quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Lisboa

Um passeio junto ao Tejo, com visita à renovada estação fluvial do Terreiro do Paço, uma almoçarada num excelente restaurante junto a Santa Apolónia, um convívio com amigos e o último livro de Germano Almeida autografado pelo próprio, no final do repasto. Eis o resumo de um dia bem passado na capital, marcada pelo imenso trânsito e pelas longas filas para os autocarros. O Metro esteve de greve e assim permanecerá até ao final do dia, talvez para que todos os trabalhadores possam ouvir a comunicação ao país do PR, Marcelo Rebelo de Sousa.

Germano de Almeida, simpático como sempre, informou, sem tabus, que vai regressar dentro de dias a Cabo Verde e só voltará a Portugal lá para a Primavera de 2022. Talvez nessa altura traga notícias sobre um novo livro que, por enquanto, ainda nem em pensamento existe.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Notas

Havia a preocupação de separar todas as notas que se apresentassem deterioradas, escritas, borratadas, e de as retirar da circulação. Na maior parte das vezes os clientes nem se apercebiam desse trabalho, a não ser que o estado das mesmas fosse de tal maneira catastrófico que surgissem dúvidas sobre a sua valorização na totalidade pelo Banco de Portugal. Quando tal acontecia, a nota era contabilizada numa conta de transição e, posteriormente, o cliente seria ressarcido pelo montante atribuído pelo Banco de Portugal, normalmente valores entre os 50 e os 80 por cento, consoante a degradação.

Apareciam as situações mais díspares: rasgadas nas pontas, coladas com fita-cola, descoloridas pela acção das máquinas de lavar, cosidas com linha, com nódoas de óleo ou de azeite, com uma variedade imensa de frases, mensagens de amor, votos religiosos, preces e desejos.

Recordo, ainda hoje, uma quadra que deu brado, quando surgiu ao ser efectuada a recontagem de um maço de notas de 20 escudos. Tinha passado despercebida no recebimento do depósito, por a nota estar em excelente estado. A quadra estava escrita no branco da marca de água, com letra pequenina e bem desenhada. O poeta escreveu o seu desejo e pretendia que a nota servisse para o proclamar aos sete ventos:

" Vai-te, nota ingrata,
Por esse mundo sem fim ...
E diz às notas de mil
Que não se esqueçam de mim! 

A nota não cumpriu a missão, mas o verso ficou bem guardado na memória.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Melros

Os melros são, desde sempre, o meu pássaro de eleição, como já por aqui referi várias vezes.

O preto das suas penas, o amarelo do bico, a forma como voam, a subtileza com que se deslocam no solo, o seu cantar, tudo me delicia. E esse prazer compensa o ódio que tenho aos que, indevidamente também chamados de melros, são oportunistas, vigaristas, crápulas e todos os adjectivos que cada um saiba para definir gente sem escrúpulos. Mas vamos ao que interessa ...

A oliveira está carregadinha de azeitonas, como nunca tinha acontecido. O dono não as apanha e o vento encarrega-se de as ir atirando para o chão, à medida que amadurecem. Os melros deliciam-se, primeiro a medo, depois e à medida que confirmam que o sossego permanece, a tranquilidade instala-se e o repasto acentua-se. Se se aproxima alguém, a pé ou de carro, levantam voo com o silvo característico do aviso para algum mais distraído. 

Passado algum tempo, eles aí estão de volta ao "lagar", para continuar a festa. Lembro-me dos "ataques" que sofriam as bagas dos loureiros, mas às azeitonas nunca tinha visto e a satisfação é a mesma de sempre. Só me falta perceber se a azeitona é comida inteira ou se lhe retiram o caroço.

Até os melros que voam estão diferentes, ao contrário dos outros, que continuam iguais ou ainda mais refinados.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Dia de Todos os Santos

Há alguém a quem passe pela cabeça ser este dia consagrado a mim e a muitos outros tão "diabinhos" quanto eu. 

domingo, 31 de outubro de 2021

Poupar e gastar

- Se tens cinco, gasta só quatro ...

Tempos houve em que a poupança era fomentada de forma enérgica, principalmente por aqueles que auferiam mais baixos salários. A certeza de que qualquer impedimento para trabalhar significava deixar de ter rendimentos, a convicção de que a necessidade de cuidados de saúde tinha subjacente dinheiro na carteira, levava a essa cultura do poupar, por muito pouco que fosse, para fazer face a um qualquer imponderável.

O desenvolvimento da sociedade de consumo, a facilidade no acesso à banca, o advento dos cartões com crédito associado, as contas ordenado e outras, criaram em todos a sensação de facilidade e a confiança de que, quaisquer que sejam os problemas, haverá sempre alguém com uma solução.

Apesar de ainda se manter a efeméride do Dia Mundial da Poupança, que hoje se comemora, falar da dita é quase pré-histórico. A máxima no poupar é que está o ganho foi substituída, com as vantagens bem visíveis para todos, por no gastar é que está o ganho. Sem isso, o PIB manter-se-á estagnado e a dívida pública aumentará em percentagem, quando com ele comparada.

Viva a sociedade de consumo! Compre agora e pague depois! Pague em suaves prestações mensais! Compre o colchão! Nós oferecemos o edredão!

sábado, 30 de outubro de 2021

A praça

- Vamos pelo meio da feira. É mais engraçado!

Para quem ouve, sendo daqui, faz alguma confusão. Nunca se utiliza mercado, muito menos feira. Ao escutar isto, logo ficamos a saber que são visitantes. Para nós é e será sempre "a praça", por vezes "praça da fruta", para distinguir da outra, a do "peixe", que ainda continua a ser assim conhecida, embora já por lá não haja peixe há vários anos.

