quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Teias

Fundiu-se uma das lâmpadas do quintal, aquela que só acende quando o escuro acontece e está destinada a dar luz à retaguarda da casa. É essencial que não sejamos egoístas e não queiramos a luz só para nós. Mesmo os visitantes nocturnos, que vêem bem de noite e nem sequer o escuro os atrapalha, e fazem do jardim o seu WC a céu aberto, merecem ser iluminados.

Os caracóis e as caracoletas, as aranhas e os aranhiços, as minhocas e os minhocos, as lesmas e os lesmas, são visitas nocturnas assíduas e também devem carecer de luz, para não se atrapalharem no trânsito. Não dão trabalho à mangueira e terão a sua utilidade no equilíbrio ecológico que, todos dizem, é fundamental para preservar o futuro do planeta.

De todos os referidos, as aranhas e os aranhiços são os que mais admiração me causam. Ao desmontar o candeeiro destruí, de forma involuntária, registe-se, duas teias que lá estavam montadas. A teia é uma obra de arte: apanha moscas e mosquitos, é tecida com grande precisão e tem uma resistência enorme. Não há chuva nem vento que a destrua, esteja nos cantos ou no meio das paredes. E se, por qualquer mão predadora, perde o poiso, procura pôr-se a salvo e arranjar lugar para, outra vez, tecer uma casa nova.

As teias da vida real são quase tão eficientes quanto as dos pequenos insectos, mas muito mais perigosas...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Dificuldades

O jacarandá habita o jardim há muito tempo e todos os anos se estica e alarga mais um bocado. Na época da floração dá uns cachos lindos, de um azul arroxeado ou de um roxo azulado, numa copa verde, frondosa e muito bonita.

No Inverno causa problemas. A ramagem torna-se castanha, ou será cinzenta, talvez preta (a minha dificuldade com as cores é cada vez maior) e as pequenas folhas caem pelo telhado, no quintal e, pior que tudo, no algeroz. Com a chuva, as pequenas folhas formam  uma massa pastosa, pegajosa, bem agarrada ao fundo, dificílima de retirar, mesmo utilizando a mangueira com grande pressão.

A solução era caminhar por cima do telhado, com uma qualquer ferramenta que ajudasse a retirar aquela massa pastosa e permitisse à água circular livremente até ao final. Foi isso que pensei fazer, procurando arranjar uma qualquer vassoura ou um pequeno piaçaba para me facilitar a vida.

Com tudo já planeado na mente, lembrei-me que a apólice de seguro de acidentes de trabalho (que não tenho) tem uma cláusula de exclusão que impede o beneficiário de voar sobre os ninhos de cucos e também caminhar sobre os telhados. 

Pensei melhor e resolvi não me aventurar, para não invadir o território dos meus amigos gatinhos e, fundamentalmente, para não arranjar problemas com a seguradora.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Método e organização

Há livros por vários sítios, mas já não há na mesa de cabeceira, ou melhor, aparece um só à noite. Numa transformação a que não é alheia a campanha de esclarecimento há muito encetada, o plural passou a singular. O último que por lá restava a aguardar vez, está a ser lido desde ontem e desloca-se a vários locais, regressando à base apenas na hora de recolher.

Acabaram-se os avisos, os sinais de enfado, porque ganham pó, não deixam limpar bem, a mesa de cabeceira não é sítio para livros, não chega a secretária, não bastam as estantes, há livros por todo o lado. E contra factos, não há argumentos, que a hora não é para contraditar.

Os que estão na fila, aguardam a sua vez na secretária, bem comportados, embora também não goste muito de os ver aqui, em monte. São os prioritários. Não têm a certeza se não serão ultrapassados, por nunca se saber se e quando o carteiro traz alguns novos, que se tornem mais urgentes. 

Todos serão vacinados, perdão, lidos. Assim o tempo me ajude e a vontade não me falte.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Prevaricar

Eu, prevaricador me confesso!

Não, não fui vacinado nem sequer meti uma cunha para me colocarem na lista dos prioritários. Prevariquei, é verdade mas, tal como nas vacinas, não tenho qualquer culpa do sucedido. A minha prevaricação não resulta de sobras de circunstância que, irremediavelmente, iriam para o lixo, mas sim de um acaso fortuito e de culpa alheia.

