quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Rio

Corre um rio para o mar ...

E vai lá chegar, ultrapassando obstáculos, vencendo dificuldades, cursando o seu leito, da nascente até à foz, com ou sem afluentes e influentes. Tudo o que o rodeia contribui para o seu percurso, desde quem gosta de o ver limpo, garboso, contente, a muitos que o agridem, com lixo ou lixando-o, sem respeito pela sua natureza única e importante.

Cíclico, teimoso, lá segue por altos e baixos, estuários e veredas, curvas, rectas e encruzilhadas, percorrendo o trajecto que lhe surge determinado a cada momento, tentando sempre o melhor caminho para chegar a bom porto. Nem sempre o consegue. O trajecto, muitas vezes, torna-se mais longo, mais lento, mais exigente, mais penoso, mais difícil. Mas vai lá chegar, com mais ou menos escolhos, com erros de escolha e falhas na decisão.

Nem mesmo um rio consegue ser perfeito ...

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Tempo

Não chega para nada. Mal começou e a semana já está no fim. Tanta coisa para fazer e os dias como que desaparecem. Quarta passada, semana acabada, aprendi há muito tempo.

Não se compra nem se vende, nem mesmo nas grandes superfícies. Vive-se. Sem dramas nem sobressaltos, sem demasiada pressa nem lentidão em excesso. Tempo certo, à velocidade certa, com as certezas possíveis e as incertezas do costume.

De vento em popa, ao sabor da maré, como Deus quer, cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas, à espera de melhores dias, é o destino, há quem esteja muito pior e muitos há que nem o sol vêem. Respaldamo-nos nas frases feitas, naquilo que sempre ouvimos e dissemos, sempre com a língua afiada para assinalar os defeitos dos outros e uns bolsos, enormes, para guardar, bem fundo, os nossos.

E adiamos, ou procrastinamos, como agora se diz para mostrar eloquência, não esquecendo a resiliência que nos é característica e também está na moda.

Amanhã também é dia, apesar de o dia, o mês ou o ano se aproximarem velozmente do fim. É sempre a mesma coisa ... mas melhores dias virão, não tenhas dúvidas!

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Simpatia e burocracia

À entrada, o aviso manda aguardar pelo segurança naquele local, cumprindo o distanciamento determinado e indicado no chão, com circunferências coladas. O segurança está a atender três jovens ao balcão. Demorou muito pouco e dirigiu-se a mim, cumprimentando-me e perguntando em que pode ajudar.

- Venho tratar do assunto desta carta.

Verifica o papel que lhe exibo e, de imediato, informa:

- Vire ali à esquerda e, depois, entre na primeira porta. 

Assim faço. Logo à entrada, um cartaz, grande, identifica "BALCÃO +". Três postos de atendimento, vazios. Todos têm acrílico e um deles, que tem pendurado o aviso de ser destinado a grávidas, deficientes e idoso, tem uma cadeira. Na parte de dentro, um pouco ao lado dos postos de atendimento, uma senhora sentada na frente de uma secretária imersa em papéis. Lá ao fundo, dois funcionários já entradotes, discutem um problema informático, muito importante e difícil, pelo menos a julgar pelo que vou ouvindo.

- Bom dia.

Ninguém responde. A senhora da secretária, talvez incomodada com o meu olhar, entende, daí a algum tempo, que eu mereço uma explicação. Diz, de forma eloquente e esclarecedora:

- Aguarde um momento.

- Obrigado.

Passam mais uns minutos e eis que surge, da rua, um homem em passo vagaroso e ar contrariado. Com ar de quem sabe tudo, dirige-se ao posto onde aguardo, tranquilamente. Tenho tempo ...

- Diga!

- Bom dia.

Silêncio.

- Venho entregar esta carta, para responder a este ofício do Tribunal. Trago aqui uma cópia, para confirmar que recebeu o original.

Mira tudo com uns olhos experientes, de quem sabe daquilo a sério. Coloca a carta no monte dos assuntos  a tratar, presumo. Vai lá ao fundo buscar um carimbo que usa para certificar a cópia. Devolve-a sem uma palavra, um esgar, um sorriso.

- Bom dia e obrigado.

Ninguém me liga. Os dois mantêm a discussão informática, a senhora continua assoberbada nos papéis, o "atendedor" senta-se, por certo cansado com o trabalho que lhe dei, àquela hora da manhã. Sinto que fui perturbar o sossego de quem, com esta pandemia, ainda tem de trabalhar. E se o raio do velho nos traz o vírus, devem ter pensado aqueles pobres trabalhadores.

Voltei para casa e deliciei-me com as flores do meu jardim. Estão sempre a sorrir!



segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Barraca

Já por aqui falei dele, a propósito da sua eloquência com as flores, que adorava e tratava com um carinho inigualável.

