitura se encontra quase, quase no fim, retive uma citação de uma peça de teatro escrita por William Shakespeare no final do século XVI ou no princípio do XVII, que não conhecia. A peça chama-se "Como lhe aprouver", tem uma personagem com o meu nome próprio, razão mais do que suficiente para figurar por aqui e tem esta frase deliciosa:

"Um tonto pensa que é sábio, e um sábio sabe que é tonto"

Está tudo dito!

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Carreira ... de tiro

Terminou o folhetim Sérgio Figueiredo. O consultor indigitado acabou por não assinar o contrato, por se considerar vítima de "assassinato de carácter" movido pelos jornalistas, seus colegas de profissão, e pelos assíduos e verrinosos comentadores das redes ditas sociais. 

"Não basta à mulher de César ser séria, é preciso parecê-lo" e, convenhamos, este até podia ter sido um processo de nomeação sério, resultante da necessidade e do mérito do candidato para a função, mas não pareceu nada.

Fernando Medina lá terá de procurar uma nova pessoa para desempenhar as funções de consultor para políticas públicas, tarefa que deve ter tanto de essencial para o futuro do país como de dificuldade em conseguir encontrar quem a possa exercer com a sapiência exigida.

A função de Ministro devia ser exercida apenas após o candidato demonstrar ter cumprido o serviço militar ou, em alternativa, ter frequentado, com aproveitamento comprovado, um workshop onde tivessem sido ministrados os conceitos básicos do tiro, para se ter a certeza de que, quem exerce funções de tão alta responsabilidade, sabe que os pés não podem ser atingidos de forma tão primária.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Escutas

Da farmácia saiu a mais velha e mais adiposa. Aparenta ser quarentona e muito atenta a tudo o que a rodeia. Os seus olhos perpassam pela paisagem e alcançam a outra num relance, ainda que houvesse quinze ou vinte metros a separá-las. Esta caminhava com alguma pressa, parecia mais nova e um pouco desengonçada, com os cabelos louros com raiz castanha a esvoaçarem.

- Que surpresa! Ainda bem que vim à farmácia ...

Depois da efusiva troca de beijos, a necessidade de pôr a conversa em dia fez-se sentir e surgiram as perguntas da praxe, desde " o que tens feito", até ao "como estão vocês", passando pelo "com saúde, isso é qu'interessa".

Os decibéis são elevados e mesmo dentro do carro ouve-se e entende-se tudo sem qualquer dificuldade.

- 'Tá alguém doente?

Exibe a caixa do medicamento.

- É para o meu gato.

- E vende-se na farmácia?

A atenção redobrou, embora a aproximação e o volume o dispensassem.

- Claro! Até pedi à médica de família que me passasse a receita, mas a p..a respondeu que a lei não deixava.

- Leis do c.....o ...

 - Já viste ... tive de pagar tudo!

O tempo, o corona, a praia, os preços, as férias que ainda não chegaram,

- Hoje 'tou de folga.

- Ta'mem eu!

tudo foi motivo de conversa gritada e a correr, que o tempo urge. O vernáculo sempre presente, para ilustrar a cena e demonstrar a quem ouve que as mulheres também o dominam. Haja igualdade ...

Despediram-se com grande entusiasmo, preconizando um próximo encontro com a presença de todos e uma boa patuscada.

- E uns copos valentes ...

- A gente precisa é disso!

Desapareceram tão depressa que nem tive tempo de aconselhar: talvez seja melhor pedir a receita à médica de família, não vá o vinho ser azedo e fazer mal ao estômago.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Macacadas

Cada macaco no seu galho, diz-se quando há atropelos de quem não sabe de determinada poda e palpita sobre a forma como o podador deve cortar os ramos. Não faço ideia se, nos outros países haverá ditados que reflictam o mesmo e se também existem "capelinhas" inacessíveis e determinações fortes sobre quem faz o quê, mesmo quando há outros bem mais habilitados. Por cá, concluo, as fronteiras de cada grupinho são intransponíveis e nem com passaporte se podem passar.

Lembrei-me hoje de um episódio de Dezembro de 2020, por alturas da chegada das vacinas para o coronavírus e que, por aqui, foi comentado de forma sarcástica. Via eu com alguma atenção a última etapa da Volta a Portugal em Bicicleta e eis que surge uma situação em tudo semelhante ao que se tinha passado em 2020 e que, julgava eu na minha inocência, deveria ter sido resolvida com a saída do grande Cabrita.

A segurança e a escolta da Volta foi feita pela GNR, como acontece há muitos, muitos anos, desde que esta força substitui a PVT de má memória. Admitia eu que esse serviço era prestado da primeira à última etapa. Afinal não foi assim. Na última etapa, um contra-relógio disputado entre o Porto e Vila Nova de Gaia, as tarefas passaram para a PSP por ser esta a entidade com "direitos" no espaço urbano, embora sem experiência no assunto, como ficou demostrado. 

A inexperiência, a surpresa ou o deslumbramento com a função, cada uma por si ou todas juntas, fizeram com que a moto de um agente estorvasse a prova de um dos corredores, numa etapa que era decisiva e na qual cada um estava apenas entregue a si próprio. Não teve interferência na classificação final, mas podia ter ...

E a pergunta que salta de imediato, na cabeça de quem nada sabe da poda e não é macaco de galho nenhum é:

- Porque carga de água foi a PSP chamada para uma tarefa desempenhada, e bem, pela GNR?

- Caem os parentes na lama se houver outra força a pisar os caminhos do "quintal" da PSP? 

Cada macaco no seu galho ...