Eu conto: era necessário e urgente ir ao supermercado, por estarem em falta alguns artigos essenciais a um confinamento eficaz. As excepções prevêem essas carências e o "Ambrósio" disponibilizou-se para cumprir a sua função, folgado que estava e por saber que o carrinho tinha saudades de sair da garagem conduzido pelas mãos habituais e, vamos lá, meigas e eficientes. A viatura agradeceu, penhorada, mesmo não havendo "Ferrero Rocher". O livrinho fez companhia, enquanto se esperava quem de direito. Cumprida a primeira tarefa, ainda era preciso, afinal, passar pela farmácia para recolher uns medicamentos que lá aguardavam. Tudo dentro da legalidade e sem hipóteses de "confrontação" com a autoridade, mesmo que ela aparecesse. O "Ambrósio" concordou, a viatura também e a tarefa foi cumprida sem problemas, aproveitando a espera para mais umas páginas, poucas, que o atendimento fármaco foi rápido. 

Agora, sim, era empreender o regresso a casa e ao confinamento. Viatura a trabalhar, viagem de regresso iniciada e o inesperado, surpreendente e incontrolável aconteceu! Como é possível! O carro, sem "rei nem roque" tomou o caminho do mar, sem obedecer às tentativas para o contrariar. Não faço ideia porquê, mas levou a sua teimosia até ao fim e, mal dei por isso, eis que surge a paisagem da Foz do Arelho, lá em baixo, com o mar a trazer muito "Omo Super" e a justificar o alerta da Protecção Civil.

Não houve saídas. A teimosia do carro também se fez sentir aí e as portas não abriram. Deu a volta, sem grande pressa, devagarinho mas sempre andando, como o outro. O "Ambrósio" pensava na desculpa de justificação, se as autoridades aparecessem. Seria uma qualquer, esfarrapada, como as que têm sido ouvidas sobre as vacinas.

Não foi necessário. As autoridades deviam ter mais que fazer do que controlar um carro teimoso, conduzido por um "Ambrósio" incompetente, incapaz de o controlar e de o fazer cumprir a lei. A CMTV também não andava por ali e apenas duas ou três outras viaturas foram encontradas, estas, por certo a trabalhar.

Como tudo mudou! Há um ano, se alguém dissesse que ir à Foz ver o mar era prevaricação, talvez visse apontarem-lhe o caminho do Júlio de Matos ... que já não existe.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Palavras bonitas

Não, não é cansaço ...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo ...

Não, cansaço não é ...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como ...
Sim, ou por sofrer como ...
Isso mesmo, como ...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!

Obras completas de Fernando Pessoa
Poesias de Álvaro de Campos
Edições Ática (1980)

sábado, 30 de janeiro de 2021

Espertices

Na estação do Metro do Rossio aglomeram-se algumas dezenas de pessoas, a aguardar o comboio que levará cada uma delas à estação de destino e ao regresso a casa, depois de mais um dia de labor. São clientes habituais. Já conhecem o local onde as portas se abrirão e é aí que se juntam mais. Um deles não pára quieto. Anda de um lado para o outro, bem dentro do grupo, de olhos postos no fundo do túnel, onde irá aparecer a luzinha amarela. O aviso electrónico mostra 30 segundos e ele aí está, parado à sua frente. As portas abrem e o irrequieto empurra, afasta e nem deixa sair os que chegam. Entra e, em passo de corrida, chega ao banco vago. Senta-se e olha para o exterior, disfarçando. Não fez nada de errado. Apenas se sentou no lugar vago. Se não fosse ele, seria outro. Mas ele foi mais esperto!

Na fila do supermercado, a senhora empurra o carrinho, preocupada com o que ainda lhe faltará comprar, fazendo esforço para se lembrar porque se esqueceu da lista. Não olha para nenhum dos que estão na fila, aguardando a sua vez de se abeirarem da caixa. De repente, aproveitando uma distracção, ei-la que toma lugar na fila, tão distraída que nem reparou nos que já lá estavam. Se alguém disser alguma coisa, responderá:

- Ah! Como sou tão distraída. Nem reparei que havia fila.

Quase sempre funciona. Quem está na fila não arrisca "peixeirada". Para quê? É apenas mais uma. Quando chegar a casa transmitirá aos filhos, contando a aventura:

- Nunca esqueçam: o mundo é dos espertos!

À porta do restaurante, dois ou três grupos aguardam serenamente que o empregado lhes venha indicar a mesa entretanto vaga. Ei-lo que surge e, de imediato, um casal avança, ainda que acabado de chegar.

- Os senhores chegaram agora, ouve-se de alguém.

- Não, não. Já cá estamos há muito tempo. Fomos ao WC lavar as mãos. 

O empregado lá os acompanha, que a fome é muita e os outros podem esperar.

