sábado, 7 de janeiro de 2023

Palha

Depois de uma semana de sol radioso, apenas toldado pela escuridão de alguns figurões e figuronas (acertemos o passo com a moda) que, a qualquer preço, tentam gravar o seu nome nos anais da governação e nos respectivos currículos, volta a chuva. E com violência. Provoca algumas inundações e a  molha, impiedosa, dos jornalistas televisivos que têm o azar ou são obrigados a estar de serviço à reportagem do momento, ouvindo o balanço do primeiro transeunte que apareça disponível para as câmaras.

Bem melhor deve ser correr atrás de ministros e ministras (acertemos o passo com a moda), de microfone em punho e perguntas, repetidas mil vezes, na ponta da língua.

- Não sabia?

- Já disse tudo o que tinha a dizer no local próprio. Agora vou trabalhar ...

- Mas ... acha que tem condições?

- Já disse tudo ... 

- E não se demite?

Peripécias que se têm repetido nos últimos dias, por haver gente sem escrúpulos e que não se enxerga. A obtenção da primeira página, da abertura do telejornal, do cargo no currículo, da importância na ribalta, do acesso às portas que o poder abre (?).

Quase meio século passado, parece haver quem queira chamar o antigo, dar oportunidade de uns garganeiros gritarem e gesticularem, trazer excepções como retratos de regra. O exercício de qualquer cargo, público ou privado, deve acontecer com rigor, dedicação e empenho, tendo presente que poder não é colar cartazes em qualquer parede mas antes tomar decisões que, desagradando a alguns, tenham o bem de todos por objectivo.

Quem tem rabos de palha deve ficar instalado no palheiro onde os criou e esperar que o tempo passe...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Expresso

Passaram 50 anos. Meio século. Era sábado e, pela manhã, antes de me dirigir ao Lisboa & Açores da Rua das Montras para levantar o dinheiro necessário ao pagamento das jornas da semana - os bancos e muita outra gente, eu incluído, ainda trabalhava ao sábado - fui comprá-lo.

Era o primeiro número de um jornal com um conceito novo, desde logo por ser semanário, e porque as novidades, naquela época como ainda agora, atraíam quem tinha vontade de saber. A Jornália, onde o comprei, já fechou há largos anos. O Lisboa & Açores mudou de nome e de sítio e já poucos se recordarão dele e muitos menos do caixa - Sr. Mendonça - que estava de pé e contava o dinheiro a conversar sobre tudo, incluindo o tempo.

O Expresso continua e o vício de o comprar também, como sempre aconteceu ao longo deste meio século. Falhei muito poucos ...

A edição de hoje é enorme, com o tamanho original, para matar saudades de uma leitura que se apresenta tão diferente e, muitas vezes, logo desactualizada. Até o dia da saída mudou. Agora, sai o sábado à sexta-feira.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) As histórias da minha avó, que eu adorava ouvir, e ela me contava ao jantar e ao fim de semana, atraíam-me e estabeleciam entre nós um elo mágico. Ela revelava-me um mundo antigo, cheio de interditos e mistérios. De uma beleza escura, enigmática, que excitava a minha imaginação. Havia grandeza nas suas descrições da vida de outros tempos. As mãos rachadas pelo frio. O trabalho na mercearia do pai: a forma como pegava na barra de manteiga e cortava uma fatia de 50 gramas a pedido do freguês, porque a manteiga era um luxo para quem vivia com o dinheiro escrupulosamente contado. Descrevia-me o sabor do açúcar mascavado, a caligrafia perfeita do meu avô, anotando no livro de contas o que levavam fiado. Havia beleza no rigor. Contou-me que o seu nome, Josefa, surgiu porque a sua mãe tinha tido uma gestação de barriga bicuda, sinal de varão, e portanto decidiu-se que ficaria com o nome do pai, José, e bordou-se o enxoval com a inicial J em maiúsculo. O nome de uma rapariga não tinha importância, por isso simplificaram, feminizando o nome: Josefa. Com o desgosto, o pai recusou pegar-lhe ao colo e evitou olhá-la nos primeiros meses. Depois, foi-se fazendo à ideia. Não havia solução. A minha avó era uma criança bonita, com olhos azuis cheios de luz, e o pai quebrou. <<Uma linda criança. Uma menina abençoada.>>

Deus não deu mais filhos ao meu bisavô, porque o Senhor tem os seus desígnios. Decidiu que a menina iria estudar, para não acabar a vender, como ele, feijão-frade ou grão, bacalhau seco, toucinho fumado e banha de porco. Tudo a peso. A minha avó contava que tinha sido uma das poucas raparigas da vila a completar o liceu.(...)"

