sábado, 11 de maio de 2024

Sapateiro

A habilidade no manuseamento da sovela garantia que a sola das botas ficava bem cozida à parte de cima. Era a garantia de que, por ali, a bota jamais se desfaria, fosse a sola um bocado de pneu de tractor bem aparado ou um naco de couro melhor curtido. As mãos determinavam a excelência do trabalho, por todos reconhecida.

Depois da sovela, e as mãos, terem executado o trabalho, a forma do sapateiro, instalada em cima do banco e bem segura pelos joelhos, e a precisão do martelo de bola, concluíam a peça, apta, a partir daí, para calcorrear léguas ou trabalhar muitas jeiras.

O avental e a proeminência da barriguinha eram os distintivos do velho artesão. O copinho de três que molhava a goela a meio da manhã, garantia a boa disposição e ajudava a actualizar a conversa da coscuvilhice.

O produto final não era barato, mas a qualidade, essa, estava mais que provada e garantida.

- Podes pagar quando quiseres ou ires pagando. Tu é que sabes!

Nem sempre havia botas novas para executar. Colocar meias-solas garantia a sobrevivência do sapateiro, da família ... e dos sapatos.

Tudo no tempo em que as sapatilhas se chamavam alpargatas.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Mãe

Nasceu há 101 anos, partiu há 20 e por cá permanece sempre viva, na lembrança diária.

Foi uma mulher enorme, que conheceu bem cedo as agruras da vida, as sofreu e tentou sempre superar. Dei-lhe muitas preocupações, roubei-lhe muitas noites de sono, fui altivo e rezingão, e nunca lhe senti a mais pequena acrimónia. 

"Roubei" a Torga a carta, simples, que recebi hoje no meu imaginário.

Correio

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- <<Filho>> ...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Diário II
Miguel Torga
Coimbra (4ª edição-1977)

terça-feira, 7 de maio de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

A traição à pátria pode estar na ordem do dia de alguns mentecaptos, as origens de cada um, orientais ou rurais, e a história antiga (sempre mal contada), também.

Porém, a língua portuguesa, que une milhões de falantes por esse mundo fora, é sempre bela, riquíssima e cheia de novidades.

" (...) Na mesa da cozinha, Saturnino depositou o taleigo com as aves e gesticulou as suas explicações, descrevendo como o Rossio se achava apinhado de gente, cheio de animação, e que havia sido nas tendas dos comes e bebes que encontrara o Bezerra, na galhofa, a emborcar umas ginjinhas com os seus amigos caçadores; após pagar pelas perdizes, no regresso, vira também uma rapariga bonita e que por isso perdera a noção do tempo. Acerca da destemperada altercação com o fidalgote, nem uma palavra.

- Ah, meu magano, que andas de olho nas cachopas - comentou Fátima, com um sorriso maternal. - Vem daí, ajuda-me a depenar estas perdizes, que o trabalho tarda.

Vivia Domingos Rodrigues com desafogo numa residência de dois sobrados, provida de um pequeno horto murado e um poço de onde retirava água fresca e agradável. No quintal, com terra fácil de amanhar, cultivava-se toda a sorte de legumes de horta e ervas de cheiro a que tanto o mestre como Fátima amiúde recorriam para uso nas suas confecções. Por todo o lado renques de limoeiros e laranjeiras pejados de frutos proporcionavam sombra e uma aprazível fragância pelos ares. Contígua ao edifício principal, achava-se uma antiga estrebaria que em tempos o mestre de cozinha havia transformado para usufruto como oficina e laboratório, não somente para as suas experimentações alimentícias mas também a fim de promover as outras mais secretas, aquelas dedicadas à ciência da alquimia. Apresentava-se a oficina apetrechada com tudo o que fosse necessário para o bom ofício da cozinha, não faltando também o athanor ou forno dos alquimistas, um alambique, cadinhos, cantimploras e diversas retortas de formas variadas e feitios para cumprimento das funções da Arte Magna.

Não obstante as anteriores e infrutíferas tentativas de transmutar os metais, Domingos Rodrigues e João Curvo Semedo haviam compreendido que, através das propriedades e virtudes prodigiosas do ouro, poderiam almejar a prosseguir as suas experiências na fabricação do elixir da vida eterna. Sabiam que não seria tarefa fácil, antes árdua e espinhosa, com inúmeros contratempos, avanços e recuos, mas o caminho  encontrava-se traçado e seria construído com esforço, perseverança e paciência. Os dois amigos não aspiravam apenas à vida eterna, como também ambicionavam alcançar a cura das imperfeições do corpo, provocadas pela erosão dos tempos, aperfeiçoando-o, aprimorando-o, como algo puro, ligando-se assim de maneira inequívoca à Natureza, em comunhão com o Universo que tudo encerra.