A lista de prioridades para a vacina estabelece uma ordem que contempla, e muito bem, desde os profissionais de saúde aos utentes e trabalhadores dos lares. Mas, como sempre, o seguro morreu de velho. A vacina pode não chegar a todos e eu até sou o responsável máximo do lar, e da associação, e da segurança, e ... a minha família também é fundamental. Se eu adoeço, quem toma conta do barco?

Confirma-se. É esperteza saloia, mas funciona!

E depois admiram-se de chegar um "enviado do céu" e ter audiência.  

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Passarada

Serão onze milhões, talvez mais, talvez menos, não vale a pena gastar tempo a contar, por falta de dedos ou máquina de calcular que determine o certo resultado, pelo ir e vir (mais o ir) constante que impede a exactidão. Haverá mais alguns milhões, cremos, que chegam, no Verão ou no Natal, e depois regressam às paragens onde a sua actividade se desenrola com menos problemas, por vezes com mais frio. São os de arribação, como as andorinhas e os tordos. Quando as asas começam a perder força, a maior parte deixa de arribar e recolhe-se no ninho.

Pintassilgos, rouxinóis, melros, rolas, cartaxos, pardais e, como diz a canção alentejana, cucos melharucos cada vez há mais. Não se vêem. Estão recolhidos e a paisagem, tristonha, fica mais pobre. Até pode não se gostar do melro e do seu silvo sibilino, não apreciar o vôo ondulante do pintassilgo ou os saltinhos constantes do cartaxo, não prestar atenção ao pisco, que tem o peito ruivo e é descarado. Pode até não se ligar às rolas que cantam, tímidas, lá em cima ou ao grasnar das gaivotas que sobrevoam a cidade e fazem lembrar o mar, não se vislumbrar um verdelhão ou uma alvéloa, não descortinar os pardais que, escondidos, sossegados, nem sequer saltitam ou piam. 

Não há meio de os pássaros regressarem ao campo, trazerem o seu trinar de volta, mesmo que ruidoso ou até malcriado. Até dos passarões se nota a falta, quem diria.

Não se canta, não se grita, não se sonha e tudo irrita. Até quando?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Actualidade

"Em tempo de guerra não se limpam armas"

Estalou a polémica, como é costume.

De acordo com notícias vindas a público, há, em Portugal, um número considerável de médicos estrangeiros, nomeadamente vindos da Venezuela e do Brasil que não podem exercer as funções para as quais terão sido formados nos seus países de origem. Ainda de acordo com uma reportagem da RTP1, haverá alguns que aguardam há 2/3 anos pelo reconhecimento das suas habilitações e a necessária inscrição na Ordem dos Médicos.

Entretanto, para sobreviver, muitos deles executam tarefas, as mais variadas, mas que nada têm a ver com aquilo para que se prepararam e das quais a saúde muito precisa, de acordo com os apelos quotidianos dos responsáveis de primeira linha. Um dos organismos de cúpula terá proposto que, face à situação que vivemos, lhes fosse concedida uma licença especial, válida por um ano, para exercerem a sua colaboração, naturalmente enquadrada e supervisionada.

A Ordem apressou-se a vir a público, não para dizer que vai apressar a decisão da análise, mas antes para afirmar o seu desacordo à proposta, reiterando que só se é médico se e quando a Ordem o reconhecer.

Continuamos a ter muitos que, vivendo como se nada se passasse, continuam a ser parte do problema, e pouquíssimos à procura da solução.

"Não se pode ser padre numa freguesia destas"

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Holocausto

Ao ler os jornais, deparei-me com a notícia de que hoje se comemora o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Há 76 anos as tropas aliadas libertaram os que sobreviveram à tragédia vergonhosa, levada a cabo pelos nazis em muitos sítios e sublimada em Auschwitz-Birkenau. Pese embora pensar que as Vítimas do Holocausto devem ser lembradas todos os dias, para que o horror do que aconteceu não caia no esquecimento e não deixe margem para uns quantos que o pretendem limpar da História.

