quarta-feira, 8 de setembro de 2021

"Crime e castigo" *

No dia de hoje mas do ano em que nasci (1952), foi publicado pela primeira vez "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. Associei esta efeméride que, como será óbvio, li nas notícias porque dela não fazia a menor ideia, ao que soube hoje na Foz e não veio nas notícias.

Logo pela manhã, teimoso, fui ver como estava o mar, apesar de os serviços da meteorologia avisarem que talvez chovesse e não ter qualquer esperança de encontrar água em condições de tomar um bom banho. À chegada, ao avistar o Gronho, a boca abriu de espanto: não havia sinais de dragados e o mar, embora ainda não regressado ao normal, parecia bastante melhor do que nos dois dias anteriores. 

Conclusão lógica e imediata: os protestos chegaram aos ouvidos de quem manda e os trabalhos foram suspensos. Uma ida até às rochas confirmou que a água límpida estava a regressar e que uma nova maré cheia talvez fizesse o milagre. 

A caminhada até à aberta e dois dedos de conversa com o pescador habitual, que conhece o mar como poucos e antecipa sempre as atitudes e as vontades dele, permitiu perceber que a conclusão tinha sido precipitada e pôs tudo em pratos limpos.

- Ontem, por volta da uma da tarde, aquilo "trambolhou" tudo. Meteram-se com ele ... escavou por baixo, tirou a areia toda e a peça que atira a porcaria "trambolhou". Talvez sirva de aviso para porem aquilo a despejar lá mais para dentro, onde as marés e as correntes sejam mais fortes. Até os peixes fogem daquela barria, que lhes entra nas guelras e os sufoca.

Conclusão bem mais acertada: quem se mete com o mar, leva!

* Romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1866.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Construção

Passam hoje 199 anos da independência do Brasil e o grande país (ainda) está longe de se ter construído.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Desilusão

- Esperem-lhe pela pancada ...

E a pancada chegou.

Não a que os arautos do tempo anunciavam, mas outra, bem mais aborrecida e preocupante, e que não era esperada. Ou era?

A APA teria efectuado todos os testes e anunciado, (assim se dizia) que os dragados não trariam qualquer problema ao mar da Foz, não só pela distância a que iriam ser lançados, como pelo facto, determinante, de as correntes serem sempre de Norte para Sul. 

Hoje, à chegada, deparou-se-nos um espectáculo deprimente. Aquela água límpida, transparente, azul esverdeada ou verde azulada, nunca sei, que estamos habituados a ver e a desfrutar, tinha sido conspurcada e o que se via, bem até lá ao fundo, era uma grande mancha acinzentada, e a rebentação passara da alvura normal para um castanho nojento.

Uma manhã para esquecer e os desejos de que as marés vivas, a Lua ou qualquer outro poder "sobrenatural" alterem depressa a situação, levem a porcaria para bem longe e nos devolvam a Foz nas condições que sempre nos foram oferecidas.

Antes estivesse a chover!

domingo, 5 de setembro de 2021

Desilusão

- Logo não te esqueças de ver a SIC. O programa do César Mourão vai ser nas Caldas.

Habitualmente, o botão da SIC generalista não é premido e, mesmo em zapping, passo por lá como "cão por vinha vindimada". Não é preconceito nem "armar ao pingarelho", mas é muito raro lá permanecer.

A curiosidade e a necessidade de poder mandar uns bitaites com conhecimento de causa, obrigou a não esquecer a recomendação e por lá me mantive até ao fim, com grande esforço, diga-se.

Que tristeza! Até tenho uma boa ideia do actor, humorista e apresentador, mas ontem, talvez por deficiente trabalho de retaguarda, foi mau de mais para se assemelhar a verdadeiro. Quem conhece a cidade, ficou triste e quem pensava cá vir, deve ter desistido de imediato.

Reduzir as Caldas a meia dúzia de bonecos fálicos e a uns doces com o mesmo formato, misturando Bordallo Pinheiro com a bonecada, é o mesmo que comparar a Estrada da Beira com a beira da estrada ou o bife à milanesa com o bife em cima da mesa. Tudo foi escolhido a dedo para ocupar uma parte do horário nobre com um conteúdo vazio, da piada fácil e do palavrão velado ou explícito. Os entrevistados, todos "brilhantes", fizeram jus à categoria do programa e confirmaram que não há nada melhor para uma conversa subir de interesse do que a fazer descer de nível.

Poderiam ter resumido as charlas a cinco minutos, já era muito, e dedicado o resto do tempo ao que ainda existe de interessante na cidade.

E não é pouco, apesar do desleixo e da ignorância.

sábado, 4 de setembro de 2021

Diferente

Nas conversas à beira de água, na Foz do Arelho, ouve-se constantemente a referência à excepcionalidade do tempo e das condições do mar, às quais não se está habituado e que apenas costumam ocorrer num ou dois dias seguidos e muito de vez em quando.

Mesmo os "não clientes" são sensíveis e gostam!

- Costumo ir para a Lagoa, mas esta semana não saí daqui ...

Neste ano já tinham surgido dias excelentes, alternados, sempre a confirmar a regra de que não há, seguidos, dois bons na Foz. A excepção está a acontecer em 2021 e já há mais de uma semana que os dias e o mar se mantêm divinais.

Parece que até circulam, de acordo com as informações de hoje, opiniões de "achistas" nas redes sociais, de que isto se deverá às alterações climáticas.

- Esperem-lhe pela pancada ... afirmam, convictos.

Talvez tenham razão e um dia destes o mar não autorize mais do que pôr o pé, aplique o "corte" no tornozelo, obrigue a colocar o "tapume" para aguentar a nortada e até determine o recurso à camisolinha, para evitar a constipação.

