quinta-feira, 4 de março de 2021

Pecado

Eu, pecador, me confesso ...

Ontem carpi mágoas de saudade de um café do café. Hoje, a meio da manhã, um SMS "maroto" dava a sugestão de uma visita ao café habitual, antes das 14 horas, que é a hora do fecho. Talvez haja uma surpresa.

Almocei e fui até lá. Não havia ninguém à espera. Mostrei-me através da montra e aguardei que o sinal sonoro me desse indicação para entrar. Em vez de me dirigir à parte do take-away ou à do quiosque, foi-me indicado o acesso outrora livre e agora apenas destinado a quem lá trabalha.

No escuro, a chávena apareceu, por milagre, à minha frente. Quentinha, a chávena, e a bebida, cremosa, ainda a fumegar. Bebi. Nem saboreei, mas soube tão bem! Até a máscara gostou! Quando a voltei a colocar, passadas mais de duas horas, ainda havia o cheirinho maravilhoso daquela bica tão ansiada.

Sabe sempre bem pisar o risco ... mas não pode ser sempre nem se deve divulgar.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Rotina ou talvez não ...

O drama da folha em branco ... não tenho nada para dizer e muito menos para escrever.

Não que o mundo tivesse parado, eu tivesse deixado de estar atento ou não estivessem a acontecer coisas que a todos interessam, como aquela do japonês que está a oferecer viagens à Lua, para concretizar em 2023. Só não me inscrevo porque ainda não tenho o "passaporte vacinal" e não arrisco ir lá e sujeitar-me a apanhar o "corona lunar".

Sinto falta de café do café, de andar por aí sem "rédeas", de ver gente, de conversar ou de estar calado, sem a isso ser obrigado. Não há meio, mas tudo indica que o dia vai chegar em breve. Já ninguém põe à janela o "vai ficar tudo bem" e deixou de ouvir-se o papagaio carioca falar do "resfriadinho". O das melenas já foi passear e estará agora a meditar sobre a cor da casa que substituirá a Branca, que não deverá ter Sala Oval. Pondera, também, se deve manter a cor do cabelo e a "brasa".

Cá pela cidade, tal como no país, começou a agitação dos candidatos a autarcas e já há um candidato perfilado. É edil de Junta e vai tentar ser promovido à governação principal do concelho.

"Cheira-me" que, este ano, as autárquicas vão ser diferentes ...

terça-feira, 2 de março de 2021

Mãe

- Vou buscar os medicamentos e volto já.

- Não vale a pena. Quando voltares já cá não estarei.

Era um final da tarde e estavas deitada na cama do hospital, com grandes dificuldades na respiração mas completamente lúcida. A percepção do que iria acontecer era muita mas, ainda assim, saí para satisfazer o pedido da enfermeira. Não cheguei a casa e os medicamentos por lá ficaram ... o telefone tocou antes e voltei pelo mesmo caminho. Tinhas razão ...

Foi há dezassete anos e continuas a ser a minha rosa, da noite, da tarde e da manhã.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Palavras bonitas

 SERENATA DO ADOLESCENTE

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade, 
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome de luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda - ante o teu seio -
queimar tão pobre mocidade!

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Sismo 1969

Não sou muito dado a efemérides. Os jornais e as televisões encarregam-se de nos trazer à lembrança coisas que, aos olhos de muitos, aconteceram há imenso tempo e das quais já poucos se lembrarão. A mim, parece que foi ontem ...

Ainda não tinha feito 17 anos e estava a dormir em casa, com apenas a minha mãe por companhia. O meu pai teria saído há pouco para o trabalho - começava bem cedo, quando a noite ainda estava no auge - e a minha irmã estava pela capital do distrito, a estudar. Só regressava ao fim-de-semana e aquela noite de 28 de Fevereiro de 1969 marcava o início de uma sexta-feira. Já não recordo bem a hora em que o sismo se deu, mas deverá ter sido por volta das quatro da manhã. O sono era profundo e a minha mãe abanou-me bastante para me acordar. Ainda ouvi os copos a tilintarem no armário da louça e vi a aflição dela, a gritar para sairmos, que a casa podia cair.

Viemos até à porta. Havia vizinhos aflitos, com medo, mas nenhuma casa tinha caído e não havia outros estragos. O susto foi grande. Dele restou um efeito: ainda hoje acordo sem dificuldade nenhuma e sem rabujice.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Magnólia

A Primavera está a chegar e o Inverno, que tanto nos tem torturado, parece finalmente disposto a partir, e a dar-nos possibilidade de voltarmos a ver o Sol e a rua, sem grandes receios mas com as cautelas que se impõem e, tudo o indica, vieram para ficar. 

A magnólia, que foi retirada do vaso já moribunda, adaptou-se ao espaço amplo, no meio da relva, renasceu e já floriu.