Lembrei-me de um dos vários livros que já li sobre a tragédia e, talvez, o que mais me impressionou. Abri ao "calhas" e surgiu isto:

(...)A Carmen voltou. Depois de se terem certificado de que o campo estava livre, ela e a Viva agarraram-me cada uma por um braço e levaram-me para um canto formado por um lanço de parede e o monte dos arbustos que tínhamos de transportar. "Aqui está!" disse a Carmen, a mostrar-me o balde de água. Era um balde de zinco, dos usados no campo para tirar água de um poço. Um balde grande. Estava cheio. Soltei-me da Carmen e da Viva e atirei-me ao balde de água. Atirei-me, literalmente. Ajoelhei-me junto ao balde e bebi como um cavalo bebe, com o nariz dentro de água, com a cara toda dentro da água. Não sei dizer se a água estava fria - devia estar, acabada de tirar e era no começo de Março - e não sentia nem o frio nem o molhado na cara. Bebia, bebia até ficar sem fôlego e era obrigada a tirar as narinas da água de vez em quando para apanhar ar. Mas sem parar de beber. Bebia sem pensar em nada, sem pensar no risco de ter de parar, de levar pancada, se uma kapo aparecesse. Bebia. A Carmen, que estava de guarda, disse: "Agora chega." Tinha bebido metade do balde. Fiz uma pequena pausa, sem largar o balde que tinha entre os braços. "Anda, disse a Carmen, já chega." Sem responder - podia ter feito um gesto, um movimento -, sem me mexer, voltei a mergulhar a cabeça no balde. Bebi e bebi. Como um cavalo, não como um cão. Um cão lambe, com uma língua ágil. Dobra a língua como uma colher para transportar o líquido. Um cavalo bebe. A água diminuía. Inclinei o balde para beber o fundo. Quase deitada no chão, sorvi até à última gota, sem entornar uma única. Ainda queria ter lambido a borda do balde. A minha língua estava rígida de mais. Também rígida de mais para lamber os lábios. Enxuguei a cara com a mão e enxuguei a mão nos lábios. "Agora tens mesmo de vir", disse a Carmen, "o polaco está a reclamar pelo balde" e fazia sinais para alguém atrás. Não queria largar o meu balde. Não me podia mexer de tão pesada que tinha a barriga. Era como uma coisa independente, um peso ou um embrulho que me tivessem pendurado no esqueleto. Estava muito magra. Há muitos e muitos dias que não comia o pão porque não conseguia engolir nada sem saliva na boca, há dias e dias que não comia a sopa, mesmo quando estava bastante líquida, porque a sopa era salgada e parecia fogo nas aftas que tinha a sangrar na boca.(...)

Auschwitz e depois
Charlotte Delbo
BCF Editores

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Vá lá

Já tem uns anos mas o meu amigo ADS, que gosta de me manter atento, relembrou-a, partilhando-a ontem comigo, porque a sua actualidade se mantém, oportuna e brincalhona.

Com muitas verdades bem aplicadas a muitos de nós e com vozes bem conhecidas, vale a pena ouvir com atenção. Vá lá! São apenas cerca de quatro minutos de graças, e tempo é o que não nos falta, nesta época vertiginosa do sim e do não, do achar e da certeza, do risco e da ilusão.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Após

Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito Presidente da República e a página está virada. Agora é tempo de pensar e decidir, na procura das melhores soluções para o momento que vivemos e preparar um futuro melhor para os que sobreviverem à crise pandémica, social e económica.

O futuro vai ser doloroso e é preciso coragem para dizer, e convencer, que voltar atrás não é solução. Os indicadores de ontem são apenas isso e já fazem parte do passado. Cabe agora a quem tem as responsabilidades da "nau", indicar a rota, sem peias nem medos, demonstrando que não há lugar para "papagaios" e que, com trabalho sério, claro e persistente, é possível mostrar e demonstrar que o futuro existe e está nas nossas mãos conquistá-lo.

Como dizia Natália Correia :"Senhores jurados, sou um poeta(...)"

domingo, 24 de janeiro de 2021

Votação

Fui votar e, mais uma vez, confirmei que a nossa capacidade de organização é brilhante e imensa, mesmo que o espaço seja amplo e esteja disponível.

A Escola Raúl Proença é enorme e tem três portões de entrada, qual deles o maior. Por isso, nada melhor do que abrir apenas um e concentrar toda a gente em fila única, a confraternizar, que o dia é de festa.

A fila lá vai andando e, finalmente, estou a chegar ao portão de entrada, onde uma senhora, solícita e simpática, me questiona:

- Sabe qual é a sua mesa? (Cá fora não há um cartaz indicativo)

- Mesa 8, respondo.

- Então é a fila da direita. É só seguir as setas e depois, no Bloco, lhe indicarão a sala.

Coloco-me na dita da direita, seguindo as setas mas mantendo a distância. São cerca de 50 metros de fila, medindo a "olhómetro". Quando já só faltariam talvez vinte metros para a porta do bloco, uma outra senhora, de voz esganiçada, questiona:

- Está alguém para a mesa 7?

Levanta-se um braço e a dona dele encaminha-se para a respectiva sala.

- E para a mesa 8?

