terça-feira, 8 de novembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Já está a caminho do "compartimento familiar", onde se juntará aos outros seus "irmãos", a quem nada fica a dever. É mais um excelente livro de António Lobo Antunes, confirmando, se necessário fosse,  a minha opinião de que se trata do melhor escritor português vivo, único na forma como conta, expõe e concretiza. Neste livro, a solidão é rainha e, embora a medida sejam "os estalos dos móveis à noite", os entretantos são tantos, tantos, tantos, que a não deixam isolar-se e muito menos sufocar-se devagarinho.

"(...)

- Pai

que ganas de tirar-te de novo o nariz apertando-o entre o pai de todos e o fura bolos dobrados, mostrar-te a pontinha do mata pulgas e piolhos entre os outros dois, guardar aquilo tudo no bolso e exibir-te a mão aberta e vazia prometendo

- Se te portares bem dou-to quando fizeres dez anos

enquanto os teus olhos, iguais aos meus coitados, se envidraçavam de lágrimas e o teu lábio inferior principiava a aumentar, até que um pedido de socorro te rasgava de cima abaixo

- Mãe

e a tua mãe na entrada da cozinha, com um tacho ou outra coisa do género na mão, a arredondar-se de zanga para mim

- Francamente

a mostrar-te a tua cara num espelho

- O teu nariz está aqui rapariga ninguém tira narizes

contigo a palpares-te desconfiada

- Este é o meu de certeza?

a meter-me a mão na algibeira para se certificar e, em lugar do nariz, trazendo de lá um cartão escrito numa caligrafia trabalhada que a tua mãe, ao ver-me a cara, puxou logo antes que eu conseguisse apanhá-lo, e de braço dobrado para me manter à distância leu alto

- Sexta feira às dezanove no sítio do costume Nené

e começou a rasgá-lo em pedacinhos que iam caindo numa cascata lentíssima, enquanto dentro de mim o meu primo Jaime, na sua voz lenta, pomposa, que encantava as senhoras e felizmente, filha, a tua mãe não ouvia

Chuva da tarde melodia mansa
Desejos vagos de chorar baixinho
Voltei aos meus caprichos de criança
Só quero, amor, saber do teu carinho

enquanto a tua mãe tentava bater-me com o espelho de pega e eu a prevenia para bem de nós todos

- Olha que partir um espelho traz sete anos de desgraça

e me defendia em cima com os cotovelos, em baixo com um joelho no ar e a tua mãe

- Malandro, malandro

a empurrar-me na direcção da porta

- Sai daqui para sempre que não te quero ver mais

a atirar-me, quando eu já nas escadas, a gabardine com o cabide lá dentro, cujo anzol de arame só por milagre não me furou um olho (...)"

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Trapalhadas

... E o burro sou eu?

Tomando como verdade o que tem sido veiculado pelos orgãos de comunicação social, a Câmara Municipal de Caminha, na altura sob a presidência de Miguel Alves que, actualmente desempenha as funções de Secretário Adjunto do Primeiro-Ministro, contratou com uma empresa a edificação de um centro de exposições, o qual, depois de concluído, seria alugado à autarquia por uma renda que deve ter sido determinada na altura devida mas cujo valor, que eu desse por isso, não foi divulgado.

Foi tornado público que a Câmara (de Caminha) adiantou trezentos mil euros por conta das rendas que, no futuro, iria pagar. Nada de anormal e tudo clarinho ...

A reduzida capacidade de discernimento impede-me de conseguir compreender as dúvidas que este processo, tão límpido, possa despertar e a necessidade de (mais) um rigoroso inquérito do Ministério Público ou da Procuradoria-Geral da República, que, por certo, irá consumir mais umas quantas resmas de papel que tanto escasseia nos tribunais.

Ora, para quem vê Caminha cá de baixo, tudo indica que a decisão foi tomada em sessão de Câmara, da qual se lavrou a competente acta, que é pública e onde constarão os pressupostos e os fundamentos da decisão; o contrato subscrito pelas partes foi elaborado pelos serviços jurídicos camarários, submetido ao Tribunal de Contas e por este aprovado; o Orçamento municipal contemplou as verbas necessárias e, provavelmente, a Comissão Europeia também deu o sim; o cabimento da verba paga foi sancionado pelos responsáveis financeiros da Câmara e pelo menos duas pessoas assinaram o cheque ou a ordem de transferência do carcanhol.

Apesar de tudo isto e da "clareza" da entrevista do responsável máximo pelo acontecido, ainda se afigura imprescindível o tal rigoroso inquérito, que terá em vista o apuramento das responsabilidades e o grau de culpabilidade de quem decidiu e assinou de cruz, sem detectar qualquer irregularidade ou conivência.

