sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Partidas do tempo

A paragem do autocarro estaria a, sensivelmente, um quilómetro do sítio onde moravam e era o limite para os seus passeios mais ou menos diários. Eram mãe e filha, respeitavam-se muito, mantendo a distância e eliminando as confianças impróprias e contrárias à "boa educação". Falavam, ou melhor, sussurravam de forma quase imperceptível tornando muito difícil que outros pudessem entender o que diziam.

Para além de o volume das vozes ser extremamente baixo, cada palavra demorava uma eternidade a ser soletrada. Uma frase pronunciada por uma, só era entendível pela outra após terem percorrido umas boas dezenas de metros, sem pressas, como convém a quem já evidenciava algumas dificuldades de locomoção e tinha tempo de sobra para chegar ao destino.

A noite anterior tinha trazido muita chuva, os buracos da estrada ainda mantinham as poças de água, confirmando a violência com que S. Pedro tinha despejado os penicos do céu.

- Óóó ... mãããe ...

- Siiim ... fiiilha

- Oooolhe ... Saaabe ...

- O quêêê ... fiiilha?

- Uuuuma deeesgraça ...

- Que aconteeeceeeuuu?

- Mooolhei um pééé

- Mooolhaste um pééé, fiiilha?

- Siiim ... mãããe

- E agooora?

- Teeemos de voooltaaar a caaasa.

- Aaachas?

- Siiim ... mãããe

- E pooorquêêê?

- Teeenho o pééé tooodo mooolhado

- Ah ... entããão vaaamos

- Siiim ... mãããe

- Pooodes reeesfriiiar

- Pooois 

O passeio ficou por ali e consta que, quando chegaram a casa, o pé já estava enxuto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Clara encontrou a avó sentada na varanda, imersa nos seus pensamentos. Rodeavam-na vasos de plantas de que cuidava com dedicação e fotografias antigas que guardava numa caixa velha no fundo de uma gaveta, algumas com tanta idade como ela. Aninhou-se ao seu lado, Soledad devolveu-lhe um sorriso carinhoso. Passou os olhos pelas fotografias espalhadas sobre o banco, selecionando uma de família: a avó Sole, o irmão e os pais, Juan e Mercedes sentados em duas cadeiras, com os filhos um de cada lado. Formavam uma família bonita, as feições da mãe replicadas na filha Soledad e as do pai no filho Santiago. Unidos num sorriso, não podiam imaginar o que o futuro lhes reservava.

O retrato foi encomendado pelo pai. Juan quis imortalizar a harmonia familiar, como se adivinhasse a tempestade a aproximar-se. Combinou com o fotógrafo, vestiram-se a preceito e compareceram no dia e hora marcados. A moldura passou a fazer parte da decoração da casa, encimando o louceiro em frente à porta da rua. Foi dos poucos pertences que Mercedes trouxe consigo quando decidiram fugir para Elvas. Oitenta anos depois, Clara segurava nas mãos aquele pedaço de história.

Noutra fotografia, em tons sépia, reconheceu os traços do bisavô Juan rodeado de árvores de fruto em modos de trabalho, ao lado de outros homens, nenhum deles lhe era familiar. Dando a volta ao retrato leu "Monte do Loreto, Elvas, novembro de 1936", um mês antes do desaparecimento do homem. Deteve-se a amiudá-lo, bom seria se para além do aspecto físico as fotografias revelassem pensamentos, e fosse possível adivinhar nos olhos do bisavô o que o inquietava naquele momento. O que estaria a sentir? Haveria realmente outra mulher na sua vida? Tê-la-ia preferido, deixando para trás a mulher Mercedes e os dois filhos? Não fez perguntas, quis poupar a avó. (...)" 

Sombras da raia
Nuno Franco Pires
Visgarolho (2022)

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Novos interesses

Estão os dois sentados numa das mesas do café. As vestimentas denunciam-nos como trabalhadores da construção civil, em plena pausa do almoço. Na sua frente, duas bicas que vão sorvendo em pequenos goles, sem pressas e completamente desconcentrados da tarefa de beber.

Um deles tem, ao lado da chávena, o telemóvel e, no ecrã, um jogo qualquer que o indicador direito mantém em actividade frenética e a coscuvilhice permitiu ver apenas com uma mirada. Sem olhar, a mão esquerda pega na chávena, leva-a à boca e fá-lo beber mais um gole.