Saio da fila e, em passo acelerado, entro e dirijo-me à sala identificada com o número 8, cruzando-me com várias pessoas que, do pequeno hall se encaminhavam para as outras mesas ou delas saíam. A sala estava com a disposição usual, apenas com o gel a mais. 

Com alguma dificuldade, já habitual, o meu nome foi encontrado. Recebi o boletim, fui "esconder-me" para fazer a cruz, dobrei-o e coloquei-o na urna. Rápido e eficiente. Fiquei muito grato àquela senhora da voz esganiçada, que me retirou da fila e me deu a oportunidade de me despachar antes dos outros, que continuaram, na fila, a aguardar a disponibilidade das suas mesas.

Valha-nos a nossa capacidade de organizar e de aproveitar espaços, quanto mais apertadinhos melhor. E agradeça-se ao S. Pedro, que se aliou à festa e não mandou chuva!

sábado, 23 de janeiro de 2021

Reflexão

Na véspera das eleições presidenciais que ficarão na história por serem as menos concorridas de sempre e as únicas (espera-se) que violaram o confinamento com o apoio das autoridades, acontece o dia de reflexão, no qual, de acordo com a lei, é expressamente proibido fazer campanha.

Com a obrigatoriedade de estar em casa, a reflexão torna-se mais fácil e, ao mesmo tempo, mais ponderada. De tal forma isto é verdade que, no meu caso particular, levantei-me cedo, comecei logo a reflectir e, até ao momento, ainda não decidi se vou votar de manhã ou de tarde. Continuo a analisar os prós e os contras e não há meio de surgir a solução para este grande dilema. E apenas coloco duas hipóteses em equação, quando poderia dificultar ainda mais, ponderando o meio da manhã, a hora de abertura, o meio da tarde ou uns momentos antes da hora de fecho.

Os dados estão na mesa, a análise é cuidada e já fui procurar na Net uma aplicação que me ajude no cálculo de probabilidades, dispensando-me o regresso à análise matemática que já está lá bem no fundo do poço das matérias meio esquecidas. Não encontrei nada e, por isso, a reflexão continua, em contínuo. Até durante o almoço não parei de pensar. Reflectir sempre, que a campanha eleitoral decorreu de forma tão esclarecedora e tão geradora de dúvidas que o mais provável é haver muita gente, sem capacidade de análise e de síntese, que acabe por não comparecer por não ter tomado a decisão atempadamente.

O grande dilema é descobrir não o melhor dia para casar mas a melhor hora para votar, apanhando as filas idênticas às que aconteceram no passado domingo àqueles que, felicíssimos, se inscreveram para votar antecipadamente e assim participaram na grande festa. Causaram inveja a todos os outros, conservadores, que irão amanhã às urnas. Todavia, e como não há felicidade completa, não tiveram direito ao dia de reflexão, imprescindível para o acto. Ficaram apenas com os elogios do Cabrita ...

Na segunda-feira vamos ter muita gente a dizer que, se lá tivesse ido, era em quem ganhou que votava. E outros a concluir que nem sequer valia a pena ir porque já se sabia quem ganhava! Com esta clareza de pensamento, para quê o dia de reflexão?

Há uma razão, descobri agora: para que os candidatos possam dormir descansados e amanhã estarem frescos para as entrevistas.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Actualidade

Apesar de todos os avisos, de os números não pararem de subir, de qualquer leigo, como eu, perceber que não há sistema que aguente, que não se fabricam médicos e enfermeiros no Diário da República, continuam a aparecer melros, cegos e surdos, voando sobre um ninho de cucos.

O egoísmo, que todos transportamos mais ou menos escondido, surge de onde menos se espera e vai acentuar-se com o decorrer dos dias, elegendo-se o "eu" como figura principal de um filme onde somos todos actores. As TV's agitam e ampliam o drama, elevando-o à potência superior, abrilhantado pelas agulhas espetadas nos braços, ainda que essa mostra seja perfeitamente dispensável e nada adiante ao acontecido. Também as ambulâncias, que aguardam vez nos hospitais mantendo os "pirilampos" a assinalar a marcha de urgência, apesar de estarem, infelizmente, paradas, são imagem repetida incessantemente.

Informa-se que a polícia foi chamada para dispersar um grupo de melros que se encontravam na rua, dando-se voz e rosto ao delator e incentivando-se o aparecimento de um "queixinhas" em cada um de nós. A polícia, que devia fazer patrulhamento activo e, por iniciativa própria, aparecer de surpresa junto dos relapsos, aguarda no sossego das esquadras que alguém lhe telefone, dando-lhe as indicações para efectuar o seu trabalho.