Mimoso de apelido e Mário de nome, apenas estas duas palavras o identificavam. Nome curto tal como o tempo que a vida lhe reservou. Era homem humilde, quase analfabeto, mas sempre com uma graça, mesmo nas situações mais bizarras. O colete fazia parte da sua indumentária e trazia, preso no botão do meio por uma corrente, um relógio "cebola" no bolso do lado esquerdo. O colete acompanhava-o por todo o jardim e era pendurado no arbusto ou na árvore que estivesse mais perto do sítio onde decorria o  trabalho. Cabia-lhe a missão de tocar o sino e, por isso, tinha de ter horas certas e sempre à mão.

O jardim era (e é) enorme. Uma casa de madeira, com dois pisos, era o suporte logístico de todas as tarefas que por ali se desenvolviam. Era conhecida por todos como "A barraca do Mimoso". No rés-do-chão guardavam-se as ferramentas e os adubos. Havia uma mesa, grande e vários bancos, tudo de madeira maciça e sem uma ponta de caruncho. Era utilizada para os almoços e as merendas de quem ia trabalhar ao jardim, nos períodos de maior afã. O primeiro andar era a "estufa". Era lá que o Mimoso mantinha os vasos com as flores mais sensíveis, que só apareciam em ocasiões especiais, nomeadamente quando havia visitas importantes e o jardim tinha de ser apresentado num "brinquinho", para ser usufruído e gabado.

Sempre que o S. Pedro se lembrava de mandar chuva, o jardineiro, que dizia não ter "horta nas costas", acrescentava com um sorriso malandreco:

- Vai prá barraca, Mimoso!

E resguardava-se, sentado no banquinho, à espera que o tempo melhorasse. É o que tenho feito nestes últimos tempos, mesmo sem chuva: uma volta ou volta e meia e, recordando, digo para mim ou para quem está perto:

- Vai prá barraca, mimoso.

domingo, 15 de novembro de 2020

Gaivota

Uma gaivota voava, voava ...

Cansou-se. E nada melhor que o mastro - não o maior do mundo que esse é pertença dos Deolinda, mas o que assinala a escola de vela - para conceder a si própria o merecido descanso.

Pousou, bicou-se para ter a certeza de que tinha chegado a bom porto, e por ali ficou, extasiada com a paisagem, protegida do vento que não soprava, e com o mar, lá ao fundo, a marulhar, sem lhe causar qualquer incómodo mas não a deixando esquecer que, por lá, ficam os seus domínios.

Aprecia os passeantes, espreita os pescadores, mira o voo dos patos, tão diferente do seu. Agora tem mais um motivo para por ali ficar: chegou o paddle, essa nova actividade aquática que cada vez atrai mais pessoas, remando no remanso das águas, suando as estopinhas quando a maré tem força para contrariar os atletas. Mas parece valer a pena, a avaliar pela elegância que se vê nelas e pela peitaça que surge neles.

Estão na moda as pranchadas na lagoa ...

sábado, 14 de novembro de 2020

Pedincha ou necessidade

Dou, não dou? O dilema surge sempre e nunca sei o que fazer. A negativa, agora, prevalece quase sempre, porque deixei de andar com dinheiro no bolso, notas ou moedas. Facilita a decisão, mas deixa-me sempre constrangido e com um peso, grande, de culpa. 

Nestes anos todos, a andar e a conhecer mais ou menos bem tantos sítios, encontrei muita gente com necessidade real e também deparei com alguns que o faziam por vício, fingindo maleitas ou defeitos que não tinham, para depois irem depositar uns cobres na sua conta mais ou menos recheada. 

A pergunta surge-me sempre: não há forma de eliminar esta praga? Não há vacina que ponha cobro a esta miséria? E aparecem sempre inúmeras respostas que nem vale a pena enumerar. A verdade é que se mantêm muitos seres humanos a estender a mão, sérios ou fingidos, pouco importa. 

Não quero acreditar que o melhor seja não olhar, não ver nem reparar porque, como diz o ditado, penas que não se vêem não se sentem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A desconfinar"

"Vê lá se te sai o sábado à sexta-feira" era uma expressão usada muitas vezes por minha mãe, alertando-me para as surpresas, boas ou más, que a vida sempre nos reserva, por mais estranhas e inverosímeis que possam parecer.

Por força do malfadado vírus e das restrições em vigor, o Expresso antecipou a sua saída para hoje, sexta-feira, 13. Isso não impediu que o saco esteja cá em casa desde manhã e que a leitura do primeiro caderno já vá a meio.

O primor e a oportunidade do cartoon de António não é surpresa, nem mesmo à sexta-feira. Vamos ver se a fava açoriana não é o prenúncio de uma agricultura intensiva no continente ...

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Coisas de velhos

Como soe dizer-se, fui dar umas braçadas à piscina municipal, para exercitar o físico e manter alguma destreza muscular. Claro que também dei algumas pernadas ...

Conversa fiada. As adiposidades mantêm-se e a idade do condor acentua-se: hoje foi com dor no joelho a que faltam peças, na cervical que está cansada de segurar a coluna bem direita e, se calhar, em mais alguns locais dos quais nem dei nota. Tarefa concluída, sempre com os cuidados devidos.

