Telegrama
estou bem e continuo
resisto
de noite custa mas de manhã
quando me visto
meto-te ao bolso
esperança
e assisto
a mais um dia
o calendário anda
para trás o sol é longe
o silêncio corrói
os fios da vontade
mas no meu bolso estás
e lá te afago
tranquila como um lago
que enche de seiva
as veias do meu corpo
Manuel Alberto Valente
Poesia reunida
Quetzal (2015)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
domingo, 3 de maio de 2020
sábado, 2 de maio de 2020
Amor
A azinhaga dividia-se, mais ou menos a meio do percurso, em dois carreiros estreitos e cheios de socalcos. A tradição determinava que o "trânsito" se fazia sempre pela direita, o que significava que uns vinham pelo lado nascente e outros regressavam pelo lado poente. E toda a gente cumpria a regra, não escrita, mas por todos aceite.
O pedregulho que ficava no meio e fazia a divisão era impenetrável. Enorme, muito liso e normalmente com verdete da humidade e do pouco sol que apanhava, não admitia veleidades mesmo a quem tivesse muita agilidade e vontade de descobrir.
Do lado poente, as vinhas perdiam-se de vista, enquanto que do nascente, o mato, os castanheiros, as silvas e, lá mais ao fundo, os pinheiros mansos, formavam a paisagem que, mesmo de dia, não deixava que a vista se lhe entranhasse.
Era já noite e o medo da escuridão obrigava à correria, mesmo com o risco de algum tropeção pôr o nariz a sangrar. Os barulhos que se ouviam eram os do costume: o piar de alguma coruja, assustada, o canto do melro que fugia do galho onde se preparava para dormir, o mio de algum gato por ali perdido, à procura de achamento ou de chamamento.
De repente, um guincho estridente ...
- Não faças barulho, sussurrou uma voz grave.
Todos os sentidos ficaram alerta. O som tinha vindo do outro lado. O que será? E se me vêem?
A curiosidade era forte e o medo não era menor. Já sem correr, caminhou o resto do carreiro e, no final, fez o inverso.
De novo o som do guincho ou do grito, não conseguia identificar ou o medo toldava-lhe a vista e a audição. O mato era denso e o carreiro estreito. Pé ante pé, encosta à árvore, cuidado com as silvas, olha a pedra, não tropeces, não há cobras nem sardões, tudo dorme. Abre os olhos.
Umas silvas pisadas, uns fetos no chão, alguém por ali tinha passado há pouco e o destino não era o carreiro. Sobe a árvore, é mais fácil. E foi. Lá ao fundo, na negrura da noite e sobre uma "cama" da natureza, o casal rebolava ...
Foram namorados e casaram, não um com o outro.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Maio
É o dia da Festa e o dia de cantar, ainda não de vitória, mas de esperança que melhores dias virão, não importando a fúria do mar.
Se tudo correr dentro da normalidade anormal, Maio será o mês de cortar o cabelo, de voltar a ver o mar e a beber café "a sério", e de estar próximo dos meus, mantendo a distância, claro, mas eliminando as conversas com paragens, as imagens distorcidas, o "longo" tempo de espera pelas respostas, as conversas em catadupa.
E para o ano talvez os festejos do Dia do Trabalhador voltem à rua, se possível com poucos desempregados.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Palavras bonitas
PERFILADOS DE MEDO
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido ...
Alexandre O'Neill
Poemas com endereço (1962)
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido ...
Alexandre O'Neill
Poemas com endereço (1962)
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Cabelo grande
A quarentena não impede o cabelo de crescer, parece, até, que o crescimento ainda acontece mais depressa. Ou talvez não e seja apenas impressão.
Há seguramente dois meses que não vou ao barbeiro, a minha trunfa está enorme e, estranho, cada vez mais branca. Juro que a não lavo com Omo, Tide, Extra ou qualquer outro detergente. Todavia, aquele companheiro das manhãs, que habita o espelho enquanto me barbeio, lá me vai dizendo que já não são só as rugas, as manchas brancas da barba e as cãs, que me dão o estatuto de velho, agora designado de idoso, para ficar mais bonito. (Na tropa, quando por lá andei, dizia-se que os novos eram "maçaricos" e que os velhos, felizardos, tinham a "peluda" à porta.)