Um cão no meio do caminho
Isabela Figueiredo
Caminho (2022)

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Sossego

No sossego desta rua de pouco trânsito, nada acontece. Ouvem-se os melros, os cartaxos, as rolas e alguns mais cujo canto o ouvido já não consegue identificar. Os gatos passeiam pelo quintal, preocupam-se com a adubagem das flores e a rega da relva, aproveitam os cantinhos ensolarados para uma sesta reconfortante, sempre de olho atento ao que à sua volta se passa.

A passagem de carros é rara. Quem trabalha, saiu de manhã e regressa no final do dia, estacionando à porta ou na garagem. São tão poucos ... Da meia dúzia que por aqui circula durante o dia, a maior parte enganou-se com a pressa ou distraiu-se com o telemóvel. Pelo combustível que se queima por aqui, o ambiente não se deteriora. 

Os caixotes do lixo "moram" na rua de cima e na de baixo, bem perto para serem utilizados e longe o suficiente para não serem cheirados. A avaliar pelo autocolante, a última lavagem já aconteceu há bastante tempo ou o papel não foi substituído. 

O bulício não entra! Não há crianças que joguem a bola, as poucas que aqui vivem saem de manhã e chegam no final da tarde, quando o sol já partiu para outro hemisfério. Os velhos aconchegam-se nas lareiras ou nos cobertores, o carteiro deixa o carrinho no cruzamento e uma das mãos chega-lhe para trazer a correspondência, a polícia nunca por aqui passa, por ter mais que fazer ... na esquadra. Até o sismo da noite passada, que parece ter sido sentido por muita gente, passou completamente ao lado e nem um tilinto fez.

Deixem-me sossegado!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Promessas

Nos tempos "da outra senhora" eram frequentes as anedotas, à boca pequena, a retratarem e a gozarem com as figuras gradas que faziam e sustentavam o regime déspota que por cá mandou quase meio século.

Desde dizer-se que o Botas mandava fazer casacos sem bolsos por deles não necessitar - mete as mãos nos bolsos dos outros - até aos envelopes redondos que o Tomás queria comprar para poder enviar as circulares, havia para todos os gostos, sempre com alguma graça e crítica feroz.

Contava-se que o Botas era muito esperto e que isso se manifestava desde miúdo. 

- O gajo é fino. Sempre foi!

Quando era criança, teria tido uma doença que fez a mãe desesperar pela sua sobrevivência. Recorreu à Santa lá do Vimioso e prometeu-lhe vender uma cabra e dar-lhe o respectivo valor, se o menino se curasse. Com maior ou menor dificuldade - disso não reza a história - o Botas salvou-se e ficou impecável. A mãe, naturalmente, resolveu cumprir a promessa e agradecer a graça concedida.

- Vais à feira, levas a cabra e o galo que já estão ali separados. Vendes os dois. O dinheiro da cabra é para a Santa e podes ir logo entregá-lo ao senhor prior, a quem dizes que é de uma promessa e que a mãe lhe explicará tudo na missa de Domingo. O do galo será para comprarmos qualquer coisa que nos recorde o milagre de teres ficado bom.

O Botas lá foi. Regressou ao final do dia e entregou à mãe duas notas de cem. Espantada, a mãe reagiu de imediato:

- Então não te disse para entregares o dinheiro ao senhor prior?

- Entreguei, mas só o valor da cabra, como me tinha dito.

- Queres-me fazer crer que o galo valeu duzentos mil réis ...

- E valeu, mãe. A quem me perguntava, eu respondia que só vendia os dois animais em conjunto. Houve um que se interessou e perguntou o preço. E eu disse-lhe: vinte mil réis pela cabra e duzentos pelo galo. Aceitou e eu vendi. Está tudo certo e a promessa cumprida.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Novo Ano

Cheguei!

Dei hoje início a uma longa caminhada, que faço votos decorra sem pedras no caminho, sem escolhos, sem atrapalhações, sem habilidades ou tratos de polé, sem ódios, sem atropelos, sem comportamentos miseráveis, sem chico-espertices, sem aproveitamentos, sem violência clara ou encapotada, sem discriminações.

Tenho consciência do lirismo que estas palavras encerram e que corro o risco (ou tenho a certeza) de que, em Dezembro, ao verificar o balanço final, dele constarão insucessos, os quais, como tem acontecido com os meus antecessores, serão mais do que as coisas boas que, naturalmente, irão surgir.

Ainda assim, vale a pena manter a esperança de que haverá um esforço universal para que muita coisa melhore e se consiga que o todo seja maior do que a simples soma das partes.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Despedida

- Vou-me embora, gritou o Ano Velho, com alguma dificuldade em fazer-se ouvir, e em ouvir. Meio trôpego, a movimentar-se às arrecuas, bem longe da ligeireza que apresentava quando substituiu o seu antecessor e se apresentou carregado de projectos e cheio de esperança de os concretizar.