Hoje, logo pela manhã, dois visitantes estavam indecisos entre passar pelo meio dos vendedores e clientes, ou seguirem pelas ruas laterais que delimitam a praça. Após a primeira hesitação, lá chegaram a acordo e "internaram-se" no bulício da venda, utilizando as ruelas criadas entre as bancas. Não faço ideia se gostaram, se compraram, se sentiram o pulsar da vida do sábado de manhã. Não os voltei a ver.

Enquanto assisti à conversa e à tomada de decisão, naturalmente que não fiz quaisquer comentários. Era o que faltava! Ainda podiam acusar-me de ser burro, ao chamar praça a um simples mercado ou a uma mera feira. Para quem nos visita pode ser isso tudo mas, para nós, é a "praça", assim conhecida por toda a gente e onde vão dar todos os caminhos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

José Afonso

Numa época em que tudo é e não é, onde se grita com a mesma força o isto e o seu contrário, aparecem, finalmente, resolvidos os problemas que impediam a reedição das obras de José Afonso. Assim, a obra do genial autor e intérprete terá divulgação nas plataformas digitais e o acesso, fácil, pelas novas gerações.

Cá por casa isso não vai ser necessário, uma vez que há muito tempo elas aqui residem e continuam a ser ouvidas com a regularidade e a necessidade que, muitas vezes, não as deixa esquecer. Apesar de já ter decorrido mais de meio século sobre os primeiros discos, a obra permanece actual e é sempre ouvida com deleite.

Espero que o trabalho, meritório, que a família e a Associação tiveram para aqui chegar, ponha as novas gerações a curtirem bué a obra de Zeca Afonso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Primeiro dia

Hoje é o primeiro dia de um conjunto deles que hão-de levar-nos até às eleições antecipadas.

O Presidente da República, que divulgou a decisão ainda antes de ela se justificar, terá de cumprir uma série de procedimentos constitucionais até à marcação do dia em que voltaremos às urnas. Nesse dia, a maioria decidirá o que nos reservará o futuro e, goste-se ou não, façamos parte dos vencedores ou dos vencidos, esta é a grande qualidade de vivermos em democracia.

Por vezes, na vida, vale a pena cair para nos levantarmos com mais vigor.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A arte do possível

O circo é uma actividade cultural e recreativa com largas tradições em Portugal e no mundo, com áreas e formas de estar e de ser as mais diversas. Dos palhaços aos músicos, dos ginastas aos bailarinos, o espectáculo é diversificado, procura chegar a todos na diversidade de propostas, nas diferenças de gosto.

E, com maior ou menor dificuldade, lá vai conseguindo manter a tenda a funcionar, para gáudio de muitos, críticas de alguns e rejeição de outros. Para isso, todos os intervenientes, do mais importante ao mais humilde, tentam contribuir, procurando as melhores soluções para que o espectáculo seja o melhor e agrade à grande maioria.

Todos os artistas têm a convicção de que o óptimo é inimigo do bom e muito difícil de alcançar, principalmente se, no espectáculo, houver quem fuja às responsabilidades ou se balde ao trabalho. Todavia, no circo, o horizonte mantém-se e a força de o conquistar renova-se.

A queda de um equilibrista, a ausência da risada na piada que falhou, não impedem que o esforço continue, se possível se intensifique.

Se os princípios do circo passassem por S. Bento, talvez não tivéssemos espectáculo tão deprimente e conseguíssemos fazer um país melhor.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Lembro-me de que ainda antes de eu propriamente dar entrada nas instalações prisionais, nós ainda no gabinete do juiz que se preparava para me fazer as perguntas da praxe com vista à legalização da minha prisão, tinha entrado um ansioso procurador da República com a novidade de que a rádio acabava de anunciar que, por decisão do Governo, transmitida pelo Ministro da Cultura e das Artes Cénicas, o escritor Lopes Macieira ia ser homenageado com os célebres funerais de Estado, aquela paródia em que, depois de algumas leviandades pelo meio, como, por exemplo, missa de corpo presente, o caixão dirige-se ao cemitério ladeado por tropas de arma aperrada como se estivessem a defender o defunto de algum ataque iminente com vista a impedir que seja enterrado ... Ambos riram dessa maneira pouco canónica e algo descortês de falar, mas eu sequer sorri. No entanto, lembro-me realmente de logo ter pensado, Ele fica a dever-me esta honra! E como se tivesse adivinhado os meus pensamentos, o procurador olhou para mim, sorriu e quase sem transição disse, Olhe, ele fica a dever-lhe essa grande honra, até hoje a muito poucos concedida!

Desta vez fiz uma espécie de um leve sorriso e apeteceu-me comentar que era uma grande verdade o que ele acabava de dizer, o Macieira ficar a dever-me essa honraria sem talvez a merecer, mas considerei que estávamos no meio de uma audiência judicial, ainda que no gabinete do juiz, e não seria de bom tom diminuir ainda mais a pouca solenidade do momento. O jovem que estava sentado ao meu lado, mandado chamar pelo juiz para me servir como meu defensor oficioso embora ainda não tivesse aberto a boca para coisa alguma, sequer para me cumprimentar quando entrou, é que disse quase a medo, O único escritor cabo-verdiano que até hoje teve direito a funerais de Estado foi Eugénio Tavares, que morreu em 1927.(...)

A confissão e a culpa
Germano Almeida
Caminho (2021)