O outro não tem na mão o moderno aparelho - deve tê-lo no bolso - mas sim uma moeda, que lhe permite desvendar, com alguma violência, os números ou os bonecos - a coscuvilhice não conseguiu descortinar - das duas "raspadinhas" estacionadas no seu lado direito. A mão esquerda imita a do companheiro e "dá-lhe" o café.

Tudo à sua volta é ignorado. Só há olhos para os jogos, um, virtual, que dá gozo, e o outro, real, que pode trazer uns trocos e, por isso, também algum gozo. 

Não há mais espectáculo. O café bebido de forma rápida, como é costume. Regresso rápido a casa que o céu, negro, ameaça trazer de novo a chuva, com a intensidade com que já caiu hoje. O chapéu não veio e não há horta nas costas ...

Faz alguma confusão mas ... são os tempos modernos e a actualização dos interesses. Só a chuva se mantém igual!

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Palavras bonitas

O RECREIO

Na minh'Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar ...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar ...

Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada ...

- Cá por mim não mudo a corda
Seria grande estopada ...

Se o indez morre, deixá-lo ...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca ... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive ...

- Mudar a corda era fácil ...
Tal ideia nunca tive ...
Paris - outubro 1915
Poesia completa
Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Gigantes

Digerida que está a eliminatória da Taça de Portugal, parece legítimo concluir, uma vez mais, quanto está certo o ditado de que mais vale quem quer que quem pode. 

O meu Caldas (sou sócio há quase meio século) merecia ter despachado o "meu" Benfica, que veio à Mata convencido que bastava trazer as camisolas e assinar autógrafos, e esperar que os golos entrassem só com o prestígio do nome. Jogaram-se 120 minutos e mais alguns de descontos, e só uma grande penalidade, falhada por conta do grande esforço dispendido, lhe permitiu que prosseguisse em prova.

O Caldas Sport Clube, fundado em 15 de Maio de 1916, jogou um futebol de hoje, apesar de a maior parte dos seus jogadores, treinador incluído, ganharem a vida em outra actividade. O comentador da RTP poucas vezes acentuou isso, referindo, contudo e por várias vezes, que a Mata é um estádio à moda antiga, embora com relvado novo. Se investigasse um pouco, saberia que, à moda antiga, era um rectângulo pelado, com bancada de madeira e balneários bem pequeninos.

Os lados de Alvalade ficaram ainda pior na fotografia. Não se deram bem com a "malta" da Póvoa, que os levou até Barcelos e aí lhes deu uma "galadela" impeditiva de prosseguirem na prova, como, aliás, mais seis clubes da divisão principal.

Estará lá um que não ganhou para o susto que muito o fez tremer na Mata!

domingo, 16 de outubro de 2022

sábado, 15 de outubro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

No dia em que Agustina completaria 100 anos, abre-se o armário, retira-se um dos vários livros dela que por lá descansam e, à sorte, surge isto:

"(...)
- Tire lá a salva de prata que não é precisa. Quer dizer que o defeito é um condutor de felicidade?

- Exactamente. A perfeição não é erótica. É o erro que é erótico e não a beleza.

 O doutor Horácio punha-se a pensar se Maria Rosa durante toda a vida de casada não estivera sempre informada das escapadelas do Nabasco que, afinal, não tinha necessidade de ter amantes. Os mandamentos não se destinam a promover a perfeição do homem, mas a medir as suas imperfeições, mais necessárias do que ímpias. "Será que ela viu isto?" - pensou o doutor, fazendo como de costume o gesto de acertar os óculos no nariz como para ter a certeza de que eles lá estavam.

Judite não reclamava por não acompanhar o marido e estabeleceu-se um acordo entre eles que agradou a todos: estavam casados, mas fora de certos compromissos que só convinham a uma linhagem, a um nome de família em permanência. Não faziam nem aceitavam convites juntos, não eram vistos ao mesmo tempo em lugares de recreio ou de cerimónia. Isto criava uma falta de cumplicidade que afinal lhes deixava a independência da vontade com respeito à sua própria diferença. Contudo, não ficava esclarecido se o casal se amava ou se experimentavam um conceito novo de matrimónio.