Tudo é possível mas, enquanto ele deixar e quiser, aproveitemos a sua bondade e gozemos a festa, porque, assim, nem no Algarve.

Hoje, de acordo com os termómetros das aplicações disponíveis, a temperatura da água era de dezanove graus. Verdade ou não, parecia banho de imersão!

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) "- Não te faço uma vénia porque acabei de me sentar, Carlinho. E a Maria Luísa? Sempre nas suas visitas aos pobres? Como pode manter essa expressão de paz, paralelamente às visitas regulares aos bairros da lata, aos bairros da fome? Não fica com os olhos pesados, com a alma pesada, das coisas que vê?

- Com as minhas visitas aos pobres passa-se o mesmo que com o livro do Miguel - não são coisas de que se fale.

- Bem, eu nunca me entregaria a essa caridade ordenada, pautada, - percebe com certeza que não estou a ofendê-la, que a estimo e que a acho muito boa - mas que ataco essa caridade das segundas, quartas e sextas, como ela é praticada pelas beatas que a rodeiam. Eu nunca poderia fazê-lo, mas, se o fizesse, se a minha vida fosse dirigida para esses caminhos, parece-me que nunca mais teria coragem de comprar um vestido de seda natural, como o seu, ou de jantar num bom restaurante, e mais uma enfiada de coisas.

<<Bravo, Silvana, aí saltas tu com a tua sede de Absoluto, eu bem dizia ...>>

<<Esta rapariga parece desencabrestada. Quem diria, com aqueles ares de seresma ... O Leonardo, já lhe cheirava a esturro.>>

- Vêem? Esta é a Silvana. Onde entra agita logo a atmosfera. Parece um vendaval! Um furacão. Um ciclone. Silvana é bonito nome para ciclone. Os americanos ainda não se lembraram. (...)"

Viver com os outros
Isabel da Nóbrega
Portugália (1965)

Nota: Isabel na Nóbrega morreu ontem, aos 96 anos.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Feira do Livro

Entre o lanche, adiantado, e o jantar, atrasado, uma saltada a Lisboa para que a ausência do ano passado não se repetisse este ano, apesar dos receios das multidões, que se mantêm bem vivos.

Muitos livros, muita gente, não muito calor, máscaras e gel desinfectante, um papel no bolso que, afinal, não serviu para nada. Nenhum dos adquiridos estava na lista, mas isso não belisca nem um bocadinho o prazer de, partindo do monumento ao 25 de Abril, de José Cutileiro, descer até ao Marquês e voltar a subir, sempre rodeado de livros e de gente com eles na mão ou no saco.

Para o ano, voltarei a ser parte, "se a tanto me ajudar o engenho e arte."

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Palavras bonitas

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

Nota: O meu filho, invejoso, entra hoje na "casa dos enta", "moradia" onde já está a irmã há algum tempo. Não se diz quanto, porque nunca se deve revelar a idade das senhoras. Esta entrada significa que, dos que me restam, já só os netos permanecem lá fora!

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Guerra

Saiu ontem o último avião de Cabul e a descolagem foi saudada, pelos actuais detentores do poder, com tiros para o ar e declarações referindo o início da independência do Afeganistão e um futuro risonho para todos, até para as mulheres.

Para quem está longe, desconhece a cultura e a história do povo, tem acesso apenas às notícias difundidas no ocidente, parece que toda aquela gente estará à beira de um precipício, onde abundará a fome, a injustiça, a exploração, a desigualdade. E tudo isto arrepia e faz pensar.

Ouvem-se rumores de interesses "opiáceos", de tráfico de drogas, de conselhos russos e opiniões chinesas, de aproveitamentos turcos e divergências entre os países da União Europeia. E os americanos referem as influências diplomáticas que estarão a mover para garantir que, todos os que queiram, possam sair do país.

Mesmo admitindo que os esforços diplomáticos dão frutos, sairão todos os que querem ou apenas os que podem?

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Setembro e as obras

As obras que, há meses, acontecem nesta zona, quase fizeram desaparecer o sossego. O trânsito tornou-se complicado, com alterações de sentidos, umas sinalizadas, outras por livre arbítrio, e a rua passou a ser utilizada como estacionamento por residentes noutros locais.

Como era previsível, os trabalhos estão a chegar ao fim e tudo indica que deverão ser dados como concluídos aí por meados de Setembro (porque será). Deverão ter a inauguração com a pompa que merecem e relatos, vibrantes, na comunicação social do burgo.

Ontem, o acesso ao portão da Casa não foi fácil. Um carro desconhecido, atravessado, ocupava metade da rua, apenas possibilitando a entrada por o veículo utilizado ser o "micro-ondas". Se fosse o outro, teria ficado na rua, ou melhor, noutra rua, que nesta não havia qualquer espaço.

Meia dúzia de imprecações contra o desconhecido que não tinha consciência nem respeito pelos outros e, decisão tomada, um papel com a mensagem reclamativa, a dar conta dos inconvenientes causados,  pendurada na escova do limpa-brisas.

Hoje, bem cedo, a rega do jardim, que o Oeste tem tido um tempo que quase parece algarvio. De repente, a voz, desconhecida, fez-se ouvir da janela do primeiro andar fronteiro:

- Desculpe. O carro é meu, mas só o deixei assim porque avariou. Não trabalha. O senhor do reboque prometeu vir retirá-lo hoje, de manhã. Estou à espera. Deve estar a chegar.

Coitada. Veio de visita à amiga, o carro avariou e ainda teve de pedir desculpa a um "maduro" que lhe escreveu uma missiva não muito agradável. Há horas de sorte ...

No regresso da praia, o acesso estava desimpedido e o carro tinha ido embora.

Venha Setembro, depressa!