(lembrei-me agora que o Regulamento de Disciplina Militar do Conde de Lippe impunha que o Sargento da Companhia tinha de saber ler, escrever e contar por o Comandante poder ser nobre e assinar de cruz. Seguindo este preceito, todas as pessoas que exercem funções de governação no país deviam ter, pelo menos, as habilitações do Sargento da Companhia)

Cá por mim, sempre condicionado pela falta de discernimento já referida, parece-me que o inquérito não vai trazer conclusão nenhuma a não ser que, apesar de tudo ter sido pensado, decidido e concretizado de forma legal, o edifício nem sequer foi iniciado e muito menos concluído, mas que isso acontecerá em breve!

Por estas e por outras é que a desconfiança "chega" e o justo paga pelo pecador. 

domingo, 6 de novembro de 2022

Escola imaginária

Tudo parecia indicar tratar-se de uma aula normal, igual a tantas outras daquelas em que se fazem resumos da lição anterior, se esclarecem algumas dúvidas e se transmitem aos atentos alunos alguns conselhos e afirmações tendentes a despertar interesses, catapultar desejos, fomentar estudo e trabalho, em suma, uma conversa cheia de palavras e vazia de conteúdos. Ou, como diria o outro, "para cúmulo da chatice, tanto falou e nada disse".

Parecia, mas não aconteceu. O senhor professor teria almoçado mal, passado uma noite em claro ou estar toldado com algumas das muitas preocupações que lhe devem consumir quase todos os recursos cerebrais e, do alto da sua cátedra, esteve desastrado e muito pouco feliz na forma como, perante uma assistência de alto gabarito, se dirigiu à aluna, advertindo-a sem aviso, sem dó e nem uma pontinha de piedade. 

- A menina fique sabendo que eu não lhe perdoo se não souber, de cor, a tabuada dos oito e os afluentes do Douro. Espero que a menina tenha tudo na ponta da língua e que, no dia do exame, ele apareça resolvido com cem por cento de aproveitamento. Não há desculpas para não executar o seu trabalho, tanto mais que só veio para a escola porque quis, não foi obrigada. E deixe-me também dizer-lhe que, se assim não acontecer, abro a gaveta da secretária, saco a régua que por lá está sempre à espera e as suas mãos não mais a esquecerão. Recomendo-lhe juizinho e, fique sabendo, na próxima quarta-feira, na reunião com o seu encarregado de educação, vou transmitir-lhe, tim-tim por tim-tim o aviso que agora lhe deixo.

sábado, 5 de novembro de 2022

Soninho

O espectáculo começa dentro de momentos. Agradecemos que desliguem os telemóveis. Não é permitido filmar ou fotografar durante todo o espectáculo.

As luzes apagam-se. A conversa com o "vizinho" termina. Há ainda um pequeno sussurro na sala, que depressa desaparece. No palco, os projectores acendem, levando feixes de luz direccionados aos locais onde os artistas tomarão o lugar que lhes está destinado.

São quatro e formam o Júlio Resende Fado Jazz Ensemble que, na noite de ontem, deliciou (quase) todos os espectadores que foram ao CCC. Júlio Resende ao piano, acompanhado da guitarra portuguesa superiormente tocada por Bruno Chaveiro. André Rosinha ilustrou bem que o contrabaixo é um grande instrumento, não só no tamanho. Alexandre Frazão deu um espectáculo dentro do outro, ao mostrar que é possível tocar bateria e deixar para os outros o acompanhamento. Foi a evidência, para quem ainda tivesse dúvidas, que, quando se é bom e se sabe o que se está a fazer, não importa se o estilo é fado, jazz, blues ou outro qualquer. A música feita ou é boa, como foi o caso, ou não presta.

Pouco tempo depois de aquela maravilha estar em curso, "espreitei" o meu "vizinho", com quem tinha mantido um diálogo de circunstância enquanto se aguardava o início. Nada fazia prever o que viria a acontecer. A conversa tinha decorrido fresca e o "vizinho" estava esperançado em ter uma bela noite, embora fosse a primeira vez que ouvia aqueles músicos. 

O "canto do olho" tinha-me sugerido que a cabeça lhe estava a pender para o peito. Pois ... estava a dormitar, ou a dormir, ou a ferrar o galho, ou a descansar, ou a meditar, ou, mais simples, a fazer ó-ó. A música acabou, as palmas soaram fortes e o "vizinho" também aplaudiu com força, embora iniciasse os aplausos com algum atraso.

