segunda-feira, 27 de abril de 2009

Aniversário

Comemoro o meu aniversário natalício no Dia da Liberdade, que o não era quando vim ao mundo.

A casualidade faz com que as pessoas das minhas relações se lembrem, num dia tão importante, desta coisa comezinha que é o meu dia de anos.

Uma vez mais, neste ano, foram inúmeros os contactos que recebi, pelas mais variadas vias.

De entre eles, destaco o do meu amigo Artur G., com quem não estou, pessoalmente, há mais de 40 anos. Utilizando o correio electrónico que serve de ligação regular entre o Oeste (onde eu estou) e o Algarve (para onde ele "emigrou"), enviou um vídeo que me trouxe à lembrança muitas coisas que nos foram comuns, nos anos idos da juventude: a música francesa, a procura do saber (o Artur foi bem mais persistente e hoje é distinto professor universitário), o "sei tudo", sem quaisquer dúvidas, o desejo do futuro (melhor), a compreensão de que, afinal, ainda hoje "faz um tempo muito bonito" e todos os dias se aprende.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Palavras bonitas

TROVA DO VENTO QUE PASSA (Incompleta)
 
Pergunto ao vento que passa
Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
E o vento nada me diz

Pergunto aos rios que levam
Tanto sonho à flor das águas
E os rios não me sossegam
Levam sonhos deixam mágoas. … 

Pergunto à gente que passa
Por que vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
Quem vive na servidão. …

E a noite cresce por dentro
Dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
E o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

30 Anos de Poesia
Manuel Alegre
D. Quixote (1995)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

Numa época em que tão maltratada é a nossa língua, um pequeno exemplo de como é possível, com a arte de quem sabe, pintar um retrato com o óleo das palavras:

"... Era o nosso mesmo quartel-mestre da véspera, com o seu quê de sargento e de arrais, brutamontes quando imóvel, desengonçado a andar, olhos pequenos e muito negros inseridos à verruma no rosto de largos planos, descerrando uma acuidade suspeitosa quando fitavam. Tinha uma larga e peluda manápula, dedos grossos, patorra comprida e achatada, quase barbatana, como é próprio dum lobo do mar. Primava pela barba turca, tão retinta que, depois de escanhoado, quedava a salpicar-lhe a tez uma escumilha de azeviche que nem vaporizada à pistola. Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balancé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas. Por outra, nada mais natural que a forma mal esfalcada do tronco e toda a sua rudeza primitiva espirrassem dos alinhavos brancos do latim e das letras que assimilara tão de afogadilho..."

Um escritor confessa-se
Aquilino Ribeiro
Bertrand (2008)

sábado, 11 de abril de 2009

Palavras bonitas

MÁQUINA DO MUNDO

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta da nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

P.S. - No rescaldo da visita à Turquia, a constatação, de novo, de que somos todos iguais, com as diferenças de cada um.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Férias

Vou pôr as baterias à carga e ver como vivem os turcos ...
Volto já, para as amêndoas !!!

sexta-feira, 27 de março de 2009

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Razões afins levarão um dia a que, no algarve, como alguém terá o cuidado de escrever, toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite holiday's village, ou village de vacances, ou ferienorte. Chega-se ao cúmulo de não haver nome para loja de modas, porque ela é, numa espécie de português por adopção, boutique, e, necessariamente, fashion shop em inglês, menos necessariamente modes em francês, e francamente modedeschäft em alemão. Uma sapataria apresenta-se como shoes e não se fala mais nisso. E se o viajante pudesse catar, como quem cata piolhos, nomes de bares e buates, quando chegasse a sines ainda iria nas primeiras letras do alfabeto. Tão desprezado este na lusitana arrumação que do algarve se pode dizer, nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala. (...)"

A viagem do elefante
José Saramago
Caminho (2008)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Assembleia da República

A Assembleia da República passa a ser, a partir de hoje, o Parlamento com a Sala Plenária mais moderna do mundo, na sequência de uma remodelação que custou cerca de 4 milhões de euros.
Para além do orgulho que sentimos por termos algo (para além do Cristiano Ronaldo) que é mais do mundo, estamos certos que o investimento tecnológico contará, entre as suas aplicações, com um corrector ortográfico/gramatical que irá ajudar os nossos deputados na redacção das leis, impedindo, desta forma, que o Procurador da República volte a sentir autoridade para lhes dar algumas "palmatoadas".

domingo, 22 de março de 2009

Premonição ou falta de rigor


O Expresso desta semana noticia que a Bordalo Pinheiro está quase vendida, informando que a Visabeira deverá "salvar da falência um dos ex-libris das Caldas da Rainha", o que transmite alguma esperança de continuarmos a ter, na cidade, o fabrico dos "bonecos" de Rafael Bordalo Pinheiro.
Contudo, a meio da notícia, ressalta uma nova fonte de preocupação, motivada pela frase " O presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Fernando José da Costa, apenas sabe que estão a decorrer negociações."
Estará iminente a transferência de Fernando Costa para Óbidos? A Bordalo seguirá o exemplo da Janela e instalar-se-á no novo parque industrial de Óbidos?
Estou convicto que a gralha pousou no Expresso, talvez motivada pelo matraquear do marketing obidense.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Adágios

Do quotidiano:

  • "Bem prega Frei Tomás! Faz sempre como ele diz, nunca como ele faz!"

  • "Presunção e água benta, cada um toma a que quer!"

  • "Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu."

segunda-feira, 2 de março de 2009

Palavras bonitas

DESPEDIDA

Volto-me e são brancos
os cavalos.
O trigo novo, a música
dos nomes, o tempo da flor,
tudo isso passou.
Mas a terra brilha
como quem não conhece a morte.
Volto-me, os pombos regressam.
Tu já não estavas
e só eu
os vi chegar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)