Ainda bem que moro numa rua sossegada, que mantém pouco trânsito mesmo com as obras em volta. Os meus vizinhos não telefonarão para as autoridades a denunciarem os meus passeios higiénicos pelo jardim, que é meu, note-se.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Confinamento

Está consumado. Pelo menos 15 dias de confinamento total, para se tentar baixar os números, que têm subido a níveis assustadores.

Consequência das novas variantes, do comportamento irresponsável de muitos ou porque sim, o facto é que os hospitais estão a rebentar pelas costuras e as morgues com lotação mais do que excedida. 

É facílimo estar por aqui - sem preocupações de maior, pegando num livro, vendo televisão, ouvindo música, comendo quando apetece, com a certeza de que no dia aprazado a conta do banco receberá o ordenado - a criticar isto e aquilo, devia ter sido ontem ou na semana passada, é demais o aperto, porque não se faz assim ou assado, branco ou preto, ou talvez cinzento, se fosse eu a decidir ...

A cara de exaustão ontem exibida pela Ministra da Saúde perante as perguntas, mais impertinências que questões, mostrava mais vontade de ir para sua casa estender-se um pouco e fechar os olhos, ainda que não deva conseguir dormir, do que por ali estar, e aguentou firme. Grande mulher, que deve ser de carne e osso como qualquer um de nós e também deve(ria) ter vida para além da função. Decidir, todos o sabem, é facílimo ... principalmente se foram outros a fazê-lo.

Há muitos anos, num colóquio sobre rádio, ouvi do jornalista Joaquim Furtado mais ou menos isto:

- Se não têm nada para dizer, calem-se. Ponham música.

Se não percebe nada disto nem tem de ir trabalhar para os outros, cale-se, fique em casa. Oiça música! 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Bancos

A sala era enorme, verde, com portas brancas, de madeira, com vidro aos quadrados no centro. O chão estava coberto por vários tapetes de Arraiolos, com desenhos diferentes, dificultando a escolha do mais bonito. Uma lareira, acesa desde manhã bem cedo até à noite velha, garantia um ambiente acolhedor e sedutor. Por cima, na parede do fumeiro, um retrato a óleo da senhora, bem na altura dos olhos de quem entrava. Impunha respeito pelo tamanho e pela beleza. Os olhos azuis, do retrato e da dona, eram vivos e olhavam-nos de todo o lado, parecendo controlar tudo.

Entrar na sala implicava uma série de cuidados e exigia recato e reverência, aumentada ao extremo quando a senhora, ela própria, estava presente.

- Vossa Excelência dá-me licença, Senhora Dona M.T.?

- Entra, entra.

- Muito bom dia, minha senhora. Como está?

- Bem. O senhor foi ali. Espera um pouco que não demora.

Encostado, constrangido, envergonhado, sem saber onde colocar as mãos, o tempo de espera, uma eternidade. Olhadela rápida a tentar ler o título do livro, outra a apreciar o fumo do cigarro, seguro nas mãos cobertas por luvas de pelica, pretas, quase até ao cotovelo. A música tocava baixinho. Televisão, havia, mas não naquela sala. Ali era o sossego, o descanso, o relaxe, a conversa com as visitas, o local para as ordens, o salão nobre onde só se entrava, chamado.

Chegou, finalmente.

- Mandei chamar-te porque quero que vás ao banco e me tragas "xis". Não me apetece sair, com este frio. Aqui tens o cheque.

Ordem dada, missão a cumprir com brevidade. O cheque era ao portador e estava assinado no verso pelo senhor, tal como seria se fosse ele mesmo ao banco. O caixa, de pé e sempre a conversar, curioso por saber como estava o senhor e porque não tinha vindo, puxou do maço das notas e entregou-o.

- Não te esqueças de lhe apresentar os meus cumprimentos.

O Multibanco chegaria muitos anos depois, em 1985. Por essa altura, o caixa já só contava histórias no outro mundo e o banco, ainda no mesmo sítio, tinha mudado de nome.

Hoje, o banco já não existe. Resta o edifício, que é uma loja de roupa e pouco dinheiro vivo terá.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Em casa ...

Quase 47 anos passados sobre esse dia memorável em que completei 22 anos, continuamos a ser um povo, no mínimo, esquisito. Não gostamos do rigor, contrariamos porque sim, desenrascamos tudo sem planear nada, achamos que, havendo um alicate, um martelo ou um prego à mão, tudo se resolve, incluindo a educação e o respeito pelo outro. O outro é, aliás, sempre qualquer coisa de estranho, cheio de defeitos, que subiu à custa de cunhas ou na horizontal, um ser muito pior do que nós, que criticamos quando estamos longe e reverenciamos se estamos junto.