Foi apenas um descuido, talvez fruto do cansaço do dia ... de reformado. Por vezes, mesmo quem não tem nada que fazer, tem muito trabalho ...

Concentrei-me na qualidade do que vinha do palco, que era muita. Não tardou muito que o "canto do olho" se apercebesse do percurso "cabeçal" e do encerramento das pálpebras. E assim foi, até ao fim, ou quase. Dorme, bate palmas, dorme, bate palmas, ...

Quando se aplaudia a pedir "mais uma", desejou boa noite e saiu pela "esquerda baixa".

O sono apertava e era urgente chegar a caminha, não a do Minho mas a oestina.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Fim de tarde

Do alto da colina onde se encontra o Hotel Inatel da Foz do Arelho desfruta-se uma vista soberba por toda a Lagoa e, perscrutando à direita, lá para o fundo, vêem-se surgir as Berlengas, hoje envoltas numa pequena mancha de nevoeiro. Em outros dias, a bruma aparece tão forte que as faz desaparecer da vista, mantendo-as no coração, naturalmente. 

Sossegadinhas, as ilhas aguardam que o sol nelas se vá esconder e sossegar.

Hoje ficamos por aqui.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Regras de brincar

Na época, os computadores não eram sequer uma miragem e telefones, fixos, apenas havia em algumas casas abastadas. Era um aparelho preto, com um disco para marcar o número pretendido, se a chamada fosse local. Se não, o zero era marcado e aguardava-se que a voz, simpática, de uma menina, ouvisse o número e estabelecesse a ligação.

Não era a época de D. Afonso Henriques mas, contado assim hoje, convenhamos que parece mesmo. Os jogos não eram de computador, de telemóvel, muito menos de consola. Não se brincava nem se jogava noutro sítio que não fosse a rua. Dos pontapés na bola de trapos à bilharda, do pião ao berlinde, do salto ao eixo à "carne sem osso", tudo se disputava no estádio ao ar livre.

Havia épocas para cada brincadeira e apenas a bola permanecia activa o ano inteiro. Os outros tinham a sua altura própria, que não constava do calendário, mas que todos sabiam e se adaptavam. Na época do berlinde, ninguém levava o pião ou a bilharda, por ser tempo perdido. Não haveria companheiros para a competição.

O pião exigia que não houvesse chuva, para que o chão estivesse seco, permitisse marcar bem a roda e o deixasse bailar. No bolso ia sempre um pião velho, para apanhar as ferroadas determinadas pelo jogo, evitando, desta forma, o desgaste do de competição.

Naquele dia, o bolso não trouxe o velho, e o pião de competição, lindo, com um bico bem grande e afiado, teve de sujeitar-se ao castigo imposto pelo falhanço. Eram cinco as ferroadas determinadas e, à terceira, já ele estava bem castigado e eram visíveis as mazelas. A quarta e a quinta foram ainda mais "dolorosas". O adversário, batoteiro, não dava mostras de querer parar. A mão esquerda não hesitou e foi lá abaixo retirar o desgraçado, que já nem beleza tinha. E conseguiu evitar a sexta ferroada que já ia a caminho. Não acertou no pião mas atravessou o indicador. Pânico na "bancada". O pião estava espetado e foi preciso alguma força para o retirar. A "torneira" abriu-se e o sangue jorrou em abundância. Alguém, mais expedito e talvez já com experiência em acidentes idênticos, atou um lenço e a "inundação" terminou.

Depois, bem, depois foi o cabo dos trabalhos para explicar em casa o acontecido,  e suportar a colocação da  gaze com tintura de iodo e o adesivo a segurar. Alguns dias depois, a boa carnadura fez o que lhe competia, embora a cicatriz ainda por cá permaneça.

O importante foi que o pião apenas apanhou as cinco ferroadas que lhe eram devidas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Qual lado?

Agora que a "guerra" se instalou no Brasil, com muita gente a ocupar as estradas e a bradar pela intervenção do exército, o conflito da Ucrânia passou, não para segundo plano, mas para um degrauzito abaixo.

O cepticismo, característica própria e comum dos velhos, garante que as coisas só podem piorar e que os dias que se aproximam vão ser de inverno rigoroso, mesmo que a Protecção Civil não emita alerta de nenhuma cor. 

Para agravar a situação e esclarecer bem quem não saiba, as televisões apresentam-se diariamente nos mercados, fazendo reportagens sempre muito interessantes e esclarecedoras.

- Bom dia. Em directo para a TV X, diga-me: já está a comprar menos peixe, não é verdade?

- Claro. Tem aumentado tanto ... 

- E também diminuiu a compra da carne, não é verdade?