A ida ao café foi rápida, como convém para não dar hipóteses ao bicho. Parece que, mesmo não lhe dando confiança nem lhe passando cartão, ele teima em querer entrar e nem precisa de convite. O resto das notícias vistas e ouvidas do sofá, local onde acontecem eclipses que nunca são noticiados.

Depois, a relva. Que mania, sempre a crescer e a gritar "corta-me". E tem atenção, porque não te deixo cortar-me se estiver a chover, acrescenta, soberba, determinando e exigindo sem qualquer pudor ou tolerância. Até parece patroa!

Está o dia ganho! Agora é fechar os estores, acender as luzes (apenas as necessárias, que a energia tem de ser poupada), pôr a mesa, comer a sopinha, uma peça de fruta, um café de cápsula, ir para a sala, sentar, ouvir, ler e dizer meia dúzia de palermices. Passado algum tempo, surgirá a sacramental pergunta:

- E se nos fôssemos deitar?!

Coisas de velhos! 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Cão mole

Era um buldogue pachorrento e muito dorminhoco. Passava mais tempo deitado nas sombras do que a andar. Ao mínimo movimento por perto, abria um olho para reconhecer se a visita era conhecida, fechando-o de imediato após confirmar. Se não era dali, levantava-se, calmamente, aproximava-se, cheirava como que certificando que vinham por bem e voltava ao poiso de onde tinha saído.

Era enorme e dava pelo nome de Bob. A baba escorria-lhe da boca em quantidade e a língua estava quase sempre de fora. Parecia cansado, arfando de forma bem audível e movimentando-se em câmara lenta. Não fazia mal nem às moscas que, por vezes, passeavam pelo seu lombo castanho, bem nutrido. Passeava pelo jardim, mergulhava na piscina se não houvesse ninguém por perto a ralhar-lhe, deitava-se debaixo dum buxo ou no meio dos fetos, sempre numa mansidão de gestos que quase afligia. Os melros, os piscos, as felosas, os pardais e as, poucas, perdizes que por vezes apareciam, podiam estar junto a ele que nem se mexia.

Como ninguém é perfeito, o Bob tinha um ódio de estimação a gatos. Estes, talvez avisados, raramente por lá andavam. Se, porventura, isso acontecia, era quase certo que já não saíam pelas suas patas. Aquele corpanzil mole e dolente adquiria uma elasticidade e uma velocidade que ninguém imaginava pudesse ter.

O gato era apanhado a meio, o Bob abanava a cabeça duas ou três vezes, abria a boca e o que, até ali, era um gato, passava a ser apenas um corpo morto a pedir sepultura. 

Morreu de velho, o Bob. Quase no fim, já sem elasticidade nem força, as orelhas ainda se levantavam de cada vez que um bichano mais atrevido rondava os seus domínios.

Dizia-se que, lá no fundo, o Bob nem se apercebia do mal que fazia. Ele era tão bom e tão meigo ...

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A forja

Até o carvão era especial. De hulha, comprado, vinha em sacas grandes, de serapilheira, e durava mais ou menos uma semana. A oficina era de tamanho reduzido, dava para o pátio, tinha uma bancada na entrada, o fole e a braseira lá ao fundo, a janela ao lado, sempre mascarrada de fumo e resíduos. A bigorna ficava logo a seguir à bancada, bem perto do calor da forja.

Tarefas: fazer ferramentas novas e manter as antigas em boas condições para o trabalho. E por lá se faziam enxadas, sachos, foices, gadanhas, podões, forquilhas e tantas outras, que haveriam de ser utilizadas pelos trabalhadores nas tarefas agrícolas de todo o ano.

A braseira era acesa todas as manhãs, sem grande dificuldade. O lume permanecia do dia anterior, ainda que brando, afrouxado e sem se notar. No final de cada dia era tapado com carvão novo e assim dormia. Mal o fole era accionado, à custa do braço, claro, surgiam as primeiras faúlhas e, daí a pouco, a temperatura já permitia entalar no carvão a peça que se desejava trabalhar, levando-a ao rubro. Depois, o martelo, a bigorna e a habilidade do ferreiro faziam o resto.

As peças habituais não suscitavam problemas e a sua realização era rotineira, com as marteladas a acontecerem quase sem olhar. O nervosismo, a exigência e a habilidade saltavam quando o pedido era mais elaborado, esquisito e vinha de quem mandava: uma ferramenta original, adaptada às necessidades, uma cabeceira de cama, uma varanda, uma vedação bonita, uma guarda de lareira, uma armação para o vaso da sala verde ...

- Não têm nada que fazer...só sabem chatear. Nunca fiz isto. Só me dá vontade de os mandar à .... 

E vinha um rosário de impropérios, com todas as letras, se não havia patrão ou senhora por perto. Puxava a onça do tabaco e o livrinho das folhas do papel. Encostava-se à bancada, enrolava o cigarro com toda a calma, coçava a cabeça levantando o boné, pensava e

- Sabes para quando é que é preciso?

- Dia tal ... 

- Vou ver, mas não prometo!

A peça aparecia, perfeita, e normalmente antes do prazo.