Judite não entrava nestas cogitações e limitava-se a ser uma boa criada, aproveitando as suas folgas da maneira que lhe dava mais prazer e que era a de ser útil e descomprometida. Quando fazia um cruzeiro achava sempre maneira de se ocupar das crianças nos infantários ou dos cães nas suas jaulas de bordo. Nunca se queixava de nada e comia a sopa fria sem repugnância e esperava pacientemente que lhe mudassem a roupa do seu beliche. Ao terceiro dia de viagem já a tinham reconhecido como a hóspede  encantadora e guardavam-lhe um lugar abrigado ao lado da piscina, como se ela fosse uma parenta incógnita. Era tudo natural, sem troca de benefícios; ao fim da viagem, ela partia deixando uma saudade atrás dela. Tanto a empregada da faxina, como o rapaz do bar, e até o capitão que, para a experimentar, lhe apertara o braço de maneira convidativa, guardavam um pequeno despeito de amor vendo-a sair com as suas malas de mão que, de repente, a denunciavam como uma pessoa rica. Que andara ela a fazer senão a enganá-los a todos? (...)"

A ronda da noite
Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editores (2006)

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Jogos

Logo pela manhã, a ida ao café revela-se obrigatória, para ir comprar o Expresso, aproveitando-se a deslocação para a primeira bica. Durante muitos anos, essa tarefa era realizada ao sábado mas, como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, a pandemia ou a concorrência - não faço ideia e não tenciono telefonar a Francisco Balsemão para saber - alteraram a saída para a sexta-feira. Não é melhor nem pior, é apenas diferente, pelo menos para quem, agora, tem os dias todos por sua conta. Sai o sábado à sexta-feira ...

No quiosque que o café mantém, num recanto junto à entrada, vendem-se jornais (cada vez menos), revistas (cor-de-rosa, as preferidas), isqueiros, tabaco de enrolar, mortalhas para o mesmo, cautelas de lotaria físicas e virtuais, registam-se totolotos, totobolas, euromilhões, e, imaginem só, raspadinhas. Pelo que me dizem, é a "mercadoria" que mais saída tem, procurada por gente de todas as idades e disponibilidades, desde o mais abonado àquele que, com alguma dificuldade, ainda consegue descortinar uma notita bem lá no fundo do bolso.

- Esta tem cinco euros. Troque por outra e dê-me mais duas das mesmas.

A nota de vinte foi colocada em cima do balcão e o empregado abre a registadora e prepara o troco. Se bem percebi, seriam dez euros.

- Deixe estar. Dê-me mais duas daquelas.

O dedo apontado definia as preferidas, diferentes das anteriores, mas seguramente das boas. Simples. Talvez até possa ter sido um excelente negócio. Quando saí, a raspagem executava-se com ansiedade, numa das mesas da esplanada. Fiquei sem saber se houve ou não prémio chorudo. Alguém ganhou, disso não tenho dúvidas.

A vida é um jogo ...

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Mea culpa

"Os peixes ouvem mas não falam; os homens ouvem pouco e falam muito."
Padre António Vieira - Sermão de Santo António aos peixes

Marcelo Rebelo de Sousa, como bom leitor que sempre foi, deve ter lido este livro há muitos, muitos anos, ainda que, com a pressa que lhe é característica, passou pelo acima formulado como cão por vinha vindimada e não fixou a recomendação implícita.

Foi pena e agora já não é fácil mudar. Cumpriu-se o ditado de que "quem muito fala pouco acerta" e teve de fazer mea culpa na forma como comentou essa grande chatice que está na ordem do dia e que a Igreja não consegue digerir e muito menos explicar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Lápis

Foi a primeira ferramenta de escrita que usei e isso talvez justifique o gosto que ainda se mantém em escrever a lápis. Sempre que necessito de escrevinhar algo, por curto que seja, a tentação é forte e, bastas vezes, o rascunho a lápis sobrepõe-se à tentação de digitar directamente no computador, ainda que haja alguma habilidade com o teclado (presunção e água benta ...).

Para além disto, o lápis sempre me acompanhou na leitura, servindo, em tempos, para anotações despertadas pelos conteúdos ou para comentários que, um dia, alguém lesse e achasse bem estúpidos. Estão por aí muitas provas, que não deixam esquecer essa fase. Agora já não comento nada, mas o lápis continua a acompanhar-me nas leituras.

A edição dos livros sofreu, julgo, transformações imensas no decorrer dos tempos e, ultimamente, deverá estar entregue aos programas informáticos que, automaticamente, se encarregam de efectuar as tarefas antes desempenhadas por aqueles senhores que liam e reliam as provas tipográficas, buscando a "gralha" que podia deitar um trabalho difícil para o lixo.

E é aqui que entra, de novo, o lápis: raro é o livro que não contém "gralhas" e erros ortográficos grosseiros, como os que detectei no livro cuja leitura está em curso: destinguem e caír.

O lápis, zangado e chato, assinala, corrige e sorri ...