- Pois ... está tudo pela hora da morte.

A câmara faz um grande plano e seguem-se as despedidas.

- Foi a reportagem possível, com toda a gente - compradores e vendedores - a queixar-se dos aumentos de todos os bens. É opinião unânime que, a continuar assim, não vamos a lado nenhum. Devolve-se a emissão aos estúdios. Boa tarde.

Fico intrigado. Pelos vistos, alguém teria programado uma viagem para mim e, agora, sem qualquer aviso, a mesma é anulada. Não vamos a lado nenhum,  de acordo com as palavras, singelas, do repórter de serviço e eu, submisso, sento-me no meu canto, aguardando que a guerra acabe, a inflação diminua, o vencimento aumente, o tempo melhore e os juros façam a quadratura do círculo, aumentando para quem recebe e diminuindo para quem paga, e o repórter determine, com o seu saber da experiência feito, quando me poderei deslocar a qualquer lado.

O meu sexto sentido alertou-me agora que o burro sou eu. Não entendi que o não vamos a lado nenhum era apenas uma figura de estilo. Estou mesmo velho!

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Santos

Dia de Todos os Santos, sejam eles devotos ou incréus, Manéis ou Joões, Chicos ou Zéquinhas. São todos, eu incluído, o que não abona nada a comemoração nem a torna mais importante, antes pelo contrário, como diriam alguns opinadores se, sobre o tema, fossem questionados.

Portugal é um país de Santos, ambição de muitos mas de cuja concretização poucos se podem gabar. Na Europa, devemos ser únicos ou muito perto disso; na Ásia, talvez restem ainda alguns lá por Macau e Timor; em África existirá uma percentagem tão ínfima que tenderá para zero; na Oceânia, se houver meia dúzia, já é um pau e, na América, aparecerão uns quantos que não conseguirão esconder as marcas infligidas pelos portugas que por lá passaram e deixaram semente.

As razões aduzidas mais do que justificam a ausência ao trabalho que a comemoração proporciona. Dificilmente se encontrarão outras coisas, ou temas, ou actividades, onde sejamos tão significativamente importantes e quase únicos.

Há Santos da porta para dentro, da porta para fora, longe, perto, ali, acolá, no Minho e no Algarve, nas Berlengas e nas Beiras, em Trás-os-Montes ou no Ribatejo, na minha rua e, quase certo, na viela mais estreita de Alfama, talvez até nos Farilhões. 

Para cúmulo, ainda há, por todo o lado, os Santos da casa, os quais, por mais que tentem, não fazem, nunca fizeram e não vão fazer, quaisquer milagres.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Poupar

No Dia Mundial da Poupança, até as palavras devem ser limitadas ao estritamente essencial, para que a inflação não dê cabo delas.

Luiz Inácio Lula da Silva derrotou ontem o "caramelo" da boca cheia de favas e será o próximo Presidente do Brasil, se tudo correr dentro da normalidade democrática, como se deseja.

"Amanhã, ninguém sabe"

domingo, 30 de outubro de 2022

Ser e estar

Excerto de uma entrevista a Carlos Tê, publicada no Notícias Magazine de hoje:

"(...) Pergunta - Como se define hoje?

Resposta - Aos 67 anos, das coisas que mais temo é a misantropia. Vir a ser um velho rezingão. É das poucas coisas que peço para não ser. Não que queira ser um velhinho muito alegre. Não é isso. Mas gostava muito de manter o equilíbrio que tenho desde os meus 15, 20 anos. É esse o meu longe (...)"


Dei por mim a concordar com o autor de Chico Fininho e de Porto Sentido, entre muitas outras coisas que escreveu e das quais gosto bastante. Arquibaldo é um livro da sua autoria, "hospedado" cá em casa há pouco tempo, e que aguarda, calmamente, a sua vez de ser lido. Não teço, por enquanto, quaisquer comentários, mas estou convicto de que não me irá desiludir.

Voltando à entrevista, da qual transparecem ideias bem arrumadas e resolvidas, alertou-me para a ousadia de tentar sempre manter o contacto com as pessoas, os problemas, a cidadania, sem medo de ser chato, ultrapassado ou convencido, e muito menos deixar de ser aquilo que sempre fui, mesmo que a irreverência esteja fora de moda.

Afinal de contas, por muito burro que seja, quem já viveu mais de setenta anos, passou por tanto, viu tanta coisa, conheceu muitos "filhos da mãe" e muita gente de bem, não tem que fazer actos de contrição ou quedar-se a um canto à espera que chova.

" É esse o meu longe ", sem qualquer dúvida. Assim o consiga apanhar!