sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Viagem solar

Nasceu lá no Este europeu e mandou avisar toda a gente de que traria calor para esturricar os corpos, mesmo aqueles que já são castanhos de natureza. Os serviços de meteorologia e os orgãos de comunicação social, sempre muito atentos, difundiram a boa nova e os avisos com cores, alertando todos os veraneantes para os inconvenientes da exposição solar e os trabalhadores agrícolas para as proibições que estão em vigor, nos trabalhos e nas queimadas.

O Sol veio no TGV até Vilar Formoso, tomou lugar no Intercidades e desceu a Santarém num instante. Estava convencido que aí poderia apanhar uma outra composição com destino ao Oeste e que seria um pulinho até chegar à praia. Consultou os avisos, espreitou os mapas e nada, não encontrou nada. Ficou perplexo. Procurou o Chefe da Estação e indagou como poderia prosseguir a viagem.

- Só na Rodoviária e não vai ser fácil. Mas tente!

Conseguiu lugar num autocarro até Rio Maior e, cansado da viagem e dos transbordos, ficou por ali. Afinal de contas, a cidade é pacata e engraçada, até tem minas de sal, e os tipos lá do Oeste, que não se preocupam em arranjar comboios em condições, que esperem sentados.

Talvez amanhã ... ou na próxima semana! Tudo vai depender de as nuvens chegarem (ou não) a Rio Maior.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Palavras bonitas

Buarcos, 20 de Agosto de 1937

Um pinheiro.
Olho esta vida aqui no areal, 
Serena, ao vento, ao sol e ao cheiro
Deste mar animal;
 
Meço-lhe o pé seguro,
A largura dos braços e a certeza
Que tem de cima abaixo de ser duro
Conforme lhe mandou a natureza; 
 
E deito-me à sombra dele, no chão, 
- No mesmo chão onde eu não pude ser
Nada mais que um bicho anão
A gemer. 

Diário I
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1989)

(Nota: Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907)

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Ciclismo

A Volta a Portugal em Bicicleta está a decorrer desde 4 deste mês e, de acordo com o calendário fixado, deverá terminar em Viseu, no próximo domingo, dia 15. Todavia, o malfadado "bicho" que nos acompanha há quase dois anos, poderá fazer mais estragos do que os já feitos e impedir, até, que a corrida chegue ao fim,

De acordo com as regras, como dizia hoje, bastante emocionado, o director da equipa Rádio Popular/Boavista, vamos para casa porque temos mais um caso positivo e, ao segundo caso, a equipa tem de abandonar a prova.

E, com esta, já lá vão três equipas das dezoito que iniciaram. Esperemos que fique por aqui, para que a competição, já fortemente afectada, chegue pelo menos ao fim. 

Conseguiremos, um dia, vermo-nos livres desta maldição? O meu médico de família disse-me hoje que, na próxima consulta, marcada para daqui a seis meses, ainda ambos usaremos máscara. Perspectiva animadora ...

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Actualidade

Vivemos tempos difíceis e bem diferentes.

Logo pela manhã, a notícia de que a PSP inicia uma operação para detectar casos de fragilidade social e uma outra para controlar os excessos de velocidade. Pergunta inocente: mas isto não faz parte da actividade policial durante o ano inteiro?

Uma espreitadela pelas primeiras páginas dos jornais e salta à vista a foto em bikini da Ministra da Saúde, passeando numa praia algarvia com o marido. Notícia assim e na primeira página só poderia ser nesse arremedo de jornal que se chama a si próprio de Correio do tempo em que sai. Pergunta inocente: adianta alguma coisa à governação, aos governados ou à melhoria "covidiana"?.

Ainda de manhã, um diálogo curioso:

- Já não somos vizinhos. Fomos ontem para a casa nova.

- Então agora vêm as criancinhas ...

- Nem pensar! Temos o cão e chega. Já ladra muito ...

Uns "caramelos" de Vila Real deram notícia, pelas redes sociais, de que um tal André "está doente" mas que "A Nossa Senhora de Fátima está com ele e não vai permitir que um dos seus escolhidos sucumba a uma doença criada na China para destruir o (...)". Quem lhes espetasse um pano encharcado nas trombas ou, como diria uma antiga professora minha, "valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés."

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Medo

Dizia-me ontem um amigo com quem não estava há largos meses:

- Mal saio de casa. Tenho medo. Vou ao supermercado logo pela manhã e tento despachar-me depressa. Nem à praia venho ... calhou hoje, mas vou embora não tarda nada. Está a chegar muita gente.