O comprimento do cabelo, ainda por cima com o aspecto de quem apanhou um nevão na Suíça, reforça o estatuto e dá o charme gostoso, como dizem os brasileiros.
Mal seja dada luz verde para isso, ligarei para o meu barbeiro (não me habituo a cabeleireiro, mas reconheço que é muito mais chique) e marcarei a visita tão ansiada. Não haverá conversas com outros clientes, que não poderão estar, e, tenho quase a certeza, o barbeiro falará da situação, dos problemas que ela (lhe) trouxe e trará, da falta que sente do Benfica, apesar de ter visto vários jogos antigos - Não é a mesma coisa! - da política e de - Onde é que isto vai parar? - , tudo isto atrás de uma máscara, peça essencial no vestuário moderno.
Esta noite sonhei com a barbearia. Era eu jovem e ela um local de encontro para gente de todas as idades. O barbeiro esforçava-se por ter sempre gente na sala ou na pequena escadaria que lhe dava acesso. Havia dois jornais do dia - O Século e A Bola - e alguns dos dias anteriores. Por vezes e por estranho que possa parecer, até se podia ler (quem sabia, claro) a Plateia, a Crónica Feminina e o Século Ilustrado.
A cavaqueira era um regalo, com comentários internos e externos de encher o olho a quem dava os primeiros passos nas "interpretações maldosas".
- Álcool ou sublimado?
- Álcool, claro. Ainda hoje não matei o bicho.
E o barbeiro lá desinfectava a cara do freguês, enquanto ele saboreava o pouco que escorria para junto dos lábios.
Naquele dia não havia ninguém sentado na cadeira e a bata branca do barbeiro sobressaía dos quatro ou cinco que se sentavam na escadaria a apanhar um sol envergonhado.
A mulher conduzia o burro, carregado de batatas e repolhos, que iriam ser vendidos no mercado. O burro, apesar do esforço a que ia sujeito, levava pendurado um enorme membro preto, que quase roçava o chão e se tornou logo motivo para a chacota do costume.
- Ó senhora, olhe que o burro leva a cilha desapertada, gritou o barbeiro com o seu jeito gozão, à procura da gargalhada dos convivas.
A resposta não se fez esperar.
- Eu bem disse ao meu homem para trazer antes a burra. S....a do bicho, assim que vê p........s, fica assim ...
Silêncio absoluto e o sol, agora sem vergonha, tornou ainda mais belo o belo dia!
terça-feira, 28 de abril de 2020
Teimosia
Era uma vez um lápis rombo, que não se deixava afiar. Por isso, escrevia grosso tal como se fosse um carvão enorme, daqueles usados pelos grandes pintores nos seus retratos.
Por mais que lhe dissessem não ser essa a forma correcta de estar, que a sociedade tinha regras, que a aparência contava (e muito), o lápis mantinha-se no seu cantinho, obedecendo a qualquer um que o quisesse utilizar mas, afiadeira, jamais.
O tempo foi passando. A pouco e pouco, o lápis teimoso foi sendo preterido, usado apenas para pequenos apontamentos urgentes, ficando o trabalho mais importante para os outros que se deixavam afiar e se mantinham bonitos, com o bico bem arranjado e a cobertura bem redondinha.
E mais tempo passou. A inutilidade do lápis teimoso acentuou-se e até para as pequenas garatujas deixou de ser usado.
A gaveta da secretária era agora o seu poiso natural, sem que alguém o incomodasse ou utilizasse.
Os seus companheiros, adquiridos na mesma altura, estavam agora reduzidos a pequenos pauzinhos e já só eram utilizados por mãos pequenas. Pouco a pouco, foram sendo substituídos por novos lápis, de cores variadas e de dimensões normais, que iniciavam a sua vida de trabalho e iam sendo afiados ( e diminuídos) à medida das necessidades.