Pediram-nos para ficar em casa. Arranjamos forma de ignorar esse pedido, com habilidades de contorno, excepções por dá cá aquela palha, razões que a razão devia desconhecer. Não pensamos no outro e achamos que a nós, imunes, nada nos tocará. Não respeitamos e clamamos pela intervenção da polícia, que não actua sobre aqueles energúmenos que contrariam as ordens. 

Entretanto, surgem do "céu" os arautos do país "certinho", do "naquele tempo é que era" e outras "venturices" que deviam envergonhar quem tem dez réis de testa e (ainda) memória. 

A todos custa! De certeza que, a quem já sofreu na pele, custará muito mais. Se podemos evitar, porque não fazê-lo. E se ainda há papel higiénico, para quê comprar mais? Gosto tanto do mar, apetecia-me muito passear na areia e ouvi-lo rebentar com estrondo, como estará a acontecer agora. Quando puder, regresso e ele está lá, à minha espera, sempre solícito e fresquinho.

Está muito frio! Fiquemos em casa e deixem a polícia sossegada. Eles também podem apanhar o "bicho". Se continuarmos a não olhar, não ver e não reparar, um dia destes ainda chega ... a polícia de choque de má memória para nos pôr na linha.

Eu dispenso! 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Não me canso de bradar a inutilidade do Acordo Ortográfico e já por aqui deixei opiniões, muito mais acertivas e valiosas do que a minha, que justificam a ineficácia dessa tentativa de obrigar milhões de pessoas tão diversas a grafar e a exprimir da mesma maneira uma língua tão rica na sua diversidade como é o português.

Estou a ler um livro (como sempre) de um autor brasileiro - Luiz Ruffato - que não conhecia e que (d)escreve, desta forma preciosa e obrigando-me a recorrer muitas vezes ao Dicionário Houaiss, uma viagem de táxi em S. Paulo. 

(...) 41. Táxi 

O doutor tem algum itinerário de preferência? Não? Então vamos pelo caminho mais rápido. Que não é o mais curto, o senhor sabe. Aqui em S. Paulo nem sempre o caminho mais curto é o mais rápido. A essa hora ... cinco e quinze ... a essa hora a cidade já está parando ... as marginais, as ruas paralelas, as alamedas, as ruas, as vielas, tudo, tudo entupido de carros e buzinas. Sabe que uma vez sonhei que a cidade parou? Parou mesmo, totalmente. Um engarrafamento imenso, um congestionamento-monstro, como nunca antes visto, e ninguém conseguia andar um centímetro que fosse ... Parece coisa de cinema, não é não? Pois eu gosto. Gosto muito de assistir filme. Mas prefiro os antigos. De vez em quando reprisa um na televisão. Tinha uns atores danados de bons, Tyrone Power, Burt Lancaster ... O meu preferido é o Victor Mature, conhece? Ele fazia o papel de Maciste, lembra? Era bom mesmo ... Tem um retrato dele na parede da sala lá de casa. Bom, não é retrato, é uma fotografia de revista que a patroa recortou e mandou emoldurar. O senhor entende como é mulher ... Ela sabia que eu era fã do Victor Mature e então pensou em me agradar ... Me deu no aniversário ... bastantes anos já. Pendurou na parede da sala ... E eu lá tenho coragem de tirar? Tenho nada. O senhor teria? Uma vez, inclusive, eu estava sozinho em casa, joguei o retrato no chão, o vidro espatifou, falei que tinha sido ventania, ela acreditou, pensei que tinha livrado dele. Mas não é que na semana seguinte lá estava ele pendurado na parede, novinho em folha, o doutor acredita? Ela acha que me agrada, fazer o quê? As minhas filhas quando eram adolescentes - agora estão todas casadas, e bem casadas, graças a deus - morriam de vergonha do retrato. Pai, que coisa mais brega!, elas falavam. As amigas perguntavam se era algum parente, Quem é o gato?, indagavam. Acabei concordando, uma coisa ridícula! Falei com a patroa, ela disse, Quê isso, Claudionor!, Claudionor sou eu. Quê isso, Claudionor!, daqui a pouco elas vão embora de casa, ficamos só nós dois, velhos, você gosta do retrato, ele vai ficar lá ... Bom, resultado: se o senhor um dia der o ar da graça lá em casa, vai ver o Victor Mature pendurado na parede da sala! E olha que a gente tem um cachorro, um fox terrier, que o filho-da-mãe não deixava pedra sobre pedra, entrava correndo pela porta da sala e saía voando pela porta da cozinha, o rabo estabanado derrubando tudo, vaso de flor, xaxim de samambaia, crianças relienta, até uma lata de biscoito dinamarquês vazia, que ficava em cima do armário, o diabo conseguiu deitar ao chão, amassar. A velha amofinou, porque aquilo servia de cofre ... Consertadeira de roupa, escondia lá o dinheirinho proveniente do alinhavo de uma barra-italiana, da pregação de botão numa camisa, do pence de uma calça, do cerzido de uma rasgo ... Mas, o doutor acredita? (...)