Medo. Apesar do tempo decorrido, do número de pessoas já vacinadas, de as notícias transmitirem um pouco mais de esperança, continua a ser a palavra mais presente, mesmo quando não é pronunciada. O que se tem passado deixa marcas, obriga a questionamento, transmite insegurança, deixa dúvidas permanentes, e termina sempre com "E se?".

Vive-se um tempo difícil, que faz perder a paciência, se é que ela ainda se encontra por aí. Exasperamo-nos com as esperas, não tiramos os olhos de quem tem por missão desinfectar, receamos pegar no correio que o carteiro nos estende, aproveitando bem o comprimento do braço, duvidamos que a mão do empregado não tenha tocado na chávena. E a inversa, tal como na matemática, também é verdadeira. Será que este tipo não estará?

Há medo do vírus corporal e do informático, há medo das fraudes, dos contactos, do trânsito, do calor e do frio, do vento e da chuva, há medo dos fogos e do polícia, de tudo e de nada, transformando-nos em medricas, hipocondríacos, opinativos, "achistas", "melgas", egoístas, parvos, estúpidos, convencidos, cheios de certezas absolutas e de ausência de dúvidas.

- Eu não tenho dúvida nenhuma de que ...

Até quando? A ver vamos ... 

domingo, 8 de agosto de 2021

Desporto

Chegam ao fim os Jogos Olímpicos 2020, realizados em Tóquio este ano, em consequência das limitações impostas por esse malfadado vírus que teima em manter-se na nossa companhia, apesar dos sentimentos que desperta e das vacinas que vão sendo dadas. Que me lembre, são os primeiros Jogos que acontecem em ano ímpar e julgo até, sem ter recorrido à "enciclopédia Google", que tal nunca se tinha dado.

Portugal teve uma participação "curiosa", arrecadando o maior número de medalhas de sempre - uma de ouro, por Pedro Pablo Pichardo no triplo salto, outra de prata, por Patrícia Mamona também no triplo salto, e duas de bronze, uma no judo por Jorge Fonseca e outra na canoagem, por Fernando Pimenta. Foram tidas e mostradas algumas atitudes e reacções que não lembram "ao diabo" mas lembraram a algumas pessoas com responsabilidades, de atletas a jornalistas. E foi pena!

O desporto, mesmo para os que dele fazem profissão, encerra um princípio elementar e que tem de estar sempre presente - saber perder. Deve aprender-se de pequenino e permanecer para sempre, a não ser que o mundo esteja de pernas para o ar e que andemos todos na Lua. Para que alguém possa ganhar tem de existir pelo menos um que perca. E o que é normal é perder, porque só há competição quando os participantes são pelo menos dois, e apenas um fica em primeiro.

Um pouco de humildade faz sempre bem, mesmo quando se foi ou ainda se é atleta de primeira linha.

sábado, 7 de agosto de 2021

Vícios

Há muitas coisas que já não conseguirei concretizar, mesmo que viesse a terminar para além dos cem, desiderato que não será atingido ainda que a minha vontade fosse muito forte.

Uma delas é ler todos os livros que tenho, todos os que ainda espero adquirir e aqueles que gostaria muito de ter lido mas que não foi possível fazê-lo no tempo devido. Ler é uma paixão que pede meças com o prazer de comprar. Talvez seja melhor utilizar a palavra vício em vez de paixão. Chega a ser obsessivo, a quase não ter limites e a obrigar a tento na "pinha" e na carteira. Para ajudar, estas modernices dos cartões, dos telefones e de todas as demais formas de gastar facilmente o dinheirinho, subtraem a noção de custo, desvalorizam o gasto, menosprezam a necessidade e reduzem o racionalismo a quase zero. Ainda por cima, há formas de pagar que demoram mais de um mês a produzirem efeitos visíveis na tal carteira, que é nova e, se não se cuida, abre-se em demasia. Nem tem moedas a tilintar ...

- Tenho aqui tantos para ler ... mas este não posso deixar de comprar. 

- E este, que saiu agora e é de um autor de quem nunca li nada. A sinopse é interessante e li uma crítica muito boa. 

A Feira do Livro vai começar a 26 de Agosto. A lista está feita e sofrerá muitas actualizações. Para além disso, no local há sempre qualquer coisa que chama, apela, manifesta-se. Está decidido: até lá, por muito forte que seja a vontade, não comprarei mais livros!

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Sabedoria

Ontem o pescador, diligente e amigo, tinha avisado:

- Aproveitem bem. Amanhã o mar dá a volta.