Entendiam ambos, e de acordo com os seus herméticos estudos, que o corpo era somente e tão só um vaso de sangue, linfa, carne e ossos, um microcosmos, e que a eternidade seria o macrocosmos, a unidade perfeita de todos os átomos e partículas e a origem de todas as coisas do mundo. Através do elixir, aspiravam a conseguir o ígneo e primordial vínculo à matéria e à energia do divino, como um cordão umbilical, entre o corpo do homem e o Cosmos.(...) "

Os dias de Saturno
Paulo Moreiras

domingo, 5 de maio de 2024

Impertinência

A Lagoa, contrariando o país e dando largas à sua irreverência, virou à esquerda, ou melhor, passou a correr para sul, talvez motivada para ir espreitar o novo Museu da Resistência, em Peniche.

Sem eleições nem respeito pelos que a estudam e pretendem domar, faz o que quer e sobra-lhe tempo!


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Aparelhinho

Os tempos vão de molde a todos sermos enciclopédias de saber e de fazer, quase sempre bem melhor do que qualquer outro que, ele sim, fica sempre aquém e a léguas de distância. O "eu" sabe sempre mais do que o "nós" e muito, mas muito mesmo, mais do que os outros.

"Presunção e água benta ... cada um toma a que quer."

Passámos a ser todos fotógrafos, sem necessidade de saber revelar, conhecer lentes, ter perspectiva e sensibilidade, sequer usar uma máquina fotográfica. O aparelhinho faz tudo ... e bem!

Descobrimos que podemos dar (e fazer) notícias bem melhor do que os ditos jornalistas, que chegam sempre atrasados e, muitas vezes, já com o assunto ultrapassado. O aparelhinho divulgou tudo na hora e obteve milhares de likes num abrir e fechar de olhos.

Tudo indica que esta coisa de escrever também se encaminha para a gaveta das memórias, nas profundezas do edifício mais antigo e em ruínas. A "Inteligência Artificial" já está disponível vinte e quatro horas. Sem trabalho e num instante, pode produzir "calhamaços" com o tamanho desejado, sobre os assuntos que tenham mais interesse para serem consumidos sem causar problemas de digestão. De igual modo, neste tema, o desempenho do aparelhinho é fantástico.

Acresce que, nesta altura da vida, todos sabemos muito de finanças, economia, sociologia, carpintaria, construção, cálculos de estabilidade, comboios e aviões, peixes e lebres, culinária e medicina, clima e futebol, tudo sapiências ao alcance de todos, apenas com o clic no aparelhinho e sem necessidade de perder tempo com "marranços".

Depois admiram-se de, nos 50 anos de Abril, as sondagens mostrarem que mais de 80% da população gostava de ter um líder forte. Alguém que mandasse na democracia, digo eu! 

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Espectáculo

O espectáculo começou cinco minutos depois da hora prevista. Do meu lado direito, o telemóvel permanecia numa das mãos do dono, enquanto a outra (um dedo apenas) ia dedilhando uma mensagem longuíssima, talvez a contar o que se estava a passar em palco e a beleza das músicas de há meio século, com "vestes" actuais. A lentidão da escrita era confrangedora. Vieram-me à ideia as recentes definições de Marcelo e concluí que, afinal, a sua sapiência é infinita: uma personagem que tão mal dedilha no aparelho e tão pouco liga ao que se passa no palco, só pode ser alguém pouco habituado à cidade, talvez até rural, lá das berças, das entranhas do Portugal profundo. Tinha descido à civilização e só poderia estar a contar o seu deslumbramento.

Do lado esquerdo, dois lugares vazios. Alguém que tinha comprado bilhetes - a sala estava esgotada - e, à última da hora e por algum imponderável, não tinha podido comparecer. Conclusão apressada: cerca de uma hora depois, surgem dois personagens, com os papelinhos bem visíveis nas mãos, caminhando com dificuldade, prejudicando a visibilidade de quem chegou a horas, e ocupam os dois lugares até aí livres. Devagarinho, um deles "saca" do aparelho que também serve para telefonar, e inicia o registo, para a posteridade, para os amigos e para as redes, do que se passa no palco. A lentidão com que movimenta a "câmara" e o atraso na chegada levam-me a concluir, talvez de forma apressada, que o "filmador" só pode ser oriental ou com raízes desses lados, tal como o nosso Presidente descreveu.

Acabou! Enquanto aplaudo os artistas que me proporcionaram um grande espectáculo, dou por mim a pensar que cada vez sei menos e me acho mais deslocado.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

25 de Abril

Cinquenta anos passados, a emoção continua quando se (re)vêem imagens que não desaparecem nunca, e se ouvem músicas inesquecíveis, muitas com novas e excelentes "roupagens", cantadas e tocadas por gente nova, que não se quer alhear nem ceder.

Que os meus netos possam comemorar o centenário do dia inicial inteiro e limpo, com total liberdade, uma maior igualdade, a fraternidade devida e o respeito a que todos temos direito.

O 25 de Abril trouxe-nos a paz, a abertura, a esperança, o horizonte, a mudança, valores que só descortinamos quando se perdem.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Dia Mundial do Livro

No Dia Mundial do Livro, depois de ter lido meia dúzia de mails anunciando "descontos fenomenais na compra de obras fundamentais", decidi que era dia de ser imperturbável e não adquirir nada.