Eles eram muitos cavalos
Luiz Ruffato
Tinta da China (2018)

domingo, 17 de janeiro de 2021

Netos

Ontem, no contacto telefónico de final do dia, com direito a imagem e tudo, elogiei o neto II por um desenho que tinha visto na véspera e sobre o qual ainda não tinha tido oportunidade de lhe manifestar a minha opinião. 

- E o neto I também tem qualquer coisa para contar, que vais gostar, de certeza.

- Diz já, neto grande!

- O professor de Português mandou fazer um trabalho sobre um livro que já tivéssemos lido ...

- E  qual foi o teu?

- Ensaio sobre a cegueira.

Fará 15 anos em Julho. Nada todos os dias mais de 2 horas (agora está confinado) e tem provas quase todas as semanas. Usa o telemóvel, o tablet e o computador com a ligeireza normal dos da sua geração e sobre isso esclarece o avô, quando necessário. Já leu Saramago e o trabalho feito mereceu os maiores elogios do professor. 

Tudo normal! Não percebo porque hei-de ficar babado ... e comovido. Deve ser por ser dia de Santo Antão! 

sábado, 16 de janeiro de 2021

Incompatibilidades

Habitualmente, as compras online correm bem. As pessoas dos CTT e das transportadoras são simpáticas, a maioria já por aqui passou várias vezes e conhece bem a rua e a casa. Desta vez não foi assim e as obras que decorrem aqui à volta, deixando-nos quase prisioneiros e obrigados a circular em sentido contrário, com a sinalização tapada (quando está) com um plástico preto, foram as grandes culpadas. Elas e alguma falta de senso ou de prática, não sei bem.

Na quinta-feira surgiu a primeira mensagem, dando conta que, entre as 15H15 e as 15H45 estariam a concretizar a entrega. Até aqui, tudo normal e costumeiro. A anormalidade começa a desenhar-se depois de passar a hora prevista e nada. Já quase no final do dia, uma nova mensagem transmitia que não tinha sido possível efectuar a entrega. Um telefonema e, depois de várias digitações, a última das quais o número da encomenda com quase vinte dígitos, surge uma voz simpática informando que, devido às obras circundantes, o nosso carro não conseguiu chegar à morada indicada.

- E porque não ligaram? Eu teria ido ao sítio onde o homem se encontrava e recolhia a encomenda.

- Habitualmente não telefonamos, mas vou anotar e amanhã, se o nosso funcionário não conseguir chegar até si, telefona-lhe.

No dia seguinte, sexta-feira, a cena repetiu-se: mensagem a informar que, entre as 17H45 e as 18H30 estariam à minha porta. De novo, carrinha nem vê-la. Novo telefonema e, depois das "mil e uma" digitações, a mesma conversa.

- Mas a sua colega, ontem, disse-me que me telefonariam se não conseguissem cá chegar.

- Não tenho aqui nada. Talvez se tenha esquecido ...Vou tomar nota, mas agora só na segunda.

O diálogo tornou-se mais ríspido. Tudo indicava que, uma vez mais, era para "calar o freguês" e depois logo se veria. Desliguei, não sem antes transmitir à D. Manuela o meu desagrado e a certeza de que, se a encomenda não fosse entregue na próxima segunda-feira, apresentaria reclamação na empresa de transporte e na vendedora.

Hoje, logo pela manhã e quando regressava de uma voltinha ao quarteirão, surge uma carrinha branca que pára em frente ao portão e se dirige à campainha. Adivinhei logo ...

- Desculpe o que aconteceu. O rapazinho não conhece a volta e não foi capaz de chegar aqui. Tive de cá vir eu.

- Mas, agora, eu só o esperava na segunda-feira. Nem mensagem mandou ...

- Pois ... mas assim fica já feito e o senhor descansado.

É o resultado destas malfadadas obras que, tal como o "bicho", não há meio de nos largarem. Ainda bem que o carro não sai da garagem ...