O teimoso permanecia, quase novo, no recanto da gaveta, sem qualquer utilidade, mas sempre mantendo a irredutível teimosia.
Um dia, alguém mais observador, reparou que na gaveta todos os lápis estavam bem afiados e reduzidos no tamanho, excepto um - o teimoso. Indagou o que se passava e recebeu a informação, já descrita, de que se tratava de teimosia do lápis, que não admitia ser afiado. O informador acrescentou que, apenas por mero acaso, o lápis não tinha sido mandado para o lixo.
segunda-feira, 27 de abril de 2020
Quotidiano
A gaivota ainda deverá estar por lá, a mirar terra que do mar está ela farta. Ao contrário, eu já não o vejo há 47 dias! Pelo andar da carruagem, talvez em Maio. Deste ano, espero eu!
domingo, 26 de abril de 2020
Aniversários
Ontem foi um dia de emoções fortes.
Para além das emoções e recordações que o 25 de Abril sempre (me) traz, o aniversário de ontem foi bem diferente e especial.
Há 46 anos as pessoas foram para a rua, sem temor dos tanques ou das G-3 e deram largas à sua alegria, cantando efusivamente a queda de um regime caduco e opressivo. A satisfação de não ter sido utilizada a força que, a acontecer, poria portugueses contra portugueses, fez com que os cravos da vendedeira do Rossio ficassem para sempre ligados ao dia inesquecível "inicial inteiro e limpo", como o descreveu Sophia.
Ontem comemorou-se mais um aniversário da revolução e também o meu.
Em ambos, a comemoração foi muito diferente do habitual: o da revolução não teve gente nas ruas, foi discreto, sem exuberância, com os sentimentos a exprimirem-se nas varandas, nas janelas e nas redes sociais. Na Assembleia da República, a imagem mais parecia uma sala de espectáculos tristemente sem público, com actores a sério e alguns, poucos, a não perceberem ou a não quererem entender o sentido da "peça"; ao meu valeram as novas tecnologias, permitindo ouvir e ver os parabéns cantados pelos meus, à distância, mas com o entusiasmo do costume.
A mesa do almoço era enorme e estava tão vazia ...
"Arquivei" algumas recordações que já juntei ao "livro da memória". O poema da minha irmã e as placas dos meus netos mais velhos estão já resguardados do caruncho e da humidade, no cantinho mais importante que, espero, o meu cérebro mantenha sempre bem cuidado.
Agora, fazendo as contas, verifico que o 25 de Abril ainda é muito novo: eu, já fiz 68 anos, e ele, ainda só tem 46. Está na "flor da idade". Porém, e embora na linguagem oficial ainda não esteja no grupo de risco, parece andar por aí também um vírus à solta que o pode atacar e, se não o levar à morte, trazer-lhe alguns dissabores.
sábado, 25 de abril de 2020
Liberdade e Poesia
E alegre se fez triste
Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.
Ela só viu dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
Manuel Alegre
Aquela clara madrugada queviu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.
Ela só viu dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
Manuel Alegre
"(...) cerrou os punhos: Ah, liberdade, és uma conquista permanente, uma perpétua vigilância! e não um leito de rosas ...(...)
José Rodrigues Miguéis - Uma aventura inquietante
sexta-feira, 24 de abril de 2020
Liberdade e Poesia
Por entre o crepitar dos automóveis
Por entre o crepitar dos automóveis
o bulício inquebrável da cidade
o relincho das nuvens quando imóveis
me oferecem na garupa a liberdade,
por entre o que hoje sei e nunca sei
deste abrupto silêncio que me invade
sem que uma nesga azul do que inventei
deixe de ser mentira ou ser verdade,
pudera um dia alguém ter leve imagem
de mim que fico e parto sem vontade
ao sabor de um destino de viagem,
pudera eu querer parar em minha idade,
aperceber-me enfim da percentagem
que sobrando me está de eternidade.
Maria Alberta Menéres
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