Peguei em A Relíquia, por me ter vindo à memória um dos livros que mais me marcou na adolescência, e dele retirar alguma coisa para deixar por aqui. Depressa o voltei a colocar no seu discreto compartimento. Se Eça ainda por cá andasse, não teria mãos a medir nem veneno suficiente para distribuir.

Talvez nem o Bugalho escapasse, esse que, tão novo, descobriu o difícil caminho que o vai levar à Europa das grandes decisões. Aí pugnará, com o brilhantismo que todos reconhecem, pelo seu bem-estar e futuro a contento, proporcionando a Montenegro continuar com o sorriso que exibiu ontem, ao anunciar a sua inclusão como cabeça de lista da AD às eleições europeias. 

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Rituais

Tenho com o Expresso uma relação "amorosa" a qual, muitas vezes, me retira ou inibe o espírito crítico e em outras procura uma justificação plausível para muitas incoerências ou erros que nele acontecem em todas as semanas.

Mesmo irritado com a semana anterior, à sexta-feira (dantes era ao sábado) cumpro o ritual e vou comprar o jornal ao local habitual onde agora, de acordo com a informação do proprietário, já só chegam dois sacos e um deles é quase sempre devolvido.

Esquecido ou perdoado que está o "frete" ao Governo com o título sobre a descida do IRS, fixado na primeira página do número 2685, de 12 de Abril, António, no seu cartoon,  e Miguel Sousa Tavares, em A ruína moral do Ocidente,  confirmam, na semana seguinte, que vale a pena ser teimoso e, enquanto houver edição em papel, cumprir o ritual que já passou o meio século.

"(...) A 14 de Abril, Israel e os seus aliados não apenas detectaram no ar e destruíram 99% dos engenhos de morte enviados do Irão - também detectaram previamente e destruíram 99% das opiniões ou notícias capazes de contrariarem a versão única de mais uma vitória dos bons sobre os maus, da derrota de um ataque não provocado à "única democracia do Médio Oriente". Uma democracia que, em seis meses, liquidou, nas suas casas, nas ruas, nas escolas, nas mesquitas e nos hospitais, 35 mil civis, dos quais 16 mil crianças, e em cujo governo há um ministro que propôs resolver o problema dos 2,3 milhões de palestinianos encerrados em Gaza com uma bomba termonuclear e outro que, mais simplesmente, jurou que "os palestinianos não existem". Se não tivéssemos visto as imagens de quarteirões inteiros em Gaza destruídos com bombas de uma tonelada fornecidas a Israel pelos defensores dos direitos humanos, dos hospitais transformados em campos de batalha, das crianças com olhares esgazeados de fome, ainda poderíamos acreditar, talvez, que isto seria uma guerra da liberdade contra o terrorismo. Se não conhecêssemos a história, poderíamos acreditar que eram os justos a triunfar sobre os usurpadores da "Terra Santa". E certamente que todos dormiremos mais descansados se, no seu exercício de "legítima defesa", Israel destruir as instalações nucleares dos aiatolas. Mas dormiremos mais descansados ou mais pacificados de consciência sabendo a bomba nuclear nas mãos dos fanáticos ortodoxos de Israel, que se declaram "o povo eleito"? Qual é, afinal, o critério moral que nos distingue dos outros? Perguntem às crianças de Gaza, perguntem à rosa de Hiroxima.

Eu fiz jornalismo durante mais de 40 anos. E em todas essas décadas, seguindo a política nacional e internacional, tive muitas vezes de me conter para não confundir a hipocrisia com a própria natureza da política. Mas sempre acreditei que, no fim, seria a independência e a liberdade do jornalismo a prevenir e a evitar que isso acontecesse. Porém, e como já o escrevi a propósito da guerra na Ucrânia, e agora o volto a escrever a propósito da guerra de Israel em Gaza, nunca tinha visto o jornalismo tão submisso à narrativa oficial, tão disposto a abdicar do contraditório e tão avesso a fazer as perguntas ocultas, as perguntas essenciais. Isso, mais ainda do que esta miserável geração de líderes políticos, é o que mais me faz descrer no triunfo das democracias, enquanto resultado de regimes escolhidos por povos informados e livres. Oxalá eu possa estar enganado."

domingo, 21 de abril de 2024

Meio século

Aproxima-se, velozmente, o dia da Liberdade. 

Passam 50 anos e as comemorações sucedem-se, ainda que, em algumas, melhor seria terem ficado no sossego da gaveta ou na pasmaceira da casa. A lei inexorável do tempo faz com que sejam cada vez menos os que viveram os tempos da "outra senhora", e aos novos pareça esquisita, para não dizer falsa, qualquer conversa sobre o como era dantes.

Ainda bem! Emitir opinião sem temor, ser diferente sem medos, usar o que apetece sem "olhos" a cuidarem, conversar sem receio de ser ouvido e denunciado, e não serem "proibidos os grupos agrupados e mais que dois a andar parados", não tem preço.

Por mais gente que apareça a berrar, vozes de burro não hão-de chegar ao céu e, daqui a cinquenta anos, as comemorações do século talvez sejam historicamente mais verdadeiras e rigorosas, digo eu, que não estarei cá para o confirmar.