Por vezes o conforto não garante o bem-estar e liberdade rima sempre com felicidade, por pouca que seja. Foi o que aconteceu à magnólia: confinada ao espaço de um vaso, feneceu e manifestou claramente intenção de partir. O vaso dava-lhe algum espaço e conforto mas ela queria a liberdade, sem muros, para mostrar a sua graça, o seu contentamento e ... a mosca que dela muito gosta.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Palavras bonitas

CIRCULAMOS EMBOLSADOS

Circulamos embolsados
em automóveis de luxo

Nas portas surdas
os fechos
são linhas a níquel a traçar o limite
dos peões ocasionais

O espaldar desune
anula o solavanco
reduz a área exposta

Esguichos lavam
pára-brisas que a gargalhada abaula
Clareiam as estradas

Só o retrovisor
lembra o caminho andado
a um olho reflectindo
de quem guia

Trémulo o chassis
pressagia
as roturas
os sulcos dos freios
a divulgação do desastre

Mas real e criada
no bolso de Picasso
uma pomba de bico florido
suja por inocência os tejadilhos

A noite dividida
Sebastião Alba

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Tempos novos

Desde há um ano que vivemos tempos novos, inclementes para muitos, dificílimos e estranhos para todos. O malfadado bicho e as suas variantes têm azucrinado a vida, provocado nervosismo, aumentado a miséria, impedido os contactos, a diversão e o lazer, o descanso e o convívio, para além do trabalho da grande maioria.

A situação que temos vivido é inédita para as actuais gerações, sem qualquer semelhança com os ecos da guerra civil espanhola, a fome e as restrições da segunda grande guerra, a violência da ditadura e os tormentos da guerra colonial.

Apesar disso, numa altura em que o bom senso devia prevalecer e a união na diversidade de opiniões deveria estar sempre presente e ser obrigação de todos, assiste-se a um conjunto de barbaridades ditas, muitas vezes, por gente que deveria estar calada. Proliferam pelas redes ditas sociais "notícias" e "comentários" de arrepiar, algumas vezes com aproximações à verdade mas, na maior parte, com redondas mentiras e invenções.

Dir-se-á: é o produto do progresso e da evolução tecnológica! Não é nada! É o espalhar da burrice, da grosseria, da malcriadice, da insensatez, de muitos que, se estivessem "olhos nos "olhos", ficariam caladinhos a acenar a cabecinha e de "rabinho entre as pernas". 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Teatro

Apesar de continuar confinado no Oeste profundo, a dois passos do Atlântico e, longe, longe, da civilização que se desenrola pelos lados da capital, sob a supervisão do Marquês lá do seu alto "leonino", ontem fui ao teatro. 

Sem sair de casa, cumpridor que sou da lei e das recomendações, desloquei-me à secretária, liguei o computador - também podia ser no IPad ou no telemóvel, mas o conforto não seria o mesmo -, "abri" o Teatro D. Maria II, comprei o bilhete e assisti a um excelente espectáculo, de mais de três horas, com um pequeno intervalo quando eu o determinei.

A peça chama-se ÚLTIMA HORA, tem texto de Rui Cardoso Martins, encenação de Gonçalo Amorim e interpretação soberba de todos os actores, com destaque para José Neves, Maria Rueff e Miguel Guilherme. Aborda o tema do fim dos jornais "a sério", em época de redes sociais e de notícias de "sangue".

Vale a pena. O bilhete custa apenas 3,00 Euros, sim, não me enganei, 3,00 €, e a peça estará em cena até ao dia 26 deste mês.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Corrupção ou solidariedade

Um homem alto, espadaúdo, bem falante, capaz de manter uma conversa escorreita, quando não estava de serviço. Fardado, era intratável, roçando sempre a arrogância e a malcriadice. Agente da PVT, acrónimo de Polícia de Viação e Trânsito, designação oficial, à época, da autoridade a quem competia a fiscalização do trânsito e a aplicação das multas por excesso de velocidade, por peso a mais, por deficiente arrumação das mercadorias, e por muitas outras infracções, algumas "inventadas" à última da hora, para justificar o serviço e o "papelinho".

O posto dos "Provadores de Vinho Tinto", como eram conhecidos na gíria, funcionava à saída da cidade (ou à entrada, para quem vinha do sul), era dotado de uma balança de pesados e estava quase sempre aberto, mesmo a horas fora do comum. Paralelamente, havia agentes a deslocarem-se de mota, na procura de infracções protagonizadas por condutores que utilizavam outros caminhos que não os que passavam pelo posto. Muitas vezes, os veículos de mercadorias apanhados "por aí", eram obrigados a vir "à balança" por suspeitas de peso a mais, só possível de confirmação no tal equipamento situado nas traseiras do redondo edifício.

As empresas, ou melhor, os patrões, na linguagem comum à época, tinham receio da PVT  e procuravam ter com eles as melhores relações, distribuindo lembranças regularmente, em espécie ou mesmo em dinheiro vivo. Por vezes, eles apareciam, à civil, para cumprimentar e, com esse cumprimento, se fazerem notados e lembrados. Era sinal de que o abastecimento não tinha acontecido ou o gasto havia sido demasiado e era necessário reforçar o stock.

- Não precisa de nada? Uma caixinha branco, ou é melhor tinto?

- Já que insiste, pode ser uma de cada.

Daquela vez, o assunto era complicado, via-se bem, e a conversa tinha de ser com o patrão. Havia algum nervosismo, o que não era nada costume. O encontro foi proporcionado e a conversa deu-se.

- Sabe, decidi construir uma "barraquita" e, como o ordenado é pouco, conto com a ajuda dos amigos.

- E como posso eu ajudar? De que é que precisa mais?

- Tudo. Cimento, areia, madeira, tijolo, fretes, o que lhe for possível. Tudo faz jeito.

A "barraquita" ainda hoje existe, com um jardim frondoso à frente e um terreno extenso, nas traseiras. A "olho", deve ter mais de duzentos metros quadrados e desenvolve-se em dois pisos. Uma "barraquita" ...