- Apresentei a minha demissão e, tal como outras recentes, foi aceite. Estou a esvaziar as gavetas e, daqui a pouco mais de meia dúzia de horas parto para o limbo do esquecimento. Não regressarei à actividade, por muito que me custe. Durante dois ou três dias ainda aparecerei nos orgãos de comunicação social, que recordarão acontecimentos de que não fui protagonista mas sucederam enquanto "reinei". Nos anais da história, limitar-me-ei a ser uma data de registo, um situar no tempo, um clarificador de ocasião. Serei esquecido pelo comum dos mortais e apenas lembrado quando os historiadores se dedicarem ao estudo do que se passou, e foi muito, durante os 365 dias do meu reinado.

Não me tinha apercebido que esta coisa de abandonar o posto tem que se lhe diga. Estou afadigado com as tarefas da despedida, os arrumos, os balanços. Resta-me a consolação de que farei as malas e partirei, sorrateiro, com toda a gente preocupada com a contagem decrescente, os desejos das passas, o gás do champagne, o descasque dos camarões, as pernas das sapateiras e as presas das lagostas, os doces e os salgados, os aperitivos e o vinho. No fundo, repete-se o que aconteceu ao coitado do 2021, quando eu cheguei, ufano e eufórico, ao som do estralejar dos foguetes e dos hip-hip. Vinha eu preparado para ser protagonista de uma grande festa e corresponder a todos os desejos que foram formulados e, afinal, não aconteceu ...

Surgiu a invasão russa à Ucrânia, crime que o meu sucessor há-de continuar a gramar, bem como às respectivas consequências. E serão muitas ... 

Talvez ainda não seja em 2023 que tenhamos comboios em condições, que a saúde deixe de ser palco de desavenças quotidianas e alvo de interesses obscuros, que os menos favorecidos não continuem a esforçar-se por passar entre os intervalos da chuva, sem conseguirem, ao menos, comprar um chapéu que os resguarde. Deixemos as previsões. É melhor cingirmo-nos à verdade irrefutável, como dizia o outro, de que "prognósticos, só no fim do jogo" ou, aqui, no final do ano que se vai iniciar.

Cá estaremos para ver, sem resistir à formulação dos votos que, hoje, verdadeiramente interessam: era óptimo que 2023 nos trouxesse paz, saúde, respeito e uns trocos para gastar.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

PELÉ

Quase 9 anos depois da partida de um - Eusébio - faleceu ontem o outro ídolo futebolístico da minha juventude e o melhor jogador do mundo de sempre.

Recordar hoje algumas das grandes jogadas que protagonizou e também "meia dúzia" dos golos lindos que marcou é a homenagem possível e prova como o futebol é um jogo bonito, mesmo que, por vezes, alguns o estraguem.

Obrigado, Pelé!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Passagem do ano

O Inverno tem destas coisas. Tão depressa chove desalmadamente como, de repente, o Sol brilha e corre com todas as nuvens do céu, o frio obriga a procurar os agasalhos, o vento fustiga as orelhas e a ponta do nariz e determina que as mãos andem nos bolsos ou protegidas com boas luvas. Nunca se está preparado para o que esta inquietante estação do ano nos oferece, sempre com imprevisibilidade e surpresa. Até no Governo, aconteceram coisas que ninguém, na Primavera, pensava serem possíveis surgir.

Ao contrário, o calendário repete-se fastidiosamente, sem quaisquer alterações, com os meses a seguirem-se uns aos outros, sempre da mesma maneira e com o final de cada ano a chegar, inevitavelmente, no último dia deste mês de Dezembro, sem surpresa para ninguém e com a rotina a impor as suas regras.

2022 está a chegar ao fim, tal como aconteceu com os seus antecessores, e irá dar lugar ao Novo Ano, que surgirá, a julgar pelos votos que abundam por todo o lado, com o melhor dos mundos embrulhado em papel de lustre, uma fitinha e um laço enorme, a paz e a harmonia em quantidades imensas. Ocorrerá o fim das desigualdades e da exploração, a julgar pelas vontades bem expressas nas formulações.

2023 surgirá ao som dos foguetes e à luz do fogo de artifício, comer-se-ão as passas dos desejos, beber-se-á a flute de champagne da Anadia, bater-se-ão as tampas das panelas e dos tachos, gritar-se-ão vivas e urras, tudo serão rosas sem um único espinho, nem sequer na formulação.

No dia seguinte, surgirão as lamentações, as realidades, o tudo e o nada, o calor e o frio, o vento e a chuva, o gelo e a ebulição. Mais do mesmo, num eco que se vai repetindo e para cuja melhoria muito poucos dão alguns passos.

Uma boa passagem de ano e um 2023 cheio de coisas óptimas e de sonhos concretizados!