Ninguém ligou ao aviso, na certeza de que era basófia de pescador a dar "uma de entendido" nas peripécias do Atlântico que banha a Foz. O tempo estava tão bom, o mar estava chão, nem sequer havia vento. Tretas, para não estar calado.

Hoje, logo à chegada se deu conta que o "saber da experiência feito" existia. O mar nem parecia o mesmo. Revolto e trocado, ondas bem altas, apesar de a maré estar a encher há pouco tempo. Nem um surfista quanto mais um banhista.

Caminhada até à aberta e de novo a conversa do pescador:

- A "juventude" tem de ter cuidado. As ondas enganam, o mar está muito bruto e bate quando menos se espera.

Lá está ele outra vez ... nós conhecemos bem isto, que diabo.

Banho na aberta, sem perigo. O mar começava a entrar e fazia uma piscina agradável, com a água a uma temperatura nada habitual.

Regresso pela borda de água, em amena cavaqueira. O pescador já tinha partido e o mar batia com força, espraiando e convidando a andar na areia molhada. Conversa animada, quatro almas alinhadas na perpendicular e, de repente, uma onda vem de lá com uma violência que, por pouco, não leva todos ao chão. Foi preciso força nos pés e nas pernas para evitar que o caminho fosse o agueiro que desaguava lá bem no fundo. Um susto, um banho de água temperada com (muita) areia e a confirmação de que, afinal, quem conhece bem o mar é o pescador ...

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Figos

As felosas-brancas cirandam por toda a copa da figueira, saltando de ramo em ramo e comendo os maduros figos que por lá se vão dando. Passeiam-se pelos grossos troncos, ocupam as melhores folhas, saboreiam o melhor sol, resguardam-se na sombra divina quando o calor aperta.

Na parte de baixo, esvoaçam as fuinhas-dos-juncos, tentando subir o tronco sem nunca o conseguirem. Falta-lhes a força, e a capacidade de voar também é diminuta; sobra-lhes a fome e o medo de caírem da árvore. O controlo é apertado, as "donas" da figueira não admitem veleidades nem heroicidades, que o respeitinho é muito bonito e quem manda, gosta.

Mal nasce o Sol, as fuinhas ainda tentam aproveitar alguma distracção própria do acordar, e ensaiam subir, para alcançar um qualquer figo, mesmo que não dos de interior mais fofinho. Impossível. Há sempre alguma felosa bem acordada e vigilante que, com escarcéu e bater de asas, lhes retira qualquer entusiasmo e as obriga a contentarem-se com as pequenas migalhas largadas de cima.

E todos os dias se repete a cena de há milhões de anos: as felosas-brancas enchem o papinho e deliciam-se com o docinho dos figos bem madurinhos; as fuinhas-dos-juncos contentam-se com os restos, as sobras, os podres e os que, verdoengos, nunca chegarão a ter sabor.

O resto da passarada encara como normal que "enquanto uns comem os figos, a outros lhes rebentem os lábios",

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Papel

O embaixador Francisco Seixas da Costa diz hoje, no seu blogue "Duas ou três coisas", que deixou de comprar as "toneladas" de jornais que costumava adquirir, por altura das férias, à "menina da tabacaria".

Sem qualquer intuito de comparação, bem longe disso, também cá por casa vão rareando os jornais em papel, resumindo-se, por teimosia intrínseca, ao Expresso semanal, comprado no quiosque, e ao Jornal de Letras, à Gazeta das Caldas e à Visão que o carteiro (profissão em vias de extinção!?) vai trazendo, quinzenalmente, o primeiro, semanalmente, os outros dois. Mas a avidez da leitura desapareceu e o ritual tem tendência a copiá-la em breve, quando a coragem para quebrar a regra o permitir. 

As notícias hoje fervilham, são despejadas por todos os meios, repetidas até à exaustão ou até surgir um novo acontecimento mais apelativo aos olhos e aos ouvidos das audiências ávidas. Inúmeros "jornalistas" das redes sociais, das mensagens no telemóvel, dos mails, inundam-nos a todo o instante e despertam-nos a impaciência.  E com a grande "vantagem" de serem sistematicamente opinadas pelos grandes "sabões" de tudo o que acontece e de mais um par de botas.

É o progresso, a actualidade, o desenvolvimento, ou, como dizia a minha mãe, já não é o meu tempo ...

Vamos persistindo nos livros (hoje chegaram mais dois), muito por teimosia e porque esses não perdem actualidade e vão exercitando os "dez réis de caco" que ainda se mantêm à tona.